Sinopse

Nesta aula, o curso transita da cosmologia pré-socrática para a virada antropológica protagonizada pelos sofistas. O professor Gustavo Bertoche reabilita a figura histórica de Protágoras de Abdera, frequentemente estigmatizada pela tradição platônico-aristotélica, apresentando-o como um pilar fundamental da democracia ateniense. São explorados o princípio do Homo Mensura (o homem como medida), o relativismo epistemológico, o agnosticismo teológico e o método da antilogia como ferramentas pedagógicas para a formação do cidadão. A aula estabelece ainda diálogos contemporâneos com o conceito de paralaxe em Slavoj Žižek e a ética do discurso de Jürgen Habermas.

Pontos-Chave

  • A Virada Antropológica: O deslocamento do foco filosófico da natureza (physis) para as questões humanas (cultura, política, ética).

  • O Sofista como Educador: A profissionalização do ensino e a democratização do acesso à aretê (virtude política) através da retórica.

  • Homo Mensura:** A tese de que a verdade é relativa à perspectiva do sujeito, eliminando a noção de verdade absoluta em favor da verdade pragmática (útil).

  • Antilogia e Tolerância: O método de confrontar argumentos opostos para desenvolver o pensamento crítico e a caridade interpretativa, essencial para o convívio democrático.

Transcrição da Aula

A Reabilitação Histórica dos Sofistas

O professor inicia a exposição desconstruindo a visão pejorativa que a historiografia tradicional — fortemente influenciada por Platão e Aristóteles — construiu sobre os sofistas. Originalmente, o termo sophistes derivava de sophia (sabedoria) e designava um especialista, um expert em determinado saber. A crítica aristocrática de que os sofistas eram “prostitutos do saber” por cobrarem por suas aulas reflete uma visão de classe: Platão e Aristóteles, oriundos ou protegidos pela aristocracia, não compreendiam a necessidade do trabalho remunerado como meio de subsistência intelectual. Protágoras e seus pares foram, de fato, os primeiros professores profissionais da história. Eram itinerantes, generalistas (ensinavam “de tudo”) e não possuíam vínculos estatais. Sua ascensão está intrinsecamente ligada ao surgimento da democracia.

O Contexto Democrático e a Necessidade da Retórica

A democracia ateniense, embora direta, era restritiva. O professor detalha os cinco critérios de cidadania: ser homem, nascido na cidade, maior de 18 anos, filho de pais cidadãos e livre (não escravo). Contudo, diferentemente de oligarquias, não havia critério censitário (renda). Um cidadão pobre tinha o mesmo direito de fala que um rico. Nesse cenário, a habilidade de persuadir na Assembleia tornou-se o capital mais valioso. Os sofistas supriam essa demanda ensinando a retórica, a arte de falar bem e convencer. Protágoras, portanto, oferecia a ferramenta essencial para o exercício do poder político em um ambiente onde a palavra era soberana.

A Virada Antropológica e o Rompimento com a Cosmologia

Diferentemente de seu suposto mestre, Demócrito, que se preocupava com a constituição atômica do universo, Protágoras realiza a virada antropológica. A filosofia deixa de investigar a arché cosmológica para focar na cultura, na política, na educação e na linguagem. O professor ilustra a modernidade do pensamento de Protágoras através de sua relação com o estadista Péricles. Narra-se que ambos passaram um dia inteiro discutindo a responsabilidade jurídica de uma morte acidental causada por um dardo nos Jogos Olímpicos: a culpa seria do atleta, do dardo ou dos organizadores? O professor estabelece um paralelo direto com os debates atuais sobre carros autônomos (como os da Tesla): se um carro sem motorista atropela alguém, de quem é a responsabilidade? A ética e a legislação tornam-se o centro da reflexão.

O Princípio do Homo Mensura e a Paralaxe

A tese central de Protágoras é sintetizada na máxima: “O homem é a medida de todas as coisas: das que são, pelo que são; e das que não são, pelo que não são”. Trata-se da inauguração do relativismo epistemológico. Não há uma verdade absoluta e externa; há percepções individuais. O professor exemplifica: a temperatura de 23 graus pode ser fria para um e quente para outro; um café pode ser doce para um e amargo para outro. Ambos estão certos a partir de suas próprias referências. Para aprofundar este conceito, o professor recorre ao filósofo contemporâneo Slavoj Žižek e ao conceito de paralaxe. A paralaxe é a mudança aparente na posição de um objeto dependendo do ponto de observação. Utilizando a analogia do impedimento no futebol: a visão do bandeirinha muda se ele não estiver perfeitamente alinhado com o zagueiro. Da mesma forma, na existência, ocupamos “lugares” sociais e culturais distintos, o que nos faz enxergar a realidade de formas diversas, porém legítimas.

Verdade, Utilidade e Agnosticismo

Se a verdade é relativa, como evitar o caos social? Protágoras substitui o critério de verdadeiro/falso pelo critério de útil/nocivo. O bem não é uma ideia platônica transcendente, mas aquilo que é útil para a comunidade (utilitarismo pragmático). Essa postura estende-se à teologia. Protágoras foi agnóstico, afirmando ser impossível saber se os deuses existem ou não. O professor destaca que essa posição é a fundação da liberdade religiosa moderna: se a existência divina não pode ser provada racionalmente, deve-se tolerar todas as crenças. O agnosticismo de Protágoras não é negação, mas abertura democrática.

O Método da Antilogia e a Ética do Discurso

Pedagogicamente, Protágoras desenvolveu a antilogia (ou antilógica): a prática de defender argumentos opostos sobre o mesmo tema com igual vigor. O objetivo não é o cinismo, mas a compreensão profunda das razões do outro. Ao exercitar a defesa da posição adversária, o estudante desenvolve o princípio de caridade: a obrigação intelectual de interpretar o argumento do oponente da forma mais robusta e honesta possível, e não como uma caricatura odiosa. O professor conecta essa prática à ética da razão comunicativa de Jürgen Habermas e sugere sua aplicação como antídoto à polarização política contemporânea. Em um mundo dividido, a capacidade protagórica de “colocar-se no lugar do argumento do outro” é uma virtude cívica indispensável.

Conclusão: A Permanência da Natureza Humana

A aula encerra-se com uma reflexão sobre o progresso. Enquanto a técnica e a ciência progridem cumulativamente, a humanidade, a arte e a filosofia operam no campo da permanência. Um bebê da Grécia Antiga trazido para o presente seria indistinguível de nós. As paixões, os dilemas éticos e a necessidade de convívio político permanecem inalterados. Por isso, a filosofia de Protágoras não é uma peça de museu, mas uma ferramenta viva para compreendermos os desafios da democracia e da tolerância no século XXI.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Protágoras. Fragmentos(Principalmente o Sobre a Verdade ou Discursos Demolidores)

  • Platão. Protágoras. Teeteto e O Sofista

  • Aristófanes. As Nuvens

  • Aristóteles. Constituição de Atenas

  • Žižek. A Visão em Paralaxe

  • Habermas. Teoria da Ação Comunicativa

  • Kerferd. O Movimento Sofista

  • Jaeger. Paideia: A Formação do Homem Grego(Capítulo sobre os Sofistas)

  • Guthrie. Os Sofistas