Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Pierre Duhem (1861–1916), físico, matemático, historiador e filósofo da ciência cuja obra foi marginalizada em vida pela academia francesa anticlerical, em razão de seu catolicismo e conservadorismo explícitos. Após reconstruir a trajetória de Duhem — a formação no homeschooling católico estruturado pelo trivium e quadrivium, a rejeição de sua tese de física por motivos ideológicos, o veto de Marcellin Berthelot à sua carreira em Paris e o exílio acadêmico em Lille, Rennes e Bordeaux —, a exposição usa esse caso para uma longa reflexão sobre o funcionamento real da universidade (a lógica das "panelinhas" e o mito da isenção dos concursos). A seguir, concentra-se nas duas grandes obras filosóficas de Duhem: A Teoria Física e os dez volumes de O Sistema do Mundo. O núcleo conceitual é a superação sofisticada do positivismo: a teoria científica não descreve a realidade tal como é, mas "salva os fenômenos"; toda ciência, inclusive o mecanicismo materialista, carrega uma metafísica implícita que deve ser reconhecida e controlada para evitar o dogmatismo. Daí emerge a tese de Duhem-Quine (holismo da confirmação): como o objeto científico é constituído por uma rede interdependente de teorias e pelo próprio experimento, nenhuma teoria pode ser confirmada ou refutada isoladamente — ilustrada pelo experimento LIGO de detecção de ondas gravitacionais. Por fim, a tese conservadora e continuísta da história da ciência (a passagem da ciência medieval à moderna foi suave, não revolucionária, contra Kuhn) e a posição de Duhem sobre a separação de domínios entre ciência e religião — que o professor discute, contrapondo-lhe uma leitura agostiniana de superposição dos campos.

Pontos-Chave

  • Duhem, o cientista marginalizado: físico, matemático, historiador e filósofo da ciência (1861–1916), de formação católica e conservadora; brilhante (o primeiro de sua turma na École Normale Supérieure), teve a carreira em Paris vetada por razões ideológicas e religiosas, não por mérito.

  • A rejeição da tese e o veto de Berthelot: sua tese de física teórica (redução das leis físicas à termodinâmica) contrariava o químico Marcellin Berthelot e foi rejeitada; Berthelot afirmou que Duhem jamais lecionaria em Paris — e de fato nunca conseguiu, exilando-se em Lille, Rennes e Bordeaux.

  • A universidade e as "panelinhas": o caso de Duhem ilustra que o ingresso na carreira universitária depende fortemente de filiação, afinidade e relações pessoais, não só de mérito — fenômeno universal (o próprio Pierre Hadot o reconhece em Não se esqueça de viver), e o suposto caráter isento dos concursos é muitas vezes uma ilusão.

  • As duas obras filosóficas: A Teoria Física (concepções metodológicas e epistemológicas, com um apêndice sobre ciência e religião) e O Sistema do Mundo (dez volumes de história das concepções de cosmos, da antiguidade ao século XX).

  • Salvar os fenômenos: como os positivistas, Duhem nega a identidade entre teoria e realidade — a teoria científica é uma representação que visa a "salvar os fenômenos", um recurso intelectual, não uma descrição do real tal como é.

  • A metafísica inevitável: diferentemente dos positivistas, Duhem reconhece que toda teoria científica (inclusive o mecanicismo e o materialismo, que se julgam não metafísicos) repousa numa metafísica implícita; é preciso reconhecê-la para controlá-la e evitar o dogmatismo da híbris cientificista.

  • A constituição do objeto: o objeto científico não é dado na natureza (contra o positivismo); é constituído pela articulação entre teorias e experimento — antecipando a fenomenotécnica de Bachelard.

  • Tese de Duhem-Quine (holismo): como todo experimento mobiliza uma rede interdependente de teorias de vários campos (e pressupostos metafísicos), é impossível confirmar ou refutar uma teoria isolada por um único experimento — exemplo do LIGO. Contra o falsificacionismo simples de Popper.

  • Continuísmo histórico: contra as revoluções de Kuhn, Duhem defende que a ciência se transforma lentamente, ajustando pontos da estrutura interdependente; a passagem da ciência medieval à moderna foi suave e contínua (os avanços da óptica medieval, como em Robert Grosseteste, prepararam Galileu).

  • Ciência e religião: seguindo Galileu ("a filosofia natural diz como vai o céu, não como se vai para o céu"), Duhem separa os domínios — não se refutam mutuamente. O professor acolhe a posição com simpatia, mas, de uma perspectiva agostiniana, vê os campos como superpostos: o cientista seria uma espécie de sacerdote movido por um ethos religioso.

Transcrição da Aula

Vida e formação de Pierre Duhem

A aula parte das ideias de um filósofo, físico e matemático extraordinário, que viveu na passagem do século XIX para o XX uma vida curta: Pierre Duhem nasceu em 1861 e morreu em 1916, aos 55 anos, atravessando todo o período inicial da Terceira República na França — a Guerra Franco-Prussiana e a Comuna de Paris. Vindo de uma família de classe popular e não rica, recebeu a melhor educação que os pais puderam oferecer. Até os onze anos foi educado em casa, num grupo de crianças, naquilo que hoje se chamaria homeschooling, segundo um método que adaptava o trivium e o quadrivium: aos sete anos já estudava gramática, latim, lógica e retórica, e, no campo do quadrivium, matemática e aritmética, além de um catecismo rigoroso, pois a família era profundamente católica — e isso numa época difícil para os católicos, no século XIX francês, profundamente anticlerical e antirreligioso, posterior ao Século das Luzes. Quando da Comuna de Paris, a família Duhem considerava coerentes algumas de suas ideias (diminuir o poder dos poderosos e as diferenças sociais), mas inaceitável seu ateísmo e seu princípio anárquico de recusa de um poder central.

Aos onze anos, Pierre — que aos nove já escrevia cartas com qualidade literária superior à de muitos adultos — foi enviado ao Colégio Stanislas, em Paris, colégio católico onde permaneceu dez anos e desenvolveu sua paixão pela matemática, pela física, pela história e pela filosofia. Aos vinte e um anos entrou na École Normale Supérieure para licenciar-se em física e matemática. Nos três anos do curso tornou-se o melhor aluno de ciências de todas as turmas — o número um, ano após ano —, ganhando inclusive um ano adicional como preparador agregado, espécie de tutor dos demais alunos. Ao formar-se, recusou uma proposta do laboratório de Pasteur, pois não se interessava pela física prática de laboratório: queria fazer física teórica.

A tese rejeitada e o veto à carreira

Duhem preparou uma tese de doutoramento em física teórica em que sustentava que todas as leis da física poderiam, no fundo, ser reduzidas às leis fundamentais da termodinâmica. Essa posição contrariava a de físicos e químicos importantes da França, como Marcellin Berthelot, cuja tese — a de que todas as reações químicas tendem a produzir espontaneamente o maior calor possível — ia justamente contra os princípios da termodinâmica. Duhem colocava-se, assim, contra uma tradição dos mais importantes cientistas franceses do momento. Essa foi uma das razões da rejeição de sua tese; a outra é que a academia francesa do século XIX era dominada por intelectuais iluministas, geralmente ateus e profundamente anticatólicos, ao passo que Duhem era explicitamente conservador e católico praticante — ia à missa todo domingo, confessava-se abertamente, tinha na fé católica um fundamento existencial não negociável e fazia questão de deixá-lo claro.

A tese, de altíssimo valor científico, foi publicada no ano seguinte pela Hermann, prestigiosa editora francesa que ainda existe; foi recusada não por mérito, mas por razões de política científica e religiosa. Isso ocorreu em 1884; em 1888, Duhem conseguiu aprovar uma tese de doutoramento em matemática, tornando-se doutor e habilitado a lecionar na universidade. Mas Berthelot, tendo lido a tese de física que se opunha às suas ideias, afirmou explicitamente que Duhem jamais lecionaria em Paris — poderia, no máximo, ensinar em faculdades do interior. O caminho em Paris estava interditado: Duhem não pertencia à “panelinha”, não era aluno dos grandes físicos e químicos, era independente, católico e conservador — e como admitir um professor assim na Sorbonne, que era o grande sonho de Duhem? Ele nunca chegou a Paris. Foi para Lille logo após o doutoramento, depois para Rennes (onde ficou apenas um ano) e, finalmente, em 1894, para Bordeaux, onde permaneceu o resto da vida. Quando, na década de 1910, abriu-se um concurso para uma cadeira de História da Ciência, recusou-se a fazê-lo: queria entrar como professor de física teórica, não de história da ciência — e talvez soubesse que os caminhos não lhe estariam abertos de todo modo.

Digressão: o funcionamento real da universidade

Em Lille, tornado maître de conférences além de professor, Duhem era muito considerado pelos alunos, mas sofria boicotes e maldades por suas posições políticas e religiosas. Um episódio menor tornou-se enorme: os alunos de Duhem tinham uma prova experimental que devia ser realizada em seu laboratório, mas, no dia marcado, o responsável por destrancar o espaço não o abriu, prejudicando a avaliação. Irado, Duhem tratou o funcionário com grosseria; este se queixou ao deão da universidade. O deão, embora sem simpatia por Duhem, reconheceu que ele não estava de todo errado e ordenou que o funcionário se desculpasse por escrito. Duhem, porém, não aceitou as desculpas e exigiu punição; a disputa escalou ao reitor e arrastou-se por quase dois anos, tornando insustentável a situação de Duhem, que então partiu para Rennes.

O caso ilustra um problema perene da universidade: são os próprios membros de uma faculdade ou colegiado que escolhem os colegas, e tendem a escolher quem é do grupo — quem tem afinidades políticas e intelectuais, quem foi orientado por alguém de dentro, quem faz parte da “panela”. É um fato inegável e, até certo ponto, inevitável. O professor observa, a propósito, que em todas as universidades em que lecionou — no Brasil e em Portugal — ingressou como “franco-atirador”, sem conhecer ninguém de dentro, o que é uma exceção que confirma a regra, dada a dificuldade habitual de quem não tem filiação. As posições políticas e religiosas explícitas de Duhem fecharam-lhe as portas em Paris; e isso acontece também no Brasil, conforme a filiação acadêmica e as relações sociais — uma banca pode ser composta por inimigos do orientador do candidato, e então é melhor nem prestar o concurso.

O fenômeno é universal. Pierre Hadot — historiador da filosofia que apresentou Wittgenstein à universidade francesa e influenciou a última fase de Foucault, a de O Cuidado de Si, profundo conhecedor da filosofia grega e helenística — reconhece, em seu livro de tom autobiográfico Não se esqueça de viver, que boa parte de seu progresso na academia nada teve a ver com mérito, mas com seu círculo social, com bons professores influentes e amizades. Hadot precisava, é claro, trabalhar, escrever bons livros e dar boas conferências — muitos o fazem e não progridem —, mas reconhece que outras pessoas poderiam estar em seu lugar. Em outros países, há uma diferença: muitos postos são preenchidos sem concurso público, ao critério do coordenador do curso. Abre-se a vaga, publica-se em listas específicas, mas ela pode ser preenchida no mesmo dia, muitas vezes com um candidato já previamente escolhido; quem se candidata dias depois recebe a resposta de que a vaga já está preenchida. No Brasil persiste ao menos a aparência de um processo isento — mas, na maior parte das vezes, essa objetividade é uma ilusão que esconde um perfil de professor pré-estabelecido.

As duas grandes obras filosóficas

Interessam, na obra de Duhem, principalmente dois livros — na verdade, duas obras, pois uma é composta de dez volumes. Em primeiro lugar, A Teoria Física, que tem uma boa e recente tradução para o português; em segundo, os dez volumes de O Sistema do Mundo. Essas obras contêm as concepções filosóficas de Duhem. Em A Teoria Física, ele apresenta suas concepções metodológicas e epistemológicas e, num apêndice, sua concepção sobre a relação entre ciência e religião. Em O Sistema do Mundo, faz uma obra monumental sobre as diferentes concepções de cosmos e de universo, da antiguidade ao início do século XX, em dez grandes volumes — obra que ainda não foi traduzida para o português e que o professor sonha um dia traduzir (possui os dez volumes, comprados num sebo, raríssimos mesmo na Europa; traduzir, para ele, é um hobby prazeroso, mas que exige tempo longo e contínuo).

Da superação do positivismo ao “salvar os fenômenos”

A posição filosófica de Duhem sobre a ciência parte do positivismo, como toda a sua geração — ele escreve entre o final dos anos 1880 e os anos 1900, quando o pano de fundo da filosofia da ciência é o positivismo de Comte. O positivismo fixa-se nos aspectos quantificáveis, mensuráveis e calculáveis da realidade e descarta todo o resto como não científico e metafísico (no sentido negativo, de aberração ultrapassada). Duhem parte daí, mas supera o positivismo de modo sofisticado, percebendo imediatamente o caráter metafísico do próprio positivismo — que este não reconhece. Ele estabelece uma síntese a partir da tensão entre a necessidade da experimentação e o papel da teoria, dialogando com a tradição platônica e medieval para superar o reducionismo positivista, segundo o qual só se deve pensar o circunscrito à experimentação objetiva (objetiva no sentido de matematizável).

Como os positivistas, Duhem não concebe a teoria científica como correspondência com a realidade: não há identidade entre proposição e real. A teoria científica é uma representação que visa a “salvar os fenômenos” — um recurso intelectual que descreve uma certa configuração, uma maneira de enxergar a realidade, sem se identificar com ela. A diferença em relação aos positivistas é que Duhem leva em conta a natureza da teoria e o modo como ela constitui o objeto analisado — tese que Bachelard desenvolverá numa geração posterior. Mais ainda, Duhem reconhece a inevitabilidade da metafísica na teoria científica, ainda que de modo temperado: enquanto os positivistas tomavam “metafísica” por palavrão, Duhem afirma que ela é inevitável — inclusive em sua própria concepção —, mas que é preciso controlá-la. Ele estava consciente da contradição de sua proposta de que as teorias devem apenas “salvar os fenômenos” sem levar em conta as causas últimas: essa própria proposta é uma posição metafísica. Por isso, sua posição não deve ser interpretada como tentativa ingênua de eliminar a metafísica, mas como esforço de demarcar metodologicamente os domínios da investigação científica e de manter a metafísica sob controle.

Em O Sistema do Mundo, fica claro que todas as teorias científicas se sustentam numa metafísica — particularmente a ciência que Duhem identifica como cartesiana e newtoniana. Diferentemente do que supunham os positivistas, o mecanicismo e o atomismo estão repletos de metafísica, ainda que não o reconheçam: o mecanicismo concebe-se como programa científico não metafísico, mas é profundamente metafísico. E, justamente por não se reconhecerem como tais — supondo que, por serem materialistas, estão a salvo da metafísica, quando o materialismo é, ele próprio, uma tese metafísica —, os mecanicistas se tornam dogmáticos, acreditando-se capazes de descrever as coisas tais como elas são. Para Duhem, isso é impossível: o intelecto e os sentidos humanos não têm esse alcance. Ele propõe, então, uma moderação epistêmica contra a híbris do mecanicismo: reconhecer a metafísica implícita na ciência é a condição para mantê-la sob controle, pois, quando não a reconhecemos, ela acaba dominando tudo.

A tese de Duhem-Quine e o holismo da confirmação

Há aqui um aspecto fecundo que inaugura todo um campo da filosofia da ciência do século XX: a conexão profunda entre teoria e experimentação na constituição do próprio objeto. Talvez Duhem tenha sido o primeiro filósofo da ciência a apresentar com clareza essa ideia. O objeto científico não é dado na natureza — e neste ponto Duhem torna-se completamente antipositivista. Para o positivismo, o objeto é um dado a ser investigado por metodologia experimental e matemática; para Duhem, não há dado: os objetos da ciência são criados por nós, pela integração entre teorias e experimento. É o que Bachelard, por volta de 1934, chamará de fenomenotécnica.

Essa tese da interconexão entre teoria e experimento na constituição do objeto recebeu o nome de tese de Duhem-Quine, porque no mundo de língua inglesa passou a ser discutida a partir da obra de Quine — que reconhece ter sido Duhem o primeiro a formular essas ideias. Como o objeto científico é produto de muitas teorias de muitos campos, é impossível testar uma teoria isoladamente: todo teste já traz implícitas inúmeras teorias de vários campos. Tome-se o experimento de detecção de ondas gravitacionais por interferômetro laser, o LIGO: nele estão implícitas a teoria quântica da luz (necessária ao funcionamento do interferômetro), a teoria da relatividade especial, as teorias geológicas sobre a propagação de ondas sísmicas, as teorias de análise dos enormes volumes de dados e, ainda, um conjunto de pressupostos metafísicos sobre a estabilidade e a universalidade das leis físicas — o princípio de uniformidade da natureza. Como mostrou David Hume, esse princípio não é demonstrável cientificamente: não se podem verificar todas as leis em todos os lugares e tempos do universo; faz-se um experimento aqui e generaliza-se para todo o universo. Toda ciência natural baseia-se, pois, numa crença metafísica.

Isso significa que não se pode confirmar nem refutar nenhuma teoria por um único experimento, pois é sempre possível ajustar outras teorias associadas — diferentemente do que supunha Popper, para quem um experimento que refuta uma teoria cria um problema decisivo. O problema existe para Duhem e Quine, mas frequentemente se resolve não com o abandono da teoria, e sim com a calibração do instrumento ou o ajuste de uma variável numa teoria acessória que sustenta a teoria testada. A ciência constitui-se de teorias interligadas, umas dando sustentação às outras, e não se pode derrubar todo o edifício por um único resultado inesperado: a ciência se transforma aos poucos. Essa é uma concepção mais conservadora do que a de Bachelard e do que a de Thomas Kuhn — para quem as anomalias vão sendo “varridas para debaixo do tapete” até que sua acumulação promove uma revolução científica. Isso pode acontecer (a relatividade geral, que Duhem não viveu para acompanhar, provocou uma revolução no sentido de Kuhn); mas Duhem, sendo conservador e não revolucionário, enfatiza que as transformações se dão em ritmo muito mais lento, pela progressiva transformação de pontos da estrutura interdependente de teorias.

O continuísmo histórico

A tese de Duhem é a de que a passagem da ciência medieval à moderna — à ciência de Galileu e Newton — se deu de modo muito mais suave do que sugerem os manuais de história da ciência. Onde Kuhn veria uma revolução, Duhem vê um processo suave e lento, em que muitos princípios já estavam dados e os avanços da ciência medieval — extraordinários, como os da óptica nos séculos XII e XIII, com figuras como Robert Grosseteste — deram as bases para Galileu. Os pressupostos da ciência medieval permaneceriam atuantes, e a “revolução científica” não teria sido exatamente uma revolução. Essa história, exposta em volumes de O Sistema do Mundo a partir de uma análise rigorosíssima e bem documentada das fontes primárias, ainda está por ser contada em português.

Quais as consequências da tese de Duhem-Quine? Primeiro, os cientistas devem estar conscientes das inúmeras camadas teóricas e técnicas que constituem seus experimentos: não há ciência puramente prática nem puramente teórica, e a ciência prática é repleta de teoria. Segundo, o ensino das ciências deve ressaltar as interconexões entre teorias, muitas vezes ligadas a diferentes domínios — inclusive a pressupostos metafísicos da esfera da filosofia. Terceiro, é preciso repensar as noções de confirmação e refutação: não se pode confirmar nem refutar uma teoria por um experimento, apenas reforçá-la, concebendo o experimento como peça de uma enorme engrenagem de teorias que se sustentam mutuamente. Por fim, é preciso avaliar as teorias dissonantes e contra-hegemônicas quanto a seu impacto em todo o edifício do conhecimento, reconhecendo que muitas vezes elas partem de outros pressupostos metafísicos — pressupostos que nem sempre estão na ciência, podendo estar em outros lugares. Em suma, simplificar é confundir; complexificar é esclarecer. Problemas complexos exigem abordagens e soluções complexas, e compreender uma teoria científica exige “entrar no buraco do coelho” e acompanhar todos os ramos que a sustentam — lição séria também para a educação e a política, onde simplificar é sempre enrolar e reduzir.

Ciência e religião

Duhem trata, num texto ao final de A Teoria Física, da relação entre ciência e religião. Cientista talentoso, filósofo e pessoa profundamente religiosa, ele sustenta que ciência e religião tratam de questões diferentes — e nisso acompanha Galileu. Para Galileu, que também era religioso, a filosofia natural “diz como vai o céu, mas não diz como se vai para o céu”; isto cabe à religião. A ciência tem por domínio a compreensão e a descrição dos fenômenos da natureza; a religião, o domínio espiritual e moral, a busca interior pelo sentido da existência e pelo lugar do ser humano no cosmos. Esses campos não se sobrepõem: a religião não pode refutar a ciência, nem a ciência a religião, porque falam de coisas diferentes. A ideia de “provar cientificamente que Deus não existe” não faz sentido, pois Deus não é um objeto da física, mas uma concepção espiritual. O ser humano existe em múltiplos domínios, por vezes tão distantes que não se tocam, mas habitáveis simultaneamente: pode-se ser um grande cientista e, ao mesmo tempo, uma pessoa profundamente religiosa.

O professor — que frequentou o seminário e a faculdade de teologia quando pensou em ser padre, mas que há décadas não se dedica à teologia sistemática, interessando-se pela teologia apenas no sentido aristotélico, isto é, como a própria metafísica — acolhe com simpatia a posição de Duhem, mas considera que ela não se esgota. De seu ponto de vista, faz mais sentido a posição de Santo Agostinho: fazer ciência seria, de certo modo, conhecer o projeto de Deus. Retomando a célebre passagem final de Stephen Hawking — para quem o projeto último da ciência é encontrar a “teoria de tudo”, e ao descobri-la os cientistas conhecerão “a mente de Deus” —, o professor observa que se trata de uma posição agostiniana, ainda que adotada por um ateu militante. Diferentemente de Duhem, ele não vê uma oposição essencial entre os campos da ciência e da religião: vê uma diferença de caminho, mas campos superpostos. Na ciência, eliminam-se palavras como Deus, salvação, céu, inferno e espírito; mas a meta do conhecimento científico continua a ser conhecer o lugar do homem no cosmos e a estrutura cósmica, da qual se pode inferir a relação do homem com a divindade. O cientista seria, assim, uma espécie de sacerdote que não percebe que sua busca é motivada por um ethos profundamente religioso. Há, no fundo, uma busca universal do ser humano pelo conhecimento da estrutura da realidade e das causas últimas — uma única meta intelectual, um conhecimento último, dê-se a ele o nome que se queira.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Pierre Duhem. A Teoria Física: seu objeto e sua estrutura e La Théorie physique: son objet, sa structure(La Théorie physique: son objet, sa structure, 1906)

  • Pierre Duhem. O Sistema do Mundo e Le Système du monde(Le Système du monde, 10 vols., 1913–1959)

  • Pierre Hadot. Não se Esqueça de Viver e N'oublie pas de vivre(N'oublie pas de vivre)

  • Galileu Galilei (a distinção entre os domínios da filosofia natural e da religião). (a distinção entre os domínios da filosofia natural e da religião)

  • Auguste Comte (o positivismo); W. (o positivismo)

  • Karl Popper (falsificacionismo); Thomas Kuhn (revoluções científicas); Gaston Bachelard (fenomenotécnica); Robert Grosseteste (óptica medieval). (falsificacionismo)

  • Stephen Hawking. Uma Breve História do Tempo(a "mente de Deus")

  • W. V. O. Quine. Dois Dogmas do Empirismo

  • Pierre Duhem. Salvar os Fenômenos: ensaio sobre a noção de teoria física de Platão a Galileu

  • Anastasios Brenner. Duhem: science, réalité et apparence

  • Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas