George Berkeley
Sinopse
A aula aborda o pensamento de George Berkeley, situando-o como o filósofo que leva o empirismo às suas últimas consequências lógicas. O professor explora como Berkeley, ao refutar o materialismo de Locke e o dualismo de Descartes, estabelece o princípio fundamental de que a existência das coisas consiste em serem percebidas (esse est percipi). A discussão avança para as implicações metafísicas dessa postura, resultando no solipsismo e na necessidade de um Deus como recurso argumentativo para garantir a permanência do mundo exterior, culminando em uma reflexão sobre como essa subjetividade radical molda a cultura contemporânea.
Pontos-Chave
Teoria da Visão: A tese de que não percebemos objetos materiais diretamente, mas apenas luz e cores, o que fundamenta a primazia da sensação sobre a substância.
Esse est percipi: O princípio ontológico de que "ser é ser percebido", transformando o mundo em um conjunto de ideias na mente.
Antimaterialismo: A crítica à noção de matéria como uma abstração desnecessária e insustentável dentro de uma perspectiva estritamente empírica.
O Papel de Deus: A utilização da mente divina como o observador universal que sustenta a existência das coisas quando não há percepção humana.
Sujeito Solipsista: A linhagem filosófica que coloca o mundo dentro do "eu", retirando o homem da posição de habitante para a de instituidor da realidade.
Transcrição da Aula
Contextualização e a Crítica à Filosofia Moderna
George Berkeley, nascido em 1685 e falecido em 1753, foi um pensador de origem nobre e sólida educação clássica, tendo frequentado o Trinity College em Dublin. Embora fosse profundo conhecedor da filosofia grega e tenha atuado como professor de grego, o diálogo de Berkeley não se dá com os antigos ou medievais — prática comum na modernidade —, mas sim com seus contemporâneos e predecessores imediatos: René Descartes, Thomas Hobbes, John Locke e Isaac Newton.
Aos 24 anos, em sua obra Ensaio sobre uma Nova Teoria da Visão (1709), Berkeley estabeleceu a premissa de que a visão humana não apreende objetos propriamente ditos, mas sim a luz que chega aos olhos. Essa concepção, derivada em parte de Locke, torna-se o núcleo de seu pensamento posterior, consolidado no Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano (1710). O professor explica que Berkeley percebeu uma convergência oculta entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Locke. Enquanto Descartes postulava a existência de ideias inatas e de uma substância extensa (matéria), Locke afirmava que todo o conhecimento provinha dos sentidos. Contudo, em ambos os casos, o mundo real permanecia inacessível: o que o sujeito conhece são apenas as ideias ou sensações que ele tem sobre o mundo. Conforme ilustrado, a sensação de um copo de café não é o copo de café em si, da mesma forma que a representação de um objeto não se confunde com o objeto real.
A Percepção como Fundamento da Existência: Esse est percipi
Berkeley radicalizou o empirismo ao questionar a necessidade de se pressupor a existência da matéria. Se tudo o que conhecemos são percepções, a afirmação de que existe algo “material” por trás delas é metafisicamente insustentável. Para o filósofo, as qualidades primárias (extensão, forma, massa) são tão relativas ao sujeito quanto as qualidades secundárias (cor, odor, sabor). O professor exemplifica essa relatividade através da percepção de um periférico de computador: o tamanho e a forma de um mouse variam conforme a distância do olhar e a disposição da consciência.
Dessa forma, Berkeley estabeleceu o axioma esse est percipi (ser é ser percebido). Para ele, um objeto consiste meramente em um conjunto de ideias e sensações. Sob essa ótica, o empirismo revela-se, em última instância, um idealismo. O mundo deixa de ser uma realidade externa pré-existente e passa a habitar o interior da mente do sujeito. O professor ressalta que essa mudança de paradigma altera a posição do homem no universo: ele deixa de ser uma criatura jogada em um mundo que o precede para se tornar o instituidor e “criador” de sua própria realidade fenomenológica.
O Problema do Solipsismo e o Recurso a Deus
A filosofia de Berkeley conduz inevitavelmente ao problema das outras mentes e ao solipsismo absoluto: como garantir que algo continua a existir quando não há ninguém para percebê-lo? Se a existência depende da percepção, um quarto fechado e vazio deixaria de existir no momento em que a porta fosse selada. Berkeley, na qualidade de bispo anglicano de Cloyne, solucionou esse impasse através da figura de Deus.
Para Berkeley, Deus é um espírito infinito cuja mente onipresente percebe todas as coisas simultaneamente. Assim, as coisas permanecem existindo independentemente da percepção humana porque são continuamente percebidas pela consciência divina. O professor observa que, tal como em Descartes, o recurso a Deus funciona em Berkeley como um “artifício retórico” ou uma necessidade lógica para evitar o isolamento total do sujeito em sua própria mente. Deus é a alavanca que permite a transição de um solipsismo fechado para um idealismo que suporta a existência de outras mentes e de um mundo persistente. Karl Popper, inclusive, classifica a epistemologia de Berkeley como instrumentalista, sugerindo que suas teorias não descrevem a “verdade última”, mas funcionam como ficções úteis para explicar o funcionamento dos fenômenos.
O Legado do Sujeito Atômico na Contemporaneidade
A aula conclui com uma reflexão sobre a linhagem do “sujeito atômico” que se inicia em Descartes, passa por Locke, Berkeley e Hume, e estende-se até Kant, Schopenhauer, Husserl e o existencialismo de Jean-Paul Sartre. Essa tradição consolidou a ideia de um sujeito solipsista para quem o mundo existe em função do “eu”.
Essa metafísica tem implicações profundas na cultura contemporânea. Ao acreditar que o mundo é uma construção de sua própria consciência, o indivíduo moderno passa a exigir que a realidade se adapte às suas ideias subjetivas, e não o contrário. O professor contrasta essa postura com o estoicismo antigo, no qual o objetivo era compreender a ordem do mundo para mudar a si mesmo. No solipsismo moderno, qualquer divergência entre a realidade e a ideia subjetiva é vista como uma ofensa à consciência, gerando um movimento cultural que busca transformar o mundo para que este se conforme aos desejos e percepções do sujeito.
Glossário
Referências Bibliográficas
BERKELEY, George. Ensaio sobre uma Nova Teoria da Visão(1709)
BERKELEY, George. Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano(1710)
DESCARTES, René. Meditações Metafísicas
LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano
POPPER, Karl. Conjecturas e Refutações(onde discute o instrumentalismo de Berkeley)
BERTOCHE, Gustavo. O Sujeito Atômico na Modernidade(Obra de referência do professor mencionada na aula)
AYERS, Michael. Berkeley: Ideas, Immaterialism and Objective Presence