Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Alfred North Whitehead (1861–1947), matemático que se tornou um dos maiores filósofos de língua inglesa do século XX, embora largamente ignorado pela academia brasileira. A exposição reconstrói as duas etapas de sua trajetória: a primeira, em Cambridge, dedicada à filosofia da matemática e culminando no Principia Mathematica (escrito com seu antigo aluno Bertrand Russell) — obra seminal que o teorema da incompletude de Gödel mostraria fundamentalmente limitada, provando que todo sistema depende de proposições externas a si; a segunda, a partir dos 60 anos e já em Harvard, dedicada à metafísica, numa época em que a metafísica era um "palavrão". O núcleo da aula é tríplice. Primeiro, a tese de que toda ciência pressupõe uma metafísica, e que a ciência moderna nasceu de uma concepção medieval e religiosa de um Deus racional que cria um universo regido por uma única razão. Segundo, a filosofia do processo: contra o materialismo substancialista, a realidade não é feita de coisas e substâncias permanentes, mas de processos e fluxo perpétuo (uma retomada radical de Heráclito), num pan-experiencialismo em que tudo, até a pedra, experimenta e possui liberdade criativa; e um Deus que não é um governante moral, mas o amor que perpassa a realidade, ele próprio imerso no fluxo e modificado pelo mundo numa relação de dupla via. Terceiro, a filosofia da educação de Whitehead — a crítica à memorização inútil, à multidisciplinaridade e às provas padronizadas, e a defesa de um currículo transdisciplinar ancorado nas necessidades reais de cada estudante —, com a qual o professor declara concordância integral.

Pontos-Chave

  • Whitehead, matemático tornado filósofo: inglês (1861–1947), professor em Cambridge (Trinity College) e depois em Harvard; convidado para a cátedra de filosofia sem ter formação filosófica, justamente por sua obra metafísica tardia.

  • O Principia Mathematica e Gödel: a obra monumental escrita com Russell (que leva centenas de páginas para provar que 1+1=2) buscava bases autorreferentes para a matemática; o teorema da incompletude de Gödel, provocado por ela, mostrou que todo sistema é incompleto e depende de proposições externas — refutação que, no entanto, ampliou o conhecimento lógico.

  • As duas fases e o desprezo acadêmico: a academia brasileira estuda apenas o jovem Whitehead lógico-matemático e despreza a obra filosófica madura (A Ciência e o Mundo Moderno, 1925; Processo e Realidade, 1929), por ser metafísica e falar de Deus.

  • Toda ciência pressupõe metafísica: o cientista que diz odiar a metafísica odeia, na verdade, que critiquem a sua própria; quem crê fazer ciência sem metafísica faz ciência com a pior metafísica — a ingênua, que não se reconhece como tal.

  • A origem religiosa da ciência moderna: a ciência depende de uma metafísica medieval que concebe um Deus racional (não arbitrário nem antropomórfico, como os deuses pré-socráticos criticavam), de cuja racionalidade nasce a ideia de um universo — uma só lei, uma só ordem, um só logos —, contra a de um cosmos de leis múltiplas.

  • A filosofia do processo: a realidade não é feita de substâncias permanentes dotadas de essência, mas de processos; tudo é fluxo perpétuo e relação, e nada é idêntico a outra coisa nem a si mesmo em dois momentos — uma retomada radical e séria de Heráclito.

  • Pan-experiencialismo e criatividade: não há matéria inerte; tudo, até a pedra, está em processo, experimenta e possui, em algum grau, liberdade e criatividade, força motriz do mundo. É uma metafísica da liberdade.

  • Deus como amor no fluxo: Deus não é um César nem um ditador no céu, mas o amor e a ternura que perpassam todas as coisas; não é um Deus moral (a recompensa está no aqui e agora), e está ele próprio no fluxo — determina o mundo e é por ele determinado, numa relação de dupla via.

  • Religião como o que se faz na solidão: para Whitehead, religião é o que o indivíduo faz com a própria solidão; um sistema de verdades que contextualiza o sentimento amoroso da realidade e transforma o caráter.

  • A crítica à educação: contra a memorização de conhecimentos inúteis ("de almanaque"), a multidisciplinaridade e as provas padronizadas nacionais (ENEM, IDEB), que não podem avaliar projetos educacionais próprios de cada turma; a favor da transdisciplinaridade e de um currículo ancorado nas necessidades reais dos estudantes.

Transcrição da Aula

Vida e as duas fases de Whitehead

A aula parte das ideias de Alfred North Whitehead, filósofo extraordinário da passagem do século XIX para o XX, cuja obra mais importante foi publicada já no século XX, a partir da década de 1920 — embora seja mais conhecido por um livro de cerca de 1910, escrito com seu antigo aluno Bertrand Russell, o Principia Mathematica. Whitehead era inglês, de família ligada à educação e à religião: seu pai e seu avô haviam sido diretores de escola, e o pai tornou-se ministro da Igreja Anglicana — histórico religioso que ficaria evidente na sua última fase filosófica. Estudou em boas escolas públicas inglesas e, aos dezenove anos, foi para Cambridge estudar matemática no prestigioso Trinity College, por onde passaram grandes gênios da física e da matemática. Excelente aluno, foi eleito fellow do Trinity College e ali ensinou física e matemática de 1884 a 1910, dos 23 aos 49 anos. Essa foi a primeira parte de sua longa carreira, divisível em duas etapas.

Em 1910 concluiu, com Russell, o Principia Mathematica, obra em três volumes que trata dos fundamentos da matemática, buscando estabelecer bases sólidas e autorreferentes para ela. Tão complexa é a argumentação que toma o primeiro volume inteiro e parte do segundo apenas para provar que 1 mais 1 é igual a 2 — a ponto de os próprios autores brincarem que essa demonstração “tem lá seus usos”. O problema é que essa obra foi lida pelo lógico Kurt Gödel, que percebeu nela problemas não solucionados e desenvolveu sua demonstração da incapacidade de um sistema lógico ou matemático de justificar a si mesmo sem recurso a proposições externas: o famoso teorema da incompletude. Gödel mostra que todo sistema repousa em proposições que não constam dele próprio, sendo, em última instância, incompleto — e só pôde demonstrá-lo porque foi provocado pelo Principia. Assim, o Principia foi refutado, mas num sentido que ampliou o conhecimento lógico-matemático e tornou possível a própria refutação: uma obra seminal que logo se mostrou fundamentalmente limitada, mas que, por isso mesmo, fez avançar a filosofia da lógica e da matemática.

Após deixar o Trinity College e passar por outras posições, Whitehead foi convidado, em 1924, aos 63 anos, a lecionar em Harvard — não como matemático ou físico, mas como filósofo. Como esse matemático se tornou filósofo? Toda a sua primeira etapa esteve ligada à matemática, mas não no papel de matemático puro: ele fazia, a rigor, filosofia da matemática (o Principia é um livro de filosofia da matemática) e interessava-se desde o início pelas questões filosóficas que dão sustentação à lógica. Diferentemente do espírito de seu tempo, Whitehead nunca rejeitou a metafísica — quando era de bom tom, entre matemáticos e físicos, desprezá-la —, talvez por sua origem religiosa, embora numa primeira fase declarasse a Russell, em cartas, sua falta de familiaridade com questões metafísicas, que então evitava. Foi convidado por Harvard como filósofo porque havia publicado uma obra de filosofia da natureza (com tradução brasileira pela Martins Fontes) e trabalhava em A Ciência e o Mundo Moderno (1925), composta de conferências, como o posterior Processo e Realidade (1929). Esses dois livros estão no núcleo de seu pensamento, mas são desprezados pelos filósofos profissionais brasileiros, que reduzem sua importância ao Principia. Ora, a filosofia propriamente de Whitehead foi escrita na década de 1920, quando já era idoso — Processo e Realidade aos 70 anos —, assim como um pequeno livro de conferências sobre educação, As Metas da Educação, recentemente publicado no Brasil pela editora Kírion (para cuja edição de As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem, de Dorothy Sayers, o professor escreveu a introdução).

Toda ciência pressupõe uma metafísica

Whitehead começou a escrever sobre metafísica num tempo em que o termo era praticamente um palavrão. Ele próprio observou que todo cientista precisa dizer que odeia e despreza a metafísica — mas, na verdade, o que o cientista odeia é que critiquem a sua própria metafísica. Whitehead percebeu com nitidez algo que muitos, sobretudo os imersos na cosmovisão positivista, não percebem: toda ciência e toda filosofia pressupõem uma metafísica. Não se faz ciência sem metafísica, e aqueles que creem fazê-lo fazem ciência com a pior metafísica — a ingênua, que não se reconhece como tal e se toma pela própria expressão da realidade, posição pueril. O problema não é a metafísica, mas a falta de consciência da metafísica que se usa.

Em A Ciência e o Mundo Moderno, logo no primeiro capítulo, Whitehead defende uma tese impactante que explica seu ostracismo: a ciência moderna — de Galileu, de Newton, a mecânica, o eletromagnetismo do século XIX, a física do XX — depende de uma metafísica especial desenvolvida na Idade Média, de profundo sentido religioso. A ciência depende da religião, mas não no sentido cartesiano (Deus como garantia do conhecimento) — a metafísica cartesiana é, aliás, muito problemática para Whitehead. O argumento é outro: todas as religiões do mundo, exceto o cristianismo medieval, pressupõem um ou vários deuses arbitrários, movidos por paixões e desejos idiossincráticos, deuses humanos demais e, em última instância, irracionais — exatamente o que criticavam os pré-socráticos, como Anaxágoras e Heráclito. Mas há uma divindade diferente, a divindade cristã interpretada na Idade Média: um Deus lógico e racional, em que a racionalidade se confunde com a própria natureza divina. Não um Deus arbitrário, de vontades humanas, mas um Deus que segue leis lógicas porque elas se confundem com seu ser.

É justamente aí que se estabelece o ponto de partida para a compreensão de uma racionalidade intrínseca do mundo, e que surge a ideia de um universo — um mundo único regido por uma única lei, uma única ordem, um único logos —, diferentemente de um cosmos, em que haveria leis e ordens diferentes. O universo nasce como fruto dessa concepção teológica de um Deus racional, e é essa ideia que está na base de toda a ciência moderna, a qual pressupõe, sem nenhuma razão empírica, que o universo inteiro se desenvolva segundo um plano racional e matemático, em todos os tempos e lugares. Isso é metafísica fundamental: não podemos ter certeza empírica disso; trata-se de uma aposta metafísica de origem medieval. Nesse sentido, observa Whitehead, ainda estamos na Idade Média.

Whitehead é um filósofo diferente justamente porque não tem formação filosófica: seus vícios intelectuais são os do lógico e do matemático, não os do professor de filosofia. Por isso, ao publicar seus livros de filosofia, não foi compreendido, e até hoje os filósofos profissionais têm dificuldade em lê-lo, pois sua linguagem — embora eminentemente lógica e racional — é muito mais livre e aberta que a de um acadêmico tradicional. Ele não tem medo da metafísica nem de retornar aos gregos levando a sério o que diziam, e não como mera curiosidade introdutória (a aula inicial sobre os pré-socráticos, Heráclito e Parmênides tratados como curiosidades). É demasiadamente filosófico para os professores brasileiros — e por isso não é lido no Brasil.

A filosofia do processo: contra o materialismo

Whitehead é uma espécie de iconoclasta da filosofia e da ciência tradicionais. Ele aponta os erros da metafísica materialista sobre a qual a ciência moderna se constrói, desde Descartes, Bacon e Locke, e mostra que todo o materialismo de fundo das ciências — que se transmite à filosofia, à política e até à religião — não passa de uma má metafísica, sem nada de necessário. Não apenas acusa o materialismo, como fazia Bergson — que, ao ler Whitehead, surpreendeu-se e o declarou o maior filósofo de língua inglesa do século XX, reconhecimento correto que os filósofos brasileiros têm dificuldade de perceber. Para Whitehead, o materialismo é uma má metafísica especialmente insidiosa, porque suas intuições se cristalizam na própria linguagem: acabamos acreditando, pela gramática, que as coisas têm permanência material — que cada um é um indivíduo único, isolado, idêntico a si mesmo e diferente de tudo, dotado de essência própria.

Abre-se aqui um parêntese: toda filosofia e toda ciência são sustentadas por uma metafísica, e a metafísica é, em última análise, a tentativa humana de enxergar a realidade sob a espécie da eternidade — a partir da perspectiva, da linguagem e da racionalidade humanas, compreender o modo como Deus vê a realidade. É a visão humana tentando elevar-se até a visão divina, e por isso é tão difícil: como dizia Platão, a “segunda navegação”, nas águas da metafísica, é dificílima, um caminhar à beira do abismo sem garantia de chegada. A visão materialista é, ela mesma, metafísica: uma tentativa de ver o mundo como um deus — mas um deus mecânico, um relojoeiro ou arquiteto do universo. Ora, essa ideia não se sustenta, pois pressupõe que a divindade tenha a nossa própria perspectiva e linguagem, com sujeito, verbo e predicado.

Whitehead propõe outra visão. A realidade não se constitui de coisas, de substâncias permanentes dotadas de essências, mas de processos: a realidade é fluxo, e tudo está em processo. Não existe nada permanente — nenhum segundo idêntico a outro, nenhum átomo, elétron ou ser humano idêntico a outro, nem mesmo idêntico a si mesmo em dois momentos —, porque tudo flui em fluxo perpétuo, relacionando-se com tudo. Não é possível determinar uma identidade absoluta de nada, pois tudo está ligado a tudo. É difícil compreendê-lo porque a nossa linguagem é substancialista, de gramática aristotélica; mas Whitehead propõe que superemos as dificuldades da própria língua para compreender como tudo está imerso em tudo. Não existe matéria inerte: mesmo uma pedra está em fluxo e em contato com tudo, transformando-se em grau diferente do nosso, e possui, em alguma medida, liberdade e criatividade — a força motriz do mundo. Trata-se de uma metafísica da liberdade. Para Whitehead, tudo no universo está em movimento e em processo de experimentação: tudo experimenta, num pan-experiencialismo.

O lugar de Deus: o amor no fluxo

Onde se encaixa Deus nessa metafísica heraclítica do fluxo? Whitehead levou a sério o que Heráclito dizia e constituiu uma filosofia propriamente heraclítica, inovadora e coerente — algo que ninguém jamais fizera, pois sempre se tomou Heráclito, ao modo da descrição aristotélica dos antigos fisiólogos, como alguém que propõe algo curioso, mas não digno de ser levado a sério. Para Whitehead, Deus não é um César no céu, nem um ditador, nem um governante das coisas: Deus é o amor, a ternura, o carinho em relação a todas as coisas — um amor que perpassa tudo, tema que ele também colhe nos pré-socráticos como força metafísica. Não se trata do amor entre pessoas, mas de um amor fundamental do qual participamos, que se confunde com a própria divindade que ama o mundo e cada coisa, e que, portanto, não governa o mundo, não é rígido nem punidor. Não é um Deus moral: não há recompensa futura, pois a recompensa está agora, na própria vida e experiência de quem se abre ao amor que perpassa a realidade. Basta estar aberto para perceber e sentir essa ternura da existência.

Deus não é, assim, propriamente um conceito religioso para Whitehead, que pouco se importa com a religião institucional — até porque, para ele, a religião é aquilo que cada pessoa faz quando está sozinha: uma pessoa religiosa é a que, na solidão, busca a ligação com a realidade pela percepção das coisas. Quem nunca está sozinho, nunca tem esses momentos de devoção ao amor que se manifesta na realidade e, portanto, nunca é religioso, por mais que pertença a uma religião. A religião pode ser importante como um sistema de verdades constituído a partir da experiência para dar conta desse sentimento amoroso — sistema que transforma o caráter e funciona como sentimento de pertença e lealdade ao mundo, contextualizando as emoções e dando significado à existência.

Esse Deus de que fala Whitehead é um Deus metafísico, encontrável pela metafísica — e aqui está outra razão de seu desprezo na academia brasileira, que não pode falar de Deus a não ser como crítica ao teísmo, presa que está aos preconceitos iluministas do século XVIII, sem perceber que sob o iluminismo há uma religiosidade, um misticismo, uma metafísica. Esse Deus que é amor constitui-se na ordem das possibilidades criativas da própria realidade. E, como tudo o que há, não está fora do fluxo: aqui Whitehead radicaliza Heráclito, para quem havia o fluxo e os logos que o ordenavam. Para Whitehead, o próprio Deus está no fluxo, é fluxo, não é imutável nem substancial; Deus salva amorosamente a experiência de todas as coisas, e essas experiências vão modificando o próprio modo como Deus age no mundo. Deus determina o mundo e o mundo determina Deus, num fluxo infinito. Mais ainda, Deus só faz sentido num mundo, pois Deus sem o mundo seria apenas um conjunto de possibilidades eternamente irrealizadas; o mundo é necessário para que as possibilidades criativas divinas se atualizem, sempre num fluxo de dupla via.

Numa paráfrase de um trecho poético de Whitehead: se podemos entender um Deus permanente num mundo em fluxo, podemos também entender um Deus em fluxo num mundo permanente; se um Deus uno num mundo múltiplo, também um Deus múltiplo num mundo uno; se um mundo imanente em Deus, também um Deus imanente no mundo; se um Deus que transcende o mundo, também um mundo que transcende Deus; e, finalmente, se um Deus que cria o mundo, também um mundo que, nesse fluxo, cria Deus. Esse Deus amoroso constitui o mundo num ato de amor, e o mundo, de certo modo, reconstitui o próprio Deus amorosamente. Estamos no plano de uma metafísica de Deus absolutamente original — e de uma filosofia ao mesmo tempo original e originária, pois Whitehead, filósofo de formação não filosófica, recupera as águas de um rio subterrâneo que nasce nos fisiólogos pré-socráticos e as traz à luz numa roupagem do século XX. O que ele propõe não é comentarismo, não é pensar sobre o que alguém pensou: é a filosofia com toda a força, como metafísica, como apresentação de uma perspectiva divina da realidade.

A filosofia da educação de Whitehead

Antes de concluir, o professor — que declara Whitehead um de seus filósofos de predileção, por não encontrar onde ele esteja errado — destaca a filosofia da educação, com a qual concorda em cada palavra. Whitehead faz essencialmente as críticas à educação que o próprio professor desenvolveu em seu livro Escola Brasileira e que encontra em educadores de cabeceira como Ivan Illich e John Taylor Gatto. Ele parte da crítica ao currículo: não faz sentido despejar um monte de conhecimentos “de almanaque” na cabeça dos jovens, e estes estão certos quando desprezam essa educação. Qual o sentido de perder os anos mais interessantes da vida — dos 7 aos 18 — memorizando informações que não servem para nada? Por que aprender a resolver uma equação de terceiro grau, se quem fizer engenharia a reaprenderá na faculdade? Trata-se de uma enormidade de conhecimento inútil, uma perda criminosa do tempo da formação humana — os anos mais incríveis da existência, jogados fora na escola.

Whitehead não desprezava a escola: considerava-a importante, mas com o currículo todo errado. A multidisciplinaridade — a quantidade de matérias e disciplinas — é algo tenebroso. Ele propunha a transdisciplinaridade: tomar um tema de interesse e valor na vida dos estudantes e abordá-lo da perspectiva da física, da biologia, da história, da geografia — uma educação baseada em projetos a partir das necessidades reais dos estudantes. Por isso defendia que cada professor, em cada escola, tivesse a liberdade de criar o próprio currículo segundo as circunstâncias e necessidades daqueles estudantes específicos. Não propõe o desaparecimento da escola, mas sua transformação radical, para que os anos de formação sejam de fato formativos, e não de memorização de besteiras inúteis.

O professor ilustra com a lembrança de uma professora de matemática que anunciou a matéria “matrizes” e, ao ser perguntada para que serviam, respondeu honestamente que não sabia — e recusou-se, então, a aprender aquele conteúdo, que seria perda de vida naquela circunstância. É disso que Whitehead fala: da perda de vida que a escola provoca por doze anos, transformando os anos de descobertas, invenções e liberdade em anos de prisão e imbecilidade. Há, porém, coisas importantes que se deve memorizar mesmo sem querer; então, que se mostre por que são importantes — pois, como abre Aristóteles na Metafísica, o homem por natureza deseja conhecer, e os jovens querem conhecer aquilo que faz sentido. Mostre-se o sentido, e o estudante despenderá todo o esforço; o que não importa é fazer prova para o vestibular ou o ENEM.

Whitehead era, aliás, crítico veemente das provas de certificação e das avaliações nacionais (ENEM, IDEB) e de todas as notas padronizadas, porque não se pode comparar projetos educacionais distintos com uma prova única. Uma turma que deseja aprender o ofício de agricultor não verá utilidade em aprender sobre a guerra sino-japonesa ou a fórmula de Bhaskara, e será avaliada por aquilo que não importa, enquanto o que lhe importa — a qualidade do solo, as épocas de plantio, a rotação e correção do solo, o armazenamento de sementes e da colheita, o funcionamento de uma cooperativa, o financiamento de insumos, a educação física e a alimentação do agricultor — não será avaliado. Esses estudantes tirariam nota mínima nas avaliações nacionais, ainda que a escola os preparasse bem para a vida real. Whitehead percebia a estupidez dessas avaliações e defendia que fossem abolidas — e estava certo, pois não se pode avaliar com uma prova universal projetos educacionais próprios de cada região, turma e indivíduo.

É uma pena, conclui o professor, que Whitehead seja tão ignorado na universidade brasileira, pois teríamos muito a aprender com ele, inclusive sobre a natureza da própria filosofia. Temos professores que só sabem repetir livros que leram; passar quatro anos numa faculdade para aprender o que se pode aprender melhor em livros gratuitos na internet é um desperdício de vida. Se tivéssemos professores que apresentassem o verdadeiro processo de pensamento original — indicando leituras e discutindo não o que o autor disse, mas o que o estudante recebeu, para desenvolver o próprio pensamento —, Whitehead seria muito útil. Por isso o professor recomenda a seus alunos que, em vez de ler artigos acadêmicos (chatos, mal escritos, de valor nulo ou negativo), leiam os originais: em vez de um artigo sobre o Dasein de Heidegger ou sobre a obra de arte em Adorno, leiam Heidegger, Adorno, Platão — e leiam Whitehead, que dará muito mais do que qualquer artigo.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Alfred North Whitehead e Bertrand Russell. Principia Mathematica(1910–1913)

  • Alfred North Whitehead. A Ciência e o Mundo Moderno e Science and the Modern World(Science and the Modern World, 1925)

  • Alfred North Whitehead. Processo e Realidade e Process and Reality(Process and Reality, 1929)

  • Alfred North Whitehead. As Metas da Educação e The Aims of Education(The Aims of Education, 1929)

  • Kurt Gödel (teorema da incompletude); Heráclito e Anaxágoras (o fluxo e a crítica ao antropomorfismo dos deuses); Henri Bergson (elogio a Whitehead). (teorema da incompletude)

  • Dorothy Sayers. As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem e The Lost Tools of Learning e Escola Brasileira(The Lost Tools of Learning; crítica à escola)

  • Alfred North Whitehead. A Função da Razão e The Function of Reason(The Function of Reason)

  • Isabelle Stengers. Pensar com Whitehead

  • John B. Cobb Jr. e David Ray Griffin. Process Theology

  • Bertrand Russell. Introdução à Filosofia Matemática