O Crátilo de Platão
Sinopse
Esta aula explora o diálogo Crátilo, de Platão, obra fundamental que investiga a origem e a função da linguagem. O professor Gustavo Bertoche analisa o embate entre o "convencionalismo" de Hermógenes e o "naturalismo" de Crátilo, mediado pela ironia de Sócrates. A aula demonstra como Platão utiliza a investigação etimológica para, ao fim, desconstruir a autossuficiência da linguagem, apontando que o conhecimento da verdade absoluta reside nas coisas em si (nas Formas) e não meramente nos signos linguísticos que as representam.
Pontos-Chave
Convencionalismo Radical: A tese de Hermógenes de que os nomes são frutos de pactos sociais e costumes arbitrários.
Naturalismol Linguístico: A tese de Crátilo de que existe uma correção intrínseca nos nomes, derivada da própria natureza dos objetos.
O Legislador de Nomes (Nomothetes): A figura hipotética proposta por Sócrates que teria a arte de fixar a essência das coisas em sílabas e letras.
Aporia Cratiliana: O impasse final onde se percebe que a linguagem é incapaz de capturar a verdade plena, pois as palavras estão em fluxo, enquanto a verdade é estável.
Transcrição da Aula
1. A Modernidade e o Esquecimento da Tradição
Uma das marcas da filosofia moderna, consolidada a partir de Descartes, é a tentativa de fundamentar o edifício do conhecimento do zero, muitas vezes ignorando deliberadamente o pensamento antigo e medieval. Essa postura gera a ilusão de que a tradição é irrelevante. No entanto, o estudo do Crátilo, de Platão — obra escrita por volta de 388 a.C. —, revela que muitas das questões consideradas “contemporâneas” já haviam sido enfrentadas com profundidade na Antiguidade. O Crátilo é um texto incontornável, embora frequentemente esquecido, que oferece respostas essenciais sobre a relação entre linguagem, política e realidade.
2. O Corpus Platônico e a Estrutura do Diálogo
Iniciamos aqui o estudo sistemático das obras de Platão, seguindo a divisão tradicional em tétrades proposta por Trasilo de Mendes e preservada por Diógenes Laércio. O Crátilo destaca-se por sua forma literária e poética, sendo um diálogo marcado por um “balé dialético” e profunda ironia. Diferente da clareza técnica de Aristóteles, o texto platônico exige atenção às suas reviravoltas. Nele, Sócrates atua como um mestre da ironia, por vezes assumindo o papel de um “filósofo serpente” que encanta seus interlocutores para logo em seguida desconstruir seus próprios argumentos.
3. Hermógenes e o Convencionalismo
O diálogo inicia com Hermógenes defendendo um convencionalismo radical: as palavras seriam apenas fruto do costume e do acordo social. Segundo essa visão, se uma comunidade decidisse chamar um homem de “cavalo” e um cavalo de “homem”, não haveria erro, apenas uma nova convenção. Sócrates questiona essa tese apontando para a função instrumental da linguagem. Se uma palavra é um instrumento para ensinar e identificar a realidade, uma “linguagem privada” ou puramente arbitrária perderia sua utilidade. Para Sócrates, deve haver um “artífice das palavras”, um legislador que saiba manejar a arte de nomear de acordo com a natureza de cada objeto.
4. A Ironia das Etimologias e o Fluxo Linguístico
Na maior parte do diálogo, Sócrates mimetiza os sofistas e desfia dezenas de etimologias curiosas. Ele sugere, por exemplo, que Theos (deus) derivaria de thein (correr), pois os antigos viam os astros em constante movimento. Propõe que Soma (corpo) viria de Sema (túmulo). Embora pareça defender o naturalismo de Crátilo, Sócrates está, na verdade, sendo irônico. Ele associa a linguagem ao fluxo de Heráclito — a ideia de que tudo flui e nada permanece. Ao mostrar que as palavras se transformam e se derivam em um redemoinho linguístico, ele prepara o terreno para sua conclusão metafísica.
5. O Naturalismo de Crátilo e a Desconstrução Socrática
Crátilo sustenta que as palavras têm uma ligação natural com as coisas; quem conhece o nome, conheceria a essência. Sócrates, porém, aponta as falhas dessa tese. Ele utiliza o exemplo da palavra sclerotes (dureza), que contém a letra lambda (L), som que por natureza designa o “deslizante” e o “macio”. Se as pessoas entendem “dureza” através de um som que remete à “maciez”, é porque o costume (a convenção) também atua na linguagem. A conclusão é que a linguagem é, simultaneamente, natural e convencional, mas inerentemente precária.
6. Conclusão Metafísica: Além das Palavras
Nos momentos finais, Platão eleva a discussão para o plano da teoria das formas. Se a linguagem está em constante fluxo e mudança, ela não pode ser o fundamento do conhecimento verdadeiro. O conhecimento real deve recair sobre aquilo que permanece sempre o mesmo: a beleza em si, o bem em si, o ser absoluto. Nenhuma pessoa sensata deve fixar-se apenas nas palavras, pois elas pertencem ao domínio do “vireser” e não podem alterar a essência das coisas. Mudar a linguagem por razões ideológicas, portanto, é uma tentativa insensata de alterar a realidade, pois a verdade última é direta e não mediada por signos linguísticos.
Glossário
Referências Bibliográficas
PLATÃO. Crátilo
ROSS. The Date of Plato's Cratylus
LAÉRCIO. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres
DESCARTES. Meditações Metafísicas(mencionado como contraste moderno)