O "Hípias Maior" de Platão
Sinopse
Esta aula explora o diálogo Hípias Maior de Platão, focando na tentativa socrática de definir a essência do "Belo" (to kalon). O professor Gustavo Bertoche inicia estabelecendo a distinção fundamental entre textos científicos, que se tornam obsoletos ao serem incorporados por manuais, e textos filosóficos, que permanecem como fundamentos perenes de campos discursivos. A análise do diálogo destaca a figura do sofista Hípias, confrontado pela ironia de Sócrates — que utiliza a máscara de um "amigo anônimo" agressivo para refutar as definições superficiais de beleza (uma bela donzela, o ouro, ou uma vida honrada). A aula culmina na discussão sobre a aporia (impasse) final do texto e a dificuldade intrínseca de definir conceitos vitais como beleza, justiça, democracia e amor, contrastando a precisão das ciências naturais com a complexidade da experiência humana.
Pontos-Chave
Natureza do Texto Filosófico: Diferente da ciência, onde o progresso torna o texto original obsoleto (ex: Einstein), na filosofia o texto fundador permanece inesgotável e insubstituível.
O Artifício do "Amigo": Sócrates cria um alter ego (um "amigo" que vive em sua casa) para criticar Hípias de forma ríspida sem violar as normas sociais de polidez, permitindo o ataque direto aos argumentos.
A Falácia do Exemplo: A incapacidade de Hípias em distinguir o universal (o Belo em si) do particular (coisas belas), exemplificada nas definições de "uma virgem bela" ou "o ouro".
Aporia e Indefinição: O diálogo termina sem resposta definitiva, ilustrando a complexidade de definir conceitos que fundamentam a vida prática e política.
Transcrição da Aula
A Perenidade do Texto Filosófico
A leitura demorada e atenta das obras platônicas e aristotélicas justifica-se pela própria natureza da filosofia. Diferentemente das ciências naturais, onde um texto seminal — como os artigos de Einstein de 1905 ou 1915 — torna-se um ponto de partida que, uma vez assimilado pelo paradigma, perde sua utilidade direta para dar lugar a manuais e livros-texto, a filosofia opera sob outra lógica. Na ciência, o texto original torna-se um objeto da história da ciência, uma relíquia cujo conteúdo foi absorvido e superado. Ninguém precisa ler Einstein no original para fazer cosmologia relativística moderna.
Em contrapartida, na filosofia, na literatura e em campos como a psicanálise ou o marxismo, o texto fundador instaura um campo discursivo. Textos de Platão, Agostinho de Hipona, Maquiavel ou Hegel não se tornam obsoletos; eles são, simultaneamente, ponto de partida e meta. Eles instauram um espaço metafórico onde o pensamento ocorre. Um texto filosófico não é substituível por um manual; ele exige um eterno retorno, uma reinterpretação constante que mantém sua substância viva. Assim, uma tradição filosófica é sempre um recomeço que remete ao seu texto instaurador.
O Cenário do Diálogo e a Máscara Socrática
O diálogo Hípias Maior centra-se em duas personagens principais: Sócrates e Hípias, um sofista renomado. Contudo, há uma terceira personagem fantasma: um “amigo íntimo” de Sócrates. Este amigo é um artifício retórico, uma máscara que permite a Sócrates ser implacável e até grosseiro na refutação sem romper a civilidade direta com Hípias. Ao atribuir as críticas mordazes a esse “amigo que habita a mesma casa”, Sócrates — que é, obviamente, o próprio amigo — pode desmontar a arrogância do sofista mantendo uma postura de aparente ignorância e cordialidade.
O diálogo inicia com o encontro entre ambos. Hípias relata sua estadia em Esparta, onde, apesar de sua fama, não conseguiu lucrar ensinando, pois os espartanos, conservadores em sua educação, proibiam estrangeiros de instruir seus jovens. Curiosamente, Hípias revela que os espartanos apreciavam seus discursos sobre genealogia de heróis e mitologia, não sobre geometria ou astronomia. Aproveitando a deixa sobre “belos discursos”, Sócrates introduz o problema: seu “amigo” o havia repreendido por falar sobre coisas belas sem saber definir o que é a Beleza em si.
As Tentativas Falhas de Definição
Instigado a ajudar Sócrates a responder a esse amigo impertinente, Hípias cai na armadilha de confundir exemplos particulares com definições universais. Sua primeira resposta é que “o belo é uma bela donzela”. Sócrates, através da voz do seu amigo, refuta: definir o belo por um exemplo particular é insuficiente e gera uma petição de princípio. Além disso, se uma donzela é bela, uma égua ou uma lira também podem ser, e até um pote de cerâmica pode ser belo. Comparada aos deuses, porém, a mais bela donzela seria feia. Portanto, o particular é relativo e não define a essência.
Pressionado, Hípias tenta uma segunda definição: “o belo é o ouro”, pois o ouro embeleza tudo o que toca. A refutação socrática é cirúrgica e invoca a arte de Fídias. O escultor fez os olhos da deusa Atena de marfim, e não de ouro, e eles são belos. Ademais, numa situação prática, como servir uma sopa em uma vasilha de cerâmica, uma colher de figueira (madeira) seria mais apropriada — e, portanto, mais “bela” no contexto — do que uma colher de ouro, que poderia quebrar o pote. Aqui, surge a tensão entre o belo e o apropriado (o prepon).
A terceira tentativa de Hípias busca refúgio nas convenções sociais: o belo seria ser rico, saudável, honrado pelos gregos, viver até a velhice e enterrar os pais dignamente. Sócrates destrói essa definição apontando para os heróis: Aquiles e Hércules, filhos de deuses, morreram jovens ou antes de seus pais. Seria então a vida deles “feia”? A definição contradiz a própria mitologia grega.
A Busca pela Essência e a Aporia Final
Sócrates assume então a condução, propondo definições mais abstratas: o belo seria o “apropriado”? Não, pois o apropriado pode apenas fazer as coisas parecerem belas. Seria o “útil”? Não, pois o poder e a utilidade podem servir ao mal, e o belo deve ser benéfico. Seria o “prazeroso aos sentidos da visão e audição”? Embora promissora, essa definição falha ao excluir outros prazeres e ao criar um problema lógico: se o belo é o que é comum à visão e audição, ele deve ser uma propriedade partilhada, não individual.
O diálogo termina em aporia — um impasse sem solução. Hípias irrita-se com a minúcia lógica de Sócrates, que ele considera “tretas”. Sócrates, por sua vez, lamenta sua ignorância dupla: é xingado pelos sofistas por questionar e será xingado pelo seu “amigo” em casa por não ter chegado à resposta.
A Lição da Indecidibilidade
Mais importante que a definição de “Belo”, o Hípias Maior ensina sobre a ilusão do conhecimento. Frequentemente operamos com conceitos que cremos dominar — democracia, justiça, liberdade — mas que, sob escrutínio socrático, revelam-se frágeis. Ao contrário dos conceitos científicos, que possuem determinações empíricas e teóricas rigorosas (embora fundados em metafísicas indemonstráveis, como a uniformidade do universo), os conceitos vitais e políticos carregam um grau de indecidibilidade.
Essa imprecisão permeia a vida prática. O que é “amor” para um pode ser a aventura compartilhada; para outro, o cuidado diário ou a intimidade física. A falta de definições partilhadas ou “consensos possíveis” gera conflitos nas relações pessoais e na política. Talvez não alcancemos definições absolutas e irrefutáveis como na geometria, mas o exercício filosófico de examinar nossas premissas é essencial para evitar que sejamos como Hípias: arrogantes em uma sabedoria que não possuímos.
Glossário
Referências Bibliográficas
Agostinho de Hipona. (Obras gerais citadas como fundamentais)
Einstein. e (1905) e(1905; 1915)
Packter. (Referência ao autor e metodologia)
Platão. (Obra central da aula)
Platão.
Sheldrake. (Referência implícita à teoria dos campos mórficos e leis evolutivas)