Martin Buber
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Martin Buber (1878–1965) e sua filosofia do diálogo, uma visão radicalmente relacional da experiência humana. Após a biografia — a infância marcada pela separação dos pais e pela formação na casa do avô, estudioso da tradição judaica; a formação plural; o envolvimento com um sionismo cultural e dialógico; o exílio e a cátedra em Jerusalém — e o mapa de suas influências (Kant, Hegel, Nietzsche, o existencialismo religioso e, sobretudo, a mística hassídica), a exposição chega ao núcleo: a metafísica da relação. Contra a metafísica ocidental da substância e contra o cogito cartesiano (o "eu penso" solitário), Buber sustenta que o ser humano não é uma substância isolada, mas um ser que só se constitui na relação — "o ser humano é relação". Daí a distinção fundamental, exposta na obra Eu e Tu (1923), entre duas atitudes: a relação Eu-Isso (instrumental, objetificante, do uso, do conhecimento e do controle — o mundo necessário da ciência, da técnica e da economia) e a relação Eu-Tu (o encontro genuíno, em que o outro é reconhecido em sua alteridade e presença integral, numa reciprocidade sujeito-sujeito). O problema não é o Isso, mas seu imperialismo, quando toda a realidade se reduz a objetos. A aula desenvolve a concepção de Deus como o "Tu eterno", encontrado no entrecruzamento de todas as relações autênticas, a crítica ao individualismo metafísico moderno (o eu isolado é uma abstração; é o "tu" da mãe que desperta o "eu" do bebê) e a aplicação a múltiplas esferas (educação, amor, política, natureza, espiritualidade), ilustradas por histórias concretas — culminando no convite a uma "revolução silenciosa" do diálogo e da presença.
Pontos-Chave
Buber, o pensador do entre: filósofo judeu (1878–1965), nascido em Viena, formado na espiritualidade hassídica do avô; sionista cultural (não nacionalista), defensor do diálogo entre judeus e árabes; exilou-se em Jerusalém. Transita entre filosofia e teologia, particular e universal.
Influências sintetizadas: Kant (os limites do conhecimento, mas a subjetividade se constitui na relação), Hegel (a dialética, sem o sistema totalizante), Nietzsche (o indivíduo autêntico, mas a autenticidade se realiza no encontro) e, sobretudo, a mística hassídica (a presença de Deus no cotidiano).
A metafísica da relação: contra a metafísica ocidental da substância e da identidade, Buber sustenta que o ser humano não é uma essência fechada, mas um ser que só se constitui na relação com o outro — "o ser humano é relação".
Contra o cogito: não o "penso, logo existo" solitário de Descartes, mas o "nós nos encontramos"; a existência autêntica não é autossuficiência, mas abertura e resposta ao outro.
Eu-Isso: a atitude instrumental e objetificante, em que o outro é reduzido a coisa a ser usada, analisada, classificada (o médico que vê só o caso clínico, a educação bancária, as redes sociais que reduzem a curtidas).
Eu-Tu: o encontro genuíno, em que o outro é reconhecido em sua alteridade e presença integral, numa relação sujeito-sujeito; não pode ser forçado nem institucionalizado, é um momento de graça e, por isso, efêmero.
O necessário Isso e seu imperialismo: o mundo do Isso (ciência, técnica, economia) é necessário; o problema surge quando se torna o único modo de relação — "quem vive só com o Isso não é homem".
O Tu eterno: Deus não é um conceito teológico nem uma entidade a demonstrar, mas o "Tu eterno" que se encontra no entrecruzamento de todas as relações autênticas; cada relação Eu-Tu é uma janela para o divino.
Crítica ao individualismo metafísico: o eu isolado (de Descartes a Locke e Rawls) é uma abstração; o ser humano não começa indivíduo para depois entrar em relação — é o "tu" da mãe que desperta o "eu" do bebê. Daí as patologias modernas: alienação, perda de sentido, instrumentalização.
A revolução silenciosa: o convite de Buber não é negar o Isso, mas manter viva a capacidade de transitar para o Tu — um desafio existencial, ético, espiritual e político de redescobrir o encontro genuíno em meio à reificação geral.
Transcrição da Aula
Vida e influências de Buber
A aula explora as ideias de Martin Buber, pensador que, apesar de sua enorme relevância, frequentemente fica à sombra dos grandes nomes da filosofia — um filósofo que ousou questionar os alicerces da modernidade ao propor uma visão radicalmente relacional da experiência humana, desmontando, com poucas palavras, séculos de individualismo filosófico. Buber nasceu em Viena, em 1878, numa Europa que vivia o momento da crise da razão iluminista, quando o otimismo científico dos séculos XVIII e XIX começava a ser questionado. Sua biografia já antecipa os temas que desenvolveria: aos três anos, a separação dos pais — evento traumático que marcou sua sensibilidade — levou-o a ser criado pelo avô paterno, Salomon Buber, renomado estudioso da tradição judaica, num ambiente impregnado de espiritualidade e cultura judaica, determinante para seu pensamento. Sua formação foi plural — filosofia, psicologia, filologia, história da arte, em Viena, Leipzig, Berlim e Zurique —, revelando um espírito que recusava as compartimentalizações rígidas do conhecimento.
Foi importante seu envolvimento com o movimento sionista, que via não como movimento político nacionalista, mas a partir de uma perspectiva cultural e espiritual do judaísmo, com uma abordagem dialógica que buscava o reconhecimento mútuo entre judeus e árabes na Palestina. Em 1938, precisou deixar a Alemanha e estabeleceu-se em Jerusalém, onde ensinou filosofia na Universidade Hebraica até se aposentar, em 1951, permanecendo ativo até a morte, em 1965.
Buber dialogou com várias tradições, sintetizando influências díspares numa visão coerente e original. De Kant, absorveu a preocupação com os limites do conhecimento e a questão da subjetividade — mas vai além do sujeito kantiano, mostrando que a própria subjetividade se constitui na relação. De Hegel, a visão dialética das relações humanas — mas rejeitando o sistema totalizante, em favor de uma abordagem mais existencial e concreta. De Nietzsche, a crítica à modernidade e a valorização do indivíduo autêntico — mas, para Buber, a autenticidade nunca é solitária, realiza-se no encontro. As influências mais profundas, porém, vieram do campo religioso e espiritual: a mística judaica, em particular o hassidismo, com sua ênfase na alegria, na presença de Deus no cotidiano e na sacralidade do encontro humano. Mesmo sendo judeu, Buber interessou-se profundamente pelo cristianismo, lendo e comentando os evangelhos com sensibilidade, pois considerava porosas as fronteiras entre as tradições religiosas. Pode-se situá-lo como o principal representante de uma filosofia do diálogo, associado a um existencialismo de cunho religioso (ao lado de Kierkegaard, Gabriel Marcel e Paul Tillich) — mas o mais adequado é compreendê-lo como um pensador que habita os “entres”: entre filosofia e teologia, tradição e inovação, particular e universal, coerentemente com sua própria valorização do espaço do encontro.
A metafísica da relação
Aqui se vê como Buber rompe com as tradições metafísicas estabelecidas. A metafísica ocidental, desde Platão e Aristóteles até Descartes, foi predominantemente uma metafísica da substância, da essência e da identidade, em que o ser é pensado como aquilo que subsiste em si mesmo. Buber propõe algo radicalmente diferente: uma metafísica da relação. Para ele, o ser humano não é propriamente uma substância nem uma essência fechada em si, mas um ser que só se constitui plenamente na relação com o outro — é no encontro que o ser se revela em sua plenitude. A revolução que isso representa é imensa: não se trata mais do cogito cartesiano, do “eu penso” solitário que fundamenta a existência, mas do “eu encontro alguém”, ou melhor, do “nós nos encontramos”, em que pensamos juntos — um cogitamus, e não um cogito. A existência autêntica não é autossuficiência, mas abertura e resposta ao outro.
Um exemplo ilustra a mudança: quando se pergunta “quem é você?”, espera-se uma resposta baseada em atributos individuais (sou professor, sou brasileiro, gosto de música renascentista); mas, na perspectiva buberiana, a pergunta mais fundamental seria “com quem você se relaciona? quem são os seus Tus?”, pois é nessas relações que o eu se constitui e se revela. Isso não significa negar a individualidade: ao contrário, Buber a valoriza profundamente — mas, para ele, a verdadeira individualidade não é o isolamento, e sim a capacidade de entrar numa relação autêntica. Quanto mais capaz alguém é de se abrir ao encontro genuíno, mais plenamente se torna ele mesmo. Em resumo: o ser humano é, essencialmente, um ser de relação.
Eu-Isso e Eu-Tu
A partir desse princípio, Buber desenvolve a distinção entre as atitudes fundamentais Eu-Isso e Eu-Tu — o núcleo de sua filosofia. A relação Eu-Isso é aquela em que o outro é visto não como alguém, mas como uma coisa a ser utilizada, analisada, classificada — uma relação instrumental e objetivante, sem encontro genuíno, em que o eu mantém distância, observa, analisa e manipula o objeto, reduzido a um conjunto de qualidades e funções. Exemplos no cotidiano: o médico que trata o paciente apenas como caso clínico, como conjunto de sintomas, sem ver a pessoa em sua integralidade; o professor que vê os alunos como receptáculos passivos do conhecimento, numa “educação bancária”, como apontava Paulo Freire; as redes sociais, em que se tratam os outros como números (curtidas, visualizações, seguidores); o debate político em que se vê o oponente apenas como representante de uma ideologia, e não como pessoa com suas razões e vivências.
Em contraste, a relação Eu-Tu é aquela em que o outro é reconhecido em sua alteridade, unicidade e presença integral — não mais uma relação sujeito-objeto, mas sujeito-sujeito. O outro não é mais um Isso, mas um Tu, um ser que me interpela e me convoca a uma resposta. Há relação Eu-Tu quando duas pessoas conversam e realmente se escutam, sem pressa nem agenda prévia, abertas ao inesperado do diálogo; quando contemplamos uma obra de arte e nos deixamos tocar por ela, sem reduzi-la a classificações técnicas; quando um terapeuta estabelece uma relação de confiança e vê o cliente não através de categorias diagnósticas, mas como um ser humano único; quando, na natureza, nos deixamos tocar por um pôr do sol ou pela beleza de uma árvore, sem uma relação de consumo. Uma característica fundamental da relação Eu-Tu é que ela não pode ser forçada: acontece quando nos abrimos à presença do outro e nos permitimos ser tocados e transformados pelo encontro — é uma relação de abertura à ação do outro. E é o lugar privilegiado do sagrado: Deus não é um objeto a ser conhecido ou demonstrado por provas lógicas, mas um “Tu eterno” que nos interpela e exige resposta em cada encontro autêntico; cada relação Eu-Tu abre uma janela para o divino. Buber ressalta ainda o papel da linguagem: a linguagem verdadeira nasce do encontro, não é primariamente instrumento de designação de objetos, mas o meio pelo qual respondemos ao apelo do outro e dizemos “tu” a um ser.
A obra Eu e Tu e o Tu eterno
Em 1923, Buber publicou sua obra mais influente, Eu e Tu (publicada no Brasil pela Martins Fontes) — um livro curto, mas densíssimo, escrito em estilo quase poético e aforístico. Sua tese central pode ser resumida numa frase: o homem se torna eu no encontro com o tu. Não é o isolamento nem a introspecção solitária que nos constituem como pessoas, mas a relação, o diálogo, o encontro. O livro começa estabelecendo a distinção entre as atitudes Eu-Isso e Eu-Tu. A relação com o Isso é uma relação de experiência, de utilidade e de uso, em que organizamos e classificamos o mundo e utilizamos os objetos — o mundo da ciência, da técnica e da economia, um mundo necessário, sem o qual não poderíamos viver (utilizamos um utensílio para beber chá, o computador para trabalhar ou assistir a uma aula, um meio de transporte para chegar a um destino). Não há nada intrinsecamente errado com o mundo do Isso; o problema surge quando ele se torna o único modo de relação, quando toda a realidade é reduzida a objetos de uso, conhecimento e controle. Como diz Buber, o homem não pode viver sem o Isso, mas aquele que vive só com o Isso não é homem.
O mundo do Tu, por outro lado, é o mundo do encontro, da presença e da relação viva, sem objetificação nem distanciamento analítico, com presença mútua, diálogo e reciprocidade: a intimidade profunda entre amantes, o encontro genuíno entre amigos, a relação autêntica entre mestre e discípulo, a contemplação reverente de uma obra de arte ou da natureza, a experiência da oração e da meditação. Uma característica crucial da relação Eu-Tu é sua efemeridade: não pode ser sustentada indefinidamente, institucionalizada ou sistematizada. Os momentos Eu-Tu são momentos de graça que iluminam a existência cotidiana e, inevitavelmente, tendem a se transformar em relações Eu-Isso — o amante se torna parceiro, o amigo se torna um contato, o mestre se torna autoridade. O desafio é renovar continuamente a possibilidade do encontro, resistindo à tendência de reduzir tudo e todos a objetos.
Uma das contribuições mais originais de Eu e Tu é a concepção de Deus como um Tu eterno. Para Buber, Deus não é um conceito teológico, uma substância metafísica ou uma entidade sobrenatural, mas é encontrado no próprio fenômeno da relação, na possibilidade sempre renovada do encontro. Cada relação autêntica Eu-Tu é uma janela para o divino, pois nela experimentamos a transcendência e compreendemos que o outro não pode ser reduzido a uma categoria ou à sua utilidade. Como escreve Buber, as linhas de todas as relações, se prolongadas, se entrecruzam no Tu eterno: toda abertura para o outro é também uma abertura para o absolutamente Outro, para o Tu que jamais pode se tornar Isso.
As duas atitudes nas esferas da vida
A diferença entre as duas atitudes ilumina várias esferas. Na educação, a relação Eu-Isso é a do professor que vê o aluno como receptor passivo, como número na chamada e nota no boletim, reduzido a objeto de avaliação — a “educação bancária” criticada por Paulo Freire na Pedagogia do Oprimido; já a relação Eu-Tu é a do educador que estabelece um diálogo genuíno, está aberto a ser transformado pelo encontro e vê cada aluno como um ser único, fazendo o conhecimento emergir da própria conversação. O professor relata uma experiência: ao receber uma turma desafiadora, sua primeira tendência foi ver um aluno “agitado” como um problema a gerenciar — atitude Eu-Isso. Mas, quando esse menino lhe perguntou se podia assistir à aula deitado e ele permitiu, algo mudou: o aluno deixou de ser um caso disciplinar e passou a ser compreendido como um ser humano complexo, com aspirações e dificuldades; recebendo a liberdade de que precisava, passou a acompanhar e a participar das aulas de modo existencialmente confortável. (A coordenação estranhou, mas concedeu o “benefício” ao professor de filosofia.) Anos depois, porém, o professor reencontrou o mesmo aluno no ensino médio, completamente diferente — calado, dormindo nas aulas, recolhido —, e foi informado, “com alegria”, de que ele estava “ótimo” porque agora estava “medicado”: novamente visto por muitos como um Isso a ser controlado e consertado, e não como um eu.
Nas relações amorosas, a relação Eu-Isso é a do parceiro que vê o outro como meio de satisfação dos desejos, de prazer ou de status, reduzido a funções e a “valor”; a relação Eu-Tu é a de amantes que se encontram em sua totalidade e se reconhecem como seres únicos e irredutíveis, num encontro motivado não pela utilidade, mas pela presença e pelo mistério do outro, que nunca pode ser totalmente apreendido. (O professor recorda um casal de amigos cuja idealização inicial do parceiro — uma forma sutil de objetificação — deu lugar, com as crises, ao confronto com a alteridade real, aprendendo a dizer “tu” ao parceiro real, e não ao imaginado.) Na política, a relação Eu-Isso reduz tudo a números, estatísticas, ideologias e votos, e o cidadão a eleitor, consumidor ou contribuinte; a relação Eu-Tu vê a política como encontro autêntico entre cidadãos, diálogo sobre o bem comum e reconhecimento da dignidade inalienável de cada pessoa. (O professor recorda um episódio de quando foi representante estudantil num conselho municipal de saúde: a discussão técnica e burocrática sobre a instalação de um hemocentro mudou de natureza quando uma senhora idosa relatou como, anos antes, uma transfusão de sangue salvara sua vida e lhe permitira ser mãe e avó — e a discussão deixou de ser sobre um projeto para ser sobre o significado real de salvar vidas concretas.)
Na relação com a natureza, a ótica Eu-Isso a vê como recurso a ser explorado, matéria-prima ou objeto de estudo — a árvore reduzida a madeira, o rio a recurso hídrico, a paisagem a atração turística; na relação Eu-Tu, a natureza é reconhecida em sua alteridade e mistério. (O professor recorda uma caminhada na floresta em que, diante de uma árvore centenária, começou a classificá-la analiticamente — espécie, idade, função ecológica, atitude Eu-Isso —, mas, ao perceber o que fazia, simplesmente passou a estar presente diante dela, reconhecendo sua existência única, num breve momento de relação Eu-Tu com o ser não humano.) Na espiritualidade, a relação Eu-Isso reduz Deus a conceito teológico, a entidade a ser provada por argumentos, e a religião a um conjunto de doutrinas e normas, e a fé a uma adesão intelectual a proposições; na relação Eu-Tu, Deus é recebido como presença viva, como o Tu que interpela, a religião é abertura ao mistério e diálogo com o transcendente, e a fé é uma relação de confiança. Muitos abandonam a religião formal por senti-la convertida num sistema de proposições abstratas, desconectado da experiência viva — uma religião vivida como Eu-Isso —, quando o que buscam é o encontro genuíno com o divino.
A crítica ao individualismo metafísico
A filosofia do diálogo de Buber representa uma alternativa radical ao individualismo metafísico que domina o pensamento ocidental desde a modernidade. Esse individualismo (de Descartes a correntes contemporâneas) baseia-se em premissas fundamentais: o indivíduo é a realidade primária, o “átomo social”; a consciência individual isolada e autônoma é o ponto de partida do conhecimento e da certeza (o cogito); e as relações sociais são secundárias, derivadas, resultado de um contrato entre indivíduos já plenamente constituídos. (O professor menciona ter um livro sobre o tema, Pax Eterna: um ensaio sobre o sujeito atômico.) Essa visão encontra sua expressão paradigmática no cogito cartesiano: na busca de um fundamento inabalável, Descartes recorre à introspecção solitária — sozinho, em seu robe de chambre —, colocando sob dúvida o outro, o mundo externo e o próprio corpo, restando apenas a certeza da mente individual. John Locke, por sua vez, desenvolve uma teoria política baseada no indivíduo atomizado, dotado de direitos naturais anteriores à sociedade, sendo o contrato social um acordo entre indivíduos autônomos para proteger direitos preexistentes (vida, liberdade e propriedade, redutíveis ao direito de propriedade). Esse individualismo permeia toda a cultura moderna: as teorias econômicas que partem do indivíduo maximizador da utilidade, as teorias políticas que veem a sociedade como soma de preferências individuais, as psicologias que reduzem a pessoa a uma mente isolada processando informações.
A crítica de Buber a esse individualismo é radical: o eu isolado é uma abstração, não tem realidade, pois o ser humano não começa como indivíduo para depois entrar em relação — é, desde o início, um ser em relação. Descartes errou o ponto de partida: não se trata de um “penso, logo existo”, mas de um “relaciono-me, logo existo”, ou “alguém me diz tu, logo sou eu”. Basta pensar na experiência de um bebê: ele não começa como um eu consciente que depois descobre os outros; é pelo encontro com os outros, especialmente com a mãe que o acolhe, o alimenta e o olha nos olhos, que o bebê gradualmente se descobre como um eu — é o “tu” da mãe que desperta o “eu” infantil. A relação não procede da individualidade; a individualidade emerge da relação. Enquanto a tradição liberal (de Locke a Rawls) pensa a sociedade como acordo entre indivíduos previamente constituídos, Buber convida a pensar a própria individualidade como emergindo das relações comunitárias: não há um eu sem um tu, não há indivíduo sem comunidade. E o problema do individualismo moderno não é apenas teórico, mas existencial: ao conceber o ser humano como essencialmente isolado, condena-o a uma solidão metafísica, a um desenraizamento e a uma incapacidade de encontro verdadeiro — donde as patologias da modernidade: a alienação, a perda de sentido e a instrumentalização de todas as relações.
A revolução silenciosa do encontro
Vivemos num mundo profundamente marcado pelo modo Eu-Isso: a economia transforma tudo em mercadoria, a tecnologia transforma pessoas em dados, a política desumaniza os adversários, as escolas tratam os estudantes como números, e até as relações mais íntimas correm o risco de ser contaminadas pela lógica da utilidade e da objetificação. E, no entanto, todos conhecemos momentos — raros, mas luminosos — em que essa lógica se rompe e experimentamos o encontro genuíno: o instante em que o amigo nos olha nos olhos e realmente nos vê, o gesto de solidariedade em que o estranho se torna presença viva, a conversação que nos transforma porque nos abrimos ao outro. São esses momentos que nos salvam da desumanização e nos devolvem ao mundo da relação viva. Esse é o convite fundamental de Buber: reconhecer e cultivar a possibilidade sempre renovada do encontro. Não se trata de negar o mundo do Isso — seria impossível e indesejável, pois precisamos de objetos, técnicas e instrumentos para viver —, mas de resistir à sua predominância exclusiva, ao seu imperialismo, que invade todas as esferas. O desafio é manter viva a capacidade de transitar entre os dois modos de relação e de não nos deixarmos aprisionar no mundo reificado do Isso. É um desafio existencial (porque diz respeito ao nosso modo fundamental de ser), ético (porque implica responsabilidade pelo outro), espiritual (porque nos abre ao mistério e à transcendência que se manifestam no encontro) e político (porque exige a construção de estruturas sociais que favoreçam o diálogo, a comunidade e o reconhecimento).
O professor encerra com uma história pessoal: numa viagem de trem em Portugal, sentado ao lado de um senhor idoso, estava absorvido no telefone, isolado em sua bolha, quando o homem começou a conversar. Após uma ponta de irritação, algo o fez guardar o telefone e realmente escutar. Naquelas duas horas de viagem, o senhor contou sua história — vinha de uma pequena aldeia, perdera recentemente a esposa e ia a um tratamento de saúde em Lisboa. Não eram informações extraordinárias, mas a forma como ele falava e olhava, e a atenção recíproca, criaram um espaço de autenticidade rara entre estranhos: já não eram “o passageiro da poltrona 23” e “o senhor de bengala” — categorias do mundo do Isso —, mas presenças vivas, num genuíno encontro. Ao se despedir, o professor sentiu que algo havia mudado nele. Esse breve encontro ilustra o que Buber ensina: a nossa humanidade se realiza plenamente quando saímos da nossa bolha e nos abrimos ao outro como um Tu, e não como um Isso.
Esse é o grande convite da filosofia de Martin Buber: redescobrir, em meio à reificação geral, a possibilidade sempre renovada de um encontro genuíno — uma revolução silenciosa, mas profunda: a revolução do diálogo, da presença, da relação Eu-Tu. E, se Buber estiver certo, cada vez que dizemos verdadeiramente “tu” a um ser, não apenas transformamos nossa relação com ele, mas abrimos uma janela para o divino, para o Tu eterno. Talvez a pergunta mais fundamental que Buber nos deixa não seja “quem sou eu?”, mas “como estou no mundo? como me relaciono? a quem digo tu?” — pois não é na solidão do cogito cartesiano que nos descobrimos humanos, mas no espaço sagrado do encontro, onde o eu e o tu nascem simultaneamente, na palavra-princípio da relação.
Glossário
Referências Bibliográficas
Martin Buber. Eu e Tu e Ich und Du(Ich und Du, 1923; edição brasileira pela Martins Fontes)
René Descartes (o *cogito* e o individualismo metafísico); John Locke (o contrato social e o indivíduo de direitos naturais); John Rawls (a tradição liberal). (o cogito e o individualismo metafísico)
Immanuel Kant. (influências filosóficas de Buber)
Søren Kierkegaard. (o existencialismo religioso)
Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido(a crítica à "educação bancária")
Gustavo Bertoche. Pax Eterna: um ensaio sobre o sujeito atômico(sobre o individualismo metafísico)
Martin Buber. Histórias do Rabi e A Lenda do Baal-Shem
Martin Buber. Sobre Comunidade e Caminhos de Utopia
Emmanuel Lévinas. Totalidade e Infinito(a ser tratado adiante no curso)
Gabriel Marcel. Ser e Ter(objetivante; relacional)