Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche explora a pertinência e as implicações do uso do termo 'filosofia' para designar saberes não gregos, como as tradições africanas, indígenas e brasileiras. A partir de uma análise crítica do etnocentrismo e do descolonialismo, argumenta-se que a filosofia é uma matriz cultural especificamente grega e que a tentativa de enquadrar outras sabedorias nessa categoria constitui uma 'contradição performática' e uma forma de colonialismo intelectual. A aula dialoga com pensadores como Kwasi Wiredu, Kwame Anthony Appiah e Maria Helena Varela para propor a valorização da singularidade dos saberes e a ação criativa em vez da demanda por reconhecimento externo.

Pontos-Chave

  • Matriz Grega da Filosofia: A filosofia não é um fenômeno universal espontâneo, mas um produto cultural e histórico específico da Grécia Antiga, ligado a instituições como a polis e a democracia.

  • Contradição Performática Decolonial: O paradoxo de tentar combater o eurocentrismo utilizando categorias europeias (como o conceito de 'filosofia') para validar saberes tradicionais.

  • Crítica ao Essencialismo: Baseada em Kwame Anthony Appiah, a crítica à ideia de uma 'África' homogênea, defendendo a pluralidade de culturas em oposição a uma abstração geográfica.

  • Singularidade dos Saberes: A proposta de que cada cultura possui caminhos de sabedoria válidos e distintos, que não precisam ser legitimados pelo rótulo de 'filosofia'.

  • Natureza Poética da Língua Portuguesa: A tese de Maria Helena Varela de que o pensamento em língua portuguesa é estruturalmente poético, polissêmico e aberto, diferindo do rigor técnico de outras línguas europeias.

Transcrição da Aula

A Gênese Grega e a Universalização Conceitual

O professor inicia a exposição situando a filosofia como um fenômeno historicamente datado e geograficamente localizado. Embora a filosofia tenha surgido na periferia do mundo grego (nas colônias da Ásia Menor) e absorvido conhecimentos egípcios, persas e hindus, ela se consolidou como uma instituição cultural helênica. O docente ressalta que a filosofia emergiu concomitantemente a outras práticas gregas, como a democracia, a liberdade de expressão e a pedagogia. Com o tempo, conceitos como ‘democracia’ deixaram de ser apenas descritivos para se tornarem valores universais. Contudo, diferentemente da democracia, a universalização do termo ‘filosofia’ enfrenta resistência crítica contemporânea, especialmente no contexto das lutas contra o imperialismo cultural e intelectual.

O Debate da Filosofia Africana: Wiredu e a Antropofagia

No contexto do descolonialismo, discute-se a existência de uma filosofia africana. O professor cita Kwasi Wiredu, filósofo ganense, que propõe uma ‘descolonização do pensamento’ através de um biculturalismo crítico. Wiredu sugere selecionar elementos lógicos e racionais tanto da tradição africana quanto da europeia, descartando o que não serve, num processo análogo ao conceito brasileiro de antropofagia. Em paralelo, autores brasileiros como Ney Lopes, Luiz Antônio Simas e Renato Noguera defendem a anterioridade ou a racionalidade autônoma das filosofias africanas como forma de denúncia ao ‘epistemicídio’ — a destruição sistemática dos saberes tradicionais pela cultura dominante.

A Crítica de Appiah e a Armadilha Eurocêntrica

Aprofundando a discussão, o professor apresenta a perspectiva de Kwame Anthony Appiah, autor de ‘Na Casa de Meu Pai’. Appiah critica o essencialismo que trata a ‘África’ como uma unidade homogênea, argumentando que o continente é uma abstração que abriga milhares de povos distintos. O ponto crucial levantado pelo professor, apoiado em Appiah, é que a defesa de uma ‘filosofia africana’ ou ‘indígena’ cai frequentemente em uma armadilha eurocêntrica: ao tentar validar o pensamento de um povo oprimido usando a categoria ‘filosofia’ (que é grega), o intelectual acaba reforçando a hegemonia conceitual do colonizador. Trata-se de uma contradição performática onde se busca a emancipação utilizando as ferramentas do dominador.

A Tirania do Mesmo e a Valorização da Diferença

O professor argumenta que classificar saberes ancestrais, míticos e orais como ‘filosofia’ é uma forma de reducionismo. A filosofia é um ‘caminho para a sabedoria’ específico, mas não o único. Povos indígenas e africanos possuem seus próprios caminhos, que são singulares e completos em si mesmos. Tentar encaixá-los na moldura filosófica é praticar o que Emmanuel Levinas chama de ‘tirania do mesmo’: a tendência ocidental de homogeneizar a alteridade sob categorias conhecidas. Reconhecer que um saber ‘não é filosofia’ não é diminuí-lo, mas respeitar sua diferença radical e sua autonomia. Pierre Hadot é citado para reforçar que, embora a filosofia seja um modo de vida, ela é um modo de vida forjado na matriz grega.

Lugar de Fala e a Natureza Poética do Pensamento Brasileiro

Ao abordar o contexto brasileiro, o professor utiliza sua própria genealogia (descendência europeia, africana e tupinambá) para ilustrar a complexidade da identidade nacional. Ele adverte contra a exigência de reconhecimento de uma ‘filosofia brasileira’ perante a Europa, pois quem exige reconhecimento se coloca, fenomenologicamente, em posição de inferioridade. Em vez disso, propõe o ato de ‘fazer’ pensamento. Como referência central, resgata a obra de Maria Helena Varela, ‘Heterólogos em Língua Portuguesa’. Segundo Varela, e corroborado pelas teses hermenêuticas de Heidegger, Gadamer e Wittgenstein, a linguagem constitui o mundo. O português, sendo uma língua de origem poética e polissêmica, favorece um pensamento aberto e difuso, distinto do rigor técnico alemão ou latino. Assim, o pensamento brasileiro genuíno talvez se manifeste mais na literatura (como em Guimarães Rosa) e na música do que na filosofia acadêmica estrita.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Kwasi Wiredu. Philosophy and an African Culture

  • Kwame Anthony Appiah. Na Casa de Meu Pai(In My Father's House)

  • Ney Lopes e Luiz Antônio Simas. Filosofias Africanas: uma introdução

  • Maria Helena Varela. Heterólogos em Língua Portuguesa

  • Pierre Hadot. Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga

  • Emmanuel Levinas. Totalidade e Infinito