Anselmo
Sinopse
Nesta aula, exploramos o pensamento de Anselmo de Cantuária (1033–1109), figura central na transição para a Escolástica. O foco recai sobre sua obra-prima, o Proslogion, e a formulação do célebre "Argumento Ontológico" para a existência de Deus. A análise transcende a mera exposição lógica, situando Anselmo no contexto histórico de desconfiança eclesiástica em relação à filosofia grega e inaugurando a máxima fides quaerens intellectum (a fé em busca de entendimento). Por fim, discute-se a provocativa tese de que o nascimento da teologia sistemática — e a necessidade de "provar" Deus — pode sinalizar, paradoxalmente, o início do fenômeno cultural descrito por Nietzsche como a "morte de Deus".
Pontos-Chave
Fé e Razão: A razão como auxiliar indispensável da fé (fides quaerens intellectum).
O Argumento Ontológico: A dedução lógica da existência de Deus a partir do conceito de "um ser tal que nada maior possa ser pensado".
A Crítica de Gaunilo: A objeção da "Ilha Perfeita" e a réplica de Anselmo sobre a distinção entre seres contingentes e o Ser Necessário.
Teologia como Ciência: O surgimento do rigor lógico na análise do divino e o concomitante afastamento da mística apofática neoplatônica.
Transcrição da Aula
O Contexto Histórico e Biográfico
Anselmo de Cantuária (1033–1109), canonizado como Santo Anselmo, é um filósofo fundamental cuja vida e obra marcam o alvorecer de uma nova tradição: a Escolástica. Nascido em Aosta, numa região outrora ligada à tradição carolíngia e hoje parte da Itália, Anselmo teve uma trajetória inquieta. De origem nobre, tentou ingressar na vida monástica aos 15 anos, sendo impedido pelo pai. Após um período de vida secular e errante, marcado pela morte da mãe e conflitos familiares, ingressou na Abadia de Bec, na Normandia, aos 27 anos. Sua ascensão foi notável: de noviço a abade e, aos 60 anos, Arcebispo de Cantuária, na Inglaterra.
Sua atuação eclesiástica foi marcada por intensas disputas políticas em defesa da Igreja contra o poder real, resultando em exílios. Contudo, sua imortalidade intelectual reside em sua produção filosófica, especialmente no Proslogion, uma obra breve, composta de 26 capítulos curtos, escrita ainda na Abadia de Bec.
O cenário intelectual da virada do século XI para o XII era de cautela. Havia uma desconfiança latente da Igreja em relação à filosofia grega. Pensadores cristãos anteriores, como Boécio e João Escoto Erígena, embora devotos, produziram obras profundamente helenizadas. Boécio, em A Consolação da Filosofia, busca refúgio no pensamento clássico e não no Cristo; Erígena, em sua Divisão da Natureza, flerta abertamente com o panteísmo neoplatônico, o que levou sua obra ao Index Librorum Prohibitorum. Anselmo surge, portanto, com a missão de reconciliar essas esferas, estabelecendo que a fé deve buscar o entendimento. Para ele, a razão não é inimiga, mas um instrumento para iluminar e fundamentar os mistérios da fé.
O Argumento Ontológico
A grande contribuição de Anselmo, apresentada nos capítulos iniciais do Proslogion (II a IV), é a demonstração racional da existência de Deus, conhecida posteriormente como Argumento Ontológico. O objetivo de Anselmo era convencer o “insensato” (o ateu, aquele que diz em seu coração que Deus não existe) utilizando apenas a “luz natural da razão”, sem recorrer à autoridade das Escrituras.
O argumento é elegante em sua simplicidade lógica:
- Quando pensamos em Deus, concebemos um ser “tal que nada maior possa ser pensado” (aliquid quo nihil maius cogitari possit). Mesmo o ateu compreende esse conceito.
- A perfeição, no contexto medieval, é a plenitude de atributos. Um ser perfeitíssimo possui todas as qualidades positivas.
- Se esse ser existisse apenas no intelecto (como ideia), ele não seria o maior ser pensável. Por quê? Porque poderíamos conceber um ser idêntico que tivesse também o atributo da existência real.
- Existir na realidade é “maior” ou mais perfeito do que existir apenas no pensamento.
- Portanto, para que Deus seja verdadeiramente “aquele do qual nada maior possa ser pensado”, ele não pode existir apenas no intelecto; ele deve existir necessariamente também na realidade.
Em suma: a própria definição de Deus implica a sua existência, pois a inexistência seria uma imperfeição, contradizendo o conceito de ser perfeitíssimo.
A Crítica de Gaunilo e a Réplica de Anselmo
Ainda durante a vida de Anselmo, o monge Gaunilo de Marmoutiers apresentou uma refutação perspicaz e irônica, intitulada Em Defesa do Insensato. Gaunilo argumentou por reductio ad absurdum: se a lógica de Anselmo fosse válida, poderíamos imaginar uma “Ilha Perfeita”, a mais bela e rica de todas. Pelo argumento de Anselmo, essa ilha teria que existir na realidade, pois, se não existisse, não seria perfeita. O mesmo valeria para um unicórnio perfeito ou qualquer outra quimera.
Anselmo respondeu a Gaunilo demonstrando que o argumento ontológico se aplica exclusivamente ao Ser Necessário, e não a seres contingentes. Uma ilha, por mais perfeita que seja, é uma criatura; sua essência não envolve sua existência necessária. Ela é finita, temporal e composta. Deus, contudo, é o único ser cuja essência é ser, o único cuja inexistência é logicamente inconcebível. A crítica de Gaunilo vale para qualquer objeto do mundo, mas falha diante do Absoluto, que está além do tempo, do espaço e da contingência.
Escolástica: Conquistas e Perdas
Anselmo inaugura o método escolástico, que traria um rigor lógico sem precedentes ao pensamento ocidental. A ideia de que a Idade Média foi uma “Idade das Trevas” é um mito iluminista do século XIX. O período medieval, especialmente a Alta Escolástica, foi uma era de intensa luminosidade intelectual.
No entanto, essa transição representa uma troca. Ganha-se em precisão argumentativa e em estruturação lógica — preparando o terreno para a ciência moderna —, mas perde-se a vertigem metafísica do neoplatonismo. A tradição de Plotino, Porfírio e Erígena lidava com o Uno, o inefável, aquilo que está além do ser e do não-ser. Era uma filosofia que aceitava o abismo do mistério. Com Anselmo e a escolástica posterior, a teologia busca trazer Deus para dentro dos limites seguros da razão e da linguagem predicativa. Deus torna-se um objeto de demonstração, uma “instituição” lógica.
A Teologia e a “Morte de Deus”
Surge aqui uma reflexão filosófica profunda: por que, de repente, torna-se necessário provar a existência de Deus? Para um neoplatônico como Plotino, provar a existência do Uno seria redundante, pois o Uno é a própria condição de possibilidade da realidade. Não se prova a luz quando se está vendo tudo através dela.
A necessidade de prova em Anselmo sugere uma mudança cultural tectônica: Deus deixou de ser uma evidência vivida para se tornar uma tese a ser defendida. Como sugere a alegoria de Nietzsche em Assim Falou Zaratustra, quando o profeta encontra o velho santo na floresta, ele constata que “Deus está morto”. Isso não é uma declaração de ateísmo vulgar, mas o diagnóstico de que o Deus vivo, evidente e participativo da cristandade antiga e medieval, perdeu sua vitalidade cultural.
Ao transformar Deus em um conceito lógico e ao criar a teologia sistemática, Anselmo pode ter inadvertidamente assinado a certidão de óbito do Deus vivo. Miguel de Unamuno, em Do Sentimento Trágico da Vida, ecoa essa percepção ao sugerir que a escolástica prova a existência de uma ideia de Deus, mas não do Deus vivo de Abraão, Isaque e Jacó. A teologia, nesse sentido, corre o risco de se tornar uma “medicina legal da divindade”, dissecando um corpo que já não respira no coração da cultura como outrora.
Glossário
Referências Bibliográficas
ANSELMO, Santo. Proslogion
BOÉCIO. A Consolação da Filosofia
ERÍGENA, João Escoto. Periphyseon (A Divisão da Natureza)(A Divisão da Natureza)
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra
UNAMUNO, Miguel de. Do Sentimento Trágico da Vida
GAUNILO. Em Defesa do Insensato
GILSON, Étienne. A Filosofia na Idade Média
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de História do Pensamento Filosófico
LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média