Sinopse

Esta aula apresenta Nicolau Maquiavel como o homem complexo do Renascimento que, a partir de sua experiência como secretário e diplomata da República de Florença e de seu profundo conhecimento da história, fundou filosoficamente o Estado moderno e o conceito de razão de Estado. O professor parte do equívoco popular que atribui a frase "os fins justificam os meios" a Maquiavel para reconstruir a biografia do pensador e o enigma de suas duas obras maiores — O Príncipe, aparentemente tirânica, e os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, aparentemente republicana. A exposição demonstra que Maquiavel é, antes de tudo, um amante da liberdade política dos antigos e o teórico de um Estado laico, erguido contra a Igreja, no qual a ética política se separa radicalmente da ética pessoal. São desenvolvidos os conceitos centrais de virtù e fortuna, a tese de que os vícios privados se convertem em virtudes públicas e a inversão maquiaveliana entre essência e aparência, entre doxa e episteme. A aula encerra com uma crítica original: Maquiavel teria fracassado como realista político ao ignorar as motivações morais, religiosas e existenciais do ser humano, tornando-se menos um realista do que um ideólogo da política — uma cegueira cujos ecos o professor reconhece na cultura contemporânea das redes sociais e na primazia da aparência sobre a verdade.

Pontos-Chave

  • Razão de Estado: Conceito criado por Maquiavel segundo o qual a preservação, a unidade e o aumento do poder do Estado constituem o bem supremo, justificando ações — mentir, enganar, eliminar adversários — que seriam crimes na esfera privada.

  • Ética política versus ética pessoal: Maquiavel é o primeiro a separar radicalmente as duas ordens, sustentando que os vícios privados (egoísmo, dissimulação, ganância) se convertem em virtudes públicas quando beneficiam o Estado.

  • Virtù: Não a virtude cristã ou pessoal, mas a capacidade do governante de agir conforme as circunstâncias exigem, inclusive praticando o mal, para servir à razão de Estado; uma certa "psicopatia" funcional.

  • Fortuna: O acaso incontrolável, força entrópica de destruição comparada a um rio caudaloso; o homem de virtù a domina como quem ergue diques e represas, convertendo a destruição em fonte de poder.

  • Liberdade dos antigos e liberdade dos modernos: Maquiavel é um defensor da liberdade dos antigos — a participação direta no governo — distinta da liberdade dos modernos, que é a ausência de interferência do Estado na vida privada.

  • O Estado laico contra a Igreja: Segundo a leitura de Hannah Arendt, Maquiavel sistematiza o Estado moderno como instituição erguida contra a Igreja e o cristianismo, encarando a religião como criação humana útil à manipulação dos súditos.

  • Inversão de essência e aparência: Maquiavel inverte a relação platônica entre doxa e episteme, afirmando que, na política, não importa o que se é, mas como se parece ser — uma antecipação da tese de que a existência precede a essência.

  • A crítica ao realismo de Maquiavel: Ao desprezar as motivações morais, religiosas e existenciais, Maquiavel deixa de ser um verdadeiro realista político e se revela um ideólogo da política como instância suprema da existência humana.

Transcrição da Aula

O equívoco fundador: Maquiavel para além da lenda

Maquiavel é um dos filósofos mais polêmicos e variadamente interpretados de toda a história do pensamento. Conforme observa o professor, ele já foi apontado tanto como campeão da república e da liberdade quanto como defensor da tirania e da opressão, com todas as nuances possíveis entre esses dois extremos. Pensá-lo exige, antes de tudo, reconstituí-lo como aquilo que foi: um homem complexo do Renascimento, imerso nas disputas políticas de seu tempo, empenhado em sobreviver e em legar uma obra de filósofo, político, escritor e historiador.

A aula parte de um episódio recente e ilustrativo. Em um julgamento no Supremo Tribunal Federal, um advogado, seja por desconhecimento, seja por um ato falho, declarou que O Pequeno Príncipe teria afirmado que os fins justificam os meios. O equívoco é duplamente revelador. O Pequeno Príncipe é a obra poética de Antoine de Saint-Exupéry, na qual um pequeno príncipe deixa seu planeta, cai na Terra e encontra um aviador acidentado no deserto — narrativa belíssima que nada tem a ver com Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, e não do Pequeno Príncipe. O equívoco, porém, vai mais fundo: em nenhuma passagem de nenhum texto de Maquiavel se encontra escrita a frase “os fins justificam os meios”. Trata-se, no máximo, de uma interpretação. Há quem a sustente a partir de Maquiavel — Hannah Arendt o faz com clareza —, e há quem negue que o pensamento de Maquiavel siga por esse caminho. A questão permanece disputada e em aberto, e provavelmente jamais será resolvida. Confundir, no entanto, o autor florentino com a fábula de Saint-Exupéry é, como diz o professor, uma piada pronta.

Vida e formação: o secretário florentino

Maquiavel foi um filósofo italiano do Renascimento, dos anos 1500, embora tenha nascido na segunda metade do século XV: veio ao mundo em 1469 e morreu em 1527. É curioso que não tenha publicado O Príncipe em vida; sua obra mais famosa só viria a lume cinco anos após sua morte, em 1532. Nasceu numa família de classe média alta, com recursos, na qual o pai era funcionário do Estado, ligado ao judiciário de Florença. Isso lhe garantiu, ainda jovem, uma excelente educação privada: estudou com tutores, aprendeu latim, gramática e retórica, recebendo uma formação humanista típica de seu tempo. Não se sabe ao certo se dominava o grego, mas certamente lia muito bem o latim, além do italiano.

Após a expulsão dos Médici de Florença, a cidade tornou-se república, e Maquiavel foi nomeado funcionário do Estado. Iniciou a carreira organizando e redigindo documentos oficiais e, pouco depois, tornou-se secretário dos Dieci di Libertà e Pace, o órgão responsável pelas relações exteriores, pela diplomacia e também pela guerra na República de Florença. Como secretário desse órgão, empreendeu inúmeras missões diplomáticas — a Roma, a Pistoia — e observou de perto o funcionamento da corte de Cesare Borgia, da poderosa família Borgia, em 1502 e 1503. Conheceu ainda a corte da França, de Luís XII, e a corte da Espanha. Teve, portanto, uma vivência riquíssima da diplomacia de sua época, dos Estados nacionais em formação e das grandes famílias que disputavam o poder.

Maquiavel era, ao mesmo tempo, um profundo conhecedor da história. Além da História de Florença, escreveu os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, análise da obra do historiador romano que viveu na transição entre a Antiguidade anterior a Cristo e as primeiras décadas depois de Cristo. Tito Lívio narrou a história de Roma, e ainda que boa parte de sua obra esteja perdida, dela se preserva uma porção significativa. É preciso notar, contudo, que Maquiavel não analisa os escritos de Tito Lívio a partir de uma perspectiva meramente internalista, voltada para o texto em si mesmo: sua análise está sempre orientada para a compreensão da situação política da Itália de seu tempo, do início do século XVI. É exatamente o que faz também em O Príncipe. Maquiavel parte sempre da história para tecer suas considerações e estabelecer, de modo normativo, aquilo que o governante deve fazer para beneficiar o Estado.

A milícia cidadã e a queda

Como funcionário da diplomacia florentina, Maquiavel teve papel decisivo na criação de uma milícia organizada com cidadãos livres da cidade-estado. Ele era contrário à contratação de exércitos mercenários, e explica bem o motivo em O Príncipe: tais exércitos não são confiáveis, pois lutam por quem paga mais e trairão seu financiador assim que o inimigo oferecer melhor recompensa. Maquiavel acreditava, ao contrário, num exército constituído pelo próprio povo, disposto a arriscar a própria vida com furor patriótico para defender seu Estado, seu país, sua família e sua cidade. Nesse ponto, observa o professor, ele estava certo.

Ocorre que essa milícia florentina, com algumas centenas de homens bem equipados, munidos de lanças e das armas de fogo rudimentares da época, teve sucesso apenas inicial. Sob o comando do próprio Maquiavel, chegou a conquistar Pisa, mas, ao enfrentar a cidade-estado de Prato, sofreu uma derrota arrasadora diante dos Médici, então aliados ao Papa Júlio II e ao exército da Espanha. A derrota foi desastrosa para Florença: a cidade-estado e a república foram dissolvidas. Maquiavel foi preso e torturado, permanecendo cerca de três semanas no cárcere, até conseguir convencer seus captores de que pouco tinha a ver com aquilo. Depois desse episódio, decidiu abrir mão da carreira política e viver seus últimos anos em sua fazenda, dedicando-se à vida intelectual. Passou a escrever livros e peças de teatro — que, ao que tudo indica, alcançaram relativo sucesso na Florença de seu tempo — e a corresponder-se com filósofos e políticos. Suas cartas são hoje consideradas um tesouro histórico, pois permitem pensar e compreender por dentro o mundo do Renascimento italiano.

O sonho de Maquiavel

Já com pouco mais de cinquenta anos, Maquiavel adoeceu do estômago e passou seus últimos tempos acamado. Há um episódio muito interessante, narrado por Maurizio Viroli — importante professor italiano que também atua nos Estados Unidos — em sua excelente biografia O Sorriso de Maquiavel. Viroli conta um sonho que Maquiavel teria relatado aos amigos que o visitavam, já ciente de que não lhe restava muito tempo de vida.

No sonho, Maquiavel se encontrava em meio a uma procissão de pessoas de aparência miserável, malvestidas, humildes como mendigos. Ao perguntar quem eram e para onde iam, ouviu como resposta: “Somos os santos, os que receberam a graça, e vamos para o céu, para a glória de Deus.” Em seguida, ele viu outra procissão, de homens muitíssimo bem-vestidos, de aparência nobre, rica e poderosa. Entre eles, reconheceu Platão, Plutarco, Tácito — historiadores, filósofos e governantes, todos imersos numa discussão fascinante sobre a política, sobre o poder. Quando lhes perguntou para onde se dirigiam, responderam: “Vamos para o inferno.” Diante disso, Maquiavel concluiu, dirigindo-se aos amigos, que, se assim eram o céu e o inferno, preferia muito mais o inferno e a danação eterna, para poder continuar conversando sobre política, sobre o Estado e sobre a história com aquelas pessoas. Consta, ainda assim, que teria recebido os ritos finais segundo a tradição católica: embora não fosse pessoa especialmente religiosa, recebeu, como de costume, a extrema-unção, e morreu em 1527. O sonho, como se verá, condensa de modo dramático a inversão de valores que define toda a sua filosofia.

O enigma das duas obras: tirania ou república?

As duas obras mais importantes de Maquiavel — O Príncipe e os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio — causam grande confusão entre historiadores da filosofia. Embora ostentem, ambas, a marca inconfundível do método e da redação de Maquiavel, de modo que é nítido tratar-se do mesmo autor, parecem defender teses não apenas diferentes, mas talvez opostas. Em O Príncipe, Maquiavel parece sustentar uma abordagem mais tirânica do poder e do Estado diante dos cidadãos; nos Discursos, parece defender uma abordagem mais republicana. A partir dessa tensão, abre-se uma pluralidade de interpretações.

Leo Strauss, um dos maiores estudiosos de Maquiavel, vale-se de seu método de leitura nas entrelinhas — exposto na obra A Perseguição e a Arte de Escrever — para sustentar que, no fundo, Maquiavel não é exatamente um republicano. Em sentido oposto, Quentin Skinner, outro importante historiador da filosofia política, dedicado ao início da modernidade, considera que Maquiavel é, sim, um republicano, e mais: que ele inaugura propriamente a modernidade, sendo o seu o primeiro pensamento moderno na filosofia política. Permanece, assim, o enigma: seria Maquiavel um defensor da tirania ou um defensor da república?

Ao professor parece que a solução não é simples, mas dialética. Em primeiro lugar, é muito evidente que Maquiavel é um amante da liberdade política — da liberdade dos antigos, na expressão de Benjamin Constant. Não há nenhuma dúvida de que ele amava a liberdade e a defendia: a liberdade dos Estados diante de outros Estados ou de instituições como a Igreja, e a liberdade dos cidadãos na participação do próprio governo.

A liberdade dos antigos: Constant, Berlin e Aristóteles

A distinção evocada remonta a Benjamin Constant, que opôs a liberdade dos antigos à liberdade dos modernos. A liberdade dos antigos é a liberdade propriamente política: a liberdade de decidir quem governa. Quanto maior o poder de decidir quem me governa, maior a minha liberdade nesse sentido. Uma sociedade dotada de grande liberdade dos antigos é aquela em que as pessoas participam do poder e do governo, em que os cidadãos podem interferir diretamente nas decisões políticas — por meio de comitês, associações e instâncias deliberativas de toda ordem.

O professor ilustra essa ideia com uma experiência própria. No final da década de 1990, durante a implantação do Sistema Único de Saúde no Brasil, realizavam-se conferências municipais, estaduais e nacionais de saúde. Como membro do movimento estudantil, ele foi delegado nas três instâncias: primeiro nas reuniões municipais de Teresópolis, que ocorriam mensalmente, representando os estudantes locais; depois, como representante dos estudantes nas conferências estadual e nacional. Tratava-se de poder decisório efetivo, capaz de influenciar leis e decisões executivas e legislativas — um exemplo nítido de participação e interferência políticas, isto é, da existência de uma ampla liberdade dos antigos.

A liberdade dos modernos, por sua vez, é a liberdade propriamente liberal: a liberdade de fazer o que se quer com a própria vida, sem a interferência do Estado. Tem-se tanto mais liberdade dos modernos quanto mais se pode agir livre dessa interferência. São, portanto, dois conceitos distintos de liberdade, examinados a fundo por Isaiah Berlin, no ensaio Dois Conceitos de Liberdade, publicado no Brasil em uma coletânea de artigos e ensaios. O conceito de liberdade de Maquiavel é o conceito de liberdade antiga: a liberdade de decidir quem governa ou de participar do governo — a mesma de que fala Aristóteles, por exemplo, ao definir o cidadão como aquele que tem o poder de participar das decisões políticas e da administração pública. Maquiavel é, nesse sentido, um inequívoco defensor da liberdade.

O Estado laico contra a Igreja

É importante perceber que Maquiavel não gostava da influência da Igreja católica, da Igreja de Roma, na política italiana de seu tempo. Segundo a interpretação de Hannah Arendt — com a qual o professor concorda —, Maquiavel cria, ou sistematiza filosoficamente, a ideia do Estado moderno, que então se encontrava em gestação ao longo dos séculos XV e XVI. Maquiavel é o filósofo que estabelece teoricamente esse Estado, e o estabelece, em primeiro lugar, contra a Igreja e contra o cristianismo. O Estado, para Maquiavel, é uma instituição erguida contra a Igreja; é laico e precisa sê-lo, devendo inclusive repelir a influência eclesiástica, que era também uma influência política. Convém lembrar que, naquele tempo, a Igreja interferia diretamente na política europeia e na das cidades-estado: o Papa constituía exércitos e entrava em guerras — tanto que o próprio Maquiavel perdeu, em Prato, uma batalha patrocinada pelo Papa Júlio II.

Mais ainda: para Maquiavel, a religião é uma criação dos homens, e não algo divino. A religião é humana, demasiadamente humana, e serve para controlar as pessoas. O príncipe, por isso, deve utilizar a religião para manipular seus súditos e cidadãos. Deve o governante ser, ele próprio, realmente religioso? Absolutamente não. Ele deve apenas fingir e parecer religioso, a fim de conquistar a confiança das pessoas de fé. O professor reconhece nesse fenômeno algo que se vê o tempo todo na República brasileira, quando políticos profissionais se valem da religião para ganhar votos ou para retirá-los de adversários.

Para ilustrar, recorda um episódio dos anos 1980: na disputa pela prefeitura de São Paulo, em 1985, Fernando Henrique Cardoso, ainda não presidente, estava próximo de vencer. Indagado por um jornalista, numa entrevista, se acreditava em Deus, e tendo uma formação intelectual de esquerda muito pronunciada, de raiz marxista, respondeu com sinceridade que não acreditava — e perdeu a eleição. Depois disso, não cometeria o mesmo erro, pois os candidatos, em regra, não incorrem nesse tipo de equívoco, a não ser quando são ingênuos a ponto de dizer a verdade. Do ponto de vista de Maquiavel, porém, um político não tem direito à parresía, ao dizer-a-verdade; se a pratica, é um mau político, um político fraco. O político não deve dizer a verdade, exceto quando ela for conveniente — e conveniente não para o seu próprio benefício, que é secundário, mas para a defesa do Estado, de suas instituições e de sua permanência diante dos inimigos internos e externos.

A razão de Estado

Esse problema condensa-se no conceito de razão de Estado. Sob a razão de Estado cabe tudo aquilo que deve ser feito para que o Estado não perca força nem influência e, ao contrário, amplie o seu poder. Em nome da razão de Estado, o governante deve mentir, enganar, fingir e parecer. Há aqui uma ética política diferente da ética pessoal, e Maquiavel tem plena consciência dessa diferença. Na vida privada não devemos buscar enganar os outros: devemos dizer a verdade, ser cordiais e pacíficos, porque ali não está em jogo a preservação do Estado. A preservação do Estado, ao contrário, é o maior bem que pode ser alcançado na perspectiva de Maquiavel; é o objetivo máximo de uma pessoa — governar o Estado e mantê-lo forte e poderoso.

Nesse ponto, Maquiavel difere profundamente dos filósofos da Antiguidade que trataram da política, como Platão e Aristóteles. Para Platão, o Estado é um meio para favorecer a busca da verdade, da beleza e da justiça, isto é, a ascensão existencial e noética da inteligência humana rumo à verdade. O Estado tem, antes de tudo, uma finalidade pedagógica; é o lugar da pedagogia, e deve ser ordenado de cima a baixo segundo critérios pedagógicos — é nesse sentido que Platão defende, na República (e não nas Leis), a expulsão dos poetas. Para Aristóteles, o Estado é a organização de pessoas voltada a uma finalidade que o ultrapassa: a realização da eudaimonia, da felicidade entendida como florescimento e plena realização das potências humanas. É no Estado que as potências do homem podem realizar-se de modo mais pleno; um bom Estado é aquele que permite às pessoas florescer, e um mau Estado é aquele que o impede. Também aqui o Estado é um meio.

Para Maquiavel, ao contrário, o Estado não é exatamente um meio: é, de certo modo, uma finalidade em si mesma. E a política é justamente a ciência ou a arte de manter o Estado unido, forte e poderoso. Esse conceito de razão de Estado, criado por Maquiavel, é utilizado até hoje. Em nome da razão de Estado existem documentos secretos, fazem-se guerras e adota-se determinado tipo de diplomacia. Em nome da razão de Estado os Estados Unidos criaram a prisão de Guantánamo e foram à guerra no Iraque, no Afeganistão, no Vietnã e na Coreia; em nome da razão de Estado, no Brasil, mantêm-se secretas as contas do cartão de crédito dos presidentes. A razão de Estado é, ainda hoje, um conceito fundamental da política — e foi criado por Maquiavel.

Virtù e fortuna

Talvez os conceitos mais conhecidos de Maquiavel sejam os de virtù e fortuna. Mais uma vez, trata-se da questão do Estado, e a ética política de Maquiavel difere da ética pessoal. É natural pensar a virtude como o conjunto das boas atitudes que se pode ter diante dos outros, de si mesmo e do mundo: a parresía, a coragem de dizer a verdade mesmo correndo riscos; a justiça; a bondade. Para Maquiavel, porém, nada disso é virtude política. Por isso, ao falar da virtude no sentido maquiaveliano, não se emprega a palavra portuguesa, mas o termo italiano tal como ele o escreveu: virtù.

A virtù de Maquiavel é a capacidade do governante, ou dos membros do governo, de agir de modo a beneficiar a razão de Estado, ou seja, o próprio Estado. É, em primeiro lugar, a capacidade de agir conforme as circunstâncias exigem. Se as circunstâncias o exigem, é assim que o governante de virtù deve agir — ainda que isso signifique mentir, prender injustamente um adversário político, ou mesmo matá-lo; ainda que signifique cometer algo que, fora da esfera política, seria compreendido como crime. Se partíssemos de uma virtude cristã ou das relações pessoais, diríamos que a virtù de Maquiavel é um compromisso com o mal: o governante não deve temer ser mau no sentido cristão e pessoal do termo. É exatamente o que o sonho relatado aos amigos deixa claro. O bom governante é aquele que pode ser mau, que pode tomar atitudes más do ponto de vista cristão e das relações pessoais; mas, na política, a maldade não é um mal. Há aqui uma inversão completa dos valores.

Essa é a diferença em relação a Aristóteles e a Platão, para quem há correspondência entre os valores: o bom Estado é o que propicia o bem, é bem ordenado e tem finalidade boa. Em Platão, particularmente, há uma identidade — em níveis diferentes de realidade — entre a boa constituição do indivíduo e a boa constituição do Estado. Para Maquiavel não há identidade alguma; há, ao contrário, oposição e contradição: aquilo que é mais correto para o Estado é o menos correto para o indivíduo. Maquiavel inaugura, assim, uma tradição que perdura até hoje e que está presente no liberalismo — a ideia de que os vícios privados constituem virtudes públicas. Aquilo que no mundo privado é tido por vício (o egoísmo, a competitividade extrema, a ganância) é um mal na ética das relações entre as pessoas: ninguém deseja conviver com alguém egoísta, hipercompetitivo, que tudo queira para si. Publicamente, porém, isso se converte em virtude, porque contribui para o avanço do Estado e beneficia a razão de Estado. A ética privada e a ética pública não são apenas diferentes: são opostas, numa inversão total. O que é bom no mundo privado é mau na vida pública, e o que é mau na vida privada é bom na vida pública. Trazendo a questão para uma linguagem psiquiátrica contemporânea, o bom governante deve, de algum modo, ser um psicopata: deve ter certa psicopatia, certa falta de limites em relação ao que pode fazer, dizer ou ordenar que outros façam. Esse é o governante de virtù.

O conceito associado à virtù é o de fortuna. Numa passagem célebre, Maquiavel compara a relação entre fortuna e virtù à de um rio caudaloso e poderoso que, em enchente, destrói tudo ao seu redor. Esse rio é a fortuna: uma força que produz destruição, miséria, doença e mal para a sociedade; é o acaso incontrolável. É possível, contudo, ao homem de virtù, controlar de certo modo a fortuna e pô-la a trabalhar a seu favor e a favor do Estado. Maquiavel recorre, então, à imagem dos diques, das comportas e das represas que se podem construir para domar a força das águas e colocá-la a serviço do homem — movendo moinhos, irrigando campos e, hoje, produzindo eletricidade. O homem de virtù consegue controlar a fortuna, o incontrolável da vida, e fazer com que o mal se torne um bem.

O professor ilustra com uma situação cotidiana. Imagine-se um governante a caminho de uma reunião política importante que, de repente, fica preso no trânsito, atrasado, em meio a uma manifestação de mototaxistas ou de entregadores que usam a moto como instrumento de trabalho e que se revoltaram contra alguma lei que dificultou o exercício de sua profissão — algo corriqueiro nas grandes capitais como o Rio de Janeiro e São Paulo. Trata-se da fortuna em ação, do acaso que, com poder entrópico, vai destruindo a estrutura da sociedade; a fortuna é a entropia. Um homem sem virtù apenas reclamaria, telefonaria aos demais para avisar do atraso e permaneceria no carro oficial. Já o homem dotado da potência da virtù faria algo diferente: sairia do carro, iria ao encontro dos líderes da manifestação, conversaria com eles, ouviria suas demandas e se apresentaria como uma liderança política capaz de ajudá-los, tornando-se uma referência. Assim ganharia poder. O homem de virtù toma o que há de mal nas circunstâncias e sabe aproveitá-lo, convertendo o poder entrópico de destruição em fonte de poder constitutivo. É isto que Maquiavel quer dizer com virtù e fortuna.

Aparência contra essência: a inversão de doxa e episteme

Para Maquiavel, portanto, o que importa não é como o governante realmente é, mas como ele parece ser. Com isso, Maquiavel inverte a relação entre doxa e episteme — entre o conhecimento das aparências, que é a doxa, a opinião, e o conhecimento da verdade, que é a episteme, o conhecimento verdadeiro e justificado. Em Platão, essa relação é nítida: Platão desqualifica a doxa, o conhecimento da aparência, e qualifica a episteme. Maquiavel inverte também isso, ao afirmar que não importa o que a coisa é, ou como alguém é, mas como parece ser, porque é a aparência o que é relevante no plano político. No plano político, devemos aparecer, ser vistos e ouvidos — devemos também ver e ouvir, mas sobretudo ser vistos e ouvidos —, porque aquilo que mostramos é o que somos, e não o contrário.

Maquiavel inverte, assim, a ideia tradicional de que devemos parecer ser o que somos, de que devemos ser verdadeiros e revelar o que trazemos dentro de nós. Não importa o que se tem dentro; importa o que se tem fora, e o que se tem fora determina o que se é. Há aqui uma antecipação das teses existencialistas, segundo as quais não existe uma natureza ou essência humana, e o homem é aquilo que faz e diz: a existência determina a essência, a existência precede a essência. É exatamente isso que Maquiavel afirma a respeito do governante: o que o político faz determina quem ele é. Temos, novamente, uma inversão antiplatônica e anticristã. Maquiavel é, por definição, o filósofo antiplatônico e anticristão — talvez o maior de todos —, aquele que deliberadamente inverteu toda a ordem da ética, do conhecimento e da justiça, a ordem estabelecida desde tempos imemoriais segundo a qual devemos buscar a verdade, o bem, a beleza, a justiça e a correção. As virtudes tornam-se vícios, e os vícios, virtudes. A bondade passa a ser um erro na política; a verdade, um erro na política. Politicamente, diz Maquiavel, devemos agir no mundo das aparências — com a finalidade de beneficiar o Estado, em nome da razão de Estado.

A frase revisitada e a crítica ao realismo político

É isto, sim, que corresponde àquela frase atribuída de modo equivocado, no episódio do Supremo Tribunal Federal, ao Pequeno Príncipe: que os fins justificam os meios. Não são, porém, todos os fins que justificam os meios. Para Maquiavel, há um único fim que os justifica, e esse fim é a razão de Estado: o benefício do Estado, o aumento de seu poder, a manutenção de sua unidade. Entendida assim — como um único fim, a razão de Estado —, a frase está correta. Entendida como “qualquer fim justifica os meios”, Maquiavel discordaria de forma radical, pois para ele as relações pessoais não devem seguir essa moralidade invertida que se vê, ou que deve haver, na política.

Finalmente, Maquiavel é tido como o filósofo que inaugura o realismo político, com um método indutivo: parte da história política e de suas próprias experiências como emissário diplomático de Florença para compor essas duas obras normativas, que dizem o que o governante deve fazer. Há uma interpretação, talvez dominante nos estudos maquiavelianos, que as toma como exemplares de um realismo político. Acontece que, a rigor, Maquiavel deixa de atentar para o fato de que as motivações dos indivíduos muitas vezes não correspondem aos interesses propriamente políticos. Em nenhum momento de sua obra ele leva em consideração que as pessoas possam agir movidas por altos ideais religiosos, morais ou filosóficos. Para ele, todas as pessoas são decaídas, interesseiras, e podem ser compradas de um modo ou de outro, por um preço ou por outro. Não faz sentido, para Maquiavel, que alguém sacrifique a vida por amor a Cristo, ou que tenha uma vocação religiosa genuína: quem assim pensa estaria sendo enganado, e quem julga ter tido uma experiência mística estaria, em linguagem atual, vítima de um produto da imaginação, de uma alucinação ou de uma histeria. Maquiavel é um materialista radical.

Ao professor parece que, ao ignorar ou desprezar essas motivações não políticas — de natureza religiosa, ética, filosófica e existencial —, Maquiavel não consegue compreender realmente a natureza humana. E isso impede, paradoxalmente, que ele seja tomado como um verdadeiro realista político, pois um realista que se engana a respeito do que há de mais essencial, as motivações humanas, não pode ser tido como alguém que vê a realidade das coisas. Maquiavel parece ter ficado inebriado pela percepção de que tudo é político, porque viveu em circunstâncias nas quais tudo lhe parecia político: conviveu com as cortes de seu tempo e integrou uma instituição política, o governo da República de Florença, sem poder ter a experiência da humanidade em seu sentido mais profundo. Assim, conclui o professor, Maquiavel não era propriamente um realista político — pois a política não se faz exclusivamente do modo como ele dizia, ainda que também se faça assim. Maquiavel era, antes, um ideólogo da política, da ideia da política como instância superior da existência humana. E, nesse ponto, estava equivocado.

Maquiavel e o nosso tempo: as potências do falso

O que se pode pensar, a partir de Maquiavel, sobre o mundo de hoje? Deixando de lado a política — onde é evidente que há muitos governantes maquiavélicos no sentido mais estrito, que tomam O Príncipe como um verdadeiro manual, ainda que um manual do mal, da política sem escrúpulos e sem limites —, há aspectos de nossa sociedade, aparentemente alheios à política, que a reflexão maquiaveliana ilumina. A concepção da inversão entre essência e aparência é um deles. Pensando nas redes sociais, nos influenciadores, nas celebridades e subcelebridades, percebe-se que ali importa exatamente o que Maquiavel dizia ser importante: a aparência. Devemos aparecer, ser vistos e ouvidos; e o que mostramos é entendido como aquilo que somos. Por isso as pessoas desejam exibir, nas redes, a maravilha que seria a sua vida — uma vida de beleza, luxo e conforto, de viagens dos sonhos, em que todos os pratos são deliciosos e bem arrumados e todas as roupas caem bem. Com isso, de fato, ocorre o fenômeno antecipado por Maquiavel: essas pessoas adquirem certo tipo de poder, certa ascendência sobre as demais, no mundo social.

O problema é que, no apagar das luzes, quando se repousa a cabeça no travesseiro, as verdades se impõem. No momento da solidão existencial que todos vivemos, quando não há ninguém para nos observar ou aplaudir, quando enfrentamos o silêncio e o vazio dentro do peito, a verdade se impõe — e descobrimos, surpresos, que o que mais tem valor não é o que trazemos na aparência, mas o que guardamos escondido em nosso mundo interior: o universo de nossa cultura, nossas relações afetivas com a família e os amigos, o amor que carregamos. Maquiavel talvez seja um dos maiores antifilósofos de todos os tempos, justamente porque recusa a busca que define a própria filosofia: a busca da verdade. Ele a inverte, de modo que já não importa a verdade, mas a aparência da verdade. E talvez vivamos hoje num mundo em que, infelizmente, muitas pessoas — sobretudo muitos jovens — têm sido enganadas pela promessa de uma felicidade que viria pela recusa da verdade, pela promoção das potências do falso. Em algum momento, porém, descobre-se que essa felicidade também é falsa. Não por acaso, tantos influenciadores e personalidades do mundo digital sofrem de angústia, desespero, depressão e pânico: é o que acontece quando se vive uma vida invertida, quando se busca justamente o que é falso, o contrário da verdade.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Nicolau Maquiavel. O Príncipe(escrito por volta de 1513; publicado postumamente em 1532)

  • Nicolau Maquiavel. Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio

  • Nicolau Maquiavel. História de Florença

  • Tito Lívio. História de Roma e Ab Urbe Condita(Ab Urbe Condita)

  • Maurizio Viroli. O Sorriso de Maquiavel e Il sorriso di Machiavelli(Il sorriso di Machiavelli)

  • Leo Strauss. A Perseguição e a Arte de Escrever e Persecution and the Art of Writing(Persecution and the Art of Writing, 1952; obra metodológica sobre a leitura nas entrelinhas)

  • Quentin Skinner. Maquiavel(leitura republicana, que vê em Maquiavel a inauguração da modernidade política)

  • Hannah Arendt. Entre o Passado e o Futuro(interpretação do Estado moderno laico fundado contra a Igreja)

  • Benjamin Constant. Da Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos(1819)

  • Isaiah Berlin. Dois Conceitos de Liberdade e Two Concepts of Liberty(Two Concepts of Liberty, 1958)

  • Platão. A República e As Leis

  • Aristóteles. Política

  • Antoine de Saint-Exupéry. O Pequeno Príncipe

  • Nicolau Copérnico. Das Revoluções dos Orbes Celestes e De Revolutionibus Orbium Coelestium(De Revolutionibus Orbium Coelestium, 1543)

  • Leo Strauss. Pensamentos sobre Maquiavel e Thoughts on Machiavelli(Thoughts on Machiavelli, 1958; análise dedicada especificamente a Maquiavel, em que Strauss o caracteriza como um "mestre do mal")

  • Bernard de Mandeville. A Fábula das Abelhas(sobre a tese de que os vícios privados se convertem em benefícios públicos)

  • Jean-Paul Sartre. O Existencialismo é um Humanismo(sobre a tese de que a existência precede a essência)