A Guerra da Ucrânia e o Mal-Estar na Civilização
Sinopse
Nesta aula, o professor parte do contexto geopolítico da Guerra da Ucrânia para investigar as raízes filosóficas e psicanalíticas do 'desejo de guerra' em sociedades ocidentais desenvolvidas. Articulando Freud, a Escola de Frankfurt, Žižek e Baudrillard, a exposição transita da repressão dos instintos na modernidade clássica para a obrigatoriedade do gozo na contemporaneidade. O documento analisa como o totalitarismo democrático, a mercantilização do tempo e a vida em estado de simulacro geram uma tensão psíquica insustentável, onde a destruição bélica surge paradoxalmente como uma tentativa de recuperação da realidade e da autenticidade existencial.
Pontos-Chave
Eros e Thanatos: A dualidade freudiana entre pulsão de vida e pulsão de morte, cuja repressão é necessária para a civilização, gerando o mal-estar.
Mandato de Gozo: Conceito de Slavoj Žižek sobre a inversão contemporânea onde a repressão cede lugar à obrigação social de ser feliz e ter prazer.
Razão Instrumental: Crítica de Adorno e Horkheimer sobre como o esclarecimento (Aufklärung) objetificou o ser humano, transformando-o em mero recurso.
Totalitarismo Democrático: A noção de que as democracias liberais exercem controle totalitário não pela dor, mas pela manipulação do prazer e das falsas escolhas (Huxley/Marcuse).
Simulacro e Hiper-realidade: Tese de Baudrillard de que a realidade foi substituída por signos, tornando a guerra o último referente 'real' possível.
Transcrição da Aula
O Fenômeno Geopolítico e o Impulso Inconsciente
O professor inicia a exposição contextualizando o cenário bélico na Ucrânia e a reação das potências europeias (França e Reino Unido) em considerar o envio de tropas. Relatando sua experiência pessoal em Portugal durante o início do conflito, ele destaca uma observação sociológica inquietante: a existência de um ‘desejo de guerra’ latente na sociedade europeia. Para além das justificativas geopolíticas racionais ou da solidariedade seletiva aos refugiados ucranianos — em contraste com o tratamento dado a outros povos —, o que se evidenciou foi uma adesão quase eufórica, um impulso profundo de participação em eventos violentos. A questão central levantada não é política, mas filosófica e psicanalítica: o que provoca esse desejo de destruição em uma sociedade caracterizada pelo conforto material, liberdade política e alto padrão de consumo?
O Mal-Estar na Civilização: A Perspectiva Freudiana
Para compreender esse fenômeno, recorre-se à obra seminal de Sigmund Freud, ‘O Mal-Estar na Civilização’. Freud postula a existência de duas pulsões fundamentais que se entrelaçam vertiginosamente: a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Thanatos). A constituição da sociedade exige a repressão desses impulsos, especialmente da agressividade e da sexualidade desmedida. O mecanismo dessa repressão é o Superego — a internalização das normas sociais que gera culpa e autocensura. Embora essa repressão permita a convivência civilizada, ela cobra um preço alto: um estado permanente de angústia e inadequação. O desejo de destruição não desaparece; ele é apenas silenciado na linguagem explícita, permanecendo ativo no inconsciente, pronto para emergir em momentos de ruptura ou através de sintomas sociais.
A Inversão Psíquica: Do Dever de Reprimir ao Dever de Gozar
Avançando para a análise contemporânea, o professor introduz o pensamento de Slavoj Žižek, especialmente na obra ‘O Sujeito Incômodo’. Žižek propõe uma inversão na economia psíquica descrita por Freud. Se na Viena vitoriana o mal-estar advinha da repressão sexual, na atualidade não há mais tal repressão; ao contrário, vive-se sob o imperativo do gozo. Somos obrigados a ser felizes e a obter prazer, uma dinâmica prevista na distopia ‘Admirável Mundo Novo’ de Aldous Huxley. Neste cenário, o controle social não se dá pela dor ou proibição, mas pelo excesso de prazer, drogas (o ‘Soma’ literário) e consumo. Trata-se de um ‘totalitarismo democrático’ ou hedonista, onde a liberdade é ilusória, restrita a escolhas pré-determinadas pelo mercado, assemelhando-se à liberdade do gado que escolhe onde pastar, mas sempre dentro da cerca.
A Dialética do Esclarecimento e a Objetificação Humana
Aprofundando a crítica social com a Escola de Frankfurt, aborda-se a obra ‘Dialética do Esclarecimento’ de Adorno e Horkheimer. Os autores argumentam que o Iluminismo (Aufklärung), iniciado com os gregos como um projeto de libertação e domínio da natureza, resultou na objetificação do próprio homem. Sob a égide da razão instrumental, o ser humano é reduzido a ‘recurso humano’ — um objeto econômico cuja validade reside na capacidade de produção e consumo. Essa lógica permeia tanto o liberalismo quanto o marxismo clássico. O indivíduo torna-se um homo economicus, desumanizado e instrumentalizado por um sistema que descarta o que não é funcional, gerando uma alienação profunda mascarada pela eficiência técnica.
A Colonização do Tempo e o Fim do Ócio
Um sintoma claro dessa desumanização é a extinção do conceito grego de ócio (scholé). O ócio não era o ‘não fazer nada’, mas o tempo livre dedicado ao cultivo de si, à política, à arte e à reflexão — atividades sem fim utilitário imediato. Na sociedade contemporânea, o ócio foi substituído pelo entretenimento e pelo consumo. O tempo livre é colonizado pelo capital: se não estamos produzindo, devemos estar consumindo. O professor ilustra isso com a mercantilização dos afetos, citando o exemplo dos ovos de Páscoa: a incapacidade de expressar amor sem a mediação de uma mercadoria. Essa monetarização da experiência humana elimina os refúgios de resistência psíquica, mantendo o indivíduo num ciclo exaustivo que impede a clareza mental sobre sua própria condição de servidão.
Simulacros, Hiper-realidade e a Guerra como Resgate do Real
Finalmente, utiliza-se Jean Baudrillard e sua obra ‘Simulacros e Simulação’ para diagnosticar a perda da realidade. Vivemos em um mundo de signos que perderam o referente, uma ‘hiper-realidade’ exemplificada pela Disney — que serve, segundo Baudrillard, para esconder que toda a sociedade exterior já se tornou um parque temático infantilizado. Nesse contexto de simulação total, onde a vida é inautêntica e institucionalizada, a guerra surge como o ‘último referente real’. O desejo de destruição, portanto, pode ser interpretado não apenas como barbárie, mas como uma tentativa desesperada e inconsciente de romper com a simulação, de sentir algo genuíno, mesmo que seja através da dor e da morte. A guerra renova a existência ao destruir as cadeias de uma civilização que, sob a máscara do bem-estar, tornou-se um cárcere psíquico insuportável.
Glossário
Referências Bibliográficas
Sigmund Freud. O Mal-Estar na Civilização
Slavoj Žižek. O Sujeito Incômodo: O Centro Ausente da Ontologia Política
Slavoj Žižek. A Visão em Paralaxe
Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Dialética do Esclarecimento
Jean Baudrillard. Simulacros e Simulação
Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo
Santo Agostinho. Confissões
Gustavo Bertoche. A Pax Eterna: A Hegemonia do Medo e o Fim da Política
Herbert Marcuse. Eros e Civilização