A "Cidade de Deus" de Agostinho
Sinopse
Nesta aula, analisamos a monumental obra A Cidade de Deus (De Civitate Dei), escrita por Santo Agostinho em resposta ao saque de Roma pelos visigodos em 410 d.C. O professor explora como Agostinho inaugura a Filosofia da História ao propor uma narrativa linear com sentido teleológico, marcada pelo conflito entre a "Cidade de Deus" e a "Cidade dos Homens". A exposição estabelece paralelos surpreendentes entre a escatologia agostiniana e as filosofias da história modernas de Karl Marx (Comunismo) e Francis Fukuyama (Liberalismo), identificando em todas elas o mito do retorno a um "paraíso perdido".
Pontos-Chave
O Contexto Apologético: A obra nasce como defesa contra a acusação de que o abandono dos deuses pagãos causou a queda de Roma.
As Duas Cidades: A distinção não é geográfica, mas moral e espiritual (amor a Deus vs. amor a si mesmo), coexistindo na história e no indivíduo.
Teleologia Histórica: A história tem um início (Criação), um meio (Batalha) e um fim pré-determinado (Juízo Final/Restauração).
O Mito do Retorno: A comparação estrutural entre a salvação cristã, a utopia comunista e o triunfo liberal como formas de retorno à inocência original.
Transcrição da Aula
O Colapso de Roma e a Resposta Agostiniana
A obra A Cidade de Deus foi escrita no calor de um evento traumático: a invasão e o saque de Roma pelos visigodos, liderados pelo rei Alarico, em 410 d.C. Este evento abalou profundamente o mundo antigo. Como o Cristianismo já era a religião oficial e os cultos tradicionais haviam sido proscritos, surgiu entre a população a crença de que a catástrofe fora uma punição dos antigos deuses abandonados. Roma teria caído porque deixou de prestar culto às suas divindades tutelares.
Agostinho escreve, então, uma resposta massiva — composta por 22 livros e cerca de 1.600 páginas — para refutar essa tese. Seu argumento central nos primeiros livros é que a decadência de Roma não foi causada pelo Cristianismo, mas pela própria degradação moral dos romanos. Pelo contrário, Agostinho argumenta que foram as basílicas cristãs que serviram de refúgio durante o saque, poupando vidas que, em guerras pagãs, teriam sido ceifadas.
Moralidade, Sexualidade e Civilização
Um ponto crucial na argumentação de Agostinho é a correlação entre decadência moral — especificamente sexual — e a ruína política. Agostinho, obcecado pela ideia da sexualidade como veículo do pecado (concupiscência), vê na libertinagem romana a raiz de sua fraqueza.
Essa ideia ecoa curiosamente no século XX. O antropólogo britânico J. D. Unwin, em sua obra Sex and Culture (1934), estudou 86 civilizações e tribos ao longo da história e identificou uma correlação temporal estrita: o enfraquecimento das restrições sexuais e dos laços familiares precede invariavelmente o colapso civilizacional (político, militar e cultural). De modo similar, a psicanálise freudiana sugere que a repressão das pulsões sexuais é o preço da civilização; a energia sublimada constrói a cultura. Se a pulsão é liberada sem freios, a civilização recua. Embora parta de uma premissa teológica, a intuição de Agostinho sobre a “energia moral” de uma sociedade encontra ressonância em análises seculares modernas.
A Filosofia da História e as Duas Cidades
Agostinho é, talvez, o criador da Filosofia da História. Diferente de Platão ou Aristóteles, que viam o tempo de forma cíclica ou focavam na análise de constituições estáticas (como a Constituição de Atenas), Agostinho percebe a história como um drama linear com sentido, direção e fim pré-determinados.
O motor dessa história é o conflito entre duas “cidades”:
- A Cidade de Deus: Composta pelos que vivem segundo o espírito e o amor a Deus até o desprezo de si.
- A Cidade dos Homens: Composta pelos que vivem segundo a carne e o amor a si até o desprezo de Deus.
É fundamental compreender que essas cidades não são lugares geográficos distintos. Elas estão entrelaçadas (permixtae) no tempo e no espaço. Roma não é a Cidade dos Homens, e a Igreja visível não é puramente a Cidade de Deus. Ambas habitam o mesmo espaço público e, mais profundamente, habitam o interior de cada ser humano. A batalha entre a luz e as trevas — uma herança do passado maniqueísta de Agostinho — ocorre dentro da psique de cada indivíduo, inclusive dos santos.
O Mito do Fim da História: Agostinho, Marx e Fukuyama
A concepção agostiniana de que a história caminha para um final pré-determinado, onde haverá um retorno à inocência original (o Paraíso), cria um modelo mental que se repete em filosofias políticas seculares da modernidade. Podemos traçar um paralelo entre três grandes visões de “Fim da História”:
- Agostinho (Cristianismo): A história é a luta entre o bem e o mal. O fim é a Segunda Vinda de Cristo, que restaura a inocência perdida no Éden. O “paraíso” é a comunhão eterna com Deus, sem pecado e sem conflito.
- Karl Marx (Comunismo): O motor da história é a luta de classes. O “pecado original” é a propriedade privada. O capitalismo deve atingir seu paroxismo para gerar as condições de sua superação. O fim da história é o Comunismo, um retorno mitológico à “igualdade primitiva”, mas desenvolvida, onde cessa o conflito de classes.
- Francis Fukuyama (Liberalismo): Em sua obra O Fim da História e o Último Homem (1992), propôs que a democracia liberal capitalista seria o estágio final da evolução ideológica humana. Aqui, o “paraíso” é o contrato social perfeito, onde a liberdade individual e o consumo são garantidos, retornando a um estado de liberdade natural idealizada (conforme John Locke).
Todas essas visões são, no fundo, teologias disfarçadas ou explícitas. São narrativas de queda, luta e redenção, onde o final do tempo recupera a perfeição do início.
Questões Institucionais e Cosmogônicas
Levanta-se a questão se a Igreja, ao se institucionalizar sob o Império Romano, não teria absorvido as estruturas de poder da “Cidade dos Homens”. De fato, o Cristianismo primitivo era uma seita judaica apocalíptica. A separação ocorre por volta do ano 100 d.C., e a Igreja (Ekklesia, assembleia) se estrutura com forte influência do direito, da política e da filosofia romana (estoicismo, ceticismo). Há uma tensão constante entre a mensagem original e a “roupagem” imperial que a instituição adquiriu.
No campo cosmológico, Agostinho antecipa debates modernos sobre o tempo. Ao comentar o Gênesis (“No princípio, Deus criou…”), ele enfrenta a pergunta: “O que Deus fazia antes da criação?”. Sua resposta séria — além da piada de que “preparava o inferno para curiosos” — é que não havia “antes”. Deus criou o tempo com o mundo. Deus é eterno (atemporal), o mundo é temporal. Essa visão é análoga à teoria do Big Bang, proposta no século XX pelo padre e físico Georges Lemaître: o espaço-tempo surge com a singularidade; não há “antes” do Big Bang no sentido cronológico.
Escatologia: A Ressurreição da Carne
Nos últimos livros, Agostinho trata do destino final: a ressurreição da carne. Ele defende a literalidade da ressurreição física, o que gera problemas lógicos (corpos cremados, devorados, etc.). Agostinho sustenta que, pela onipotência divina, a matéria será reconstituída.
Os corpos ressuscitados terão características específicas:
- Terão a aparência do auge da vitalidade (cerca de 30 anos, a idade de Cristo em seu ministério).
- Não haverá defeitos físicos, obesidade ou magreza extrema.
- As mulheres ressuscitarão como mulheres (refutando teorias da época de que virariam homens), mas seus corpos não despertarão mais concupiscência. Não haverá casamento ou sexo.
Esse estado final é a “inocência recuperada”: a humanidade volta a ser como crianças em termos de pureza, mas com a maturidade física e espiritual eterna.
O Legado Psicológico
Embora Agostinho não tenha a sofisticação metafísica dos neoplatônicos gregos (ele lia pouco grego e citava termos apenas para demonstrar erudição), sua perspicácia psicológica é inigualável. Ele compreendeu as contradições da vontade humana, a culpa inconsciente e a cisão interna do sujeito muito antes de Freud. Como notou Wittgenstein, as Confissões talvez sejam “o livro mais sério já escrito” devido a essa honestidade brutal da autoanálise. A Cidade de Deus, por sua vez, projeta essa análise da alma humana para a tela gigante da história universal.
Glossário
Referências Bibliográficas
Santo Agostinho. A Cidade de Deus e De Civitate Dei(De Civitate Dei; 3 vols.; 2 vols.)
Santo Agostinho. Confissões
J. D. Unwin. Sex and Culture
Francis Fukuyama. O Fim da História e o Último Homem
Karl Marx (Conceitos de Materialismo Histórico e Luta de Classes). (Conceitos de Materialismo Histórico e Luta de Classes)
John Locke. Segundo Tratado sobre o Governo Civil
Platão. A República
Peter Brown. Santo Agostinho: Uma Biografia(Obra de referência para o contexto histórico)
Étienne Gilson. Introdução ao Estudo de Santo Agostinho
Hannah Arendt. O Conceito de Amor em Santo Agostinho(Para uma leitura filosófica contemporânea das "cidades")