Sinopse

Nesta aula, analisamos o diálogo Eutidemo, frequentemente descrito como uma comédia filosófica alucinada. Através de uma narrativa que beira o absurdo, Platão expõe as técnicas da herística — a arte da disputa verbal que visa apenas a vitória — em contraste com a dialética filosófica, que busca a verdade. A discussão expande-se para a necessidade da definição precisa de conceitos e para a aplicação ética do discurso na polis, conectando o pensamento de Sócrates a filósofos contemporâneos como Habermas, Berlin e Foucault.

Pontos-Chave

  • Herística vs. Dialética: A distinção entre o discurso voltado ao constrangimento do adversário (eristiké) e o discurso voltado ao conhecimento (dialektiké).

  • Discursos Protrépticos: A técnica socrática de exortar e encaminhar o jovem Clínias para a busca da sabedoria (sophía).

  • A Falácia da Ambiguidade: Como os sofistas Eutidemo e Dionisiodoro utilizam a falta de definição dos termos para prender o interlocutor em contradições lógicas vazias.

  • A Sabedoria como Prática: A definição de que a verdadeira sabedoria não é apenas teórica, mas um "saber fazer" que orienta a ação correta.

  • Paresia e Democracia: A importância da coragem de dizer a verdade e da clareza conceitual para a saúde da vida política comunicativa.

Transcrição da Aula

A Encenação da Sabedoria e a Herística Sofística

O diálogo Eutidemo inicia-se com Sócrates relatando a Críton um encontro ocorrido no dia anterior. O cenário é quase teatral: em meio a uma multidão de jovens, os irmãos sofistas Eutidemo e Dionisiodoro realizam uma exibição de sua suposta sabedoria infinita. Eles afirmam ser capazes de ensinar a virtude a qualquer um, independentemente de idade ou disposição prévia. Contudo, o que se segue não é um ensino ético, mas uma demonstração de herística — a arte de vencer discussões por meio de giros linguísticos e armadilhas lógicas.

Sócrates, com sua habitual ironia, posiciona-se como um pretenso aluno, observando como os sofistas humilham o jovem Clínias. O método dos irmãos consiste em usar palavras com múltiplos sentidos sem defini-las previamente. Ao perguntar se quem aprende é o sábio ou o ignorante, eles refutam qualquer resposta de Clínias, jogando com a ambiguidade do termo “aprender” (que pode significar tanto o ato de adquirir conhecimento quanto o de compreender algo já sabido).

A Construção do Saber: Entre o Protréptico e o Aprotréptico

Diante da “estratégia de circo” dos sofistas, Sócrates intervém para demonstrar um caminho pedagógico autêntico. Ele utiliza o discurso protreptikos (protréptico) para exortar Clínias à filosofia. Sócrates alinha os bens da vida — saúde, riqueza, nobreza e sorte — para concluir que todos eles são inúteis ou até prejudiciais se não forem guiados pela sabedoria (sophía). A sabedoria é o único bem que não depende da sorte, pois ela é a própria capacidade de agir corretamente em todas as circunstâncias.

Enquanto Sócrates constrói esse caminho de ascensão à verdade, ele também exerce um papel apotreptikos (aprotréptico), utilizando a ironia para dissuadir os presentes do falso conhecimento dos sofistas. Ele demonstra que, para haver conhecimento real, é necessário definir com clareza os conceitos, evitando que o discurso se torne um vácuo de substância destinado apenas a ganhar causas em tribunais ou assembleias políticas.

O Absurdo Linguístico e a Redução ao Erro

A segunda metade do diálogo mergulha em uma sucessão de argumentos alucinados. Eutidemo e Dionisiodoro tentam provar que a falsidade é impossível (pois o que é dito, “é”, e se “é”, é verdade) e que todos os seres sabem tudo (pela falácia de que, se você conhece “algo”, você é um “conhecedor”, e se é um conhecedor, conhece “tudo”).

O auge do absurdo ocorre com os argumentos relacionais: os sofistas tentam provar que, se um homem é pai de alguém, ele é pai de todos (inclusive do interlocutor), ou que, se um homem bate em seu cachorro e este cachorro teve filhotes, o homem está batendo em seu próprio pai. O diálogo encerra-se com a sugestão irônica de Sócrates de que os sofistas deveriam manter sua técnica em segredo e cobrar caro por ela, pois sua facilidade de transmissão tornaria a cidade ingovernável se todos aprendessem a enrolar uns aos outros com tamanha eficiência.

Da Antiguidade à Contemporaneidade: Ética e Comunicação na Política

A análise do Eutidemo oferece lições fundamentais para a política contemporânea. A distinção entre a herística sofística e a dialética socrática reflete-se nos conceitos de Jürgen Habermas sobre a razão estratégica e a razão comunicativa. A razão estratégica visa a vitória política a qualquer custo, muitas vezes através da manipulação de slogans e notícias falsas. Em contraste, a razão comunicativa busca um consenso possível através da clareza conceitual e do respeito ao interlocutor.

Complementarmente, a ideia de parrhesía (paresia) em Michel Foucault — a coragem de dizer a verdade independentemente das consequências — e a distinção de Isaiah Berlin sobre os sentidos da palavra “liberdade” reforçam a tese platônica. Sem a definição precisa dos termos e sem a disposição para o diálogo verdadeiro, a política degenera em um jogo de sombras. O filósofo, ao contrário do “político-sofista”, é aquele que recusa a manipulação da linguagem em prol do esclarecimento da comunidade (polis).

Glossário

Referências Bibliográficas

  • PLATÃO. Eutidemo

  • FOUCAULT. A Coragem da Verdade

  • HABERMAS. Teoria da Ação Comunicativa

  • BERLIN. Dois Conceitos de Liberdade e (em(em Estudos sobre a Humanidade)

  • CONSTANT. A Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos