Sinopse

Nesta aula, analisa-se a obra De Anima (Sobre a Alma), texto seminal que inaugura a psicologia como disciplina filosófica e científica. O professor Gustavo Bertoche explora a definição aristotélica de alma (psyche) não como uma entidade fantasmagórica, mas como a forma (substância) e o princípio de movimento dos seres vivos. A aula detalha a hierarquia das almas (vegetativa, sensitiva e intelectiva), a distinção entre corpo e alma através do hilemorfismo e culmina na complexa doutrina do nous (intelecto) — a parte divina, impassível e imortal da alma humana. Por fim, estabelece-se a conexão vital entre a psicologia e a política: a organização social tem como fim último permitir a atualização dessa potência noética.

Pontos-Chave

  • A Alma como Forma: A alma é a atualização (ato) de um corpo natural que tem vida em potência; é o princípio que define o ser vivo.

  • Hierarquia das Faculdades: As potências da alma se organizam em níveis: nutritiva (plantas), sensitiva/motora (animais) e intelectiva (humanos).

  • O Nous Separado: Diferente das outras faculdades que dependem de órgãos corporais, o intelecto (nous) é imaterial, "lugar das formas" e a única parte da alma que sobrevive à morte do corpo.

Transcrição da Aula

A Fundação da Psicologia e o Lugar do De Anima

A obra que analisamos, convencionalmente intitulada De Anima (do latim “Sobre a Alma”), investiga o princípio que distingue as coisas animadas das inanimadas. O termo grego utilizado por Aristóteles é psyche. Trata-se, portanto, do primeiro estudo sistemático de psicologia da história. Curiosamente, o termo “psicologia” só foi cunhado muito mais tarde, em 1575, pelo filósofo Johann Thomas Freigius, justamente para designar o conteúdo dos assuntos tratados por Aristóteles nesta obra.

O De Anima ocupa uma posição pivotal, ou seja, central no corpus aristotélico. Embora seja menos lido pelo público geral do que a Ética a Nicômaco ou a Política, este tratado é a chave de conexão entre o plano da ética, da política e da poética. Ele fundamenta essas disciplinas ao definir o que é o ser humano. Para compreendermos a finalidade da vida ética ou política, precisamos antes entender a estrutura da psyche humana, pois é ela que determina o modo como experimentamos a realidade e estabelece as potencialidades que devemos realizar.

Metodologia: Naturalismo versus Misticismo Platônico

Aristóteles aborda o tema com uma complexidade ímpar, pois trata-se de um “retorno do pensamento sobre si mesmo”: estamos usando nossa faculdade de analisar para analisar a própria faculdade de análise. Diferentemente de Platão, que herdou uma tradição mística dos pitagóricos e órficos — onde a alma possui uma conotação metafísica transcendente e o cosmos é visto através de correspondências simbólicas (como nas homeomerias de Anaxágoras) —, Aristóteles posiciona-se como um cientista natural.

Ele rejeita a hipótese de que “tudo é espelho de tudo” ou que estruturas cosmológicas se repetem misticamente na alma. Sua investigação é estritamente racional e parte de três perguntas fundamentais:

  1. Qual é o gênero da alma? (É substância, qualidade, movimento?)
  2. A alma é una ou possui partes?
  3. A definição de alma é unívoca para todos os seres vivos?

Seguindo seu método característico, o Estagirita revisa as respostas dos antecessores (os físicos pré-socráticos e Platão), aponta suas insuficiências e propõe sua tese: a alma é a forma de um corpo natural que possui vida em potência.

Hilemorfismo: A Alma como Arquitora do Corpo

Para compreender a definição de alma, devemos recorrer à distinção aristotélica entre matéria e forma. A matéria é a carência de determinações, a pura potência. A forma é o princípio que determina essa potência e a transforma em ato.

Tomemos um exemplo prático: imaginem um terreno onde queremos construir uma casa. Compramos tijolos, cimento, telhas e madeira e os espalhamos pelo chão. Esse material é a “matéria” da casa; é uma casa em potência, mas não é uma casa de fato. Para que se torne uma casa em ato, precisamos impor uma determinação, um projeto arquitetônico. A forma é esse projeto que organiza a matéria.

Analogamente, a alma é a forma do ser vivo. Geneticamente, o ser humano compartilha cerca de 99% de sua matéria com um gorila. Em termos de substância material, somos compostos dos mesmos elementos que compõem o gorila, o cavalo ou o peixe. O que nos diferencia não é a matéria, mas o princípio de determinação — a forma — que organiza essa matéria. A alma (psyche) é, portanto, a substância que determina o que um corpo é. Não é o corpo que contém a alma como um recipiente; é a alma que estrutura e mantém o corpo. Sendo assim, a alma é o princípio do movimento e das potências vitais, mas ela própria é imóvel. Ela causa o movimento sem se mover.

A Escala das Almas e a Especificidade Humana

A alma não é separável do corpo, pois ela é a sua definição funcional, assim como a “visão” não é separável do “olho”. Contudo, suas faculdades se distribuem hierarquicamente entre os seres vivos:

  1. Alma Vegetativa: Presente nas plantas. Possui as potências da nutrição, crescimento e reprodução.
  2. Alma Sensitiva: Presente nos animais. Engloba as potências vegetativas e adiciona a percepção sensorial (pelos cinco sentidos) e o movimento local.
  3. Alma Intelectiva: Específica dos seres humanos. Inclui todas as potências anteriores, somadas a uma faculdade exclusiva: o nous (intelecto/pensamento).

O Mistério do Nous: O Divino no Homem

Aqui Aristóteles introduz uma distinção crucial. Enquanto a percepção sensorial depende de órgãos físicos (olhos para ver, ouvidos para ouvir), o nous não possui um órgão corporal associado. O cérebro, para Aristóteles, servia para coordenar funções corporais e refrigerar o sangue, mas não era o órgão do intelecto.

O argumento é lógico: a percepção é a “forma dos perceptíveis” (o olho recebe a forma da cor), e é limitada pelo espectro físico. Já o intelecto é a “forma das formas” e “lugar das formas”. Podemos pensar em qualquer coisa — uma casa, uma estrela, um conceito abstrato — sem que esses objetos estejam fisicamente presentes. O nous contém toda a realidade em potência. Como uma “mão” (que é o instrumento dos instrumentos), o intelecto é a ferramenta que pode se tornar qualquer forma inteligível.

Por não ter órgão físico, o nous possui características únicas:

  • Impassibilidade: Não sofre ação externa, não se desgasta. O envelhecimento, a perda de memória ou a lentidão de raciocínio são falhas do corpo (do composto), não do intelecto em si.
  • Imortalidade: Como a alma é a forma do corpo, quando o corpo morre, a alma vegetativa e sensitiva (ligadas à matéria) cessam. O corpo se decompõe porque perdeu seu princípio formal. Todavia, o nous, sendo separável e não orgânico, é eterno e divino.

Esta concepção gera um problema interpretativo histórico: se o nous é eterno, por que não lembramos de vidas passadas? Aristóteles responde que a memória pertence à parte sensitiva e passível da alma, que morre com o corpo. O nous é impessoal e puro ato de inteligibilidade.

Conclusão: A Finalidade Política da Psicologia

A análise do De Anima culmina numa lição ética e política. Se a natureza humana é definida por essa potência noética divina, a finalidade (telos) da vida humana é a atualização dessa potência.

A política, portanto, não é um fim em si mesma. O propósito do governo e da organização social deve ser criar as condições necessárias para que o maior número possível de cidadãos possa exercer essa faculdade superior: a vida examinada, o pensamento reflexivo. Uma sociedade que bloqueia o desenvolvimento intelectual, que impede o homem de “retirar os véus” sobre o seu próprio nous, é uma sociedade que falha em seu propósito fundamental. A responsabilidade última do ser humano — para consigo, para com o próximo e para com o mundo — reside na ativação dessa consciência racional.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Aristóteles. De Anima(Sobre a Alma)

  • Aristóteles. Ética a Nicômaco

  • Aristóteles. Política

  • Aristóteles. Poética

  • Platão. A República

  • Tomás de Aquino. Comentário ao De Anima de Aristóteles

  • Johann Thomas Freigius. Ciceronianus(1575)

  • Giovanni Reale. História da Filosofia Grega e Romana(Volume sobre Aristóteles)

  • Werner Jaeger. Aristóteles: Bases para a História do seu Desenvolvimento Intelectual

  • W.D. Ross. Aristóteles