Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche explora o pensamento idiossincrático de Walter Benjamin, um filósofo que fundiu o materialismo histórico com a mística judaica. A exposição percorre a trajetória intelectual do autor, desde sua concepção metafísica da linguagem e a distinção entre violência mítica e divina, até a análise radical do capitalismo como uma estrutura religiosa de puro culto e culpa. A aula culmina na reflexão sobre a filosofia da história, utilizando a alegoria do 'Angelus Novus' para criticar a noção de progresso e propor uma interrupção messiânica da catástrofe histórica.

Pontos-Chave

  • Linguagem Adâmica vs. Instrumental: A distinção entre a linguagem como revelação da essência espiritual das coisas (nomeação) e a linguagem decaída como mero signo arbitrário de comunicação.

  • Violência Mítica vs. Violência Divina: Diferenciação entre a violência que funda e preserva o direito (mítica, sangrenta) e a violência que destrói o direito para expiar a culpa (divina, purificadora).

  • Capitalismo como Religião: A tese de que o capitalismo opera como um culto permanente, sem dogmas, gerador de culpa (Schuld) universal e sem redenção.

  • Aura e Reprodutibilidade: A perda da unicidade sagrada da obra de arte na modernidade e o potencial político dessa transformação (politização da arte vs. estetização da política).

  • O Anjo da História: Alegoria baseada em Paul Klee, onde o progresso é visto como uma tempestade que acumula ruínas, exigindo uma interrupção messiânica do tempo.

Transcrição da Aula

Introdução: A Constelação Benjaminiana

O professor inicia a aula apresentando Walter Benjamin como um dos pensadores mais originais do século XX, destacando sua capacidade de fundir elementos aparentemente incompatíveis: marxismo e mística judaica, crítica materialista e teologia messiânica. Nascido em Berlim, em 1892, numa família judia assimilada, Benjamin viveu o fim da ‘Belle Époque’. Sua trajetória foi marcada pelo distanciamento da academia tradicional; sua tese de habilitação sobre o drama barroco alemão foi rejeitada por ser considerada incompreensível. Esse fracasso institucional, contudo, permitiu-lhe desenvolver uma filosofia livre das amarras acadêmicas, recusando especializações rígidas.

A Metafísica da Linguagem

Na fase inicial de seu pensamento (1915-1925), Benjamin investiga a essência da linguagem, indo além da linguística ou gramática. No ensaio ‘Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem do Homem’ (1916), ele refuta a ideia da linguagem como mero instrumento de comunicação. Baseando-se no Gênesis, o professor explica o conceito de ‘linguagem adâmica’: o ato de nomear não é a criação de etiquetas arbitrárias, mas a revelação da essência espiritual das coisas. Com a Queda, a linguagem se corrompeu em signos convencionais. A tarefa do filósofo e do tradutor seria, portanto, recuperar fragmentos dessa linguagem pura. Influenciado pela Cabala e por Gershom Scholem, Benjamin entende as letras não como sinais gráficos, mas como forças constitutivas da realidade, opondo-se à visão positivista que reduz a linguagem a uma ferramenta técnica.

Para uma Crítica da Violência

Em 1921, no contexto pós-Primeira Guerra e da Revolução Russa, Benjamin publica ‘Para uma Crítica da Violência’. O professor elucida a distinção central deste ensaio. Primeiro, a ‘violência mítica’, que funda e preserva o direito. Exemplificada pelo mito de Níobe, é uma violência que derrama sangue e cria culpa, sendo a base do Estado moderno e suas instituições. Em contrapartida, Benjamin introduz o conceito de ‘violência divina’. Esta não funda direitos, mas os destrói; não cria culpa, mas a expia. Ilustrada pelo episódio bíblico de Corá (Korah), é uma intervenção pura. O professor esclarece que não se trata de apologia ao terrorismo, mas da busca por uma ação (como a greve geral proletária de Sorel) que interrompa a máquina do poder e do direito, uma força messiânica de transformação radical.

Capitalismo como Religião

Avançando para a análise socioteológica, o professor expõe a tese explosiva de que o capitalismo não apenas deriva de uma ética religiosa (como em Weber), mas é uma religião em si. Esta religião possui características específicas: 1) É um culto puro, sem dogmas ou teologia, baseado apenas em práticas utilitárias. 2) É um culto permanente, ‘sans rêve et sans merci’, sem dias de descanso, intensificado hoje pela conexão digital 24/7. 3) É um culto gerador de culpa, não de expiação. O termo alemão Schuld significa tanto ‘dívida’ quanto ‘culpa’. O sistema endivida indivíduos e nações, universalizando a culpa. 4) Seu Deus é oculto e imaturo, manifestando-se apenas na crise e no colapso. Benjamin subverte Nietzsche (o Super-Homem como ideal capitalista) e Freud (o inconsciente como capital de juros psíquicos), definindo o capitalismo como a religião do desespero e da destruição.

A Estética na Era da Reprodutibilidade

O professor aborda a virada materialista de Benjamin, exemplificada no ensaio ‘A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica’. O conceito central é a perda da ‘aura’ — a presença única e sagrada da obra original. Ao perder a aura (como a Mona Lisa reproduzida em cartões postais), a arte torna-se acessível e politizável. Benjamin alerta, contudo, para a resposta do fascismo a esse fenômeno: a estetização da política (transformar a guerra e o poder em espetáculo). A resposta comunista deveria ser a politização da arte. O professor conecta isso ao capitalismo religioso: a aura antiga não desaparece, mas é substituída pelo fetichismo da mercadoria e o culto às marcas.

O Anjo da História e o Messianismo

Na conclusão, examinam-se as ‘Teses Sobre o Conceito de História’ (1940). A figura central é o ‘Angelus Novus’, quadro de Paul Klee interpretado por Benjamin como o Anjo da História. O anjo olha para o passado e vê uma catástrofe única acumulando ruínas, mas é empurrado irresistivelmente para o futuro por uma tempestade chamada ‘progresso’. Benjamin rejeita a história como evolução linear; a história é barbárie. O papel do historiador materialista é ‘escovar a história a contrapelo’, redimindo a memória dos vencidos. Propõe-se o conceito de ‘tempo de agora’ (Jetztzeit), um presente carregado de potencial revolucionário capaz de interromper o continuum da história. A revolução não é a locomotiva da história, mas o ato da humanidade puxar o freio de emergência.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Walter Benjamin. Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem do Homem(1916)

  • Walter Benjamin. Para uma Crítica da Violência(1921)

  • Walter Benjamin. Capitalismo como Religião(Fragmento de 1921)

  • Walter Benjamin. Origem do Drama Trágico Alemão

  • Walter Benjamin. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica

  • Walter Benjamin. Teses Sobre o Conceito de História(1940)

  • Paul Klee. Angelus Novus(Pintura)

  • Max Weber. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

  • Georges Sorel. Reflexões sobre a Violência