Thomas Hobbes
Sinopse
Nesta aula, o professor explora a vida e a obra de Thomas Hobbes, focando especialmente no Leviatã. A discussão percorre a transição de Hobbes da formação escolástica para o mecanicismo moderno, sua visão materialista da realidade e sua teoria do conhecimento puramente empirista. O núcleo da aula reside na análise do Estado como uma construção artificial fundamentada no medo e no desejo de preservação, culminando em uma reflexão contemporânea sobre como o medo continua a moldar o comportamento político, desde o fenômeno do conservadorismo recente até as reações sociais e estatais durante a pandemia de COVID-19.
Pontos-Chave
Mecanicismo Materialista: A concepção de que tudo o que existe é matéria em movimento, incluindo o ser humano e o Estado.
Estado de Natureza: A condição hipotética de "guerra de todos contra todos", onde a vida é brutal, sórdida e curta.
O Pacto Social: A renúncia voluntária da liberdade individual em favor de um soberano em troca de segurança e preservação da vida.
O Medo como Fundamento: O afeto primário que motiva a criação e a manutenção do Estado.
Crítica à Herística: A distinção entre o debate juvenil voltado à vitória e a filosofia madura voltada à sabedoria.
Transcrição da Aula
A Trajetória de Thomas Hobbes e a Filosofia como Ciência da Maturidade
Thomas Hobbes (1588–1679) foi um filósofo de vida longa e produção intelectual marcada pela transição entre o mundo escolástico e a modernidade científica. Oriundo de uma família sem grandes posses e educado sob a proteção do tio, Hobbes consolidou sua carreira como tutor da influente família Cavendish, ofício que exerceu por mais de sete décadas. Essa posição permitiu-lhe viajar pela Europa e travar contato com as vanguardas científicas de sua época, como Galileu Galilei e o círculo intelectual de Marin Mersenne em Paris, onde também interagiu com a filosofia de René Descartes.
Um aspecto peculiar de sua biografia é que o interesse profundo pela filosofia despertou apenas após os quarenta anos. O professor ressalta que essa trajetória corrobora as teses de Platão e Aristóteles, para os quais a filosofia não é ocupação para jovens. Enquanto o jovem pode ser um gênio na matemática ou na lógica — campos que exigem menos vivência —, a filosofia demanda uma maturidade espiritual e uma experiência de vida que o mero debate intelectual não supre. Platão, na Carta Sétima e na República, enfatizava que o conhecimento dialético deveria ser restrito àqueles em idade madura, a fim de evitar que a filosofia fosse reduzida à herística — o jogo juvenil de argumentação voltado apenas para a vitória em disputas de linguagem. A verdadeira filosofia, portanto, exige uma sabedoria prévia que permita a busca da sabedoria plena, algo que Hobbes compreendeu ao dedicar-se ao sistema filosófico somente após vivenciar a prática científica e a literatura clássica, tendo sido ele o primeiro tradutor de Tucídides para o inglês.
O Mecanicismo Materialista e a Estrutura do Estado
Do ponto de vista metafísico, Hobbes é um expoente do mecanicismo materialista radical. Para ele, o universo é composto estritamente por matéria; não há espaço para substâncias imateriais ou espíritos. Até mesmo a ideia de Deus, em Hobbes, é concebida como uma entidade material, o que lhe rendeu acusações de ateísmo e perseguições pelo Parlamento Inglês. Essa visão reflete-se em sua antropologia: o ser humano é descrito como um animal mecânico. No prefácio do Leviatã, Hobbes utiliza analogias técnicas de sua época para descrever a biologia humana, comparando o coração a uma mola, os nervos a cordas e as juntas a rodas de um relógio.
Essa lógica estende-se à sua teoria política. Ao contrário de Aristóteles, que via o Estado como um desdobramento natural da sociabilidade humana e da família, Hobbes compreende o Estado como uma convenção artificial, uma máquina ou um “homem artificial” de grandes proporções. Enquanto na visão aristotélica até um computador seria uma extensão da natureza (pois utiliza leis naturais para fins naturais), para Hobbes, o político está fora do reino da natureza biológica; é um artefato criado pelo homem através de um pacto. O Estado possui sua própria anatomia mecânica: a soberania é sua alma, os magistrados são suas juntas, as recompensas e castigos são seus nervos, e a guerra civil é sua morte definitiva. Essa concepção introduz na filosofia o termo “estrutura social”, uma metáfora inerentemente mecanicista que pressupõe uma organização racional e técnica da sociedade.
Epistemologia Empirista e a Crítica ao Absurdo Filosófico
No campo do conhecimento, Hobbes estabelece as bases do empirismo moderno. Ele defende que a origem de todo pensamento e imaginação reside na sensação, entendida como o resultado do contato dos objetos externos com os órgãos dos sentidos. Não há ideias inatas; tudo o que habita a mente humana é um subproduto de impressões sensoriais prévias. Essa tese seria posteriormente aprofundada por Kant, que buscaria as condições de possibilidade dessa sensação, e levada ao extremo por George Berkeley no seu idealismo empirista.
Hobbes também se posiciona como um crítico da linguagem filosófica de sua época. Ele aponta que muitos filósofos incorrem em absurdos por não definirem rigorosamente seus conceitos iniciais. O professor ilustra essa crítica mencionando sua própria pesquisa de doutorado sobre Gaston Bachelard, onde demonstra como o uso ambíguo do termo “realidade” pode comprometer a coerência de um sistema filosófico. Hobbes, ao tentar fundar uma filosofia sobre bases pretensamente científicas e claras, antecipa o projeto fundacionalista da modernidade, embora, na visão do professor, ele tenha permanecido na “primeira navegação” — o plano físico e material —, sem realizar a ascensão metafísica proposta por Platão.
O Estado de Natureza e o Contrato Social sob a Égide do Medo
A contribuição mais famosa de Hobbes à política é sua descrição do estado de natureza como um estado de guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes). Sem uma autoridade central, o ser humano vive sob o medo constante da morte violenta, resultando em uma existência solitária, pobre, sórdida, bruta e curta. O motor que impele o homem a sair dessa condição não é a virtude ou o amor ao próximo, mas o medo.
O contrato social hobbesiano é o pacto em que os indivíduos renunciam ao seu direito de governar a si mesmos, transferindo poder absoluto a um soberano (um homem ou uma assembleia). Esse pacto é obrigatório e irreversível: uma vez estabelecido, até aqueles que discordaram da escolha devem submeter-se à vontade do soberano. Diferente de Tomás de Aquino, que admitia o tiranicídio se o rei traísse os preceitos divinos ou o bem comum, Hobbes sustenta que o rei nunca pode ser considerado injusto pelos seus súditos, pois ele é a personificação da vontade coletiva. Matar o rei seria, simbolicamente, um suicídio social. Hobbes defende que o pior dos governos soberanos ainda é preferível à ausência de Estado, pois o fim último da política é a segurança e a conservação da vida. Para que esse pacto seja efetivo, ele deve ser sustentado pelo “poder da espada”, pois pactos sem força são apenas palavras vazias.
O Medo como Afeto Político Contemporâneo
A aula encerra-se com uma aplicação da teoria hobbesiana a fenômenos políticos atuais, demonstrando a permanência do medo como ferramenta de controle e coesão social. O professor identifica dois momentos recentes em que a lógica de Hobbes se manifestou com clareza. O primeiro foi a ascensão do conservadorismo no Brasil, culminando na eleição de 2018. Esse movimento foi catalisado pelo medo: medo da violência criminal, medo da instabilidade econômica e medo de modelos políticos considerados deletérios (como os de Venezuela e Cuba). Nesse cenário, a população clamou por um governante forte que prometesse segurança, mesmo que isso implicasse o fortalecimento de uma autoridade violenta.
O segundo exemplo refere-se à gestão global da pandemia de COVID-19. O professor observa que, sob o risco da morte, as pessoas não apenas aceitaram, mas exigiram do Estado intervenções autoritárias. Em países como a Coreia do Sul, o controle social via dispositivos móveis foi aceito passivamente. No Brasil, o professor relata ter presenciado um fenômeno de “sadismo social”, onde a população gozava com a violência praticada contra indivíduos que desobedeciam decretos de circulação (como pessoas caminhando sozinhas em praias ou praças). Esse desejo por punição e controle revela como o medo obscurece a visão ética e faz com que os indivíduos cedam à tirania em troca de uma promessa de segurança. A lição final é uma advertência: o medo nunca é um bom conselheiro político, pois ele nos inclina a desejar autoridades violentas que podem, em última instância, voltar-se contra a nossa própria liberdade.
Glossário
Referências Bibliográficas
HOBBES, Thomas. Leviatã
PLATÃO. A República
TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso(Tradução original para o inglês por Thomas Hobbes)
DESCARTES, René. Meditações Metafísicas
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A Reprodução
BERTOCHE, Gustavo. Pandemia, Crise e Aporia
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção
REALE, Giovanni. História da Filosofia: De Spinoza a Kant(Para aprofundamento no conceito de Mecanicismo)