As "Confissões" de Agostinho
Sinopse
Esta aula introduz o pensamento de Agostinho de Hipona através de sua obra-prima, As Confissões, considerada por Wittgenstein o livro mais sério já escrito. O professor traça a biografia intelectual e espiritual de Agostinho, desde sua juventude hedonista em Cartago, passando pela adesão ao Maniqueísmo e ao Neoplatonismo, até sua conversão ao Cristianismo sob a influência de Santo Ambrósio. São explorados conceitos centrais como a natureza do pecado (ilustrada pelo episódio do roubo das peras), a tensão entre livre-arbítrio e predestinação (antecipando o debate da Reforma Protestante), e a inovadora concepção de tempo (eterno presente divino vs. tempo psicológico humano). A aula também destaca como Agostinho antecipa o Cogito cartesiano e estabelece as bases de uma "filosofia cristã".
Pontos-Chave
A Natureza do Pecado: O pecado não é apenas buscar o proibido, mas o prazer na própria transgressão, revelando uma falha na vontade humana (Concupiscência).
Filosofia da História e do Tempo: A distinção entre o tempo humano (memória, visão e expectativa) e o tempo de Deus (eterno presente).
O Caminho da Conversão: A trajetória intelectual que vai do materialismo maniqueísta ao espiritualismo neoplatônico e, finalmente, à encarnação cristã.
Antecipação do Cogito: O argumento "Se erro, existo" (Si fallor, sum) como refutação do ceticismo radical, séculos antes de Descartes.
Transcrição da Aula
Introdução: O Livro Mais Sério da História
Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) é uma figura monumental não apenas para a teologia, mas para a literatura universal. Sua obra As Confissões é um texto de tamanha profundidade que Ludwig Wittgenstein, filósofo analítico do século XX, chegou a classificá-lo como “o livro mais sério já escrito”. É uma obra poética, filosófica e profundamente introspectiva, dividida em 13 livros.
Agostinho era africano, nascido em Tagaste (na atual Argélia), mas culturalmente romano e púnico. Sua identidade era complexa: filho de um pai pagão (Patrício) e de uma mãe cristã devota (Mônica). Embora sua origem africana seja inegável — e representações antigas o mostrem com pele escura, típica dos bérberes —, questões raciais modernas não se aplicam ao contexto da antiguidade, onde a distinção se dava entre cidadão/estrangeiro e não pela cor da pele.
A Infância e o Roubo das Peras: A Anatomia do Pecado
Agostinho identifica a natureza pecadora do homem desde a infância. Ele narra um episódio célebre: o roubo das peras. Aos 11 anos, estudando em Madaura, ele e um grupo de amigos invadiram uma propriedade vizinha para roubar peras de uma árvore.
O ponto crucial da análise agostiniana não é a fome. Eles não roubaram para comer; de fato, deram as peras aos porcos. As peras nem eram saborosas. O prazer do ato residia na transgressão e na cumplicidade. Agostinho percebe que jamais teria cometido aquele crime sozinho; a validação do grupo e o riso da maldade compartilhada foram os motores do ato. Isso revela, para ele, a corrupção intrínseca da vontade humana, o prazer de fazer o mal pelo mal.
A Juventude Hedonista e a Busca pela Verdade
Aos 17 anos, Agostinho vai para Cartago. Vive uma vida de prazeres, que ele descreve como sendo um “escravo da luxúria”. Seu despertar intelectual ocorre ao ler Hortensius, uma obra perdida de Cícero. Esse texto acende nele o desejo pela sabedoria, desviando-o temporariamente dos prazeres carnais para os intelectuais.
Nessa busca, ele adere primeiro ao Maniqueísmo. Esta religião, fundada pelo profeta Mani no século III, propunha uma cosmologia dualista onde o Bem (Luz) e o Mal (Trevas) eram substâncias físicas em eterno conflito. Agostinho permaneceu maniqueísta por anos, atraído pela explicação racional do problema do mal, mas acabou se desiludindo com a inconsistência filosófica da seita.
A Conversão Intelectual: Neoplatonismo e Cristianismo
Já em Milão, como professor de retórica da corte imperial, Agostinho conhece o bispo Ambrósio. Inicialmente atraído apenas pela oratória de Ambrósio, ele começa a absorver o conteúdo cristão.
A ponte decisiva é o Neoplatonismo (especialmente Plotino). Agostinho encontra nos neoplatônicos uma concepção de Deus e do mal muito superior à dos maniqueus. Ele identifica o “Uno” de Plotino com o Deus cristão. No entanto, percebe que falta algo crucial aos filósofos: a Encarnação. O neoplatonismo concebe um Deus inatingível; o cristianismo apresenta um Deus que se faz carne (Cristo) para resgatar a humanidade.
A conversão definitiva ocorre em um momento de angústia num jardim, onde ouve uma criança cantar “Tolle, lege” (“Toma e lê”). Ao abrir as Escrituras aleatoriamente, lê um trecho da Epístola aos Romanos que condena a luxúria e exorta a revestir-se de Cristo. É o ponto de virada: ele abandona a carreira, o noivado arranjado e a vida sexual para se batizar.
Livre-Arbítrio, Graça e Tempo
Agostinho inaugura problemas que definirão a filosofia ocidental por séculos:
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Livre-Arbítrio e Predestinação: Contra os pelagianos (que afirmavam que o homem pode se salvar sozinho por suas obras), Agostinho insiste que a natureza humana está decaída pelo Pecado Original. O homem só é livre para pecar; a liberdade para fazer o bem depende da Graça divina. Deus, estando fora do tempo, sabe desde a eternidade quem são os eleitos, o que gera o paradoxo da predestinação versus responsabilidade humana — um tema que será central para Lutero e Calvino na Reforma.
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O Tempo: Agostinho propõe uma concepção psicológica do tempo. O passado não existe mais; o futuro ainda não existe. O que existe é o presente. O tempo é uma “distensão da alma” (distentio animi):
- O passado é a memória (presente das coisas passadas).
- O futuro é a expectativa (presente das coisas futuras).
- O presente é a visão ou atenção. Deus, contudo, vive num eterno presente, vendo toda a história simultaneamente, como quem vê todos os quadros de um filme de uma só vez.
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A Antecipação do Cogito: Em sua busca pela certeza contra o ceticismo, Agostinho formula o argumento: “Se eu me engano, eu existo” (Si fallor, sum). Para duvidar ou errar, é necessário ser um sujeito. Este argumento antecipa em mais de mil anos o “Penso, logo existo” de Descartes.
Conclusão: A Beleza Simbólica
Mesmo para o leitor não religioso, As Confissões oferecem uma beleza estética e simbólica inigualável. A famosa passagem “Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova…” reflete a busca universal da alma por sentido. Agostinho nos ensina que conceitos religiosos (Pecado, Graça, Trindade) podem ser compreendidos como estruturas simbólicas que ordenam campos da realidade, permitindo uma compreensão mais rica da existência humana, independentemente da adesão confessional.
Glossário
Referências Bibliográficas
Agostinho. As Confissões
Cícero. Hortensius(Obra perdida, citada por Agostinho)
Bíblia Sagrada. Epístola aos Romanos
Erasmo de Roterdã. Elogio da Loucura
Ian Hacking (Sobre construção social de conceitos). (Sobre construção social de conceitos)
Ludwig Wittgenstein (Sobre a seriedade das Confissões). (Sobre a seriedade das Confissões)
Peter Brown. Santo Agostinho: Uma Biografia
Étienne Gilson. Introdução ao Estudo de Santo Agostinho
Agostinho. O Livre-Arbítrio