Mário Ferreira dos Santos
Sinopse
Esta aula dedica-se à análise da vida e obra de Mário Ferreira dos Santos, um dos mais prolíficos filósofos brasileiros. O professor explora a trajetória intelectual de Mário fora do circuito universitário, destacando os desafios materiais da produção filosófica independente. A exposição detalha as três fases do pensamento do autor (Fundamentação, Análise Temática e Mathesis Megiste), o axioma fundamental da Filosofia Concreta e a síntese original entre o pitagorismo e o tomismo. Discute-se, ainda, o ostracismo acadêmico e político sofrido pelo filósofo e sua posterior redescoberta.
Pontos-Chave
Independência Intelectual e Ostracismo: Mário atuou fora da academia por princípios anarquistas e autodidatismo, o que resultou em isolamento, falta de revisão por pares e esquecimento institucional até a década de 1990.
Axioma Fundamental: A base do sistema é a afirmação apodítica 'Alguma coisa há e o nada absoluto não há', da qual se derivam todas as teses subsequentes com rigor geométrico.
Filosofia Concreta: Conceito baseado na etimologia latina 'concretus' (crescido junto), buscando a união dos fatores intrínsecos e extrínsecos do ser, em oposição à abstração formal.
Síntese Ecumênica: A tentativa de harmonizar tradições aparentemente antagônicas, unindo a estrutura matemática/harmônica de Pitágoras e Platão com a ontologia e rigor de Tomás de Aquino e Duns Scotus.
O Problema do 'Pritaneu': A discussão sobre a sustentabilidade material do filósofo, contrastando a demanda de Sócrates pelo sustento estatal com a realidade de Mário como editor e vendedor de seus próprios livros.
Transcrição da Aula
Introdução: O Filósofo fora dos Muros
A reflexão central parte da vida e obra de Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), nascido em Tietê, São Paulo. O professor esclarece que o objetivo não é realizar uma hagiografia, mas investigar o significado de construir um sistema filosófico robusto sob condições materiais adversas e fora do circuito universitário. Mário produziu uma obra monumental, incluindo a ‘Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais’ com 45 volumes, escrita em menos de 15 anos. Essa produção independente, sem apoio institucional, equivalia ao lançamento de três a quatro grandes livros anuais, financiados pelo seu trabalho como advogado e pela venda porta a porta.
Anarquismo e Contexto Intelectual
Mário Ferreira dos Santos jamais ocupou cargos acadêmicos oficiais. O docente explica que essa postura não foi acidental, mas uma decisão de princípio, alinhada às convicções anarquistas do filósofo, que frequentou o Centro de Cultura Social e defendeu o mutualismo de Proudhon. Para Mário, um pensador não deveria depender do Estado nem ocupar um cargo que poderia servir a outro. Contudo, essa autonomia cobrou um preço alto: o isolamento. Nos anos 1950, enquanto a universidade brasileira se profissionalizava importando modelos eurocêntricos e exigindo titulações formais, Mário permaneceu um ‘outsider’, ignorado por não possuir doutorado ou filiação institucional, situando-se entre a velha tradição de independentes (como Farias Brito) e a nova ordem acadêmica.
As Três Fases do Pensamento de Mário
O professor estrutura a obra de Mário em três fases distintas. A primeira fase (até meados dos anos 50) é dedicada à fundamentação lógica e metodológica, culminando na obra ‘Filosofia Concreta’ (1957). Nesta fase, estabelece-se o axioma central: ‘Alguma coisa há e o nada absoluto não há’. Trata-se de uma verdade autoevidente e necessária, mais radical que o ‘Cogito’ cartesiano, servindo de base para deduções geométricas subsequentes. A segunda fase (até meados dos anos 60) é analítica, focada em estudos temáticos como ‘Pitágoras e o Tema do Número’ e ‘O Um e o Múltiplo em Platão’. Aqui, Mário dialoga com a escolástica e a tradição clássica. A terceira fase (até 1968) é a da Mathesis Megiste (Grande Ensinamento), onde desenvolve os princípios metafísicos mais elevados em obras iniciadas por ‘A Sabedoria’, buscando uma síntese ecumênica do saber.
Metodologia: A Positividade e o Concreto
A filosofia de Mário é definida como positiva e concreta. ‘Positiva’ porque parte da afirmação do ser, contrapondo-se às filosofias que iniciam pela dúvida ou negação. ‘Concreta’, termo derivado do latim concretus (crescido junto), indica a busca pela totalidade dinâmica do ser, unindo fatores intrínsecos e extrínsecos. Metodologicamente, propõe-se uma ‘mostração ontológica’: em vez de apenas deduzir conclusões de premissas formais (lógica pura), busca-se extrair intelectualmente as verdades que residem na própria razão de ser das coisas. A lógica, portanto, subordina-se à realidade ontológica.
A Questão Material: O ‘Pritaneu’ Brasileiro
O docente introduz uma analogia com a ‘Apologia de Sócrates’, de Platão. Sócrates, ao ser julgado, sugere ironicamente que sua pena deveria ser o sustento vitalício no Pritaneu (refeitório público para benfeitores), argumentando que o filosofar é um serviço público. Mário, sem seu ‘Pritaneu’ estatal, precisou criar sua própria infraestrutura: fundou editoras (Logos, Matese) e sistemas de vendas a crédito. Essa solução ‘alucinada’ permitiu a existência da obra, mas gerou problemas de qualidade editorial (erros tipográficos, falta de revisão) e impediu o debate crítico com pares qualificados. A ausência de interlocutores à altura permitiu saltos argumentativos que, embora parte de um sistema genial, careciam de polimento.
Recepção, Silêncio e Redescoberta
Após sua morte em 1968, Mário caiu no esquecimento. O professor analisa as razões: o ostracismo político (sendo antimarxista demais para a esquerda e socialista demais para a direita liberal) e o desprezo acadêmico pelo seu autodidatismo. Menciona-se o debate público onde Mário derrotou Caio Prado Júnior, fato que, segundo análises de Olavo de Carvalho, teria gerado um ‘muro de silêncio’ por parte da intelectualidade de esquerda. A redescoberta ocorreu apenas na década de 1990, liderada por Olavo e posteriormente pela reedição das obras pela É Realizações. A aula conclui questionando se a síntese proposta por Mário (unindo Nietzsche, Marx, Tomás de Aquino e Pitágoras) é viável, defendendo que a visão de ‘paralaxe’ (termo usado por Žižek) justifica a união de perspectivas contraditórias para formar a unidade do real.
Glossário
Referências Bibliográficas
Mário Ferreira dos Santos. Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais
Mário Ferreira dos Santos. Filosofia Concreta
Mário Ferreira dos Santos. Pitágoras e o Tema do Número
Mário Ferreira dos Santos. O Um e o Múltiplo em Platão
Mário Ferreira dos Santos. Filosofia Concreta dos Valores
Platão. Apologia de Sócrates
Slavoj Žižek. A Visão em Paralaxe
Friedrich Nietzsche. Assim Falou Zaratustra(Tradução de Mário Ferreira dos Santos)
Olavo de Carvalho. O Futuro do Pensamento Brasileiro