Xavier Zubiri
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta o filósofo espanhol Xavier Zubiri (1898–1983), pouco conhecido fora do mundo hispânico, mas autor de uma metafísica original da realidade. Aluno de Husserl, em contato com Heidegger e formado também em física (com De Broglie), Zubiri propõe uma inversão radical da tradição: contra a "entificação da realidade" — o hábito, de Aristóteles aos modernos, de aprisionar o real em categorias e conceitos —, ele sustenta que a realidade vem antes do ser. Algo é real quando existe de suyo (por si próprio), impondo-se com características que não dependem da nossa percepção, e quando tem poder de atuar sobre as demais coisas em virtude do que é. A exposição desenvolve os conceitos centrais: a substantividade (o sistema das notas essenciais, em lugar da "substância") e a respectividade (toda realidade é constitutivamente aberta e relacional); a abertura e inexauribilidade do real (que sempre transborda os nossos conceitos, como mostra a história da física); a inteligência senciente (a unidade estrutural entre sentir e inteligir, que dissolve o abismo milenar entre sensação e intelecto e nos dá a "impressão de realidade" no próprio ato de sentir); e a antropologia do homem como "animal de realidades" — capaz de apreender os estímulos como realidades, transcender o imediato, imaginar e criar. A aula culmina no conceito de "religação": estamos lançados na realidade, dependentes e constitutivamente abertos a ela e aos outros (fundamento da ética) e à busca de um fundamento último (a inquietude pelo sentido). Conclui com a atualidade de Zubiri numa "época de crise de realidade" (o virtual, o relativismo, o cientificismo, o construtivismo), propondo o contato direto e maravilhado com o real.
Pontos-Chave
Zubiri, o filósofo da realidade: espanhol (1898–1983), aluno de Husserl, em contato com Heidegger e formado também em física (com De Broglie); criou uma filosofia original centrada no conceito de realidade, em diálogo com a tradição e com a ciência contemporânea.
A entificação da realidade: a crítica de Zubiri ao desvio da tradição — de Aristóteles (substância, categorias) a Kant (fenômenos) e ao idealismo —, que aprisiona o real em conceitos e coloca em segundo plano a realidade mesma, em sua presença imediata.
A inversão: a realidade antes do ser: primeiro algo é real (impõe-se de suyo); depois, quando pensamos e julgamos ("isto é uma pedra"), estamos no nível do ser. A realidade é mais fundamental que o ser.
De suyo: algo é real quando existe "por si próprio", com características que não dependem de nós (a pedra em que se tropeça, sentida antes de qualquer conceito); e quando tem poder de atuar sobre as coisas em virtude do que é (o ímã, a pessoa) — um poder que persiste mesmo latente (a semente, o vulcão adormecido).
Substantividade: o sistema organizado das notas (características) essenciais de uma coisa, sem as quais ela deixaria de ser o que é; Zubiri evita o termo "substância", carregado de história.
Respectividade: toda coisa real, por ser real, está constitutivamente aberta e referida a outras realidades; nada existe em isolamento absoluto. Contra Aristóteles, ser real já é estar em relação.
A realidade aberta e inexaurível: nenhuma teoria ou conceito captura completamente uma realidade; o real sempre transborda nossas fórmulas (a história da física), pois "dá de si". O conhecimento é progressivo e aproximativo, nunca posse completa.
Inteligência senciente: contra o dualismo histórico entre sentidos e intelecto, sentir e inteligir formam uma unidade estrutural; no próprio ato de sentir já há uma "impressão de realidade", e o real se dá diretamente, sem pontes conceituais.
Logos e razão: sobre a apreensão primária senciente fundam-se os momentos posteriores — o logos (comparar, conceituar) e a razão (buscar explicações e o porquê); sem aquele fundamento, seriam apenas jogo com conceitos vazios.
Animal de realidades e religação: o ser humano apreende os estímulos como realidades (e não, como o animal, em mero círculo estímulo-resposta), podendo distanciar-se, refletir, imaginar e criar; e está "religado" à realidade — lançado nela, dependente e aberto a ela, aos outros (fundamento da ética) e à busca de um fundamento último.
Transcrição da Aula
Zubiri e a crítica à entificação da realidade
A aula caminha com Xavier Zubiri, filósofo que, a despeito de sua importância, permanece relativamente desconhecido fora do mundo hispânico. Zubiri nasceu em 1898 e morreu em 1983, e teve a sorte — ou a sabedoria — de estudar com alguns dos maiores nomes da filosofia e da ciência do século XX: foi aluno de Edmund Husserl, teve contato com Heidegger e estudou física com Louis de Broglie, um dos pais da mecânica quântica. Tendo vivido uma época de transformações radicais na filosofia e na ciência — a crise da metafísica tradicional, o nascimento da fenomenologia, as revoluções da física —, Zubiri percebeu que era necessário repensar completamente a nossa compreensão da realidade, e criou uma filosofia original, centrada no conceito de realidade, que dialoga tanto com a tradição quanto com a ciência contemporânea. Sua relevância hoje é grande: numa época em que a realidade parece cada vez mais fragmentada, relativizada e virtualizada — em que alguns dizem que tudo é construção social, outros que só a ciência fala do real, e outros, como Bachelard, que cada campo tem a sua própria ontologia —, Zubiri oferece uma visão renovada e rigorosa do que significa algo ser real, sem cair nem no realismo ingênuo (conhecer as coisas exatamente como são) nem no relativismo que dissolve todo conhecimento objetivo.
Para entender o que Zubiri entende por realidade, é preciso ver o que ele critica na tradição. Zubiri observa que, desde os gregos até os modernos, a filosofia ocidental desviou o foco da realidade em si. Aristóteles, por exemplo, pergunta pelo ser das coisas, pela substância, pela essência, e cria categorias (substância, quantidade, qualidade, relação) para classificar tudo o que existe — mas, ao fazê-lo, já trata a realidade através de conceitos e categorias lógicas, aprisionando o real em esquemas intelectuais. Zubiri chama isso de “entificação da realidade”: transformar a realidade em entes, em coisas que cabem nas nossas categorias — como se pegássemos a riqueza infinita do real e a distribuíssemos em “gavetas conceituais”. Mas será que isso captura o que a coisa realmente é? E não é só Aristóteles: Kant diz que só conhecemos os fenômenos, nunca a coisa em si; os idealistas vão além e dizem que a própria realidade é constituída pelo sujeito pensante. Em todos os casos, a realidade mesma, em sua crueza e presença imediata, fica em segundo plano — o que importa são as nossas ideias, categorias e conceitos sobre ela.
A inversão: a realidade antes do ser e o de suyo
Zubiri propõe uma inversão radical: em vez de perguntar primeiro pelo ser das coisas, perguntar pela realidade delas. Diante de uma mesa, a tradição perguntaria “o que é o ser desta mesa?” (substância com acidentes, matéria com forma, fenômeno para a consciência); Zubiri pergunta “o que faz com que esta mesa seja real?”, “o que significa ela estar aqui presente, impondo-se a nós com suas características próprias?”. A resposta é revolucionária: algo é real quando existe de suyo — expressão espanhola difícil de traduzir, que significa algo como “por si próprio”, “por conta própria”. A mesa não é real porque eu a percebo ou porque cabe nas minhas categorias, mas porque tem uma consistência própria, está aí de suyo, com características que não dependem de mim para existir. O exemplo da pedra esclarece: ao caminhar e tropeçar numa pedra, antes mesmo de pensar “isto é uma pedra”, antes de classificar e conceituar, já se sentiu a dureza, a resistência, a presença daquilo que está ali. Essa presença imediata, esse impor-se da coisa antes de qualquer elaboração mental, é o que Zubiri chama de realidade.
Daí a distinção crucial entre realidade e ser: primeiro algo é real (tem o caráter de existir de suyo, de impor-se com suas características); depois, quando começamos a pensar sobre isso, a fazer juízos (“isto é uma pedra”), estamos no nível do ser. O ser é o que dizemos da realidade, mas a realidade vem antes, é mais fundamental. Aristóteles diria “esta pedra é uma substância composta de matéria e forma” — já no nível do ser, do juízo, da categorização; Zubiri diria que, antes disso, há o fato bruto de que esta pedra está aí, real, com sua dureza, textura e peso — esse “estar aí”, esse de suyo da pedra, é a realidade anterior a qualquer conceito.
Zubiri aprofunda o conceito de de suyo com uma definição precisa e original: é real tudo e só aquilo que atua sobre as demais coisas ou sobre si mesmo, em virtude formalmente das características que possui. O real não é algo passivo e inerte que simplesmente está aí: tem um poder, uma eficácia, uma capacidade de produzir efeitos. Uma coisa é real precisamente porque pode afetar outras coisas (e a si mesma) através do que ela é. Por que um ímã é real? Não por ocupar espaço ou ter massa, mas porque tem um campo magnético que atrai objetos metálicos — essa capacidade de atrair, que emana de suas propriedades, mostra sua realidade. Por que uma pessoa é real? Não só por ter um corpo físico, mas porque pode pensar, sentir, agir, transformar o ambiente e relacionar-se — capacidades que mostram o poder daquilo que ela é. A realidade é, assim, intrinsecamente dinâmica, ativa, poderosa — muito diferente de simplesmente “existir” (estar aí, ocupar um lugar). E esse poder não precisa estar sempre em exercício: uma semente tem o poder de germinar mesmo dormente, um vulcão adormecido tem o poder de entrar em erupção mesmo silencioso — o poder está nas características da coisa, mesmo quando não atualizado.
Substantividade e respectividade
Zubiri evita o termo “substância”, carregado de história filosófica, e prefere falar em substantividade: o conjunto organizado das características (notas) essenciais de uma coisa, aquelas sem as quais ela deixaria de ser o que é. Um átomo de hidrogênio é o que é por ter um próton no núcleo e um elétron na órbita — suas notas constitutivas, que formam um sistema, uma unidade. Mas a substantividade não é um bloco fechado e isolado: aqui entra a respectividade. Toda coisa real, pelo simples fato de ser real, está constitutivamente aberta e referida a outras realidades; nada existe em isolamento absoluto. O átomo tem sua substantividade, mas está sempre em relação — forma moléculas, interage com campos, responde a forças —, e essa capacidade de relação não é acidental ou adicional, mas constitutiva do que significa ser real. Uma planta tem sua organização celular, seu DNA e seus processos vitais, mas só existe em relação (solo, água, luz, polinizadores, ar); tiradas essas relações, morre. O ser humano tem sua substantividade (corpo, razão, consciência), mas é constitutivamente respectivo: nasce numa família, numa cultura, numa língua, e precisa dos outros para sobreviver e tornar-se quem é. Isso é revolucionário frente a Aristóteles, para quem a substância subsiste por si e as relações são acidentes secundários: para Zubiri, ser real já é estar em relação — a respectividade não se adiciona a uma substância previamente isolada, mas é constitutiva do próprio real.
E esse real é constitutivamente aberto e inexaurível: nenhuma descrição, teoria ou conceito captura completamente o que uma coisa real é; a realidade sempre transborda as tentativas de aprisioná-la em fórmulas. No século XIX, os físicos achavam ter uma compreensão completa da matéria (os átomos como bolinhas indivisíveis, a mecânica newtoniana explicando tudo); de repente, vieram a radioatividade, o elétron, o núcleo, as partículas subatômicas, a mecânica quântica, e a realidade do átomo tornou-se infinitamente mais rica — e isso não foi um acidente histórico, mas da própria natureza da realidade. A realidade “dá de si”: é fecunda, produz sempre novas manifestações e aspectos a descobrir. Para Aristóteles, conhecer a essência de algo é poder defini-lo (“o homem é um animal racional”); para Zubiri, isso é ilusório — pode-se dizer que o homem é um animal racional, mas isso não esgota a realidade do homem (a corporeidade, a historicidade, a dimensão estética, a social, sempre a mais). Isso não significa que não possamos conhecer: conhecemos aspectos reais das coisas, mas nunca esgotamos esse conhecimento, que é sempre aberto, progressivo e aproximativo. A ciência progride justamente porque a realidade é inesgotável — e isso vale mesmo para uma pedra, que parece simples, mas guarda mistérios (do que é feita, como se formou, que processos geológicos a criaram, qual sua estrutura cristalina).
A inteligência senciente
Um dos aspectos mais originais de Zubiri é sua teoria do conhecimento, centrada no conceito de inteligência senciente, que tem o potencial de mudar completamente a forma como pensamos o conhecimento. Desde Platão, passando por Aristóteles, Descartes e Kant, há uma divisão básica: de um lado, os sentidos, que dariam impressões confusas e enganosas do mundo; de outro, o intelecto, a razão, que elaboraria conceitos claros a partir do que recebe dos sentidos. Os sentidos sentem, o intelecto pensa — duas faculdades separadas, considerando-se geralmente que o verdadeiro conhecimento vem do intelecto, não dos sentidos. Zubiri diz que isso está completamente errado: não há um sentir puro de um lado e um inteligir puro de outro. No ser humano, sentir e inteligir formam uma unidade estrutural — a inteligência senciente, uma inteligência que sente e um sentir que é inteligente.
Um exemplo: ao entrar numa sala e sentir o calor, um animal também o sentiria, mas só como estímulo, algo que provoca uma resposta (ficar ofegante, sair). O ser humano não: sente o calor como algo real, como uma característica real do ambiente, e junto com a sensação vem o que Zubiri chama de “impressão de realidade” — que não é um conceito nem um juízo. Antes de pensar “está quente”, antes de medir a temperatura ou teorizar sobre moléculas, já se apreendeu o calor como real. Isso é a inteligência senciente: no próprio ato de sentir, já há uma impressão intelectiva da realidade. Ao pegar a pedra do caminho, sente-se a dureza, o peso, a textura, a temperatura — não como qualidades soltas, mas como a dureza desta pedra real, o peso de algo que está aí por si próprio: a pedra impõe-se na sua realidade no próprio ato de senti-la. Essa concepção elimina um problema milenar da filosofia — como passar das sensações subjetivas ao conhecimento objetivo —, pois para Zubiri não há esse abismo: na inteligência senciente já estamos em contato direto com a realidade, sem necessidade de pontes conceituais, inferências ou representações; a realidade se dá diretamente na impressão.
Isso não significa, porém, que todo conhecimento se reduza à sensação. Depois desse momento primário de apreensão vem o que Zubiri chama de logos: começamos a comparar, relacionar, conceituar (“isto é uma pedra”, “está mais quente aqui dentro”). E depois vem a razão, que busca explicações mais profundas, teorias, o porquê das coisas. Mas — e isso é crucial — tanto o logos quanto a razão se fundam nesse momento primário de apreensão senciente do real; sem ele, estaríamos apenas jogando com conceitos vazios. É porque primeiro sentimos intelectivamente a realidade que depois podemos pensar sobre ela. As implicações são enormes: a ciência não é um jogo conceitual, mas funda-se em impressões de realidade — o cientista que observa, experimenta e mede está em contato permanente e senciente com o real, e as teorias mais abstratas da física precisam, no fim, conectar-se com algo que alguém viu, mediu ou sentiu no laboratório.
O animal de realidades e a religação
Essa metafísica tem consequências para a compreensão do ser humano. Zubiri tem uma expressão bela: o homem é um “animal de realidades”. Todos os animais vivem entre estímulos — um cão sente calor, frio, cheiros e sons, e responde de forma mais ou menos automática, preso ao círculo estímulo-resposta. O ser humano também sente estímulos, mas — e aqui está a diferença radical — apreende os estímulos como realidades. Para o ser humano, o calor não é só o estímulo que faz suar, mas uma realidade que se pode investigar, da qual se pode distanciar, sobre a qual se pode refletir (“por que está calor? de onde vem? como funciona?”). Isso abre um abismo entre nós e os outros animais: porque apreendemos as coisas como realidades, podemos nos distanciar delas, considerá-las e escolher como responder. Um cão foge automaticamente do fogo; o ser humano pode escolher aproximar-se para se aquecer, cozinhar, sinalizar ou investigar — lida com o fogo como realidade, não como mero estímulo. E, porque apreendemos realidades, podemos imaginar realidades diferentes, projetar, planejar, criar: um pássaro faz o ninho por instinto, sempre do mesmo jeito; o ser humano pode imaginar mil tipos de casa, inovar, criar o que nunca existiu. Somos animais de realidades porque podemos transcender o dado, o imediato.
Daí o conceito de religação, que Zubiri toma da teologia e dá um sentido filosófico: estamos religados à realidade. Não somos autossuficientes, não criamos a realidade, mas dependemos dela e estamos constitutivamente abertos a ela. Nascemos sem escolher, num mundo que já estava aí, num corpo, numa família, numa cultura e numa época que não escolhemos — lançados na realidade, dela dependentes para tudo (respirar, comer, pensar, amar). Mas essa realidade da qual dependemos é aberta, oferece possibilidades, e podemos transformá-la em certa medida. A religação tem uma dimensão ética fundamental: estamos religados à realidade e aos outros, não somos mônadas isoladas, mas seres constitutivamente abertos e dependentes — e as nossas ações afetam a realidade, transformam o mundo e impactam os outros. A ética nasce dessa condição de animais de realidades religados. Mais ainda: o ser humano sente uma inquietude, uma busca de um fundamento último — “por que existe algo, e não antes o nada?”, “qual o sentido de tudo?”, “há um fundamento último da realidade?”. Essas perguntas surgem naturalmente da nossa condição de animais de realidades, e podem levar ao que as religiões chamam de Deus, o fundamento absoluto da realidade. Mesmo quem não é religioso vive essa inquietude, essa busca de sentido, porque ela é constitutiva do ser humano.
A atualidade de Zubiri
Por que isso importa hoje? Vivemos numa época de crise de realidade. De um lado, o mundo virtual nos faz questionar o que é real — vídeos hiper-realistas, cenas de guerra que não sabemos se são reais, imagens que nos tiram a noção do que é verdadeiro. De outro, o relativismo dissolve qualquer noção firme do real; o cientificismo diz que só a ciência pode falar do real; o construtivismo diz que todo real é construção social. Zubiri oferece outro caminho, ao mesmo tempo mais sólido e mais nuançado: existe, sim, uma realidade que se impõe por si mesma, que não inventamos — mas essa realidade é aberta, dinâmica, relacional e inesgotável; podemos conhecê-la, mas sempre parcial e progressivamente, e a conhecemos não por abstração pura, mas pela inteligência senciente, em contato direto com o real.
Isso tem consequências práticas. Na ciência, sugere humildade (a realidade sempre pode surpreender) e, ao mesmo tempo, confiança (estamos em contato com o real, não com meras construções sociais). Na ética, funda a responsabilidade na nossa condição relacional, na dependência mútua. Na vida cotidiana, convida a uma relação renovada com o real que nos rodeia, a superar a anestesia da rotina: vivemos hoje sempre mediados por telas, imagens e representações, e Zubiri lembra a importância do contato direto com a realidade — sentir o vento, tocar a terra, encontrar pessoas face a face —, não por romantismo, mas porque é aí que apreendemos a realidade em sua presença mais originária. E, quanto ao sentido: numa época de niilismo, em que tantos dizem que nada tem sentido, Zubiri mostra que estamos constitutivamente abertos ao fundamento último da realidade — a busca do sentido não é opcional, é constitutiva do que somos; podemos dar respostas diferentes (religiosas, filosóficas, científicas), mas não podemos evitar a pergunta. Por fim, Zubiri ensina uma atitude fundamental: o respeito e a abertura diante da realidade. Não possuímos a realidade, não a controlamos, não a esgotamos com nossos conceitos — ela sempre nos supera e tem mais a ensinar, o que convida a uma postura de humildade intelectual, curiosidade permanente e assombro renovado. Se há algo a levar de Zubiri, é prestar atenção à realidade — não às ideias de realidade, mas à presença mesma das coisas: sentir o peso, a resistência e a riqueza do real, perceber como estamos ligados a tudo e como as nossas ações têm consequências reais, vivendo como os animais de realidades que somos, abertos ao mistério inesgotável do real. A filosofia de Zubiri não é só uma teoria abstrata, mas um convite a uma forma mais atenta, respeitosa e maravilhada de estar no mundo — a não só pensar a realidade, mas vivê-la em plenitude.
Glossário
Referências Bibliográficas
Xavier Zubiri. de suyo(os conceitos de realidade de suyo, substantividade, respectividade e religação)
Xavier Zubiri. Inteligência Senciente e Inteligência Senciente e Inteligência e Logos e Inteligência e Razão(a trilogia Inteligência Senciente, Inteligência e Logos, Inteligência e Razão)
Aristóteles (a substância e as categorias. (a substância e as categorias, criticadas)
Louis de Broglie (a mecânica quântica. (a mecânica quântica, com quem Zubiri estudou física)
Xavier Zubiri. Sobre a Essência e Sobre la esencia(Sobre la esencia)
Xavier Zubiri. O Homem e Deus e El hombre y Dios(El hombre y Dios)
Diego Gracia. Voluntad de verdad: para leer a Zubiri
Edmund Husserl. Investigações Lógicas