Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche examina o "paradoxo da solidão": o fenômeno contemporâneo em que pessoas hiperconectadas, com centenas de amigos virtuais, encontram-se ainda assim isoladas social e afetivamente. Partindo da etimologia de "conexão", distingue a solidão feliz da solidão infeliz e mobiliza três tradições para iluminá-las. Dos estoicos, recupera a solidão como laboratório da autarkeia e via para a ataraxia, bem como os exercícios espirituais (premeditação dos males, análise das representações, posicionamento da existência em perspectiva diante do cosmos e consciência corporal). Da tradição monástica medieval, recupera a distinção entre solitude (solidão feliz e produtiva) e desolatio (solidão infeliz que gera a acedia, o tédio espiritual), e o símbolo do deserto como lugar simultâneo de salvação e perdição. De Blaise Pascal, recupera a tese de que toda a infelicidade humana nasce da incapacidade de permanecer só num quarto, e de que a sociedade é um sistema de distrações (divertissement) com que o homem foge de si mesmo. A aula conclui que a hiperconexão digital é a mais sofisticada fuga já produzida — um "deserto digital" que, em vez da ataraxia, promove a hipertaraxia, a proliferação dos desejos exigida pelo consumo.

Pontos-Chave

  • O paradoxo da solidão: num tempo de hiperconexão, com dezenas, centenas ou milhares de amigos virtuais, as pessoas se encontram isoladas social e afetivamente — e muitas vezes buscam esse isolamento.

  • Etimologia da conexão: "conexão" vem do latim nectere (ligar, juntar, de onde também "nó") com o prefixo cum (junto); connectere é, literalmente, estar junto, ligar dois pontos.

  • Solidão feliz × infeliz: a solidão feliz compreende a necessidade da solidão e a aproveita para pensar, mergulhar na alma, ler, ter experiência estética; a infeliz é insuportável e busca desesperadamente o outro para que a solidão desapareça.

  • A solidão estoica: os estoicos veem a solidão como condição positiva, oportunidade para o cultivo da virtude e da autonomia; a prática do retiro (anachoresis) não é fuga, mas recolhimento que favorece o fortalecimento moral e a introspecção.

  • Autarquia, ataraxia e amor fati: a solidão é o laboratório da autarkeia (autossuficiência), que conduz ao telos estoico, a ataraxia (conformação do desejo ao cosmos e ao logos); a ideia aproxima-se do amor fati, termo de Nietzsche cuja raiz é estoica.

  • A terapêutica estoica da solidão: quatro exercícios espirituais — premeditação dos males, análise das representações, posicionamento da existência em perspectiva (contemplação do cosmos) e consciência corporal (respiração, postura, músculos).

  • Solitude × desolatio: os monges medievais distinguem a solitude (solidão feliz e produtiva, vivida mesmo em comunidade) da desolatio (solidão infeliz que produz a acedia, o tédio espiritual e o bloqueio da contemplação).

  • O deserto: topos da vida monástica, é espaço vazio e infinito, lugar de autoconhecimento e de confronto com os demônios; a solidão, como o deserto, pode elevar ou destruir — a diferença está na atitude, na disciplina e no jejum.

  • Pascal e o divertimento: a solidão é a situação metafísica do homem, "caniço pensante" (roseau pensant) entre miséria e grandeza; toda a infelicidade nasce da incapacidade de ficar só no quarto, e a sociedade é um sistema de distrações (divertissement).

  • O deserto digital e a hipertaraxia: a hiperconexão é a mais sofisticada fuga já produzida; a indústria cultural se alimenta da desolatio e precisa nos afastar da ataraxia, conduzindo-nos à hipertaraxia — neologismo do professor para a proliferação dos desejos exigida pelo consumo.

Transcrição da Aula

O paradoxo da solidão e a etimologia da conexão

O tema desta aula é o paradoxo da solidão, fenômeno muito comum no nosso tempo, no qual as pessoas estão hiperconectadas, têm dezenas, centenas, milhares de amigos virtuais e, ainda assim, encontram-se isoladas socialmente e afetivamente de sua família, de seus amigos, das pessoas com quem gostariam de estar. E, muitas vezes, a pessoa busca esse isolamento.

A conexão pode ser dita de vários modos. O que é conexão? Há a conexão física, há a conexão virtual ou digital, há a conexão existencial, há a conexão afetiva — há muitos modos de se conectar a alguém. Mas o que significa conexão etimologicamente? Ela vem do latim nectere, que é ligar, juntar, e que dá origem inclusive ao nosso “nó”. Soma-se a isso o cum, que significa praticamente a mesma coisa em português, “estar junto”. Assim, connectere, conectar, é justamente juntar, ligar duas pessoas, dois pontos, duas coisas.

Estamos conectados digitalmente a todos os outros, de certo modo, pelas redes sociais, quaisquer que sejam — Facebook, Instagram, WhatsApp —, a todo mundo. E estamos também conectados de vários outros modos: pelos smartphones, por dispositivos inteligentes nas roupas, nos óculos (inteligentes, aqui, dito com certa cautela). O professor lembra ter dedicado uma aula à inteligência artificial e à arte, já gravada no curso, mas adverte que não trará esse assunto para hoje, sob pena de o argumento se perder no mundo da inteligência artificial sem chegar ao problema do paradoxo da solidão.

Solidão feliz e solidão infeliz

Podemos ter uma conexão feliz e uma conexão infeliz. Do mesmo modo, podemos ter uma solidão infeliz e uma solidão feliz. E a ideia de uma solidão feliz soa um pouco estranha em nosso tempo. Quem assiste ao curso certamente conhece a solidão feliz, aquela de que falava, por exemplo, Gaston Bachelard: a solidão da leitura de um bom livro, a solidão da reflexão, que é a solidão do filósofo. O aluno do curso a conhece, pois não estaria nele se não tivesse já a busca do conhecimento que encontramos nos livros, no convívio cuidadoso e amistoso com quem participa dessa busca e, sobretudo, na nossa viagem interior — aquela que só pode ter lugar no momento da solidão.

Solidão que não significa necessariamente estar sozinho materialmente: é possível estar entre outros e, ainda assim, numa solidão, feliz ou infeliz. A solidão feliz é aquela que entende a necessidade da solidão, na qual se aproveita a desconexão com o propósito de pensar, de mergulhar na própria alma, de ler um bom livro, de ter uma experiência estética — talvez uma música. A solidão infeliz, ao contrário, é aquela que, no momento em que se descobre solitária, busca desesperadamente o outro para que essa solidão desapareça. É uma solidão insuportável, uma solidão ruim.

A solidão como laboratório da autarquia: o estoicismo

Na Antiguidade, a questão da solidão já era pensada. Os estoicos tratam bastante dela e afirmam, inclusive, que a solidão não tem nada de negativo: é uma condição muito positiva, porque é oportunidade para o cultivo da própria virtude, momento privilegiado de autonomia e de desenvolvimento moral. É na solidão que aperfeiçoamos a nossa existência. Por isso os estoicos faziam uma série de exercícios espirituais e filosóficos, entre os quais estava a prática do retiro, a anachoresis (anacorese). Esse retiro não tem o caráter de fuga do mundo; é um retiro com o propósito de proporcionar um recolhimento que favorece a renovação, o fortalecimento moral, a introspecção e o entendimento de quem se é.

A anachoresis, o retiro, é, portanto, um exercício importante para o estoico — não porque ele precise do retiro para encontrar-se consigo, pois o estoico encontra essa feliz solidão mesmo em meio a uma turba, a uma massa, a um tumulto, em meio ao fórum e ao mercado. Mas é justamente no momento do retiro, inclusive do ponto de vista material e social, que se podem obter os maiores tesouros espirituais. O estoico favorece também a autarquia (autarkeia), que é a autossuficiência, e a solidão é o laboratório dessa autossuficiência.

A solidão é, assim, importantíssima quando se pensa na necessidade da autarquia para chegar ao ponto que é o propósito, o telos da própria filosofia estoica: a atitude que os estoicos chamavam de ataraxia. E o que é a ataraxia? É a ausência do desejo, a ausência da vontade que quer aquilo que é inadequado. É a conformação do desejo à própria natureza, ao próprio cosmos, ao próprio logos. Parte-se da concepção de que, em situação não esclarecida, desejamos aquilo que é impróprio; devemos, então, não mudar o mundo, mas mudar a nós mesmos, ao nosso espírito, para que ele passe a desejar aquilo que é bom — e o que é bom é aquilo que é natural, cósmico, que corresponde aos caminhos da natureza e do cosmos. No estoicismo, aprende-se a desejar aquilo que já somos e a desejar que a vida siga o seu caminho natural, que as coisas sigam o caminho que efetivamente seguem.

É uma ideia próxima à da ataraxia o amor fati, o amor ao destino, o amor àquilo que será e que tem de ser, em oposição à atitude de querer lutar contra aquilo contra o qual não se pode lutar: querer lutar contra a morte, a sua própria ou a de quem se ama, contra a natureza, contra as tendências da sociedade. Por meio dessa busca interior de tornar-se um indivíduo que corresponde, em todos os seus níveis, ao fluxo do cosmos, o estoico procura eliminar o desejo daquilo que é inadequado e encontra, assim, o caminho da felicidade. Essa é a felicidade para o estoico, e ela passa necessariamente pela autarquia, pela autossuficiência e pela solidão.

Não se trata de uma solidão de estar afastado da sociedade, mas de uma solidão de saber-se, ao mesmo tempo, unicamente responsável por aquilo de que o indivíduo pode se responsabilizar e, também, um ponto material no fluxo da existência — jogado como uma folha ao vento, inapelavelmente jogado na vida, sem muito controle sobre o que vai acontecer. A solidão é que permite esse diálogo interior, essa contemplação necessária para a compreensão dessa nossa natureza ao mesmo tempo livre, responsável pelas decisões que pode tomar, e determinada por aquilo que não pode ser escolhido — pelas condições históricas, sociais, ambientais e materiais do mundo.

Para o estoico, portanto, a solidão não tem o caráter de um isolamento. O estoico não se isola, nem mesmo quando vai para o seu retiro; de certo modo, permanece ligado ao mundo. Mas trata-se de uma ligação que pode se dar, e que efetivamente se dá, no momento da solidão — quer seja uma solidão em retiro, quer seja uma solidão em meio à sociedade. Ainda assim, é necessário lembrar, é uma solidão feliz, porque não é a solidão da fuga nem a solidão que deseja a ausência de solidão, que deseja o seu fim.

A terapêutica da solidão e os distúrbios contemporâneos

É por isso, também, que os estoicos tinham entre seus exercícios espirituais uma verdadeira terapêutica da solidão, que é igualmente uma espécie de pedagogia da solidão. Por quê? Os estoicos percebiam que as pessoas podem se relacionar de forma conturbada com a solidão: podem buscá-la como fuga ou desejar o seu fim e uma vida sem nenhuma autarquia, voltada completamente para o lado de fora. Esses distúrbios da relação do ser humano com a solidão produzem consequências no espírito, e produzem uma inquietação constante. Quando não se sabe encontrar paz na solidão, vive-se sempre numa inquietação que não para, numa agitação interior que não cessa.

Disso decorre uma necessidade compulsiva de distrações. E que distrações são essas no nosso tempo? São os seriados de empresas como a Netflix e a Amazon, os filmes, as bebidas, os remédios servidos em copos ou em pílulas, as saídas compulsivas para encontrar pessoas na rua — ou mesmo para ficar sozinho, mas vendo a rua —, ir a bares, a shoppings, encontrar gente. São também a incapacidade de estar sozinho consigo mesmo, de enfrentar os próprios fantasmas, de lidar com a própria consciência; a dependência excessiva da opinião alheia, quando se faz tudo pensando no que o outro, ou os outros indeterminados, vão dizer; e, finalmente, a ansiedade social, quando já não se quer estar em ambientes sociais, sente-se medo e dor, pensa-se mil vezes antes de participar de um evento e, ao chegar nele, sente-se um cansaço tremendo e o desejo de não ficar mais ali.

É evidente que há certos eventos, certas reuniões e happy hours de trabalho extremamente enfadonhos; mas isso está na medida de cada um, é uma justa medida para cada pessoa, como dizia Aristóteles. Tudo isso podemos encontrar no nosso tempo: a ansiedade social, a dependência excessiva da opinião alheia, a incapacidade de estar sozinho consigo mesmo, a necessidade compulsiva de distração — que talvez seja a grande marca da psique do nosso tempo — e, por fim, essa inquietação constante que nunca se esgota, na qual a pessoa quer dormir e não consegue, porque está inquieta.

Os quatro exercícios espirituais estoicos

E o que os estoicos propunham como remédio, como fármaco para esses distúrbios da solidão?

Em primeiro lugar, que a pessoa tenha diante de si o mal que pode sofrer, que possa antecipá-lo e premeditá-lo — o mal que em algum momento certamente virá. Trata-se de uma preparação psicológica e espiritual para o fato de que vamos morrer, de que as pessoas que amamos vão morrer e podem morrer antes de nós, sejam mais velhas, sejam mais novas; de que podemos ter contratempos, sofrer acidentes na estrada, um revés financeiro, acadêmico ou afetivo. Precisamos ter sempre diante de nós essa possibilidade, saber que somos seres jogados no mundo e que certamente encontraremos momentos difíceis. Não devemos temê-los; devemos, na medida das possibilidades — que a rigor são poucas e variam conforme o objeto —, estabelecer estratégias de precaução. Para evitar uma doença, podemos melhorar a alimentação e fazer mais exercício, o que não é garantia, mas melhora um pouco as chances; trata-se, no fim das contas, de uma aposta fadada à derrota, porque vamos ficar doentes e morrer de um modo ou de outro. Para evitar um revés financeiro, precavemo-nos com o contador, com o controle das finanças pessoais ou empresariais; para evitar um revés afetivo, amamos, temos afeto. Mas essas estratégias não são garantia de nada.

E nada disso é razão para não se lançar à vida, para buscar a solidão como fuga — muito especialmente no caso das relações amorosas. A pessoa que foge do amor para não sofrer e prefere viver em isolamento, ou em relações marcadas não pelo afeto, mas por trocas de interesses, deixa de conhecer, de experimentar e de viver um certo aspecto da vida humana; deixa de viver efetivamente a vida em conjunto, a vida a dois, a três, a vida em família. E, para viver em família, é necessário não ter essa paralisia, essa atitude de fugir, pois é óbvio que se pode ter um revés amoroso, financeiro ou físico, que se pode morrer, e que qualquer um dos que se ama também pode morrer, porque somos mortais. Isso não é razão para não viver. A possibilidade da dor e do sofrimento não é razão para evitar a vida em conjunto, porque, a rigor, a vida é arriscada.

Um segundo exercício espiritual, além da premeditação dos males, é o da análise das representações. Devemos examinar as imagens e as representações que recebemos — da família, da literatura e, sobretudo, da indústria cultural: do cinema, dos seriados, da televisão, da música. Recebemos representações prontas e vamos construindo a nossa representação de mundo, a nossa visão de mundo, a partir delas. Eis o problema de nos alimentarmos com qualquer coisa, qualquer seriado, qualquer filme, qualquer música: tudo aquilo com que nos alimentamos passa a constituir quem somos e como nos situamos no mundo. Isso é muito real e muito sério. Habituados a assistir a sitcoms americanos, acabamos por pensar como as personagens — e, pior, não percebemos isso, porque sofremos de um ponto cego que não nos deixa enxergar o quão ideológica é a nossa visão. Enxergamos as coisas já com olhos ideológicos, e a ideologia se posiciona de modo que temos muita dificuldade de reconhecê-la como tal; é por isso que ela é tão problemática. Talvez seja inevitável, ao menos até certo ponto; mas, sendo inevitável, cabe controlar aquilo que vai constituir a ideologia a partir da qual enxergamos o mundo. E como controlar? Controlando o nosso alimento espiritual: o que assistimos na televisão, o que buscamos na internet, o que ouvimos no Spotify, nas festas ou nos shows — porque é isso que vai constituir quem somos, e não há como evitá-lo.

A pessoa que assiste a certos canais do YouTube ou do Instagram, ou escuta certas músicas, e pensa “eu vou conseguir separar aquilo que ouço daquilo que sou”, é ingênua, tem uma atitude naïve, infantil, porque não dá para fazer isso. É a mesma coisa que comer uma comida estragada pensando “eu sei que está estragada, mas vou comer mesmo assim, e meu estômago vai conseguir separar os elementos”: o estômago não consegue separar o veneno do alimento. Quem come comida estragada se envenena; do mesmo modo, envenena a própria alma quem fica assistindo a seriados e ouvindo, enfim, tudo o que não vale a pena. É um fato. É necessário, portanto, esse exercício de análise das representações e, consequentemente, de escolha das representações que vamos adotar.

Um terceiro exercício espiritual dos estoicos é o de colocar as coisas e a própria existência em perspectiva. Como assim? É visualizar, em primeiro lugar, como nossos problemas pessoais são relativos: pequenos diante dos problemas de algumas pessoas, grandes em comparação com os de outras. Aquele problema enorme que toma conta da vida talvez fosse, para outra pessoa, algo insignificante diante do que ela enfrenta todos os dias. Para nós é um problema grande, claro, mas precisamos relativizá-lo, pô-lo em perspectiva, porque a medida do problema é também a nossa medida existencial diante da vida. Se tomamos um problema particular da existência como se fosse um enorme problema, o mais sério do mundo, que demanda atenção extraordinária e solução imediata, estamos pondo a nossa existência do tamanho daquele problema.

É preciso, antes de tudo, pôr a existência em perspectiva diante do cosmos, da vastidão do cosmos. E isso pode ser feito toda noite, objetiva e materialmente: quando se encontra um lugar com o céu limpo na madrugada, pode-se olhar para o céu e ali permanecer não um minuto, mas dez, vinte minutos, deitando-se no chão e observando tudo o que está diante de si, percebendo a imensidão do cosmos, a imensa vastidão do universo. Ali se tem a dimensão da própria insignificância e da insignificância dos próprios problemas. Esse é um exercício de perspectiva, muito útil, que conduz ao autoconhecimento e, portanto, à autarquia. Trata-se de uma espécie de retiro momentâneo, que deve ser realizado em silêncio — e o silêncio é também um exercício espiritual estoico, porque conduz à clareza mental e ao equilíbrio interior.

Há ainda um quarto exercício, o da consciência da postura adequada, dos próprios músculos e do relaxamento dos músculos. É um exercício de reconhecimento da própria existência, estoico e de muitas outras tradições. Nele, toma-se consciência, em primeiro lugar, da própria respiração, da própria vida — e, se for possível, do próprio coração. Não basta tomar consciência e seguir a vida; é parar ali, investir um tempo, cinco ou dez minutos, tomando consciência da respiração, da postura, dos músculos. Com esses exercícios filosóficos, os estoicos apontam para o fato de que a solidão necessária para realizá-los — a solidão, o silêncio, o retiro, ainda que curto, de minutos e não de dias — pode conduzir ao caminho do autoconhecimento. E trata-se, evidentemente, de uma solidão feliz.

A solitude e a desolatio: a solidão na tradição monástica

É muito interessante que boa parte desses exercícios tenha sido acolhida pelos movimentos monacais da Idade Média, dos monastérios. Os monges também compreendiam dois sentidos para a solidão, um positivo e um negativo. Entendiam que havia um primeiro estado de solidão, a desolatio, a desolação: o estado negativo de abandono, de angústia, de isolamento — mas de um isolamento infeliz. A esse estado contrapunha-se outro tipo de solidão, a solitude, que é justamente a solidão feliz, produtiva espiritualmente, a solidão que serve para que nos encontremos conosco e com o próprio Deus.

A solitude diferencia-se de modo profundo e radical da desolatio. Por quê? Enquanto a solitude é prenhe de possibilidades espirituais, a desolatio só pode produzir o mal, porque produz, sobretudo, a acedia (acédia), um profundo tédio espiritual, uma inquietação da alma, um bloqueio que impossibilita a contemplação e o diálogo interior produtivo. Essa solidão da desolação podemos enxergá-la em muitas pessoas hoje: é uma solidão inquieta, angustiada. Ainda que tenham vários amigos, reais ou virtuais, ainda que vivam em família, essas pessoas encontram essa solidão.

Do mesmo modo, a solidão da solitude pode ser vivida, inclusive entre os medievais, numa comunidade. O mosteiro era uma comunidade em que os monges, mesmo os que estivessem em retiro e praticassem o silêncio, ainda que permanecessem solitários, estavam numa comunidade: os monges trabalham juntos, almoçam juntos, jantam juntos, oram juntos, participam de uma vida em comum, e ainda assim estão numa solidão feliz, numa cela material ou espiritual, uma cela interior, uma feliz cela. Pois a cela do monge é o seu local de trabalho — não só do trabalho intelectual, mas também do espiritual. A cela é um lugar feliz, ainda que solitário, e talvez feliz justamente por ser um local de solidão, dessa solidão feliz da solitude.

É uma solidão que exige muita disciplina, especialmente disciplina espiritual; exige, no caso dos monges, muita oração, para que não se torne desolação, angústia, abandono. Essa atenção e esse cuidado, que podem valer-se de exercícios espirituais à maneira daqueles de que falamos — os dos estoicos —, exigem muita atenção. É necessário manter-se atento para que o estado de solitude não se torne desolatio, para que a solidão feliz não se torne solidão angustiada. E é justamente esse o tipo de atenção espiritual que não se costuma ter: em vez de uma serena contemplação, de serenos exercícios voltados ao autoconhecimento e ao posicionamento existencial do sujeito no mundo, muitas pessoas realizam um exercício de alimentação do corpo e do espírito com lixo processado — quer o lixo processado do alimento material, quer o da indústria cultural. E é claro que o resultado será horroroso: a solidão torna-se desolação, abandono, angústia.

O deserto como símbolo: salvação e perdição

Um topos importante no modo de vida do monge medieval era o deserto: o deserto interior e o deserto exterior. E o que é um deserto? É um espaço vazio, um espaço infinito; é um lugar de autoconhecimento, de solidão, mas também de confronto. Ir ao deserto — quer denotativamente, estar no espaço material, quer subjetivamente, visitar o deserto interior — é sempre arriscado. Porque o deserto, embora seja um espaço infinito e vazio, é também um espaço de possibilidades infinitas e de conexões, pois o deserto vai dar em qualquer lugar. As pessoas cruzam o deserto, seres cruzam o deserto, e seres venenosos habitam-no e cruzam-no também. O deserto é, assim, o lugar de confronto com os demônios, lugar de procura de Deus e de enfrentamento do demônio; é o lugar de vida e de morte, de salvação e de perigo, de encontro e de perdição. Tudo isso está presente nesse símbolo que é o deserto.

E o deserto é muito importante nesse processo de solidão, porque a solidão é um deserto: ela pode nos elevar ou nos destruir. Qual a diferença entre o caminho que sobe e o que leva para baixo? O caminho é o mesmo; a diferença é a nossa atitude. No deserto, exige-se atenção constante, disciplina, jejum físico e espiritual. E é quando não se tem nada disso que se cai. A solidão que não seja disciplinada, que não tenha um propósito espiritual, que não venha combinada com a atitude de um certo jejum, de uma certa mortificação, é justamente a solidão que conduz à queda. Os monges medievais, os místicos, os sábios e santos do deserto sabiam bem disso. Mas as pessoas do nosso tempo não sabem: não entendem que a solidão seja um deserto, nesse sentido — uma oportunidade e também um risco, a vida e a morte, o encontro consigo mesmo e com o sentido da existência, mas também a perdição.

Pascal: a solidão como situação metafísica e o divertimento

E por que as pessoas precisam preencher esse momento da solidão, do deserto, com tantas novidades, com seriados, música, saídas, passeios, viagens? Blaise Pascal, de quem o curso já tratou, tem a resposta — uma resposta que parece muitíssimo correta. Para Pascal, a solidão é, em si, a própria situação metafísica do homem, uma situação na qual ele se coloca diante da sua finitude e da sua relação com o infinito. Estamos solitários, cada um de nós, entre a vida animal e a vida divina; o homem está nesse ponto. O homem é um caniço pensante (roseau pensant) que sabe que é um caniço pensante, como diz Pascal nos Pensées. Aqui está toda a tragédia da existência humana — uma tragédia que pode, no entanto, conduzir o homem a uma visão superior das coisas, uma visão divina.

Porque o homem sabe que está correndo perigo o tempo todo, sabe quão insignificante é. E é justamente esse saber que nos torna excepcionais, muitíssimo dignos. É aqui que o homem se confronta com a sua miséria e com a sua grandeza: somos, ao mesmo tempo, miseráveis e grandes. Mas só percebemos isso quando temos o tempo, o espaço, a ocasião da introspecção, da reflexão, da contemplação, da meditação. O problema é que isso é doloroso, porque nos confrontamos com o fato de que há em nós um vazio existencial que não pode ser preenchido — e, mais, de que morreremos sem preenchê-lo. Podemos perguntar a vida toda sobre o sentido da existência e da morte, e o universo manterá o seu silêncio; podemos buscar Deus e perguntar-lhe, e Deus igualmente manter-se-á em silêncio. O universo está em silêncio, Deus está em silêncio, e eles não nos respondem. Diante disso, reconhecemos a nossa absoluta insignificância, a absoluta insignificância das nossas perguntas e da nossa vida. E isso só é possível quando nos calamos na solidão, na solidão feliz, na solitude.

Caso não tenhamos a coragem de enfrentar esse vazio, esse silêncio e essa insignificância, toda solidão nos parecerá um isolamento, um abandono, uma angústia. E o ser humano quase nunca consegue ter a coragem de enfrentar a falta de sentido, o silêncio do universo e de Deus, e o seu próprio vazio. Por isso, quase sempre — e eis a resposta — a solidão é entendida como um terrível estado e produz angústia. É por isso que, nas palavras de Pascal, todo infortúnio e todo sofrimento do homem têm uma só causa: não saber o que fazer quando se está sozinho no quarto. Deixe-se qualquer homem dentro de um quarto, e ele começará a inventar jogos e brinquedos para si mesmo, a mexer as pernas e os braços — caso não tenha o celular, pois, se o tiver, o aparelho imediatamente o transportará para um mundo de conexões. E, mesmo que seja um celular sem internet, ele abrirá um joguinho da cobrinha ou um Tetris e ficará jogando. Porque, para o homem, a solidão e o silêncio quase sempre são insuportáveis: conduzem à compreensão de que ele carrega em si um vazio que não pode ser preenchido. E esse vazio dói. Ele busca aquilo que não pode ser encontrado, respostas que não podem ser ouvidas; é insignificante, não tem valor nenhum diante do universo, e ainda assim traz toda a responsabilidade do mundo, porque possui o divino dentro de si e, portanto, a liberdade — sendo responsável por tudo o que se passa em sua vida, por absolutamente tudo.

É por isso que, na nossa existência, o que buscamos o tempo todo é divertimento, fuga, distração, entretenimento. Para Pascal, a sociedade é propriamente um sistema de distrações (divertissement), um sistema no qual podemos fugir de nós mesmos. E a onipresença, em nosso tempo, do entretenimento — no celular, na televisão, na música — é a própria fuga. Pois, se estamos o tempo todo ocupando o nosso espírito, e fazemos isso justamente com esse propósito, nunca estaremos num estado de solitude, de contemplação, de aprofundamento; estaremos sempre fugindo. Fugindo de quê? De nós mesmos, da compreensão do nosso real estado, da nossa real situação na existência.

O deserto digital e a hipertaraxia

Concluindo, e dizendo-o a partir dos estoicos, dos monges medievais e de Blaise Pascal: essa situação de hiperconexão, de hiperconectividade digital do nosso tempo, é a mais sofisticada fuga produzida na história, a mais sofisticada fuga de nós mesmos. Trata-se de um verdadeiro deserto digital. E o aparelho celular, a televisão digital, o computador são desertos digitais, desertos no sentido mais rigoroso. Primeiro, porque são frios — são máquinas, dispositivos, não há vida ali. Segundo, porque são espaços infinitos que se apresentam como num deserto. E, finalmente, porque são espaços de confronto: na televisão, no computador, no celular, podemos buscar aquilo que há de mais elevado — o conhecimento, inclusive o autoconhecimento, a filosofia, a ciência, a literatura, o espiritual na cultura — e podemos também acabar sucumbindo, por preguiça, por covardia, no confronto com o próprio demônio, metaforicamente falando. O demônio do deserto, no nosso tempo, é muitíssimo aprazível: é gostoso perder o tempo da nossa vida pondo para dentro, consumindo, nutrindo o nosso espírito de lixo industrial.

A hiperconectividade é, assim, um deserto no qual recebemos uma educação para a solidão, só que ao contrário. A solidão que interessa no plano da hiperconectividade é justamente a solidão desesperada que busca o outro. Porque as redes sociais, as empresas de seriados, a indústria cultural se alimentam justamente dessa desolação que temos. Ela precisa produzir a desolatio, precisa produzir a acedia, o tédio espiritual, a inquietação da alma; precisa afastar-nos da ataraxia estoica. Pois na ataraxia estamos satisfeitos, não queremos desejar nada — e o mundo digital precisa que desejemos, porque precisamos consumir. Trata-se, então, de uma antieducação para a solidão, uma educação que valoriza somente a solidão desesperada e não dá espaço para a solidão feliz. A solidão nunca é feliz no mundo digital.

Nessa situação de desesperada solidão conectada, recebemos uma alimentação espiritual que é o contrário da que conduz à ataraxia: uma educação que conduz — e aqui o professor inventa um novo termo, um neologismo grego — à hipertaraxia. A ataraxia é a ausência de desejos; a hipertaraxia é a proliferação de desejos, o excesso de desejos. É para aí que o nosso mundo digital nos conduz, se não estivermos atentos, concentrados, preparados por exercícios e com uma finalidade muito bem estabelecida; é para esse tipo de demônio do deserto.

O mal, porém, não está no deserto, nem nas ferramentas digitais. O mal está na nossa atitude de não levar a sério o mal que tudo isso pode nos causar — pois pode também nos causar bem. Mas, para que as coisas sejam boas, para que possamos encontrar a feliz solidão, inclusive utilizando recursos digitais, precisamos de rigor, de disciplina, de uma busca ascensional.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Blaise Pascal. Pensamentos e Pensées e roseau pensant e divertissement(Pensées; roseau pensant; divertissement)

  • Gaston Bachelard — a solidão feliz da leitura e do devaneio (cf. A poética do devaneio(cf. A poética do devaneio / La poétique de la rêverie)

  • Aristóteles — a doutrina da justa medida (meio-termo). (meio-termo)

  • Os estoicos (tradição) — a autarkeia. ataraxia e anachoresis

  • A tradição monástica medieval — a distinção *solitude* / *desolatio* e o símbolo do deserto.

  • Mencionados: Friedrich Nietzsche (a quem se atribui o termo *amor fati*). (a quem se atribui o termo amor fati)

  • Pierre Hadot. Exercícios espirituais e filosofia antiga

  • Marco Aurélio. Meditações e Cartas a Lucílio e Sobre a tranquilidade da alma e ataraxia

  • Evágrio Pôntico e João Cassiano — sobre a *acedia* e a vida no deserto (a tradição dos Padres do Deserto). (a tradição dos Padres do Deserto)

  • Blaise Pascal. Pensamentos(ed. integral)

  • Friedrich Nietzsche. A Gaia Ciência e Ecce Homo e amor fati