Jean Buridan
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche explora a figura pivotal de Jean Buridan (c. 1300–1360), filósofo francês situado na transição entre a Escolástica Medieval e o Renascimento. A exposição detalha como Buridan, através de uma leitura crítica de Aristóteles, desenvolve a 'Teoria do Impetus' (antecipando a inércia) e rompe com a distinção aristotélica entre física celeste e terrestre. A aula utiliza as lentes de Pierre Duhem e Thomas Kuhn para demonstrar como conceitos metafísicos medievais — especificamente a uniformidade das leis naturais — pavimentaram o caminho para a Revolução Científica e, subsequentemente, para as transformações políticas modernas baseadas na isonomia.
Pontos-Chave
Paradigma e Ciência Normal: Conceitos de Thomas Kuhn que explicam como a ciência opera sob modelos estabelecidos (paradigmas) até que anomalias forcem uma ruptura (ciência revolucionária).
Teoria do Impetus: Proposta física de Buridan que substitui a explicação aristotélica do movimento de projéteis, sugerindo que uma força interna é impressa no corpo, antecipando a inércia.
Uniformidade do Universo: A ideia revolucionária de que as mesmas leis físicas se aplicam tanto à Terra quanto aos astros, dissolvendo a hierarquia do Cosmos ptolomaico.
Secularização do Pensamento: A postura de Buridan como clérigo secular que separa a filosofia da teologia, tratando a primeira como uma atividade válida per se.
Consequências Políticas (Isonomia): A correlação entre a uniformidade das leis naturais e a exigência de igualdade jurídica (isonomia) entre todos os seres humanos.
Transcrição da Aula
Contexto Histórico e Perfil Intelectual de Jean Buridan
O professor situa Jean Buridan (c. 1300–1360) na passagem crítica entre o pensamento medieval e o Renascimento. Diferentemente de muitos contemporâneos, Buridan não pertencia à nobreza e, ao ingressar na Universidade de Paris, optou pelo grau de Mestre em Artes, recusando o doutorado em Teologia. Ele não se filiou a ordens religiosas (como franciscanos ou dominicanos), permanecendo como clérigo secular. Essa escolha denota uma atitude de autonomia intelectual: ao não ser teólogo, ele não podia escrever tratados teológicos, o que direcionou sua obra para comentários aristotélicos originais e para uma filosofia secular, válida per se e separada da teologia. O professor destaca, inclusive através de anedotas históricas — como a lenda de que Buridan teria sido jogado no Rio Sena por seduzir a rainha da França —, que sua personalidade extravagante e ‘donjuanesca’ contrastava com a busca pela santidade típica da época, reforçando o caráter mundano e independente de seu pensamento.
A Estrutura das Revoluções Científicas e o Conceito de Paradigma
Para contextualizar a importância de Buridan, o professor introduz a filosofia da ciência de Thomas Kuhn. Explica-se que a ciência avança alternando entre períodos de ‘ciência normal’ — onde se acumulam dados dentro de uma visão de mundo estável ou ‘paradigma’ — e momentos de ‘ciência revolucionária’, onde ocorre a ruptura e a troca de paradigmas. O sistema ptolomaico é citado como exemplo de um paradigma que, apesar de complexo (com o uso de epiciclos para explicar o movimento retrógrado dos planetas), funcionava para as necessidades da época, como a navegação e o calendário. A transição iniciada por Buridan representa o começo de uma dessas rupturas paradigmáticas, onde termos idênticos passam a ter significados incomensuráveis entre o modelo antigo e o novo.
A Crítica à Física Aristotélica: A Teoria do Impetus
Seguindo a leitura do historiador Pierre Duhem, o professor identifica em Buridan um precursor fundamental da física moderna. A ruptura central ocorre na explicação do movimento de projéteis. Para Aristóteles, um objeto lançado continuava a se mover devido à antiperistasis (o ar deslocado empurraria o objeto por trás). Buridan refuta isso e propõe o conceito de impetus: uma força impressa internamente no corpo em movimento. O professor ilustra: ao lançar um objeto (como um ‘mouse’ de computador), ele adquire um ímpeto proporcional à sua velocidade e quantidade de matéria. Esse ímpeto se manteria indefinidamente se não fosse pela resistência do ar e da gravidade. Essa teoria não apenas corrige Aristóteles, mas antecipa o conceito newtoniano de inércia e oferece uma explicação superior para a aceleração na queda dos corpos, rejeitando a ideia aristotélica de atração pelo ‘lugar natural’.
Aplicações do Impetus à Psicologia Moral e o ‘Asno de Buridan’
Em diálogo com uma questão levantada por uma aluna, o professor expande o conceito de impetus para a ética e a psicologia. Buridan sugere que a virtude funciona como um ímpeto acumulado na alma: quem habitualmente age de forma virtuosa possui uma força interna que facilita a continuidade dessas ações, enquanto o vício cria uma resistência contrária. Sobre a liberdade, discute-se a famosa imagem do ‘Asno de Buridan’ (embora a metáfora do cão seja originalmente aristotélica). O experimento mental descreve um animal que, diante de duas porções idênticas de alimento, morreria de fome por incapacidade de escolher racionalmente. O professor esclarece que, para Buridan, a vontade só escolhe diante de uma vantagem clara; na ausência desta, a inação ocorre. Contudo, sob uma ótica existencialista posterior, essa ‘não-escolha’ também seria um ato de liberdade.
Do Cosmos ao Universo: A Unificação das Leis Físicas
A contribuição mais revolucionária de Buridan, segundo o professor, é a extensão das leis da física terrestre para o mundo celeste. No paradigma medieval aristotélico-ptolomaico, o ‘Cosmos’ era hierárquico, fechado e dividido em esferas com leis distintas (o mundo sublunar imperfeito vs. o mundo supralunar perfeito). Buridan rompe com isso ao sugerir que a mecânica é única: as leis que regem as ferramentas de um ferreiro na Terra são as mesmas que movem os astros. Retomando o conceito de homeomerias de Anaxágoras (‘tudo está em tudo’), Buridan estabelece o princípio metafísico da uniformidade da natureza. Isso marca o fim do conceito de ‘Cosmos’ (ordem fechada e hierárquica) e o nascimento do ‘Universo’ (plano infinito e uniforme), uma premissa metafísica essencial para toda a ciência moderna, que assume que experimentos locais são válidos em qualquer lugar do tempo e espaço.
Implicações Políticas: Da Natureza Uniforme à Isonomia
Por fim, o professor deduz as consequências políticas dessa transformação cosmológica. Se o universo é uniforme e regido pelas mesmas leis em todos os pontos, a organização social, que espelha a ordem natural, também deve sê-lo. A visão medieval justificava a desigualdade jurídica (leis diferentes para camponeses e nobres) baseada na hierarquia cosmológica. A visão moderna de universo, inaugurada conceitualmente por Buridan, fundamenta a isonomia (igualdade perante a lei). Assim, a revolução científica não é apenas técnica, mas carrega o germe das revoluções políticas modernas: num universo uniforme, todos os seres humanos, independentemente de sua posição, estão sujeitos às mesmas normas naturais e, por extensão, devem estar sujeitos às mesmas normas civis.
Glossário
Referências Bibliográficas
Jean Buridan. Quaestiones in Metaphysicam Aristotelis
Pierre Duhem. Le Système du Monde(O Sistema do Mundo)
Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas
Émile Meyerson. Identité et réalité(Identidade e Realidade)
Galileu Galilei. Sidereus Nuncius(O Mensageiro Sideral)
Platão. Fédon
Alexandre Koyré. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito