Sinopse

A aula aborda a terceira grande obra crítica de Immanuel Kant, a Crítica da Faculdade de Julgar (1790). O foco reside na análise do juízo estético (o belo e o sublime) e do juízo teleológico (a finalidade na natureza). O professor discute como Kant supera o empirismo ao propor que a beleza e a finalidade não são propriedades intrínsecas dos objetos em si, mas formas a priori da subjetividade humana que permitem organizar a experiência do mundo. Além disso, explora-se a distinção entre o gosto subjetivo e a universalidade do juízo de beleza, bem como a necessidade metodológica da teleologia para a ciência.

Pontos-Chave

  • Estética como Questão Fundamental: A beleza não é um tema menor, mas possivelmente a origem de intuições filosóficas e científicas.

  • Diferença entre Gosto e Belo: O gosto é individual e ligado a costumes, enquanto o belo possui uma pretensão de universalidade baseada em estruturas mentais comuns.

  • Sublime Matemático e Dinâmico: A experiência do incomensurável, seja pela magnitude (matemático) ou pelo poder (dinâmico) da natureza.

  • Teleologia Transcendental: A percepção de finalidade na natureza (como a asa para o voo) é uma necessidade subjetiva para a construção do conhecimento científico, embora não possamos afirmar que o númeno possua tais fins.

  • Ciência como Construção Humana: Todo conhecimento objetivo depende das condições subjetivas a priori, tornando toda ciência, em última instância, humana.

Transcrição da Aula

A Centralidade da Estética e da Teleologia

O estudo da terceira crítica kantiana, a Crítica da Faculdade de Julgar, muitas vezes é negligenciado no ambiente acadêmico contemporâneo. Tal fenômeno ocorre, em parte, porque a discussão sobre a beleza tem sido relegada a uma posição secundária em relação à ética, política ou ciência. No entanto, conforme argumentado pelo professor, essa desvalorização é um equívoco. Tomando como referência a leitura de Gaston Bachelard sobre Friedrich Nietzsche, sugere-se que as intuições estéticas podem ser a raiz de todas as demais intuições humanas. Assim, a questão da beleza e da imaginação estética seria primordial.

Paralelamente, a teleologia — o estudo das finalidades — também sofreu um obscurecimento com o advento do mecanicismo na ciência moderna. Frequentemente, o discurso sobre fins é evitado por ser associado ao argumento cosmológico da existência de um ordenador divino. Todavia, em Kant, a teleologia é tratada de forma independente de pressupostos teológicos tradicionais. Ela não é vista como uma propriedade da “coisa em si” (númeno), mas como uma condição do sujeito para compreender o mundo fenomênico.

O Juízo Teleológico e a Biologia

Na biologia contemporânea, evita-se a linguagem da finalidade. Sob a ótica da seleção natural, estruturas como o coração, os olhos ou as asas são explicadas por processos casuísticos e estatísticos ao longo de milhões de anos. O discurso científico rigoroso afirma que a asa não “serve” para voar, mas que o animal voa porque, por acaso, desenvolveu asas que lhe garantiram sobrevivência. Entretanto, para o ser humano, é intuitivamente impossível não enxergar um propósito nessas estruturas.

Kant explica que esse conflito nasce de uma má compreensão das condições transcendentais do conhecimento. De acordo com a Crítica da Razão Pura, o ser humano não conhece o mundo em si, mas apenas o fenômeno. A causalidade, a quantidade e a própria finalidade são categorias ou formas da nossa mente projetadas sobre os dados sensoriais. Portanto, a teleologia é inevitável para o pensamento humano. Temos uma expectativa a priori de encontrar ordem e sistema na natureza. Sem esse “horizonte de expectativa teleológica”, a própria ciência seria impossível, pois não haveria motivação para buscar leis universais em um caos aparente.

A Universalidade do Belo e a Estrutura da Mente

No campo da estética, Kant distancia-se do empirismo britânico de Locke e Hobbes. Enquanto os empiristas reduziam a beleza ao gosto — o qual dependeria estritamente de hábitos, costumes e sociologia —, Kant estabelece uma distinção radical. O gosto é, de fato, individual e variável; contudo, quando se afirma que algo é belo, há uma pretensão de universalidade. O juízo de beleza provém de uma forma a priori presente na sensibilidade e no entendimento de todo ser humano.

Para ilustrar a subjetividade transcendental, o professor utiliza a analogia das cores na física moderna. A cor não reside no objeto (númeno), mas é uma construção do sistema visual e cerebral a partir de estímulos elétricos e comprimentos de onda. Da mesma maneira, a beleza não está no objeto em si, mas na conformidade da forma do objeto com as estruturas humanas de percepção. Por serem essas estruturas universais à espécie, a experiência da beleza pode ser compartilhada e reconhecida por todos, ainda que não possa ser provada logicamente. O belo, portanto, diz respeito à harmonia das formas apreensíveis.

O Sentimento do Sublime

Diferente do belo, que se vincula à forma e à medida, o sublime refere-se ao que é ilimitado e incomensurável. Kant divide o sublime em duas categorias: o matemático e o dinâmico. O sublime matemático é exemplificado pela contemplação do céu estrelado ou de grandes paisagens, como o Alto do Soberbo em Teresópolis ou a Serra da Estrela em Portugal. Diante da vastidão do universo, o sujeito experimenta a sua própria pequenez física, mas também a sua grandeza racional ao ser capaz de conceber o infinito (Ápeiron).

Já o sublime dinâmico manifesta-se no poder destruidor da natureza, como em furacões ou tempestades de raios. É uma experiência aterrorizante que revela a fragilidade do homem diante de forças superiores. Remetendo à metáfora de Pascal, o homem reconhece-se como um “caniço pensante”: fisicamente insignificante e destrutível por uma gota d’água, mas superior à natureza por ter consciência de sua própria existência e de sua finitude. O sublime, portanto, não está no fenômeno externo, mas na resposta interior e no juízo que o sujeito faz diante da grandiosidade do mundo.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade de Julgar(1790)

  • KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura(1781)

  • PASCAL, Blaise. Pensamentos

  • ALLISON, Henry E. Kant's Theory of Taste: A Reading of the Critique of Aesthetic Judgment

  • DELEUZE, Gilles. A Filosofia Crítica de Kant

  • GUYER, Paul. Kant and the Claims of Taste