Emmanuel Lévinas
Sinopse
Aula dedicada a Emmanuel Lévinas, um dos pensadores éticos mais radicais do século XX. A exposição parte da biografia — judeu lituano, formado na fenomenologia de Husserl e Heidegger em Freiburg, prisioneiro de guerra dos alemães e sobrevivente do extermínio de quase toda a sua família no Holocausto — para mostrar como essa experiência da barbárie (agravada pela adesão de seu mestre Heidegger ao nazismo) está na origem de sua filosofia. O núcleo da aula é a inversão proposta por Lévinas: contra toda a tradição ocidental, que sempre fez da ontologia (a pergunta pelo ser) a questão primeira, Lévinas afirma que a ética é a filosofia primeira, anterior a qualquer pergunta sobre o que existe ou como conhecer. Essa ética nasce no encontro com o rosto do outro, que, em sua vulnerabilidade, interpela e ordena "não matarás" antes de qualquer lei ou contrato. Desenvolvem-se daí os conceitos de alteridade radical (o outro como infinito, irredutível ao mesmo), de responsabilidade infinita e assimétrica (sou responsável pelo outro mesmo sem reciprocidade, e até pela responsabilidade do outro) e de justiça (o que surge quando é preciso comparar o incomparável diante de uma pluralidade de outros, o terceiro). A aula mostra ainda a relação crítica de Lévinas com Husserl e Heidegger, a influência do judaísmo e do Talmud, a distinção entre o dizer e o dito na linguagem, e as aplicações contemporâneas do pensamento levinasiano: direitos humanos, tecnologia e relações virtuais, hospitalidade ao estrangeiro e educação. Conclui com a esperança de que, mesmo depois de Auschwitz, enquanto houver rostos, haverá ética.
Pontos-Chave
A biografia como chave da obra: judeu lituano (n. 1906), formado por Husserl e Heidegger em Freiburg, prisioneiro de guerra e sobrevivente do Holocausto que matou quase toda a sua família; a experiência da barbárie funda toda a filosofia posterior.
A inversão fundamental: contra toda a tradição ocidental, que coloca a ontologia (a pergunta pelo ser) como questão primeira, Lévinas afirma que a ética é a filosofia primeira — antes de perguntar o que é, deve-se perguntar como me relaciono com o outro.
O rosto do outro: a presença viva e vulnerável do outro interpela, convoca e ordena "não matarás", estabelecendo uma relação ética imediata, anterior a toda lei, mandamento religioso ou contrato social.
Alteridade radical e o infinito: o outro não pode ser reduzido ao mesmo (conhecido por analogia, como um objeto); há sempre algo no outro que escapa, que transcende, que é infinito — não no sentido matemático, mas porque sempre há mais a descobrir.
A raiz filosófica do totalitarismo: o genocídio é possível porque se nega a alteridade, reduzindo as pessoas a categorias (o judeu, o burguês, o inimigo); a própria filosofia do ser, da totalidade e da unidade cria as condições intelectuais para a violência contra o diferente.
Crítica a Husserl e Heidegger: de Husserl Lévinas herda o método fenomenológico, mas o supera (o eu constituinte não dá conta do outro); a Heidegger reconhece a grandeza de Ser e Tempo, mas censura o primado da ontologia e, sobretudo, a adesão ao nazismo.
A influência do judaísmo e do Talmud: o Talmud, compilação de debates rabínicos sem voz única nem verdade final, ensina um pensamento dialógico e aberto; o próximo bíblico é o vulnerável e o estrangeiro, e "Deus vem à ideia através do rosto do outro".
Responsabilidade infinita e assimétrica: sou infinitamente responsável pelo outro, independentemente da reciprocidade, e até pela responsabilidade do outro; "todos os homens são responsáveis uns pelos outros, e eu mais do que todos".
Justiça e o terceiro: como o mundo não é feito só de relações duais, a justiça nasce quando é preciso comparar o incomparável e distribuir a responsabilidade entre vários outros; mas a justiça política jamais pode esquecer sua origem ética no rosto.
O dizer e o dito; e as aplicações atuais: o dizer (o ato de se dirigir ao outro, expor-se) precede e excede o dito (o conteúdo); o pensamento levinasiano ilumina os direitos humanos, as relações mediadas por telas, a hospitalidade ao estrangeiro e uma educação voltada à alteridade.
Transcrição da Aula
A biografia como enquadramento das ideias
Há filósofos cuja história e cuja biografia são decisivas para que se compreenda o enquadramento de suas ideias, e Emmanuel Lévinas é um deles. Nascido em 1906 na Lituânia, no seio de uma família judaica, viveu a Revolução Russa quando tinha de dez para onze anos e cresceu lendo os grandes romances russos — Dostoiévski, Tolstói, Púchkin. Esse contato precoce com uma literatura que coloca questões éticas no centro da narrativa é significativo: ao ler Crime e Castigo, percebe-se que Dostoiévski não está simplesmente contando uma história, mas interrogando o que significa ser responsável e o que significa encarar de frente outro ser humano. Em 1923, aos dezessete anos, Lévinas mudou-se para a França para estudar filosofia; mas o momento decisivo de sua formação aconteceu na Alemanha, quando foi para Freiburg estudar com dois gigantes: Edmund Husserl e Martin Heidegger. Foi um dos primeiros a levar a fenomenologia alemã para a França — traduziu Husserl e escreveu uma tese sobre a fenomenologia husserliana — e estava destinado a ser um acadêmico brilhante, seguindo os passos de seus mestres.
A Segunda Guerra Mundial, porém, deu à sua vida o rumo que determinaria toda a sua filosofia posterior. Lévinas serviu no exército francês, não como combatente, mas como intérprete. Quando a França caiu, foi capturado pelos alemães e passou a guerra inteira como prisioneiro. Durante esse período, quase toda a sua família foi assassinada no Holocausto; a esposa e a filha só sobreviveram porque foram escondidas por freiras católicas na França. Vale então pensar no que acontece quando um filósofo — alguém treinado para pensar sobre o ser, a existência e a verdade — se vê diante da barbárie absoluta. E, mais ainda, o que acontece quando esse filósofo descobre que seu mestre, Heidegger, um dos maiores gênios filosóficos de todos os tempos, aderiu ao nazismo. Lévinas teve de confrontar uma questão terrível: como foi possível que a razão ocidental, a filosofia, a ciência — tudo aquilo que deveria nos tornar mais humanos — tenha produzido Auschwitz?
A inversão radical: a ética como filosofia primeira
É a partir dessa experiência que Lévinas se torna intelectualmente revolucionário e revoluciona a ética na filosofia ocidental. Seu diagnóstico é o seguinte: o problema de toda a filosofia ocidental, desde os gregos, é que ela sempre colocou o ser — a ontologia, a metafísica — como questão fundamental. As primeiras perguntas de uma filosofia sempre foram ontológicas e epistemológicas: o que é o ser? O que existe? Como conhecer a realidade? Lévinas propõe uma inversão radical: antes de perguntar o que é ou o que há, deve-se perguntar como devo me relacionar com o outro. Isto é, a ética, e não a ontologia, deve ser a questão primeira, a questão fundamental da filosofia. Convém repetir, porque é crucial: para Lévinas, a ética vem antes de qualquer outra questão filosófica.
E como isso acontece? Através daquilo que Lévinas chama de o rosto do outro. Tome-se um exercício mental: imagine-se que, andando pela rua, encontra-se alguém pedindo ajuda — um mendigo, alguém perdido, uma criança chorando. No momento em que se olha para o rosto dessa pessoa, algo acontece; não se consegue simplesmente passar por aquele a quem se olhou o rosto como se nada fosse. Lévinas não fala apenas da face física, mas da presença viva do outro. O rosto do outro nos interpela, nos chama, nos convoca. Lévinas usa uma expressão muito forte para tratar desse fato: o rosto do outro diz “não matarás”. Não que a pessoa esteja ali verbalmente dizendo isso, mas a simples presença do rosto humano, em sua vulnerabilidade e em sua nudez, já carrega esse apelo ético fundamental. Antes de qualquer lei, de qualquer mandamento religioso, de qualquer contrato social, o rosto do outro já estabelece uma relação ética imediata. Para que fique ainda mais claro: pense-se em quando se está com muita raiva de alguém, pensando as piores coisas, e de repente se encontra essa pessoa; no momento em que se vê o seu rosto, toda aquela raiva abstrata se transforma — não desaparece, mas se transforma, porque já não está em questão uma ideia abstrata, e sim uma pessoa concreta diante de nós. É esse fenômeno espiritual que Lévinas tenta captar filosoficamente.
A alteridade radical e o infinito do outro
Isso conduz a um conceito fundamental: a alteridade. Em português, “alteridade” vem de alter, o outro. Mas Lévinas não fala de qualquer tipo de diferença; fala de uma alteridade radical, de uma alteridade absoluta. Normalmente, quando se encontra algo diferente, tenta-se compreendê-lo comparando-o com algo já conhecido: diante de um animal nunca visto, compara-se com outros animais; diante de uma cultura estranha, compara-se com a própria. Esse é o movimento natural do conhecimento — conhece-se, em primeiro lugar, por analogia, reduzindo o desconhecido ao conhecido, reduzindo o outro ao mesmo. Lévinas diz, porém, que o outro ser humano não pode ser reduzido ao mesmo, porque há nele algo que escapa completamente à minha compreensão, algo que permanece sempre além do meu alcance. O outro, em suas palavras, é absolutamente outro. Não se pode conhecer o outro como se conhece um objeto — como se conhece um cubo mágico que a filha deixou na biblioteca; não se pode totalizar o outro como um objeto ou um conceito.
Pense-se nisso de forma prática: quantas vezes não se surpreende alguém com uma pessoa que julgava conhecer muito bem — um amigo de anos que toma uma decisão inesperada, um parente que de repente revela um lado inteiramente desconhecido? Isso acontece porque o outro sempre guarda esse mistério, essa alteridade, essa transcendência que jamais se consegue capturar. E é exatamente isso que torna o outro infinito para Lévinas — não infinito no sentido matemático, mas no sentido de que sempre há mais no outro do que se pode apreender. Por mais que se tenha descoberto, há sempre algo a descobrir, e algo que jamais será descoberto. O outro representa o infinito porque transborda qualquer tentativa de conceitualizá-lo, de aprisioná-lo numa categoria.
A raiz filosófica do totalitarismo
Cabe então conectar essas ideias com a experiência histórica de Lévinas. Por que o nazismo, o stalinismo, o totalitarismo foram possíveis? Por que o genocídio é possível? A resposta de Lévinas é filosófica: tudo isso é possível porque se nega a alteridade do outro. O que faz um regime totalitário? Reduz as pessoas a categorias — o judeu, o burguês, o inimigo do povo, o terrorista. Uma vez que se transforma o outro numa categoria, num conceito, pode-se fazer qualquer coisa com ele; ele deixa de ser um rosto que diz “não matarás” e se torna um número, uma estatística, uma ideia, um problema a ser resolvido. Lévinas viu isso acontecer em pessoa: nos campos de concentração, as pessoas recebiam números tatuados no braço, deixavam de ter nome, rosto e história, e eram reduzidas ao mesmo — todas iguais, todas descartáveis. No campo de concentração, a alteridade é completamente negada.
Mas Lévinas não faz apenas uma crítica política. Ele afirma que existe algo na própria estrutura do pensamento ocidental que possibilita a emergência do totalitarismo: quando a filosofia coloca o ser, a totalidade e a unidade como valores supremos, ela mesma cria as condições intelectuais para a violência contra o diferente. Basta pensar no conceito de razão no Iluminismo. A ideia iluminista era a de que todos os seres humanos, sendo racionais, chegariam às mesmas conclusões se adotassem o método adequado. Mas o que acontece com quem pensa diferente, com quem tem outra cultura, outra forma de ver o mundo? Facilmente essas pessoas passam a ser classificadas como membros de um povo irracional, primitivo, atrasado, incivilizado. E, uma vez vistas como menos racionais — sendo o ser humano definido pela razão —, são vistas como menos humanas. Aqui está todo o fundamento filosófico do imperialismo na África, na Ásia e nas Américas. Lévinas reivindica, portanto, uma filosofia diferente: uma filosofia que coloque o respeito ao outro, em sua diferença irredutível, como fundamento — não depois de estabelecida a verdade, a razão e o ser, mas antes de tudo isso. É por isso que, para ele, a ética precisa vir primeiro.
A relação crítica com Husserl e Heidegger
É interessante ver como Lévinas se relaciona com seus mestres filosóficos, especialmente Husserl e Heidegger, pois isso mostra como ele reconstrói seu pensamento a partir da tradição, mas também contra a tradição. Com Husserl, Lévinas aprendeu o método fenomenológico que, como visto na aula sobre o próprio Husserl, consiste na tentativa de descrever a experiência tal como ela aparece à consciência, sem prejuízos, sem pressupostos, sem preconceitos. Husserl dizia “vamos às coisas mesmas”, isto é, vamos olhar para os fenômenos como eles se nos apresentam. Lévinas admirava isso e usou o método fenomenológico em seus próprios trabalhos. Mas percebeu um problema: Husserl estava preso na consciência do eu. Para Husserl, tudo começa com o “eu penso”, com a consciência intencional que constitui o próprio sentido das coisas. E o outro? Como dar conta daquilo que não pode ser constituído pela minha consciência, isto é, do outro, que é de uma alteridade infinita e irredutível à minha consciência? Como o próprio Lévinas disse, ele quase sempre começa com Husserl, mas o que diz já não está mais em Husserl. Em outras palavras: Lévinas usa as ferramentas da fenomenologia para ir além da fenomenologia, para mostrar algo que escapa à própria consciência constituinte — a alteridade ética.
Com Heidegger, a relação é ainda mais complexa, e também dolorosa. Heidegger foi, sem dúvida, um filósofo importantíssimo, um dos maiores de todos os tempos; seu livro Ser e Tempo revoluciona de modo fundamental a filosofia. Lévinas reconhece isso e diz que Ser e Tempo é incontornável — não se pode simplesmente descartá-lo. Mas Heidegger cometeu dois erros, dois pecados mortais aos olhos de Lévinas. O primeiro é um pecado filosófico: ele colocou a questão do ser como fundamental, de modo que todo o projeto heideggeriano passa por pensar o sentido do ser; e Lévinas pergunta pelo outro concreto, pela pessoa que sofre, pela responsabilidade ética — tudo isso fica em segundo plano quando a ontologia vem primeiro. O segundo erro foi ainda mais grave: Heidegger aderiu ao nazismo em 1933 e tornou-se reitor da Universidade de Freiburg sob o regime nazista. Para Lévinas, judeu que perdeu a família no Holocausto, isso é imperdoável, e por isso ele afirma que um horror ficará para sempre associado ao nome de Heidegger. Mesmo assim, Lévinas não o descarta: aprende com ele e o critica. Aprende com Heidegger que a existência humana não pode ser reduzida a conceitos universais, que há algo de único em cada existir — mas vai além: mostra que esse único, esse singular, se revela não na angústia solitária diante da morte, como pensava Heidegger, mas no encontro ético com o outro. E isso não está dito em Heidegger.
A influência do judaísmo e do Talmud
Já que se fala de nazismo, convém abordar um tema que muitos filósofos judeus, ou de origem judaica, tentam esconder ou minimizar — mas não Lévinas. Em sua filosofia, esse tema é explícito e fundamental: a influência do judaísmo no pensamento. Lévinas nasceu numa família judaica observante e, depois da guerra, dedicou dezoito anos à direção de uma escola judaica em Paris; dava conferências regulares sobre o Talmud e publicou livros sobre temas judaicos. Para ele, não havia conflito entre a filosofia e o judaísmo; pelo contrário, o judaísmo oferecia insights essenciais para repensar a própria filosofia ocidental. O que é o Talmud? Não um livro de doutrinas fixas, mas uma compilação de debates rabínicos que se estende por muitos séculos, na qual os rabinos discutem, discordam, interpretam e reinterpretam. Não há ali uma voz única nem uma verdade final, mas um diálogo infinito. Isso influenciou profundamente o estilo de pensamento de Lévinas, que não constrói sistemas fechados: ele pensa dialogicamente, sempre deixando espaço para o outro, para a interpretação, para que o outro venha e diga aquilo que ainda não foi dito.
É nesse sentido que o judaísmo foi importante para Lévinas, sobretudo na questão da ética. No judaísmo, o mandamento central é “amarás o teu próximo como a ti mesmo”; mas Lévinas nota que, no texto hebraico, isso vem logo depois das leis sobre o estrangeiro, o órfão e a viúva. Ou seja, o próximo não é primeiro quem está próximo, quem é parecido comigo, quem é judeu como eu; o próximo é o vulnerável, é o diferente, é o estrangeiro. Lévinas também se inspira na ideia judaica de que cada pessoa é criada à imagem de Deus, mas interpreta isso não teologicamente, e sim eticamente: a imagem de Deus não é algo que eu possuo, mas algo que vejo no rosto do outro. O outro, em sua vulnerabilidade, evoca o divino. Isso não é teologia — Lévinas não diz que se deve ser ético porque Deus o ordena; sua filosofia funciona inclusive para o ateu, para quem não é judeu, para quem não acredita em Deus. O que ele afirma é que a experiência ética, o encontro com o rosto do outro, é tão fundamental que as religiões a reconheceram e a expressaram, cada uma a seu modo. Como diz de forma muito bela, “Deus vem à ideia através do rosto do outro”: não é que primeiro se acredite em Deus e depois se seja ético, mas que, ao sermos éticos, ao reconhecermos o outro em sua alteridade e ao respondermos a ele, tocamos algo que as religiões chamam de divino.
A responsabilidade infinita e assimétrica
Nesse sentido, Lévinas propõe uma das ideias mais difíceis e radicais de sua filosofia: a responsabilidade infinita que temos para com o outro. À primeira vista parece absurdo — sou infinitamente responsável pelo outro —, e essa responsabilidade é, além disso, assimétrica, pois não depende da reciprocidade: sou responsável infinitamente pelo outro mesmo que o outro não se responsabilize por mim. É preciso, contudo, evitar o mal-entendido. Lévinas não diz que se deva ser um capacho do outro, aceitar abusos ou violência, ou abdicar dos próprios direitos. Ele fala de algo mais fundamental: a estrutura básica da subjetividade ética. Imagine-se passeando à beira de um lago e, de repente, vendo uma criança se afogando: não se para para calcular se essa criança faria o mesmo por nós; simplesmente se sente o apelo, a urgência de ajudar naquele momento. Essa responsabilidade, premente e evidente, surge antes de qualquer cálculo, antes de qualquer contrato; é assimétrica e imediata.
Lévinas vai ainda mais longe: afirma que sou responsável até pela responsabilidade do outro. Se o outro faz mal a alguém, de certa forma sou responsável por não ter sido capaz de despertar nele um senso ético. Isso parece excessivo, mas pense-se em termos concretos: quando acontece uma tragédia — um ataque terrorista, um crime hediondo —, não nos perguntamos “como foi possível? onde falhamos como sociedade? o que poderíamos ter feito de diferente?”. Essa é a responsabilidade infinita de que Lévinas fala, que inclui até a responsabilidade pela responsabilidade do outro. Ele tem uma frase marcante: “todos os homens são responsáveis uns pelos outros, e eu mais do que todos”. Todo mundo é responsável por todo mundo, mas eu sou o mais responsável — o que significa que não se trata de uma responsabilidade genérica e abstrata, mas sempre de um eu em primeira pessoa que é o mais responsável.
A justiça e o terceiro
Até aqui se falou da relação entre o eu e o outro; mas o mundo não é feito apenas de relações duais, pois há sempre um terceiro, um quarto, uma pluralidade de outros. Como fica a ética quando preciso responder a vários outros ao mesmo tempo? É aqui que Lévinas introduz a noção de justiça. A justiça nasce quando preciso comparar o que não pode ser comparado — comparar o incomparável — e distribuir a minha responsabilidade entre vários outros. Se tenho um pão e duas pessoas famintas, o que faço? A resposta não pode vir só da ética do face a face; ela precisa de critérios, de medidas, de leis bem pensadas. Mas — e isso é crucial — a justiça política, para Lévinas, nunca pode esquecer sua origem ética. As leis, as instituições e o Estado são necessários, mas devem sempre ser corrigidos e questionados a partir do rosto do outro. Uma lei que desumaniza, que não vê rostos, que só vê categorias, é em si uma lei injusta.
Tome-se um exemplo atual: a questão dos refugiados. Do ponto de vista formal, da justiça política, do Estado, há procedimentos, cotas e regulamentos. Mas Lévinas lembraria que, atrás de cada número, há um rosto; atrás de cada documento, há uma singularidade, um apelo ético. A política dos Estados deve ser sempre interpelada pela ética do rosto.
A linguagem: o dizer e o dito
Essa necessidade de ir ao outro manifesta-se também na concepção levinasiana da linguagem. Lévinas distingue o dizer e o dito. O dito é o conteúdo da comunicação, a informação transmitida, as palavras em seu significado objetivo. Já o dizer é o ato de se dirigir a alguém; o dizer pressupõe a abertura ao outro, a exposição de si. Pense-se em quando se diz “bom dia” a alguém: o conteúdo informativo é mínimo — não se está realmente informando que o dia está bom. O que se faz é simplesmente reconhecer a presença do outro, dizer “eu vejo você, você importa”, abrindo uma relação. É justamente isso o dizer, e o dizer é sempre ético: falar é sempre falar a alguém, é sempre se expor, é sempre se tornar deliberadamente vulnerável ao outro. Mesmo quando se mente, mesmo quando se agride verbalmente, mesmo quando se briga ou se discute, ainda assim se reconhece o outro como interlocutor, reconhece-se nele a alteridade.
Há ainda outro aspecto: o dizer sempre excede o dito. Diz-se sempre mais do que as meras palavras dizem, mais do que se pretendia; revela-se sempre mais do que se queria. Certamente já se teve a experiência de dizer algo e perceber que se revelou sobre si mesmo mais do que se imaginava — esse é um excesso inevitável do dizer em relação ao dito. E é por isso que o silêncio com frequência é pior do que palavras duras: quando impera o silêncio, impera a negação da alteridade; aquele que responde com silêncio frio responde negando a humanidade do outro.
Aplicações contemporâneas: direitos humanos, tecnologia, hospitalidade e educação
A filosofia não é só um exercício intelectual de saber o que um pensador disse; deve ajudar a pensar melhor e a viver melhor. Cabe então perguntar como as ideias de Lévinas se aplicam ao mundo de hoje. Em primeiro lugar, a questão dos direitos humanos. Normalmente, fundamentam-se os direitos humanos na dignidade intrínseca de cada pessoa, na razão, numa concepção naturalista da natureza humana. Lévinas oferece outro fundamento: os direitos humanos expressam, de modo jurídico, o que o rosto do outro exige de modo ético. Antes de qualquer declaração universal, o rosto já diz “não me mates, não me humilhes, respeita-me” — e é nisso que se fundamenta a ideia de direitos humanos.
Pode-se pensar também na tecnologia e nas relações virtuais. Vive-se cada vez mais mediado por telas — do computador, do tablet, da televisão, do celular. Mas o que acontece com o rosto do outro quando ele se torna uma imagem no Instagram, um perfil no Facebook? Lévinas talvez nos alertasse: cuidado para não perder a dimensão ética da relação, cuidado para não transformar o outro em objeto de consumo virtual, pois aí se perde a humanidade. Outra questão é a da hospitalidade e da imigração. Para Lévinas, o estrangeiro tem um status ético muito especial: é o outro por excelência, o que vem de fora, o que não compartilha dos meus códigos, da minha cultura, da minha língua. A forma como uma sociedade trata os seus estrangeiros revela o seu nível ético fundamental. Uma sociedade que trata bem o estrangeiro tem um alto nível de humanidade; uma sociedade que o trata mal — que o ameaça com a expulsão e a pobreza, que o humilha, que lhe diz “aqui não é a sua terra, volte para onde veio” — é uma sociedade que está perdendo a humanidade, cujo nível ético é muito baixo.
Por fim, a questão da educação. Uma educação baseada nas ideias de Lévinas não seria apenas a transmissão de conhecimento, mas, em primeiro lugar, uma abertura à alteridade: ensinar os jovens a ver rostos, a ver o outro real e concreto, e não categorias; ensinar a responder ao outro, e não somente a competir com ele. Aqui Lévinas se aproxima de outro pensador judeu, Theodor Adorno, autor do texto Educação após Auschwitz, no qual afirma que a primeira tarefa da educação precisa ser impedir que Auschwitz aconteça novamente, impedir a barbárie, impedir que o outro seja considerado uma categoria, uma ideia. Há uma grande confluência entre os dois nessa visão da educação como tendo, em primeiro lugar, uma função ética.
Reflexões finais: enquanto houver rostos, haverá ética
Chegando ao fim, cabem algumas reflexões. Lévinas ensina que a filosofia não pode ser separada da vida, da história, do sofrimento concreto. Sua obra é uma resposta ao século XX — aos totalitarismos, ao genocídio, ao Holocausto, à bomba atômica —, mas é também uma resposta perene à tentação humana de reduzir o outro ao mesmo, de negar a alteridade. A filosofia de Lévinas mostra que a ética não é uma disciplina entre outras, um departamento ou uma cadeira no curso de filosofia, algo que se estuda depois de resolver as questões metafísicas. A ética é primeira, é fundamental, é fundadora — porque, antes de sermos seres pensantes, somos seres responsáveis.
O rosto do outro é talvez a imagem mais poderosa que Lévinas nos deixa: não uma ideia abstrata, mas o rosto concreto daquele que encontro — o mendigo na esquina, o refugiado na fronteira, o vizinho do prédio, o colega de trabalho, o aluno na sala de aula, o paciente no consultório, no hospital. Cada rosto é um apelo ético, uma convocação à responsabilidade. Lévinas ensina ainda a suspeitar dos discursos totalizantes, das ideologias que prometem explicar tudo, das filosofias que reduzem a multiplicidade a uma unidade — porque o outro sempre escapa, sempre surpreende, sempre transcende as nossas categorias. E, por fim, oferece uma esperança: mesmo depois de Auschwitz, mesmo depois de toda a barbárie, o rosto do outro continua a nos questionar; a ética não morreu, a responsabilidade não desapareceu. Enquanto houver rostos, haverá ética.
Não é preciso concordar com tudo o que Lévinas diz; suas ideias às vezes são muito duras, muito exigentes — e talvez ele ficasse desapontado se fossem aceitas sem questionamento. O importante é que cada um se pergunte: como me relaciono com o outro? Vejo rostos ou vejo categorias? Rostos ou números? Rostos, ou casos e doenças? Assumo a responsabilidade pelo outro ou a rejeito? Daí o exercício sugerido: nos próximos dias, ao encontrar alguém, especialmente alguém diferente, tente-se realmente ver o seu rosto — não apenas olhar, mas enxergar, perceber a sua vulnerabilidade, o seu apelo. É difícil, porque se está acostumado a categorizar o outro muito rapidamente; mas vale a tentativa. E vale ler Lévinas: começar por Ética e Infinito, uma entrevista mais acessível e de leitura fácil, e depois enfrentar um livro mais difícil, mas que vale a pena, Totalidade e Infinito.
Glossário
Referências Bibliográficas
Emmanuel Lévinas. Totalidade e Infinito e Totalité et Infini(Totalité et Infini, 1961)
Emmanuel Lévinas. Ética e Infinito e Éthique et Infini(Éthique et Infini, 1982)
Theodor W. Adorno. Educação após Auschwitz e Erziehung nach Auschwitz(Erziehung nach Auschwitz, 1966)
Edmund Husserl (o método fenomenológico. Ser e Tempo e Sein und Zeit(Sein und Zeit, 1927)
Fiódor Dostoiévski. Crime e Castigo(mencionado como exemplo da literatura que coloca a ética no centro da narrativa)
O *Talmud* (compilação dos debates rabínicos). (compilação dos debates rabínicos)
Emmanuel Lévinas. De outro modo que ser, ou para além da essência e Autrement qu'être ou au-delà de l'essence(Autrement qu'être ou au-delà de l'essence, 1974)
Emmanuel Lévinas. Quatro leituras talmúdicas e Do sagrado ao santo
Emmanuel Lévinas. A teoria da intuição na fenomenologia de Husserl(1930)
Hannah Arendt. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal