Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta José Ortega y Gasset (1883–1955), filósofo espanhol cuja obra — em especial A Rebelião das Massas — permanece extraordinariamente atual. Após a biografia, situada na crise espanhola pós-"Desastre de 98" e no projeto de "europeizar a Espanha" (a cátedra em Madrid, a Revista de Occidente, o engajamento na Segunda República, o exílio), e o mapa de influências (o neokantismo de Marburgo, a fenomenologia de Husserl, o historicismo de Dilthey, Nietzsche, Heidegger e William James), a exposição apresenta o núcleo: o raciovitalismo, que supera a falsa alternativa entre o racionalismo abstrato e o vitalismo irracionalista — a razão não é faculdade separada da vida, mas uma função vital, uma "razão vital e histórica". Daí o perspectivismo (a verdade é perspectivada, como uma paisagem vista de muitos pontos — nem absolutismo nem relativismo cético), a metafísica da vida como realidade radical e a célebre fórmula "eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não salvo a mim mesmo". A segunda metade desenvolve o diagnóstico de A Rebelião das Massas: o "homem-massa" — definido não por classe, mas por uma atitude moral de mediocridade satisfeita e "direito à vulgaridade" —, a "hiperdemocracia", a relação irresponsável do "señorito satisfecho" com a técnica que recebe sem compreender. A aula conclui com a atualização do diagnóstico para o presente (as redes sociais, os influencers, o consumismo, o "idiota da aldeia" promovido por Umberto Eco) e um apelo existencial: salvar a circunstância, cultivar a atenção profunda, uma "aristocracia interior" e a vida como vocação.

Pontos-Chave

  • Ortega, o intelectual comprometido: filósofo espanhol (1883–1955), de família de jornalistas; catedrático de metafísica em Madrid aos 27 anos, fundador da Revista de Occidente, engajado na Segunda República e exilado na Guerra Civil. Não um filósofo de gabinete, mas um pensador de seu tempo.

  • O contexto do "Desastre de 98" e a missão: a Espanha em crise de identidade após perder as últimas colônias (1898); a missão de Ortega era "europeizar a Espanha", abrindo-a aos grandes debates intelectuais do continente.

  • Influências assimiladas criticamente: o rigor do neokantismo de Marburgo (mas a vida concreta é a realidade primordial), a fenomenologia de Husserl (a intencionalidade, mas sem o idealismo residual), Nietzsche (a crise dos valores, mas sem elitismo irracionalista), Heidegger e William James.

  • Raciovitalismo: supera a falsa alternativa entre o racionalismo abstrato (Descartes a Hegel) e o vitalismo irracionalista (Schopenhauer, Nietzsche, Bergson); a razão não é faculdade separada da vida, mas uma função vital a seu serviço — uma "razão vital e histórica".

  • Perspectivismo: a verdade é perspectivada — cada sujeito, cultura e época tem sua perspectiva legítima (a metáfora da paisagem); não é absolutismo (uma verdade total acessível) nem relativismo cético (negação de toda verdade), mas a perspectiva como componente e organização do real.

  • A vida como realidade radical: a vida humana concreta é a realidade primordial (radical = da raiz) a partir da qual se pensa tudo; nem a consciência (idealismo) nem a matéria (materialismo) são absolutas — são abstrações derivadas da vida.

  • "Eu sou eu e minha circunstância": o eu não é substância fechada (Descartes) nem produto das circunstâncias (materialismo); há tensão criativa entre ambos. "Salvar" a circunstância é compreendê-la, integrá-la e dar-lhe sentido — "o homem não tem natureza, tem história".

  • O homem-massa: não um conceito quantitativo nem de classe, mas uma atitude moral — a mediocridade satisfeita consigo mesma e a crença no "direito à vulgaridade"; existe em todas as classes, inclusive entre intelectuais e cientistas fora de sua especialidade.

  • Hiperdemocracia e a técnica: a "rebelião das massas" é a invasão de todos os âmbitos pelo homem-massa, que não reconhece instância superior a si; a "hiperdemocracia" nivela tudo sem mérito; o "señorito satisfecho" usa a técnica como fruto natural, sem compreender o esforço que a gerou.

  • A atualidade e a saída: o diagnóstico antecipa as redes sociais, os influencers, o consumismo e a "barbárie técnica"; a saída não é nostálgica nem tecnofóbica, mas "salvar a circunstância" — atenção profunda, "aristocracia interior", conversação autêntica, sentido histórico e vida como vocação.

Transcrição da Aula

Vida e o “Desastre de 98”

A aula apresenta José Ortega y Gasset — não um filósofo apenas para acadêmicos, mas um pensador para todos os que desejam compreender melhor o seu tempo e a sua existência, cuja obra, em especial A Rebelião das Massas, permanece atual, como se escrita para diagnosticar os problemas do século XXI. (Cabe a ressalva: “Ortega y Gasset” é uma única pessoa — os dois nomes são os sobrenomes paterno e materno.) Ortega nasceu em Madrid, em 1883, numa família de intelectuais e jornalistas — o pai dirigia o influente jornal El Imparcial —, ambiente que cedo lhe deu sensibilidade para as questões culturais e políticas. A Espanha da virada do século XIX para o XX vivia uma profunda crise de identidade após perder suas últimas colônias importantes (Cuba, Porto Rico, Filipinas) em 1898 — o “Desastre de 98”. Essa geração, marcada pela derrota e pela consciência do atraso espanhol frente às potências europeias, ansiava por uma renovação cultural e política.

Ortega formou-se em filosofia pela Universidade Central de Madrid (1904) e, compreendendo a necessidade de abrir a Espanha às correntes intelectuais europeias, foi estudar na Alemanha — Leipzig, Berlim e, finalmente, Marburgo —, onde teve contato direto com o neokantismo que então dominava o pensamento alemão, absorveu o rigor metodológico da filosofia alemã e familiarizou-se com novas correntes: a fenomenologia de Husserl, o historicismo de Dilthey e, mais tarde, as ideias de Heidegger. De volta à Espanha, assumiu a cátedra de metafísica na Universidade de Madrid, em 1910, aos 27 anos, com a missão — como dizia — de “europeizar a Espanha”, não por submissão cultural, mas pela convicção de que o país precisava participar dos grandes debates do continente para superar seu isolamento. Em 1914, fundou a Liga de Educação Política Espanhola e proferiu a conferência “Velha e Nova Política”, convocando os intelectuais a um papel político ativo; em 1923, fundou a Revista de Occidente, uma das mais importantes publicações culturais em língua espanhola, para trazer à Espanha as principais ideias filosóficas, científicas e artísticas da Europa.

Ortega não era um filósofo de gabinete, isolado em sua torre de marfim: participou ativamente dos debates políticos, apoiou a Segunda República Espanhola (1931–1939) e chegou a ser deputado nas Cortes Constituintes, embora depois se desiludisse com os rumos da República e alertasse contra os extremismos que levaram à Guerra Civil. Com a eclosão da guerra, em 1936, exilou-se na França, na Argentina e em Portugal — período doloroso, mas intelectualmente fecundo. Em 1945, fundou em Madrid o Instituto de Humanidades, onde trabalhou até morrer, em 1955. Sua trajetória ilustra a figura do intelectual comprometido com seu tempo, que não se exime de pensar os problemas concretos de sua sociedade.

As influências e o nascimento do raciovitalismo

Seu pensamento é fruto de um diálogo intenso com a tradição e com seus contemporâneos. Do neokantismo de Marburgo, Ortega herdou o rigor metodológico e a preocupação com o conhecimento, mas logo percebeu suas limitações: os neokantianos tendiam a reduzir a realidade a estruturas lógicas do pensamento, e contra isso Ortega insistiu que a vida concreta é a realidade primordial, a partir da qual todo conhecimento deve ser pensado. A fenomenologia de Husserl também o influenciou: a partir de 1913, com as Ideias para uma Fenomenologia Pura, Ortega absorveu o método fenomenológico — sobretudo a intencionalidade (a consciência é sempre consciência de algo) e o “voltar às coisas mesmas” —, mas criticou o que considerava um idealismo residual em Husserl, a redução da realidade à consciência pura. De Nietzsche, assimilou a crítica à razão abstrata desvinculada da vida e a percepção da crise dos valores na civilização europeia — mas, diferentemente de Nietzsche, não propunha um elitismo aristocrático ou irracionalista, e sim uma nova razão enraizada na vida concreta. Há ainda um diálogo tenso e fecundo com Heidegger: ambos tentavam superar o idealismo e colocar o problema do ser a partir da experiência concreta, e o conceito orteguiano de vida como realidade radical antecipa, de certo modo, o Dasein heideggeriano — mas, enquanto Heidegger enfatizava a angústia e o ser-para-a-morte, Ortega mantinha uma visão mais mediterrânea e vitalista da existência. Há também uma influência discreta do pragmatismo de William James, na concepção da verdade como algo que se faz na vida, e não como mera correspondência entre pensamento e realidade. O admirável em Ortega é a capacidade de absorver criticamente essas influências sem se deixar limitar por nenhuma, desenvolvendo um pensamento original — pois, como ele dizia, “pensar é estar contra o hábito e as inércias”, “pensar é o heroísmo da solidão”.

Chega-se ao núcleo de sua proposta: o raciovitalismo. A denominação já indica o projeto: superar a falsa alternativa entre racionalismo e vitalismo, entre uma razão desencarnada e um irracionalismo que abandona toda pretensão de verdade. O racionalismo moderno (de Descartes a Kant e Hegel) colocara a razão abstrata e matemática como medida de todas as coisas, pretendendo ser o tribunal supremo da verdade. Contra esse racionalismo, surgiu no século XIX uma reação vitalista (Schopenhauer, Nietzsche, Bergson), que valorizava a vida, a vontade e o instinto em detrimento de uma razão tida por falsificadora da realidade vital. Ortega recusa essa dicotomia e propõe uma terceira via: a razão vital, a razão histórica. Para ele, a razão não é uma faculdade separada da vida, mas uma função vital, a serviço da vida, que emerge da vida para ajudar o ser humano a se orientar em sua existência. Como afirma em A Rebelião das Massas, a vida não pode esperar que as ciências esclareçam definitivamente o universo, porque a vida é urgência. A razão não é uma torre de marfim onde nos refugiamos da vida, nem um instrumento descartável quando nos entregamos às paixões: é, antes, uma bússola que nos ajuda a navegar no oceano da existência.

Perspectivismo

Intimamente ligado ao raciovitalismo está o perspectivismo, posição epistemológica que rejeita tanto o absolutismo da verdade (a ideia de uma verdade total acessível a uma razão abstrata) quanto o relativismo cético (a negação de toda verdade objetiva). Para Ortega, a verdade é perspectivada: cada sujeito, cada cultura, cada época tem sua perspectiva legítima sobre a realidade. A famosa metáfora da paisagem ilustra a ideia: vista de diferentes pontos, cada observador vê aspectos diferentes, mas nenhum vê a totalidade; a paisagem não existe fora dessas perspectivas, mas também não se reduz a nenhuma isoladamente — a verdade total seria a soma impossível de todas as perspectivas. (É o conceito de paralaxe, depois utilizado por Slavoj Žižek, e que o professor declara adotar em sua própria orientação filosófica.) Essa posição não se confunde com o relativismo vulgar: não nega a objetividade, mas a redefine — a perspectiva não é uma deformação do real, mas o modo como o real se apresenta a cada sujeito segundo sua circunstância. Como Ortega afirma nas Meditações do Quixote, a perspectiva é um componente da realidade; longe de ser sua deformação, é a sua organização. Essa epistemologia tem implicações éticas e políticas: convida a reconhecer a legitimidade das outras perspectivas sem abdicar da própria, numa atitude de diálogo, e não de imposição — lição especialmente valiosa em tempos de polarização e dogmatismo.

A vida como realidade radical e a fórmula da circunstância

Chega-se ao cerne do pensamento de Ortega: a metafísica da vida como realidade radical. “Radical” não significa extremo, mas fundamental, originário, ligado à raiz de tudo. Para Ortega, a vida humana concreta e individual é a realidade primordial a partir da qual se devem pensar todas as outras realidades — inclusive a ciência, a arte, a religião e a política. Essa posição é revolucionária, pois rompe com as metafísicas tradicionais: nem o idealismo (que coloca a consciência ou o espírito como realidade primeira) nem o materialismo (que afirma a primazia da matéria) — para Ortega, tanto a consciência quanto a matéria são abstrações derivadas da vida concreta. E a vida não é um conceito biológico, mas existencial: é o que cada um faz e o que acontece com cada um, o drama de ter de decidir constantemente o que seremos no próximo instante. Viver é constantemente decidir o que vamos ser.

Esse conceito encontra sua expressão mais famosa na célebre fórmula, das Meditações do Quixote (1914): “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não salvo a mim mesmo” — frase que contém, como germe, toda a sua filosofia. O “eu” aqui não é uma substância fechada em si, como o sujeito cartesiano, nem um mero produto das circunstâncias externas, como no materialismo: o eu é inseparável da circunstância, mas não se reduz a ela, pois há uma tensão criativa e dramática entre ambos. E o que é a circunstância? Tudo o que nos rodeia — o corpo, a família, a cultura, a situação política e econômica, a época histórica, o lugar geográfico, a educação —, o contexto vital em que estamos inseridos, que limita nossas possibilidades, mas também as configura. A segunda parte da fórmula é igualmente reveladora: “salvar” a circunstância significa compreendê-la, integrá-la, dar-lhe sentido; não se pode ignorá-la nem fugir dela, é preciso assumi-la e transformá-la — e é ao encontrar o seu sentido que salvamos a nós mesmos e realizamos nosso projeto vital. Essa concepção dialética tem consequências éticas profundas: coloca-nos como protagonistas da própria vida, mas sem a ilusão da liberdade absoluta — estamos sempre condicionados, nunca determinados. Como diz Ortega em História como Sistema, “o homem não tem natureza, o homem tem história”. A imagem do escultor ilustra: o bloco de mármore impõe limitações, mas é precisamente sua resistência que permite a criação — assim, a circunstância nos limita e nos possibilita ser quem somos. A metafísica da vida de Ortega não é um subjetivismo solipsista nem um existencialismo angustiado, mas um apelo à responsabilidade perante a própria vida e a circunstância histórica: a vida é tarefa, é transformar a necessidade em projeto, em vocação.

A Rebelião das Massas: o homem-massa

Chega-se à obra mais conhecida, A Rebelião das Massas, publicada em 1930 (com ideias já desenvolvidas em artigos para o jornal El Sol desde 1926). Traduzida para dezenas de idiomas e editada até hoje, é ao mesmo tempo um diagnóstico do mal-estar da civilização europeia e uma profecia sobre os perigos que ameaçavam — e continuam ameaçando — a vida democrática. O contexto: a Europa do entreguerras, com relativa prosperidade econômica nos “anos loucos”, mas graves tensões sociais e a ascensão dos totalitarismos (o fascismo no poder na Itália, o nazismo crescendo na Alemanha, o comunismo stalinista consolidando-se na União Soviética). Ortega percebe que algo profundo mudava na estrutura social da Europa: emergia uma nova figura histórica, o homem-massa.

É essencial entender que, para Ortega, “massa” não é um conceito quantitativo (muita gente) nem socioeconômico (as classes populares ou o proletariado): é uma qualidade, uma atitude psicológica e moral. O homem-massa define-se por duas características: a mediocridade satisfeita consigo mesma e a crença no direito a ser vulgar, o “direito à vulgaridade”. Ele não busca a excelência, não exige nada de si, contenta-se em ser como todo mundo — e, mais grave, considera um direito impor a todos os seus gostos vulgares e suas opiniões não pensadas, sem qualquer esforço de melhoria ou aprofundamento. Esse homem-massa não é exclusivo das classes baixas: existe em todas as classes, inclusive entre intelectuais, cientistas e políticos — um catedrático ou um médico especializado pode ser um homem-massa se, fora de sua especialidade, adota e se satisfaz com opiniões e gostos vulgares. A “rebelião das massas” consiste precisamente na invasão de todos os âmbitos sociais — a política, a arte, a moral — pelo homem-massa, que se recusa a reconhecer qualquer instância superior a si. Como diz Ortega, não se trata de o vulgar crer-se excepcional; ao contrário, ele proclama e impõe o direito à vulgaridade, o direito a ser “diferente”.

Essa atitude anti-hierárquica, que recusa toda ideia de excelência, está na raiz do que Ortega chama de “hiperdemocracia” — não a democracia política, que ele valoriza, mas a pretensão de que, em todos os aspectos da vida, todos devam ser igualmente valorizados, independentemente do mérito, do esforço e da qualidade. (É o que observou Umberto Eco em 2015: o drama da internet é ter promovido “o idiota da aldeia” a portador da verdade — os imbecis, que antes falavam num bar após uma taça de vinho, sem prejudicar ninguém, e eram logo calados, têm agora o mesmo direito à palavra que um prêmio Nobel. A internet, maravilhosa, pode ser também niveladora.) Na política, essa rebelião traduz-se na estatização da vida, no que hoje se chamaria populismo: as massas exigem que o Estado resolva todos os problemas, sem perceber que isso significa uma progressiva perda da liberdade. Ortega dizia que o estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em norma: por meio do Estado, máquina anônima, as massas atuam para reduzir a excelência.

Outro aspecto é a relação do homem-massa com a técnica: a civilização técnica moderna permite um conforto e uma segurança inéditos, mas o homem comum não compreende os fundamentos dessa técnica nem valoriza o esforço intelectual e moral que a tornou possível. Como diz Ortega, o homem-massa vê no automóvel um fruto natural da árvore do mundo, tão natural quanto o fruto de uma árvore real — atitude que faz dele uma espécie de “señorito satisfecho”, um menino mimado, irresponsável perante a herança cultural que recebeu. Essa crítica não é um elitismo conservador: Ortega não propõe a volta a um passado aristocrático nem rejeita a democracia política — o que critica é a degeneração da democracia em demagogia, a perda dos valores qualitativos, a substituição do mérito pelo número e da excelência pela mediocridade satisfeita. A solução que vislumbra é a formação de uma nova elite, não baseada em privilégios de nascimento ou no dinheiro, mas na exigência pessoal de excelência, no esforço intelectual e moral e na consciência das responsabilidades históricas — uma minoria criadora capaz de revitalizar a cultura europeia em crise.

A atualidade do diagnóstico e o apelo existencial

As análises de Ortega não estão ultrapassadas. A figura do homem-massa assume hoje novas configurações: as redes sociais democratizaram a expressão (o que é positivo), mas permitiram a proliferação do que Ortega criticava — a opinião sem fundamentação, a arrogância do ignorante, a satisfação com a própria mediocridade (o “idiota da aldeia” de Umberto Eco). Quando se veem jovens e adultos que dominam as interfaces dos dispositivos mas não conseguem ler um texto de três páginas, que navegam com destreza nas redes mas são incapazes de concentração prolongada, que consomem entretenimento sofisticado mas desconhecem os fundamentos de sua própria cultura, não se está diante da “barbárie técnica” que Ortega previu? Ele antecipou ainda o “paradoxo da técnica”: a civilização tecnicamente mais avançada torna-se, ironicamente, a mais vulnerável à barbárie espiritual, pois temos aparelhos sofisticadíssimos e comunicação instantânea, mas não compreendemos os fundamentos nem o esforço que os tornaram possíveis. Na política, a “hiperdemocracia” — a tendência a eliminar toda distinção qualitativa em nome de uma igualdade mal compreendida — explica muitos conflitos culturais contemporâneos: a recusa de toda autoridade intelectual e moral, a desconfiança sistemática de toda expertise, o populismo que apela diretamente às massas contra as elites. O fenômeno dos influencers — pessoas que, sem formação específica, conquistam milhões de seguidores e influenciam consumo, comportamento e opiniões políticas — é uma manifestação nova da rebelião das massas: não se trata de demonizá-los, mas de perceber como a lógica da visibilidade substituiu a do mérito. Também o consumismo contemporâneo foi prefigurado: o homem-massa que vive para o prazer sem esforço, que exige tudo sem dar nada em troca, antecipa a sociedade de consumo que estimula o desejo imediato e a satisfação instantânea. O filósofo, como diria Ortega, deve ser um “caçador de tendências”, capaz de detectar as correntes profundas que moldam uma época para além das aparências.

A aula encaminha-se para um exercício de introspecção. Vivemos numa época que poderia ser descrita como de “sonambulismo coletivo”: nunca estivemos tão conectados e tão desatentos ao essencial, com tanto acesso à informação e tanta dificuldade de construir uma visão baseada na sabedoria. O que diria Ortega ao observar o mundo de 2025 — em que algoritmos invisíveis filtram a percepção da realidade, em que a atenção se tornou o bem mais escasso e disputado, em que a instantaneidade substitui a profundidade? Reconheceria uma intensificação de seu diagnóstico, uma rebelião das massas potencializada por tecnologias que amplificam o melhor e o pior da condição humana. Quando nos entregamos passivamente ao fluxo de estímulos digitais, terceirizamos o pensamento às tendências das redes, trocamos a complexidade pela simplificação e o esforço pelo conforto imediato, não estamos, cada um de nós, encarnando o homem-massa? A grande questão que Ortega deixa não é sociológica nem política, mas existencial: como viver autenticamente numa época de inautenticidade generalizada, como cultivar a profundidade quando tudo nos empurra para a superfície?

A resposta não está no retorno nostálgico ao passado nem na rejeição tecnofóbica do presente, mas em “salvar a circunstância”: compreendê-la, interpretá-la e transformá-la a partir de um projeto vital autêntico. Em termos concretos, o professor propõe, a partir de Ortega: primeiro, recuperar a capacidade de atenção profunda, de contemplação e de silêncio — num mundo de distrações permanentes, simplesmente estar presente aqui e agora torna-se um ato revolucionário; segundo, cultivar uma “aristocracia interior”, não no sentido social, mas existencial — exigir de si mesmo o que ninguém mais exige, buscar a excelência não para exibi-la, mas porque só assim a vida se torna verdadeiramente nossa; terceiro, reaprender a arte da conversação autêntica, o encontro entre perspectivas diferentes que, sem se anularem, se enriquecem — num tempo de bolhas e polarização, o diálogo genuíno é desafio e necessidade vital; quarto, reencontrar a dimensão histórica da existência, reconhecendo-nos herdeiros de uma tradição que nos precede e responsáveis por um futuro que nos sucederá; e, quinto, redescobrir o sentido da vida como vocação e missão — viver autenticamente é descobrir o que estamos chamados a ser e realizá-lo com plenitude, não um destino predeterminado, mas um chamado que emerge do diálogo entre nossas potências mais íntimas e as necessidades mais urgentes do nosso tempo.

Talvez a lição mais valiosa de Ortega seja esta: uma civilização não morre por falta de meios técnicos ou materiais, mas por falta de um projeto vital, de uma imaginação criadora, de um impulso espiritual. O verdadeiro colapso começa quando deixamos de nos perguntar para que vivemos, quando trocamos os fins pelos meios e o ser pelo ter e pelo parecer. Em tempos de sonambulismo coletivo, a filosofia de Ortega atua como um despertador existencial, que nos sacode e nos tira do conforto das respostas prontas — talvez o propósito mais nobre da filosofia: não oferecer um sistema de respostas definitivas, mas manter viva, de geração em geração, a capacidade do espanto e da interrogação diante do mistério da existência. Como disse o próprio Ortega, o que mais importa a um rio não é o seu caudal nem a sua velocidade, mas a altura da sua nascente — e a altura da nossa nascente é a profundidade das nossas perguntas, a intensidade das nossas buscas e a autenticidade dos nossos projetos vitais.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • José Ortega y Gasset. A Rebelião das Massas e La rebelión de las masas(La rebelión de las masas, 1930)

  • José Ortega y Gasset. Meditações do Quixote e Meditaciones del Quijote(Meditaciones del Quijote, 1914)

  • José Ortega y Gasset. História como Sistema

  • Edmund Husserl. Ideias para uma Fenomenologia Pura(a intencionalidade; o historicismo)

  • Friedrich Nietzsche. Dasein(a reação vitalista; o Dasein; o pragmatismo)

  • Umberto Eco (a declaração de 2015 sobre a internet e "o idiota da aldeia"); Slavoj Žižek (o conceito de paralaxe). (a declaração de 2015 sobre a internet e "o idiota da aldeia")

  • José Ortega y Gasset. O Tema do Nosso Tempo

  • José Ortega y Gasset. A Desumanização da Arte

  • José Ortega y Gasset. Que é Filosofia?

  • Julián Marías. Ortega: Circunstância e Vocação