Sinopse

Segunda aula sobre Jean-Paul Sartre, dedicada a traduzir em conceitos rigorosos a filosofia da liberdade apresentada na parte 1, a partir de sua obra-prima, O Ser e o Nada (1943), ensaio de ontologia fenomenológica escrito sob a ocupação nazista. A exposição mostra como Sartre constrói sua filosofia a partir de três gigantes — Hegel (a dialética do senhor e do escravo, em que o escravo o é por preferir a vida à liberdade), Husserl (o método fenomenológico e a intencionalidade) e Heidegger (a facticidade, o ser-no-mundo) — superando-os. O núcleo é a distinção ontológica entre o ser-em-si (as coisas, completas e fechadas, como a pedra) e o ser-para-si (a consciência, que é negação, falta e projeto — "um buraco no ser"). Daí a tese central: a liberdade não é algo que temos, mas o que somos — ser consciente é ser livre, poder negar o dado e imaginar o diferente. Não há natureza humana pré-determinada: a existência precede a essência, e somos "condenados a ser livres", radicalmente responsáveis, sem desculpas no determinismo econômico, psicológico ou biológico. A aula desenvolve o conceito de má-fé (a tentativa de fugir da liberdade, com os exemplos clássicos do garçom, da mulher no encontro e do militante que culpa o sistema por tudo), a torção da tese aristotélica (ninguém nasce senhor ou escravo, mas escolhe sê-lo) e a dinâmica do olhar do outro (o homem na fechadura, "o inferno são os outros", a objetificação recíproca nas relações). Conclui com o caráter incômodo de Sartre para a direita (a ordem social é construída e mutável) e para a esquerda identitária (o oprimido também escolhe como reagir), e com a verdade incômoda de que somos mais livres — e mais responsáveis — do que gostaríamos de ser.

Pontos-Chave

  • O Ser e o Nada como arma existencial: ensaio de ontologia fenomenológica (1943), escrito sob a ocupação nazista; para Sartre, entender o que somos é urgente, uma questão de vida ou morte.

  • As três inspirações: Hegel (a dialética do senhor e do escravo — o escravo o é por preferir a vida à liberdade diante da morte), Husserl (o método fenomenológico e a intencionalidade) e Heidegger (a facticidade, o ser-no-mundo); Sartre vai além de todos.

  • Ser-em-si × ser-para-si: o ser-em-si é a coisa, completa e fechada (a pedra "é o que é"); o ser-para-si é a consciência, que é sempre consciência de algo, projeção e, sobretudo, negação.

  • A consciência como negação e falta: a consciência pode dizer "não" ao que é e imaginar o que não é (a festa chata, o "eu poderia ter sido"); o ser humano é o único que sofre com o que não é — um "nada", um buraco no ser.

  • A liberdade que se é: a liberdade não é um atributo da consciência, mas a própria estrutura do ser-para-si; ser consciente é ser livre, pois é poder negar o dado e projetar o novo.

  • A existência precede a essência: não há natureza humana pré-determinada; não nascemos covardes ou corajosos, bons ou maus — tornamo-nos o que somos pelos nossos atos; o que define a pessoa é o que ela faz da sua liberdade.

  • Condenados a ser livres: é impossível não ser livre; somos livres para escolher o significado do que nos acontece (a doença terminal), mesmo quando não escolhemos a situação — e mesmo não escolher é escolher.

  • A recusa dos determinismos: Sartre rejeita o determinismo econômico (marxismo ortodoxo), psicológico (psicanálise/trauma) e biológico (genes) no campo da consciência — eles tornam as escolhas mais difíceis ou fáceis, mas a escolha é sempre da pessoa.

  • Má-fé: a tentativa de fugir da liberdade, atribuindo a responsabilidade a outra coisa (o garçom que se esconde no papel, a mulher que finge que a mão não é dela, o militante que culpa o sistema por tudo, o "foi mais forte do que eu").

  • O olhar do outro: o outro me objetifica (o homem surpreendido na fechadura, o cantar interrompido); "o inferno são os outros" — não ódio, mas o olhar que pode aprisionar em papéis fixos —, embora o outro seja "mediador indispensável" entre mim e mim mesmo.

Transcrição da Aula

O Ser e o Nada e as três inspirações

Esta segunda aula traduz em conceitos rigorosos a filosofia que, na parte 1, foi vista na vida de Sartre — na Resistência, no campo de prisioneiros, nas rupturas políticas, na relação de uma vida com Simone de Beauvoir. O livro central é O Ser e o Nada, a obra-prima de Sartre, um ensaio de ontologia fenomenológica publicado em 1943, em plena Segunda Guerra: enquanto Paris estava ocupada pelos nazistas e amigos eram presos e mortos, Sartre escrevia um tratado de 700 páginas. Por quê? Porque, para Sartre, entender o que somos é urgente — uma questão de vida ou morte; em certo sentido, a ontologia é uma arma existencial. O conceito central é a liberdade radical — não uma liberdade de escolha entre coisas contingentes (“posso beber suco ou refrigerante”), mas algo muito mais sério: você é absolutamente responsável por tudo o que faz, pensa e sente, e mesmo pelo que lhe acontece. Não há desculpas, álibis, nem para onde fugir: cada um é autor completo da própria vida, mesmo quando acha que não tem escolha.

Sartre constrói essa ideia a partir de três gigantes — Hegel, Husserl e Heidegger —, superando-os, e torcendo ainda uma ideia de Aristóteles sobre senhores e escravos. De Hegel, na Fenomenologia do Espírito, vem a dialética do senhor e do escravo: duas consciências se encontram e lutam pelo reconhecimento; uma vence e se torna senhor, a outra se submete e se torna escravo. Mas o detalhe crucial é que o escravo não é escravo por ter sido derrotado, e sim porque, diante da possibilidade da morte, preferiu a vida à liberdade — escolheu viver subjugado a morrer livre. Sartre radicaliza: toda relação humana tem algo dessa luta fundamental; quando se entra numa sala e todos olham, há uma batalha silenciosa — quem objetificará quem? quem será sujeito, quem será objeto? —, e por isso às vezes nos sentimos desconfortáveis sob o olhar dos outros, sendo coisificados. De Husserl (Edmund Husserl, da fenomenologia, não confundir com Bertrand Russell, o inglês da matemática), Sartre aprendeu o método fenomenológico: descrever as coisas como aparecem à consciência, sem pressupostos, colocando o juízo entre parênteses. Quando se tem ciúme, por exemplo, não se tem primeiro uma ideia abstrata da traição e depois o sentimento; o ciúme aparece como um modo total de estar no mundo — o sorriso do parceiro parece falso, a mensagem no celular parece suspeita, o mundo inteiro se organiza em torno da suspeita —, e Husserl ensinou Sartre a descrever esse tipo de experiência sem reduzi-la a causas psicológicas ou sociais. De Heidegger, Sartre aprendeu que o ser humano não é uma coisa entre as coisas, mas um ser-no-mundo, sempre já lançado em situações que não escolheu (a família, o país, a época) — a facticidade. Mas aqui Sartre se separa de Heidegger: isso não determina quem somos. Heidegger fala de uma serenidade diante do ser, de “deixar o ser ser”; Sartre acha isso uma traição, pois não há serenidade possível — a liberdade é inquieta, angustiante, inescapável. Diante da morte, Heidegger fala em assumir a própria finitude; Sartre concorda, mas acrescenta que você não apenas assume a morte: escolhe o que fazer com essa consciência — viver mais intensamente, entregar-se ao desespero ou fingir que a morte não existe —, e é o único responsável por essa escolha.

O ser-em-si, o ser-para-si e a liberdade

No núcleo da filosofia de Sartre está a divisão do ser em duas categorias: o ser-em-si e o ser-para-si. O ser-em-si é todo tipo de coisa que existe, o mundo das coisas: uma pedra é o que é, completa, fechada em si mesma, sem consciência, sem falta, sem projeto — não sofre por não ser montanha, não sonha em ser diamante, simplesmente é. (Mesmo os animais, para Sartre, estão mais próximos do ser-em-si: vivem no presente, seguem instintos, não se angustiam com o que poderia ter sido.) Já o ser-para-si, a consciência humana, é completamente diferente: é sempre consciência de algo, sempre projetada para fora de si; e, mais que isso, é negação. Como assim, negação? Numa festa chata, a consciência não está simplesmente na festa: está consciente de que a festa é chata, de que se poderia estar em outro lugar, de que a conversa poderia ser melhor — nega a situação presente, imagina alternativas, projeta possibilidades. A consciência é esse poder de dizer “não” ao que é e de imaginar o que não é. O “eu poderia ter sido médico, poderia ter sido piloto” é a consciência negando o presente, criando um vazio, uma falta. O ser humano é o único que sofre com o que não é, que se atormenta com o que poderia ter sido e se projeta para o que ainda pode ser.

Daí o insight genial de Sartre: a liberdade não é algo que temos, mas o que somos. A liberdade não é um atributo ou uma qualidade da consciência, mas a própria estrutura do ser-para-si — ser consciente é ser livre, porque é poder negar o dado, imaginar o diferente e projetar o novo. Um alcoólatra que diz “não consigo parar de beber” está mentindo, para nós e para si: ele pode parar, e a cada gole escolhe beber. “Mas e a dependência química?” Ela existe e torna tudo mais difícil, mas não elimina a escolha — e a prova é que alguns param (com ajuda, mas param); se alguns conseguem, todos podem, e a questão é se escolhem enfrentar o sofrimento real da abstinência. Isso significa que não há natureza humana pré-determinada: não nascemos covardes nem corajosos, generosos nem mesquinhos, bons nem maus — tornamo-nos o que somos pelas nossas escolhas e atos. Como diz a fórmula famosa, a existência precede a essência: primeiro existimos, depois nos definimos pelo que fazemos. Por isso não faz sentido dizer “é uma pessoa boa, mas que vive cometendo atos maus”: se comete atos maus, é má — pois o que define a pessoa é o que ela faz da sua liberdade.

Estamos, assim, condenados a ser livres — é impossível não ser livre. Essa frase famosa é por vezes mal compreendida: não significa que somos livres para fazer qualquer coisa (não posso voar batendo os braços nem respirar debaixo d’água). A questão é que somos condenados a ser livres porque somos livres para escolher o significado do que nos acontece. Alguém com uma doença terminal não escolheu a doença e não pode curá-la pela liberdade; mas pode escolher como viver o tempo que resta — amargurar-se ou aproveitar intensamente, lutar até o fim, negar ou abraçar a morte. Cada atitude é uma escolha, e mesmo decidir não escolher (deixar que os outros ou as circunstâncias decidam) é uma escolha. Por isso Sartre rejeita todos os determinismos no campo da consciência: o determinismo econômico do marxismo ortodoxo (você não age de certo modo por ser proletário ou burguês, mas porque é livre), o determinismo psicológico da psicanálise (os traumas não determinam suas ações) e o determinismo biológico (os genes não definem o caráter). Todos eles podem tornar algumas atitudes mais difíceis ou mais fáceis — como a situação econômica ou um trauma —, mas a escolha é sempre da pessoa. Quem cresceu num ambiente violento e se torna violento escolhe reproduzir a violência, e a prova é que outros, na mesma situação, escolhem diferente. Isso é duro, mas, se aceitássemos ser determinados pelo passado, pelo ambiente e pelos genes, não seríamos responsáveis por nada — e, se não somos responsáveis, também não somos livres, viramos autômatos dos genes e marionetes do inconsciente. Sartre se recusa a enxergar o ser humano assim: somos radicalmente livres e, por isso, radicalmente responsáveis.

A má-fé

Um homem trai a esposa e diz “foi mais forte do que eu” — mentira, má-fé: nada é mais forte do que você; você escolheu trair, e talvez tenha sido difícil resistir, mas escolheu não resistir. Assumir isso é angustiante, mas libertador, pois, se você escolheu, pode escolher diferente na próxima vez. Dizer que “não teve escolha” é má-fé — um dos conceitos mais importantes de Sartre: a má-fé é a tentativa de fugir da liberdade, de negar que somos livres, atribuindo a responsabilidade a outra coisa ou pessoa. Todos a praticamos às vezes, sem perceber. O exemplo clássico de Sartre é o garçom dedicado, cujos gestos são exagerados e o sorriso, profissional: toda a sua postura diz “eu sou um bom garçom”. Por que essa teatralidade? Porque assim ele se esconde atrás do papel — não é Carlos, com suas escolhas e angústias, que está ali, mas “o garçom”; e, se algo der errado, não é culpa de Carlos, mas o que se espera de um garçom. Isso é má-fé: esconder-se das responsabilidades sob o papel social. Outro exemplo: a mulher no primeiro encontro, cuja mão o homem segura, e que a deixa ali inerte, como uma coisa, sem retirá-la (o que seria rejeitá-lo) nem apertá-la (o que seria aceitar a investida) — fingindo que a mão não é dela, que não está escolhendo; mas é claro que está escolhendo deixá-la ali. Ou o militante que culpa o sistema por absolutamente tudo (o desemprego, o relacionamento que falha, a própria infelicidade): usa uma crítica social legítima como desculpa para não assumir nenhuma responsabilidade pessoal — também má-fé.

Aqui cabe uma conexão com Aristóteles, que, na Política, diz algo que hoje consideramos abominável: que alguns nascem para ser senhores e outros para ser escravos, por natureza. Sartre, mediado pela leitura de Hegel, torce essa ideia: ninguém nasce senhor ou escravo, mas alguns escolhem ser senhores e outros escolhem ser escravos. Como alguém pode escolher ser escravo? Pense-se no empregado que aceita as humilhações de um chefe brutal porque precisa do emprego e tem família para cuidar: ele escolhe a segurança do trabalho, e não a dignidade. Tem medo de ser demitido? Claro; mas, entre confrontar o chefe e arriscar o emprego ou aceitar a humilhação, escolhe aceitar — é escravo por escolha. Uma escolha compreensível, motivada pelo medo, mas ainda uma escolha. E o mais perturbador é que a má-fé pode ser confortável: é mais fácil dizer “eu sou assim mesmo” do que “eu escolhi ser assim”, “eu não tive escolha” do que “escolhi o caminho mais fácil e seguro”. A má-fé é um refúgio — mas um refúgio que nos aprisiona e nos rouba a consciência da própria responsabilidade.

O olhar do outro: “o inferno são os outros”

Sartre, grande dramaturgo, escreveu na peça Entre Quatro Paredes (Huis Clos) a fala que virou quase um meme: “o inferno são os outros”. A frase é mal interpretada: não significa que Sartre ou o personagem odeie as pessoas, mas que o olhar do outro pode nos aprisionar na má-fé, em papéis e identidades fixas. Num exemplo cotidiano: você está em casa, coloca uma música e começa a cantar e dançar sozinho — e de repente percebe alguém olhando pela janela. O que acontece? Você imediatamente se vê através do olhar do outro, como ridículo e patético; o outro acaba de roubar a sua espontaneidade, transformando-o em objeto de seu olhar, e você se objetifica, assumindo o papel envergonhado. Isso vai além: numa relação amorosa, há sempre essa tensão — você quer ser amado, mas ser amado é ser objeto do amor do outro; quer amar, mas amar é tentar possuir o outro como objeto. Nas relações amorosas reencontra-se a luta do senhor e do escravo numa versão íntima: quem objetificará quem? Sartre ilustra com a história do homem que espia pelo buraco da fechadura, completamente absorvido — e que, ao ouvir passos no corredor, instantaneamente se vê como os outros o veriam, como um voyeur, um pervertido. O olhar do outro, mesmo antes de acontecer (mesmo que não aconteça), já o transformou, e ele toma consciência do seu papel, cheio de vergonha. Isso não significa que devamos evitar o olhar do outro — pelo contrário, precisamos dele para nos conhecer; mas essa relação, em que a consciência toma consciência de si pelo olhar do outro, é sempre conflituosa, uma negociação entre ser sujeito e ser objeto. Como diz Sartre, o outro é sempre um “mediador indispensável entre mim e mim mesmo”: preciso do olhar do outro para tomar consciência de quem sou.

O incômodo político e a verdade incômoda

Sartre produz um incômodo libertador também na política. Para a direita conservadora, é inaceitável, porque destrói todas as justificativas para a ordem estabelecida: não há ordem natural ou divina, não há “sempre foi assim”, não há vontade de Deus que justifique a opressão. (Em O Existencialismo é um Humanismo, Sartre declara-se ateu, mas acrescenta que, mesmo que não fosse, isso não mudaria nada em sua filosofia — a questão da existência de Deus é irrelevante para a tese de que, no domínio humano, tomamos consciência, pelo olhar do outro, de que somos radicalmente liberdade em nossa própria estrutura.) Toda a ordem social é construída por escolhas humanas livres e, portanto, pode ser transformada: o rico não é rico por mérito natural (nasceu rico, herdou, ou agiu de modo a enriquecer, por sorte ou pela exploração dos outros) — a ordem social não é necessária, é contingente e pode mudar. Já para a esquerda, especialmente a identitária, Sartre é hoje um incômodo: quando alguém diz “ajo assim porque sofri uma opressão estrutural”, Sartre responde que a opressão estrutural existe e é real, mas você age assim porque escolhe reagir a ela desse modo. (O professor estende o argumento de Sartre — de modo polêmico e, ressalte-se, anacrônico, pois Sartre não tratou da identidade de gênero contemporânea — a exemplos atuais sobre identidade e desejo; trata-se de uma extrapolação do professor a partir do voluntarismo radical sartriano.) Quando alguém diz “meu trauma me define”, Sartre responde: você escolhe deixar que o trauma o defina. Num exemplo difícil — alguém que sofreu abuso na infância e tem dificuldade de relacionamento —, os psicólogos diriam que a dificuldade é natural, determinada pelo trauma; Sartre diria que o trauma aconteceu, foi terrível e não foi culpa da pessoa, mas que, adulto, ela escolhe continuar prisioneiro do trauma ou trabalhar para superá-lo — o que é dificílimo, mas é uma escolha. Isso soa cruel para alguns, mas Sartre diria que o verdadeiramente cruel é condenar alguém a ser para sempre uma vítima, determinada pelo passado — isso, sim, rouba a dignidade e transforma a pessoa em coisa determinada, e não livre. Mesmo na situação mais extrema — o prisioneiro torturado —, há liberdade: ele pode dar a informação ou resistir; se resiste e morre na tortura, morre livre. “Mas a dor é insuportável.” Sim, é; e, entre a dor e a traição, ele escolheu a dor — ou a traição. Não há aqui um julgamento moral (talvez traíssemos também), mas é uma escolha, não uma determinação. Por isso Sartre diz: mesmo na prisão, eu sou livre — sou responsável pelo que faço dessa prisão (desesperar-me, resistir, adaptar-me, fazer greve de fome, meditar); a prisão limita as ações, mas não a liberdade fundamental de dar um significado à situação.

O que se viu nesta aula: Sartre constrói, a partir de Hegel, Husserl e Heidegger, uma filosofia que leva a liberdade ao extremo absoluto. Não há natureza humana nem determinismo (histórico, material, psicológico, biológico), não há desculpas: somos condenados a ser livres e, portanto, responsáveis por tudo o que escolhemos, por toda a nossa vida. Isso é libertador e aterrorizante ao mesmo tempo: libertador porque sempre podemos mudar e escolher diferente, nunca estamos definitivamente presos ao passado; aterrorizante porque não temos onde nos esconder nem a quem culpar — somos os únicos autores da nossa vida. Quem se diz impotente diante da própria vida está mentindo para si mesmo, e Sartre não tem pena dessa mentira: cada vez que se diz “não tenho escolha”, escolhe-se não ver as escolhas que se tem; cada vez que se diz “eu sou assim mesmo, nasci assim”, escolhe-se continuar sendo assim. Isso conecta-se a todo o curso: os prisioneiros da caverna de Platão escolhem ficar nela, pois é mais confortável que enfrentar a luz e o desconhecido; e, se o imperativo categórico de Kant (agir de modo que a ação possa tornar-se máxima universal) já é difícil, Sartre é ainda mais radical, pois você não apenas deve agir moralmente, como é integralmente responsável por cada ação. Haverá um meio-termo possível entre a liberdade total e o determinismo, entre a responsabilidade individual e o condicionamento social? Talvez Sartre esteja certo e não haja compromisso possível — pois, no fundo, ele nos confronta com uma verdade incômoda: somos mais livres, radicalmente mais livres, do que gostaríamos de ser.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Jean-Paul Sartre. O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica e L'Être et le Néant(L'Être et le Néant, 1943)

  • Jean-Paul Sartre. Entre Quatro Paredes e Huis Clos(Huis Clos, 1944)

  • Jean-Paul Sartre. O Existencialismo é um Humanismo

  • G. W. F. Hegel. Fenomenologia do Espírito(a dialética do senhor e do escravo; o método fenomenológico; a facticidade, o ser-no-mundo)

  • Aristóteles. Política(a escravidão por natureza, torcida por Sartre; a alegoria da caverna; o imperativo categórico)

  • Jean-Paul Sartre. A Náusea

  • Jean-Paul Sartre. Esboço de uma Teoria das Emoções

  • Simone de Beauvoir. Por uma Moral da Ambiguidade

  • Maurice Merleau-Ponty. Fenomenologia da Percepção