Sinopse

Aula de abertura do bloco dedicado aos filósofos da ciência do século XX, em que o professor Gustavo Bertoche examina criticamente o lema "seguir a ciência", tornado quase onipresente durante a pandemia de Covid-19. A exposição mostra, primeiro, que a própria noção de "ciência" como entidade autônoma e separada da filosofia é recente — surge apenas na passagem do século XVIII para o XIX —, e que o modelo iluminista de ciência, a mecânica, é profundamente metafísico: resulta da confluência do materialismo atomista de Demócrito com o pitagorismo platônico (o conhecimento das formas matemáticas como acesso à "mente de Deus"), filtrado pelo dualismo de Descartes e aplicado exclusivamente ao mundo extenso. As fórmulas da física são, nesse sentido, formas platônicas. A seguir, o professor desfere a tese central: "A Ciência" não existe — não há sede, porta-voz nem consenso; existem apenas ciências, plurais, falíveis, atravessadas por interesses econômicos, políticos e pessoais, sem método único (Feyerabend) e em que a publicação acadêmica não se confunde com a prática científica. Distingue cuidadosamente o consenso científico do consenso da experiência (o caso do terraplanismo e das provas antigas da esfericidade da Terra). Por fim, desenvolve a consequência político-filosófica: toda proposta sanitária é biopolítica, e exigir que se "siga a ciência" mascara uma escolha política como verdade científica inquestionável. A proposta é um "parlamento do conhecimento" — ouvir todos os cientistas, sobretudo os anti-hegemônicos, e também saberes externos à ciência —, reservando a decisão final aos cidadãos.

Pontos-Chave

  • A ciência como conceito recente: os próprios termos "ciência" e "cientista" só surgem na passagem do século XVIII para o XIX; Galileu, Kepler e Newton se diziam matemáticos e filósofos da natureza. Até então, a busca do conhecimento chamava-se simplesmente filosofia.

  • A ciência é sempre metafísica: o modelo iluminista de ciência (a mecânica) é uma metafísica que não ousa dizer-se metafísica; o positivismo, em especial, é uma metafísica ignorante de sua própria natureza.

  • A dupla raiz metafísica da mecânica: o materialismo atomista de Demócrito e Leucipo, somado ao pitagorismo platônico (o conhecimento das formas matemáticas como acesso ao logos, à mente divina), filtrado por Platão e por Descartes.

  • As fórmulas como formas platônicas: filtrado pelo dualismo cartesiano (res extensa / res cogitans), o pitagorismo é aplicado só ao mundo material; as fórmulas matemáticas da física são formas platônicas que descrevem os fenômenos com alguma imprecisão. Stephen Hawking, ao falar em "conhecer a mente de Deus", professa, sem o saber, esse platonismo pitagórico.

  • "A Ciência" não existe: não há sede, porta-voz nem instituição "ciência"; existe uma quantidade indeterminada de ciências, e nenhuma tem a prerrogativa de falar pela ciência como um todo.

  • Não há consenso científico: cientistas discordam o tempo todo sobre o fundamental; há sempre vozes dissonantes e grupos anti-hegemônicos. As hipóteses estão sempre abertas — o trabalho do cientista é crítico (questionar, duvidar, testar), não dogmático.

  • Consenso científico × consenso da experiência: a esfericidade da Terra não é um consenso científico, mas um consenso da experiência, conhecido desde antes dos gregos (Eratóstenes, o Almagesto de Ptolomeu); o terraplanismo é uma fraude do século XIX, não uma posição da Igreja.

  • Não há método científico único: como mostrou Feyerabend (Contra o Método), os métodos são ad hoc, constituem-se durante a pesquisa e sofrem interferência de valores não epistêmicos (econômicos, acadêmicos, pessoais). A revisão por pares é um método acadêmico, não científico, e frequentemente fraudável.

  • A falibilidade e os interesses: os cientistas erram muito (a talidomida; os erros médicos como terceira causa de morte nos EUA); o dinheiro e o poder, não a verdade, estão muitas vezes em primeiro lugar, sobretudo na ciência privada, militar ou com fins lucrativos.

  • Toda proposta sanitária é biopolítica: subordinar a política à "ciência sanitária" é mascarar uma escolha política como verdade científica. No campo da ação humana não há verdade sub specie aeternitatis: a verdade política é construção posterior, não avaliável no calor do momento. A proposta: um "parlamento do conhecimento", com a decisão final cabendo aos cidadãos.

Transcrição da Aula

Uma aula especial sobre a ciência

Esta aula abre o bloco dedicado aos filósofos da ciência do século XX — Pierre Duhem, Whitehead, Léon Brunschvicg, Ernst Cassirer, Bachelard e, depois, Popper e Feyerabend. Antes de tratar de cada um nas próximas dezenas de aulas, o professor propõe pensar a própria questão da ciência, partindo de acontecimentos muito recentes. Houve, há poucos anos, a pandemia de Covid, que revelou alguns mecanismos pelos quais a ciência é realizada — mecanismos que, contudo, já estavam antecipados na literatura da filosofia e da sociologia da ciência do século XX. O período foi trágico: muitas pessoas perderam a vida, famílias se desestruturaram, crianças ficaram isoladas em apartamentos por mais de um ano, com os processos de alfabetização e letramento prejudicados.

A propósito, cabe distinguir alfabetização de letramento. A alfabetização é a capacidade adquirida de ler e escrever textos simples — o próprio nome, o noticiário de um jogo de futebol. O letramento é o momento seguinte: aprender não só a ler e escrever de modo básico, mas a interpretar o que se lê e a produzir textos com mais profundidade e complexidade. Uma pessoa pode ser alfabetizada e iletrada; para ler um romance, é preciso ter passado pelo letramento. Ambos foram prejudicados na pandemia, pois os próprios responsáveis pelas crianças estavam sem saber o que fazer — só uma utopia de pais capazes de orientar bem os filhos na formação intelectual teria evitado tantos estragos psíquicos e cognitivos. O período de 2019 a 2021 foi muito difícil, sobretudo para as famílias urbanas com crianças em idade escolar.

Nesse período, foi quase onipresente a recomendação de que “seguíssemos a ciência”: na dúvida, siga a ciência. É justamente esse mote que a aula examina. Será que devemos seguir a ciência? Será que devemos submeter a política à ciência, tomando as decisões que afetam a população a partir de uma posição da ciência? É comum que pessoas esclarecidas, de nível superior, defendam essa ideia diante de problemas de vida ou morte, de uma pandemia, de uma questão sanitária — e essa é a posição dominante na imprensa e nos meios de comunicação.

A ciência como conceito recente e metafísico

De onde vem essa concepção? Trata-se de uma concepção iluminista, nascida no século XVIII, de uma ideia nascente de ciência — um certo tipo de ciência que não é o mesmo que se praticava antes. O próprio nome “ciência”, como o nome “cientista”, só apareceu na passagem do século XVIII para o XIX. Galileu e Newton, que sem dúvida já faziam ciência no sentido atual, não se definiam como cientistas, porque o termo não existia: definiam-se como matemáticos, como filósofos da natureza, acreditando estar na interseção entre a matemática e uma filosofia experimental. A busca do conhecimento, desde os gregos, chamava-se simplesmente filosofia — e a história da filosofia é também a história da ciência até o momento da ruptura, na passagem do século XVIII para o XIX, no iluminismo. É aí que a ciência ganha nome e caminho próprios, embora permaneça sempre dependente de uma certa concepção metafísica. Para o horror dos positivistas, a ciência é sempre metafísica, e o próprio positivismo é uma metafísica — uma metafísica que não ousa dizer-se metafísica, ignorante de sua própria natureza, mas metafísica.

Quando se diz “seguir a ciência”, refere-se, portanto, a esse novo tipo de ciência que surge de modo autônomo no século XVIII, querendo libertar-se da metafísica e da filosofia. E qual era o modelo de ciência do século XVIII? A mecânica. Filosoficamente, a mecânica — a nova física — é fruto da confluência de algumas correntes metafísicas. Em primeiro lugar, o materialismo de Demócrito e Leucipo, vistos na Aula 8 do curso: materialistas e atomistas, para quem toda a realidade se constitui de átomos materiais e das relações entre eles, ainda que essas relações não sejam materiais. Em segundo lugar, a influência do pitagorismo, filtrada por Platão e refiltrada por Descartes.

O pitagorismo é uma filosofia integral da existência: os pitagóricos visam descobrir o logos, a mente divina, de cuja natureza participamos, conseguindo compreender algumas das formas do pensamento de Deus — as formas matemáticas e geométricas. Platão incorpora o pitagorismo e coloca o conhecimento da matemática e da dialética no âmbito do conhecimento verdadeiro. Recorde-se a alegoria da linha, na República: Sócrates estabelece uma ordem cósmica que divide a realidade em quatro grandes partes. A mais inferior e falsa é a das cópias das aparências — devemos fugir dela, pois conduz à mera fantasia (não à imaginação heurística e poética). É o que hoje se poderia exemplificar com a televisão, o cinema, os esportes de massa, as redes sociais: o nível da cópia da cópia. Acima, o nível das sensações, em que se lida com os objetos tais como se apresentam à percepção. Mais acima, já no domínio do conhecimento verdadeiro — da episteme, não da doxa —, está o conhecimento acessível pela geometria, intermediário entre os sentidos e o conhecimento puro das formas: observa-se a demonstração do Teorema de Pitágoras com os olhos, e essa observação conduz ao conhecimento da forma do teorema, o conhecimento mais elevado, o do próprio nous, o conhecimento noético, puramente intelectual, que corresponde no fundo ao conhecimento da mente de Deus.

A propósito, Stephen Hawking, cientista e divulgador ateu, escreveu em Uma Breve História do Tempo — um best-seller de divulgação — que a física tem por meta última descobrir a teoria de tudo numa única fórmula, e que, ao descobri-la, os cientistas finalmente conhecerão a mente de Deus. Trata-se de uma formulação platônica, embora Hawking não o percebesse, por falta de formação filosófica: uma declaração explícita de filiação metafísica ao platonismo pitagórico, pois conhecer a mente de Deus era a meta de toda a filosofia platônica e pitagórica.

A filtragem cartesiana: as fórmulas como formas platônicas

Esse pitagorismo platônico foi filtrado por Descartes — mas não do modo que Descartes esperava. Descartes é um dualista: pressupõe uma divisão ontológica da realidade em duas — a res extensa, a coisa extensa, que está no mundo do espaço, mensurável e calculável, e as coisas espirituais, psíquicas, pensantes, a res cogitans, que não são extensas nem mensuráveis. Descartes valorizava mais o lado do pensamento, pois é por meio dele que se pode medir e tratar das coisas extensas; o ponto de partida do conhecimento está no pensamento que, em primeiríssimo lugar, toma consciência de si.

No processo de desenvolvimento da ciência natural a partir de Bacon, Kepler, Galileu e Newton, a ciência foi se aproximando cada vez mais do conhecimento exclusivo do mundo extenso — do mundo da matéria, mensurável e calculável —, ao passo que o mundo da mente, dos pensamentos, dos sonhos, da reflexão e da consciência passou a ser desprezado, deixado em segundo plano como algo confuso e irracional. Foi-se, então, àquilo que pode ser conhecido com segurança: o mundo extenso. E aí ocorre a filtragem do pitagorismo. O platonismo pitagórico visava primeiramente ao conhecimento das coisas acessíveis pela mente, por meio da participação no logos, no pensamento divino; mas, com a filtragem cartesiana que separa radicalmente os dois mundos e com o progresso da ciência experimental, o pitagorismo passa a ser aplicado não mais ao mundo do espírito, e sim, exclusivamente, ao mundo das coisas materiais. O propósito último da ciência continua a ser conhecer a mente de Deus — como diz Hawking —, mas a mente de Deus em relação às coisas da matéria: conhecer como Deus estruturou a realidade de modo que tudo funcione como funciona; quais são as formas das relações entre os objetos.

Essas formas precisam ser expressas em linguagem matemática, em formas universais e platônicas. Pois o que são as fórmulas matemáticas na física senão formas platônicas — tentativas de descrever, de modo puramente intelectual, abstrato e universal, uma relação entre objetos, ou o próprio objeto? No caso da microfísica, os objetos têm suas fórmulas próprias. Trata-se, pois, de objetos platônicos: toda física matemática tem uma estrutura metafísica platônico-pitagórica — mas pela metade, pois o pitagorismo perde seu sentido estritamente místico (o pitagorismo era também uma seita mística). Resta ainda certo misticismo nas ciências — não à toa que físicos quânticos como David Bohm desenvolveram um misticismo natural —, mas, quando explicitado, ele é visto como uma idiossincrasia, tolerável apenas se o cientista for genial. Estamos, portanto, na confluência entre o materialismo dos primeiros filósofos (Leucipo e Demócrito) e o realismo das formas e das ideias, que vem de Pitágoras e Platão, filtrado por Platão e por Descartes. Chega-se assim à mecânica, que visa descobrir as fórmulas — as pequenas formas platônicas — nas quais todos os fenômenos podem ser identificados. As formas e as fórmulas são perfeitas; sua realização na natureza sempre tem um algo de mais ou menos, as margens de erro dos físicos, como já dizia Platão que as formas se realizam na natureza com algum grau de imprecisão. Estamos, pois, dentro do platonismo — e é justamente essa concepção em tudo metafísica que o vulgo entende hoje como o próprio padrão de objetividade da ciência.

Daí o iluminismo propõe que esse método de aplicação da matemática às coisas materiais seja usado também para as questões políticas, religiosas, sociais e da vida humana. Dessa proposta iluminista de cientificização da sociedade — de abandono da suposta superstição da filosofia, da metafísica e da religião — passa-se ao século XIX, e surge na França Auguste Comte. Antes de “ficar doido” e propor uma igreja positivista, com seus santos cientistas e seu credo (houve, de fato, uma igreja positivista no centro do Rio de Janeiro), Comte escreveu o Curso de Filosofia Positiva, expondo detalhadamente essa concepção metafísica que se acreditava antimetafísica. É essa concepção fundamental que rege as ideias do vulgo, nos séculos XX e XXI, a respeito da ciência: a de que existe realmente algo chamado “a ciência”, que deve ser seguida em todos os campos e orientar toda a vida do cidadão culto — uma ciência iluminista baseada no modelo, muito metafísico, da mecânica.

”A Ciência” não existe

Há aqui um problema. Em primeiro lugar: onde está a ciência? Do mesmo modo que se pode apontar para uma caneca de chá e dizer “esta é uma caneca”, quem pode apontar onde está a ciência? Está nos laboratórios, nas universidades, nos livros, nos artigos? Quem é o porta-voz da ciência? Onde fica sua sede? Ela não tem sede nem porta-voz — porque a ciência, a rigor, não existe. Existem campos científicos, grupos de pesquisa, laboratórios, livros, aulas que tratam de ciência; mas não há “a ciência”. Existe uma quantidade indeterminadamente grande de ciências, e nenhuma delas tem a prerrogativa de estabelecer-se como a voz avalizada da ciência. Pode haver um porta-voz de um grupo científico, jamais o porta-voz da ciência.

Seguir a ciência significaria, então, o quê? Seguir o que um cientista diz? O problema é que os cientistas discordam o tempo todo sobre as coisas mais fundamentais. Há sempre vozes dissonantes e grupos anti-hegemônicos; não existe consenso científico em nada. “Mas e a Terra esférica, não é um consenso científico?” Não: é um consenso do senso comum, da experiência. Eratóstenes, entre os gregos, já demonstrava, a partir de experiências do senso comum, ser impossível que a Terra não fosse esférica; Ptolomeu, por volta de 150 d.C., abre o Almagesto — que é uma compilação da cosmologia antiga, grega e persa — com a demonstração da forma da Terra. E não é verdade que a Igreja defendesse a Terra plana: isso é uma lenda historiográfica. Quanto ao suposto medo dos navegantes de cair na borda da Terra, quem o tinha, se alguém, eram os marinheiros recrutados entre analfabetos, não os capitães como Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo ou Vasco da Gama. Não se pode medir o conhecimento de uma era pelo seu analfabeto — senão a nossa seria a era mais imbecil que existe, bastando perguntar a uma pessoa aleatória na rua sobre a ciência atual.

Sempre se soube que a Terra é esférica, desde antes dos gregos. As provas do Almagesto são acessíveis a qualquer um. A mais evidente: na praia, vê-se o navio afastando-se e, muito antes de sumir na distância, ele parece afundar — primeiro o casco, depois a estrutura e a vela —, e ao voltar reaparece inteiro; isso só é possível se há curvatura. E como se observa o mesmo fenômeno em praias voltadas para as quatro direções, a curvatura é em todas as direções: o planeta inteiro é curvo. Outra prova: conforme se desloca do Norte para o Sul, constelações somem no horizonte e surgem outras — o que só é possível numa Terra esférica. E ainda: em lugares diferentes (leste e oeste), as horas ocorrem em momentos diferentes — meio-dia num lugar, dez da manhã noutro, quatro da tarde noutro —, o que não aconteceria numa Terra plana. Não há, pois, justificativa para o terraplanismo, e isso não tem nada a ver com a ciência da mecânica do século XVIII: é uma evidência da experiência, conhecida muito antes da concepção moderna de ciência. É um consenso da experiência, de qualquer um que pense, não um consenso científico.

Aliás, o livro O Mito da Terra Plana explica a origem dessa concepção: ela surgiu como uma fraude no século XIX, nos Estados Unidos, quando defensores do darwinismo, para imputar absurdos à religião cristã, passaram a escrever manifestos com assinatura falsamente cristã, defendendo, entre outras alucinações, a Terra plana — que ninguém levava a sério. Alguns fundamentalistas cristãos leram aquilo, supuseram tratar-se de porta-vozes do cristianismo e passaram a defendê-lo, embora a Bíblia em momento algum sustente que a Terra é plana. A ideia desapareceu durante o século XX e ressurgiu como zombaria na internet. É difícil acreditar que alguém leve a sério o terraplanismo, sinal de inteligência muito limitada; provavelmente os que se dizem terraplanistas querem apenas causar escândalo e chamar a atenção.

A inexistência de um método científico único

Não existe, pois, porta-voz da ciência, porque não existe a instituição “ciência”, nem consenso, e porque tudo na ciência é discutível: a ciência não é acabada nem fechada, e as hipóteses estão sempre abertas — podem ser ampliadas, reduzidas, abandonadas ou confirmadas. O trabalho do cientista é essencialmente crítico — pesquisar, perguntar, questionar, duvidar, testar, experimentar, avaliar —, muito mais do que constitutivo, e as hipóteses que propõe nunca estão fechadas. Existem, claro, cientistas — teóricos, práticos, acadêmicos —, porque existem ciências; mas não existe a ciência. Existem inúmeros campos científicos, cada um com seus métodos e objetos. E, como mostrou Paul Feyerabend, os métodos não são dados a priori: há um princípio metodológico em cada campo, definido por seu tipo de objeto, mas os métodos vão se constituindo durante a investigação — são todos ad hoc, podem ser mudados e abandonados, e sofrem a interferência de valores não epistêmicos. Há interesses econômicos, acadêmicos e até pessoais em todas as ciências. O cientista geralmente não investiga o que quer — a menos que tenha alcançado autonomia, como um prêmio Nobel —, mas o que está dentro do programa de pesquisa de seu laboratório, instituição ou empresa, programa estabelecido por ter sentido econômico, político ou social. A psicologia profunda do cientista — seus valores, inseguranças, medos e desejos — também interfere em seu trabalho. Não existe ciência pura nem metodologia pré-estabelecida.

Em Contra o Método, dos anos 1970, Feyerabend afirma justamente que a ideia de um método científico único é uma fantasia, um mito: cada campo tem métodos que se constituem enquanto a pesquisa avança. “Mas e a publicação de artigos e a revisão por pares, não são um método?” Não: a revisão por pares e a publicação em periódicos são um método acadêmico, não científico — há diferença entre os dois, ainda que possam intersectar-se. Mais: a publicação em periódicos é muitas vezes fraudulenta, havendo inúmeras maneiras de fraudá-la para aumentar citações e o fator de impacto (recentemente noticiou-se o caso de um cientista que publica vários trabalhos por dia, com o maior fator de relevância do mundo — evidentemente uma sequência de fraudes; ele publica academicamente, mas não há ciência ali). A publicação tem a ver com progresso na carreira acadêmica, nem sempre com ciência. Além disso, uma parte significativa da ciência — sobretudo a de valor econômico, militar ou estratégico — é produzida de modo privado, por empresas ou instituições secretas, sem qualquer publicação além, eventualmente, do registro de uma patente; tais cientistas são muito bem pagos justamente por não terem atuação acadêmica. A publicação não é uma prática científica nem define a ciência: é uma prática acadêmica, ligada ao trabalho do professor universitário.

A falibilidade da ciência e os interesses em jogo

Os cientistas, ademais, erram muito — erros particularmente evidentes nas ciências da vida, biológicas, médicas e farmacêuticas. Lembre-se a indicação da talidomida a mulheres grávidas: medicamento que causava má-formação nos fetos e já era proibido nos Estados Unidos e na Europa, mas continuava sendo vendido e indicado no Brasil, com as farmacêuticas já cientes do fato e visando ao lucro. O primeiro interesse não é a verdade: é o dinheiro e o poder, quase sempre. Ao analisar os resultados técnicos das ciências, chega-se a conclusões importantes: nos Estados Unidos — e provavelmente também no Brasil —, os erros médicos cometidos em hospitais constituem a terceira maior causa de morte. É preciso, pois, ter cuidado com todas as dimensões da ciência: os cientistas são pessoas falíveis como qualquer outra — o professor reconhece-se falível em seu próprio campo, esquecendo nomes quando cansado após um dia inteiro de aulas (tendo, como diz, “bebido do rio Letes”). Não que o professor, o médico ou o farmacêutico queiram causar mal a alguém; mas as coisas se complicam quando envolvem recursos financeiros, e ainda mais quando uma instituição visa ao lucro e à remuneração dos acionistas.

A dimensão biopolítica: seguir a ciência ou seguir uma ideologia?

Seguir a ciência, mas que ciência? Viu-se isso muito em 2020: as pessoas acabam tendo uma fé na ciência tal que, sem compreender o processo de produção das ciências, se entregam a uma confiança que não é racional — afirmando, por exemplo, que as questões sanitárias são superiores à política e que o sanitário deve regular a política. O problema é que toda proposta sanitária para uma população é, em si, uma proposta política — é biopolítica. Trata-se do controle dos corpos, da manutenção da força de trabalho dos corpos. Há quem diga: “isso não é política, é sobrevivência”; ora, quando se trata da sobrevivência de uma população, trata-se naturalmente de política. Colocar uma decisão ligada a uma questão médica como determinante superior das decisões políticas é, no fundo, instituir uma instância política sob outro nome — a instância sanitária —, subordinando as demais: a imposição de uma política sobre as outras.

“Mas e a verdade, professor?” No campo da política e da ação humana não existe uma verdade metafísica, mística — uma verdade sub specie aeternitatis, sob a perspectiva da eternidade, sob a visão de Deus. Essa verdade existe e é objeto da filosofia, era o que pitagóricos e platônicos visavam alcançar; mas, no campo da política e das relações humanas, não há essa verdade: ali a verdade é uma construção social e política, nunca dada, sempre gerada — e, gerada sem raiz, é um fantasma. A verdade política não pode ser avaliada no calor do momento, e a verdade sanitária tampouco: quantas vezes não se aplicaram medicamentos a populações inteiras diante de uma emergência, julgando-se biopoliticamente ser a melhor atitude científica, e os resultados foram catastróficos, porque não se sabia naquele momento? A verdade política só emerge como construção posterior, tempos depois, dentro da própria combinação de perspectivas que constitui a ação social humana. Existe uma verdade, mas não está no campo da política, nem da biopolítica, nem da aplicação de objetos cientificamente produzidos a populações inteiras.

O que o professor quer sublinhar é que, quando alguém propõe ou exige que se “siga a ciência” — sobretudo nos momentos mais difíceis, como nas pandemias, e haverá outras pandemias e outros lockdowns —, essa exigência não significa realmente seguir a ciência, porque a ciência não existe, não tem porta-voz nem instituição: não se pode seguir o que não existe. Existem ciências e cientistas de todos os tipos, que concordam e discordam. No fundo, quem exige que se siga a ciência quer que se siga a sua própria ideologia biopolítica: não se trata de ciência, mas de ideologia — “seguir a ciência” é, então, “seguir a minha ideologia”.

A proposta: um parlamento do conhecimento

O que se deve fazer? A proposta do professor é que se ouçam todos os cientistas — sobretudo os que sustentam posições anti-hegemônicas, os que nadam contra a corrente, pois é preciso entender por que o fazem. E mais: é preciso ouvir também aqueles que, de um lugar de fora da ciência, têm algo a dizer sobre o mundo — os xamãs e pajés dos índios, os detentores da medicina tradicional e do conhecimento das matas e dos remédios naturais, os psicanalistas, todos os que conhecem motivações humanas, técnicas não privilegiadas pelas ciências naturais e caminhos diferentes de organização. É preciso ouvir todo mundo. E, depois dessa espécie de parlamento do conhecimento, a decisão não deve caber aos cientistas: eles devem ser ouvidos, como todos os demais, mas a decisão política deve caber aos cidadãos, a todos os cidadãos — porque, no fim das contas, trata-se da nossa vida.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Paul Feyerabend. Contra o Método e Against Method(Against Method, 1975)

  • Platão. República e doxa e episteme(alegoria da linha; doxa, episteme, formas)

  • Cláudio Ptolomeu. Almagesto(c. 150 d.C.)

  • René Descartes (dualismo *res extensa* / *res cogitans*). (dualismo res extensa / res cogitans)

  • Auguste Comte. Curso de Filosofia Positiva

  • Stephen Hawking. Uma Breve História do Tempo(1988)

  • Demócrito e Leucipo (atomismo materialista; cf. (atomismo materialista; cf. Aula 8 do curso)

  • Pitágoras e os pitagóricos (o conhecimento das formas matemáticas); Eratóstenes (esfericidade da Terra); David Bohm (misticismo na física quântica). (o conhecimento das formas matemáticas)

  • Jeffrey Burton Russell. O Mito da Terra Plana e Inventing the Flat Earth(Inventing the Flat Earth, 1991)

  • Paul Feyerabend. A Ciência em uma Sociedade Livre

  • Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas

  • Michel Foucault. Em Defesa da Sociedade e O Nascimento da Biopolítica

  • Bruno Latour. Ciência em Ação