Francisco de Assis
Sinopse
Nesta aula, exploramos uma trilha intelectual audaciosa que conecta o místico medieval Francisco de Assis (1182–1226) às raízes neoplatônicas de João Escoto Erígena e, surpreendentemente, às correntes contemporâneas da ecofilosofia e do ecofeminismo. Analisamos como a visão franciscana de uma "fraternidade cósmica" rompe com o antropocentrismo bíblico tradicional e com o humanismo clássico (de Protágoras aos Sofistas), antecipando uma concepção de igualdade ontológica entre todos os seres. Discute-se a radicalidade do Cântico das Criaturas e como ele ecoa a ideia de teofania (manifestação divina em todas as coisas), desafiando a hierarquia que coloca o homem como dominador da natureza.
Pontos-Chave
Humanismo vs. Pré-Humanismo: A distinção entre a visão sofística (homem como medida) e a visão pitagórica/neoplatônica (homem como parte de uma ordem cósmica pré-estabelecida).
A Virada Franciscana: A conversão de Francisco, de jovem rico e trovador a místico da pobreza, culminando na fundação da Ordem dos Frades Menores.
Igualdade Ontológica: A tese central do Cântico das Criaturas, onde o sol, a lua, a água e até a morte são tratados como "irmãos", destituindo o homem de seu privilégio hierárquico.
Conexão com Erígena: A interpretação de Deus como o "Nada supra-existencial" que se manifesta em todas as criaturas, tornando-as sagradas e iguais em dignidade.
Antecipação da Ecologia Profunda: O paralelo entre a mística franciscana e a crítica contemporânea ao antropocentrismo (ex: Val Plumwood).
Transcrição da Aula
O Contexto Histórico e a Ascensão da Razão
O século XII e o início do século XIII marcam um período de efervescência intelectual na Europa, muitas vezes descrito como um renascimento. É a era do florescimento da Escolástica, inaugurada por Anselmo e Abelardo, onde a razão (ratio) começa a disputar espaço com a autoridade (auctoritas) na busca pela verdade. A Escolástica se define pelo método dialético: o confronto de posições opostas para alcançar uma síntese racional.
Esse movimento de valorização da linguagem e da lógica remete, em certos aspectos, aos sofistas da Grécia Antiga. Os sofistas, com sua máxima de que “o homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras), inauguraram o humanismo ocidental. O humanismo, aqui, não deve ser confundido apenas com benevolência, mas entendido como uma postura metafísica: a ideia de que o ser humano ocupa o centro epistemológico e ético do universo, cabendo a ele dar sentido e ordem à realidade.
Em contraposição, existe uma linha pré-humanista (ou mesmo anti-humanista) que perpassa o orfismo, o pitagorismo e o neoplatonismo. Para esses pensadores, a ordem do cosmos (Logos) é anterior e superior ao homem. O homem não cria a ordem; ele deve contemplá-la e adequar-se a ela. É nesta tradição, marginalizada pelo humanismo ascendente da Escolástica, que encontraremos as raízes profundas do pensamento de Francisco de Assis.
A Trajetória de Francisco: Do Trovador ao Místico
Francisco de Assis (1182–1226) nasceu em uma família rica de comerciantes. Jovem, vaidoso e amante das festas, sonhava em ser um trovador. Sua conversão não foi um evento súbito, mas um processo marcado por crises: a prisão em Perúdia, a doença, e o encontro transformador com um mendigo e com o leproso.
O ponto de inflexão ocorre na capela de São Damião, onde Francisco ouve o chamado do Cristo para “reconstruir sua igreja”. Inicialmente interpretando a ordem de forma literal, ele vende tecidos do pai para reformar a capela física, gerando um conflito familiar que culmina em sua renúncia total aos bens e à paternidade biológica diante do bispo de Assis. Francisco despe-se de suas roupas e de sua identidade social para abraçar a “Senhora Pobreza”.
Sua ação não era apenas ascética; era uma performance mística de despojamento. Ao fundar a Ordem dos Frades Menores, Francisco não propôs uma nova teologia acadêmica, mas uma praxis radical de fraternidade.
O Cântico das Criaturas e a Revolução Ontológica
A obra escrita de Francisco é breve, mas o Cântico das Criaturas (ou Cântico do Sol) contém uma densidade filosófica revolucionária. Ao analisar o poema, percebemos uma ruptura drástica com a tradição judaico-cristã hegemônica, que, baseada no Gênesis, colocava o homem como dominador da natureza, encarregado de nomear e subjulgar os animais.
Francisco louva a Deus com e por meio das criaturas, chamando-as de irmãos e irmãs: “Irmão Sol”, “Irmã Lua”, “Irmão Vento”, “Irmã Água”, “Irmão Fogo” e “Nossa Irmã, a Mãe Terra”. Mais radical ainda, ele inclui a “Irmã Morte Corporal” nessa fraternidade.
O que isso significa filosoficamente?
- Igualdade Ontológica: Não há hierarquia de dignidade. O homem não é o rei da criação; ele é um irmão entre irmãos. O sol e a água possuem uma dignidade própria, não derivada de sua utilidade para o homem.
- Teofania Universal: Ecoando João Escoto Erígena, Francisco vê em cada criatura uma manifestação direta de Deus. Se Deus é o “ser de todas as coisas” (como dizia Erígena), então todas as coisas são divinas em sua essência.
A Conexão com Erígena e o Neoplatonismo
Para compreender a profundidade dessa visão, devemos recorrer a Erígena e sua obra Periphyseon (Sobre a Divisão da Natureza). Erígena, um neoplatônico cristão, concebia Deus não como um ente supremo, mas como o “Nada supra-existencial” que transcende o ser. Deus “não é”, pois Ele é a possibilidade de tudo o que é.
Nessa visão, a criação não é um ato de fabricação externa, mas um ato de auto-manifestação (teofania). O Uno transborda e se torna múltiplo. Portanto, cada pedra, cada animal e cada astro é uma epifania do divino. Essa metafísica fundamenta o anti-humanismo franciscano: se tudo é teofania, o homem não tem o direito de explorar ou dominar a natureza. O vegetarianismo, comum na tradição órfica e neoplatônica, surge aqui não apenas como dieta, mas como consequência ética dessa igualdade ontológica: matar um animal é violentar uma manifestação divina irmã.
Francisco e a Ecofilosofia Contemporânea
Essa “trilha na floresta” do pensamento nos leva diretamente aos debates do século XXI. As “feridas narcísicas” da humanidade, descritas por Freud (Copérnico retirou a Terra do centro; Darwin retirou o homem do centro biológico; Freud retirou a consciência do centro psíquico), prepararam o terreno para a ecologia profunda.
A ecofilosofia e o ecofeminismo contemporâneos, representados por pensadoras como Val Plumwood, criticam o dualismo cartesiano e a arrogância humanista que vê a natureza como recurso morto. Ao sobreviver ao ataque de um crocodilo, Plumwood percebeu visceralmente que, para o universo, ela não era um sujeito privilegiado, mas apenas “carne”, alimento, parte do ciclo trófico.
Francisco de Assis antecipa essa percepção não pelo trauma, mas pela mística. Sua visão de que a Terra é “Mãe e Irmã” (conceito retomado na encíclica Laudato Si’) e de que a morte é um processo natural fraterno, oferece uma base espiritual para uma ética ecológica que não seja apenas utilitária (preservar para sobreviver), mas ontológica (preservar porque tudo é sagrado e irmão).
Glossário
Referências Bibliográficas
FRANCISCO DE ASSIS, São. Cântico das Criaturas
ERÍGENA, João Escoto. Periphyseon (Sobre a Divisão da Natureza)(Sobre a Divisão da Natureza)
PLATÃO. A República
PLUMWOOD, Val. Being Prey(citado como "A prey to a crocodile")
PROTÁGORAS. Fragmentos
BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis: Ternura e Vigor
WHITE JR, Lynn. The Historical Roots of Our Ecologic Crisis
AGAMBEN, Giorgio. Altíssima Pobreza