Sinopse

Nesta aula inaugural, estabelecemos as bases não apenas de um curso, mas de uma comunidade de vida. A tese central reside na distinção radical entre a filosofia como profissão acadêmica e a filosofia como condição existencial imperativa. Partindo da etimologia pitagórica e da narrativa de O Banquete de Platão, demonstramos que o amor (philia) é estruturalmente uma falta, um vazio ontológico. Consequentemente, o filósofo não é o detentor da verdade (o sábio), mas aquele que, consciente de sua ignorância, persegue um horizonte de sabedoria inalcançável — uma utopia necessária que confere sentido à existência humana e nos distingue tanto das bestas quanto dos deuses.

Pontos-Chave

  • Tese Principal: A filosofia não é a posse do saber, mas o desejo erótico (eros) gerado pela consciência da falta; portanto, filosofar é habitar a tensão perpétua entre a ignorância e a sabedoria.

  • Argumento A: O amor só existe na ausência do objeto amado. A posse total aniquilaria o desejo e a própria relação (identidade vs. dualidade).

  • Argumento B: O progresso linear é um mito na filosofia. Diferente da tecnologia, a filosofia opera por paralaxe (mudança de perspectiva sobre o mesmo objeto), não por superação acumulativa.

  • Conceito Chave: Paralaxe Filosófica — A ideia de que diferentes sistemas filosóficos (Platão, Heidegger) não são superiores ou inferiores, mas visões angulares distintas sobre o mesmo núcleo de problemas.

Transcrição da Aula

A Paideia e a Comunidade de Estudos

Iniciamos aqui não meramente um curso, mas a constituição de uma comunidade de estudos. E qual é a finalidade última deste encontro? Não é a instrução técnica, mas a promoção da ampliação cultural e intelectual. Buscamos aquilo que os gregos chamavam de paideia: a formação integral do ser humano.

Por essa razão, este curso possui uma especificidade temporal: ele não tem duração predeterminada. O ato de filosofar, intrinsecamente ligado à autoeducação e à significação da cultura em nós, é um ato que não comporta um fim temporal. A filosofia não é uma atividade com data de encerramento. A partir do momento em que adentramos no pensamento radical — o pensamento que busca os fundamentos —, nós não saímos mais. Ou, se saímos, deixamos de ser filósofos. O trabalho de formação só termina, de fato, quando morremos.

Portanto, nosso objetivo é constituir um espaço-tempo, um refúgio semanal, para o florescimento da cultura. Mesmo que o curso dure décadas, nunca estaremos “completamente formados”. Nunca conheceremos “toda” a filosofia.

As Duas Faces da Filosofia: A Profissão e a Existência

Precisamos, de partida, desfazer um equívoco comum. Há duas maneiras de pensar o filosofar. A primeira, superficial, encara a filosofia como atividade profissional: o bacharel, o mestre, o doutor. Neste sentido, eu, Gustavo, exerço a filosofia como um ofício. Contudo, esse sentido é inadequado e limitado.

O segundo sentido — o original, que remonta à tradição pitagórica — define a filosofia como uma prática de vida e um uso específico da razão. Diz-se que o termo foi cunhado pelos pitagóricos, essa sociedade secreta e mística que via no pensamento um caminho para a purificação. O que a palavra significava ali? Significava um pensamento que se volta para as próprias raízes. Um caminhar para trás, logicamente falando, em busca do fundamento.

Nessa acepção, a filosofia não é propriedade dos acadêmicos, mas uma atividade potencialmente universal. O ser humano é capaz de pôr o pensamento em marcha para investigar os fundamentos da existência, da realidade e de si mesmo. Aristóteles, em sua genialidade, capturou essa inevitabilidade ao dizer que a filosofia é necessária. E seu argumento é irrefutável: “Até para dizer que a filosofia não é necessária, é preciso filosofar”. É preciso ir à raiz do conceito de “necessidade” e de “filosofia” para negá-las. Estamos, portanto, condenados ao sentido.

Assim, estabelecemos uma distinção crucial: o filósofo não é, necessariamente, o graduado em filosofia. Há doutores que são meros comentadores de textos, repetidores de ideias alheias, incapazes de colocar o próprio pensamento em marcha. Por outro lado, há filósofos genuínos sem qualquer diploma. O filósofo é aquele que vive a atitude da busca.

A Etimologia Viva: O Filho, o Pai e o Amor

Sabemos que a palavra filosofia compõe-se de philia (amor/amizade) e sophia (sabedoria). “Amor pela sabedoria”. Mas essa definição de dicionário é estéril se não a interrogarmos.

Imagine a cena: estou em meu escritório, cercado de livros e desenhos da minha filha na parede, lendo concentrado. Meu filho mais velho entra e pergunta: “Pai, você está filosofando?”. Se eu respondo “Sim, meu filho, estou amando a sabedoria”, a frase soa oca, sem sentido prático. Precisamos dissecar o que é esse “amor” e o que é essa “sabedoria”.

Para entender o amor filosófico, não há guia melhor que Platão, especificamente em seu diálogo O Banquete (Symposium). A obra narra uma festa na casa do tragediógrafo Agatão [nota: corrigido de Sófocles], celebrando sua vitória num festival. Entre vinhos e convivas, decide-se fazer um elogio (encomium) ao Amor (Eros).

Após vários discursos, Sócrates toma a palavra. E sua tese é devastadora: o amor é desejo, e o desejo é, por definição, falta. Ninguém deseja o copo d’água que já tem na mão; desejamos o que não está aqui. O amor é um buraco. É a manifestação de um vazio ontológico.

O Paradoxo do Amor e a Utopia

O amor busca integrar o ser amado em sua existência. Todavia, esse amor é irrealizável. Se eu pudesse, de fato, fundir-me à minha esposa, integrá-la totalmente em mim, ela deixaria de ser “o outro”. A tensão entre amante e amado desapareceria, e com ela, o próprio amor. A dualidade se tornaria identidade. O amor depende da distância para existir.

O amor, portanto, é uma utopia. Eduardo Galeano, parafraseando Fernando Birri, dizia que a utopia é como o horizonte: eu caminho dois passos, ela se afasta dois passos; eu caminho dez, ela se afasta dez. Para que serve a utopia? Para nos fazer caminhar.

Da mesma forma, a filosofia — o amor pela sabedoria — é uma utopia. O filósofo deseja a sabedoria justamente porque não a tem. Sócrates, declarado o mais sábio pelo Oráculo de Delfos, compreendeu que sua sabedoria era negativa: ele sabia que nada sabia. Essa “douta ignorância” é o reconhecimento do vazio.

Se o filósofo encontrasse a sabedoria plena, se preenchesse esse vazio, ele deixaria de ser filósofo (aquele que busca) e se tornaria um sábio (aquele que possui). O sábio tem respostas; o filósofo tem perguntas. O sábio é estático; o filósofo é movimento. E, curiosamente, encontramos “sábios” — no pior sentido da palavra — em muitas cátedras universitárias e púlpitos religiosos: pessoas que cristalizaram suas opiniões e cessaram a busca.

A Radicalidade do Logos e a Ausência de Progresso

A filosofia é, então, uma busca fadada ao fracasso da completude. Jamais chegaremos ao horizonte. Por que, então, filosofar? Pela mesma razão que amamos, sabendo que o amor pode acabar ou que a morte nos separará. É o que nos torna humanos.

Aristóteles dizia que quem não vive na pólis (sociedade) ou é uma besta (animal) ou um deus. Talvez possamos dizer o mesmo da filosofia: os animais não filosofam porque são pura existência, pura atualidade; eles já são. Os deuses (ou anjos) não filosofam porque já sabem. Nós, humanos, existimos nesse intervalo trágico e maravilhoso da falta.

E, diferentemente da tecnologia ou da ciência, na filosofia não há “progresso”. Não podemos dizer que Heidegger é “superior” a Platão, assim como não dizemos que Guimarães Rosa é superior a Dante ou que Rodin superou Michelangelo.

Na arte e na filosofia, o que existe é paralaxe. Pense no bandeirinha num jogo de futebol. A posição dele no campo determina se ele vê ou não o impedimento. A paralaxe é a mudança na posição aparente de um objeto vista por observadores em locais diferentes.

Os filósofos partem de lugares históricos, culturais e existenciais diferentes. Eles olham para o mesmo “objeto” — o núcleo da realidade, a condição de possibilidade da existência, o mistério do Ser. Eles descrevem caminhos diferentes, mas todos miram essa mesma “Roma”. Heidegger pressupõe Platão, sim, mas não como uma evolução linear, e sim como um novo ângulo sobre o mesmo mistério inesgotável.

Conclusão: A Comunidade dos Desprovidos

Encerramos esta primeira aula com a definição do nosso grupo. Não estamos fundando uma escola de sábios. Não estamos aqui para distribuir verdades prontas.

Nós constituímos, a partir de hoje, uma comunidade de amantes da sabedoria. Ou seja: uma comunidade de pessoas desprovidas de sabedoria, conscientes de sua própria carência, e que, justamente por isso, se põem em marcha. Desejo a todos uma excelente e significativa viagem.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Platão. O Banquete (Simpósio)

  • Aristóteles. Protréptico (Argumento sobre a necessidade da filosofia) e Política (O homem como animal social).

  • Thomas More. Utopia

  • Eduardo Galeano (A metáfora do horizonte). (A metáfora do horizonte)

  • Guimarães Rosa vs. (Literatura sem progresso)

  • Michelangelo vs. (Escultura sem progresso)

  • Apologia de Sócrates (Platão). Para aprofundar a "douta ignorância".

  • Crítica da Razão Pura (Kant). Para entender os limites da razão na busca pelo incondicionado.