Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche introduz o pensamento de Martin Heidegger, abordando inicialmente a complexa relação entre sua filosofia e sua adesão ao nazismo. O núcleo da exposição concentra-se na distinção entre pensamento calculativo e pensamento meditativo, e na análise da essência da técnica moderna (Gestell). Através de exemplos contemporâneos — da medicina baseada em dados às redes sociais e inteligência artificial —, discute-se como o ser humano é reduzido a 'recurso' e propõe-se a 'Serenidade' (Gelassenheit) e o resgate da arte como vias de resistência ao desenraizamento existencial.

Pontos-Chave

  • Pensamento Calculativo vs. Meditativo: Distinção entre a racionalidade instrumental, que visa o controle e a eficiência, e o pensar essencial, que busca o sentido e a contemplação.

  • A Essência da Técnica (Gestell): A técnica não é uma ferramenta neutra, mas um modo de desvelamento que enquadra o mundo (e o homem) como 'estoque' ou 'recurso disponível'.

  • O Perigo Supremo: O risco de que o próprio ser humano perca outras formas de se relacionar com o ser, reduzindo-se inteiramente a um recurso a ser otimizado.

  • Serenidade (Gelassenheit): Atitude proposta de 'deixar ser', utilizando a técnica sem se deixar dominar por ela, preservando o mistério e a abertura ao sentido.

Transcrição da Aula

Biografia, Contexto e a Sombra do Nazismo

O professor inicia situando Martin Heidegger (1889-1976) como um dos filósofos mais influentes e controversos do século XX. Nascido em uma família católica rural na Alemanha, Heidegger foi aluno de Edmund Husserl e publicou sua obra magna, Ser e Tempo, em 1927. A aula enfrenta diretamente a questão da adesão de Heidegger ao nazismo, marcada por sua nomeação como reitor da Universidade de Freiburg em 1933 e seus discursos de apoio ao regime. O professor argumenta, baseando-se em seu curso ‘Utopias e Distopias’, que a genialidade filosófica não garante sabedoria política; ao contrário, a capacidade de abstração profunda pode tornar pensadores suscetíveis a ideologias totalizantes. Estabelece-se um paralelo com outros intelectuais que apoiaram regimes autoritários (como Sartre e Lukács com o stalinismo) e com Aristóteles e a defesa da escravidão, para sustentar que os erros políticos não invalidam necessariamente as contribuições lógicas ou metafísicas de um autor, embora, no caso de Heidegger, certos conceitos (como o apego ao solo e ao povo) ressoem de maneira perturbadora com a ideologia nazista.

O Pensamento Calculativo e o Declínio do Sentido

Baseando-se na obra O Que Significa Pensar?, o professor explora a distinção heideggeriana entre dois modos de pensar. O ‘pensamento calculativo’ domina a modernidade: é a lógica da eficiência, da previsão e do controle, transformando o mundo em objeto de análise estatística. O professor ilustra esse cenário com a medicina contemporânea, onde o paciente é frequentemente reduzido a um conjunto de dados biométricos (pressão, colesterol), perdendo-se a visão do ser humano integral — uma crítica corroborada por um colega médico mencionado, que busca reumanizar a prática. Da mesma forma, a educação prioriza disciplinas utilitárias em detrimento das humanidades, que, quando ensinadas, muitas vezes também são reduzidas a análises técnicas. Em contrapartida, o ‘pensamento meditativo’ é aquele que contempla o sentido, exemplificado pelo poeta que observa uma árvore não para classificá-la, mas para captar sua essência, ou pela criança que questiona o porquê da existência.

A Questão da Técnica: O Conceito de Gestell

Aprofundando-se na conferência de 1953, A Questão da Técnica, o professor explica que, para Heidegger, a tecnologia não é uma ferramenta neutra, mas uma forma de desvelamento da realidade. O conceito central é o Gestell (traduzido como armação, dispositivo ou composição). Sob essa ótica, a natureza é revelada exclusivamente como ‘fundo de reserva’ ou recurso. O professor utiliza a analogia da agricultura: a vaca ‘Mimosa’, que possuía nome e personalidade numa fazenda tradicional, torna-se uma unidade de produção de leite monitorada por sensores. O campo torna-se uma fábrica de alimentos; o rio, potencial hidrelétrico; a floresta, madeira. Essa lógica se estende ao ser humano, que passa a ser gerido como ‘Recursos Humanos’ — um termo que naturaliza a objetificação do indivíduo como estoque de competências disponível para o mercado, uma condição que o professor sugere ser, simbolicamente, uma violência ontológica profunda.

O Perigo Supremo na Era Digital e Biotecnológica

Heidegger identifica o ‘perigo supremo’ não nos acidentes técnicos (como catástrofes nucleares, que são sintomas de híbris), mas na possibilidade de o ser humano perder qualquer outro acesso ao ser que não seja o técnico. O professor atualiza essa crítica citando a engenharia genética (com bebês projetados, lembrando o filme Gattaca) e a Inteligência Artificial. A sociedade moderna transforma indivíduos em ‘usuários’ e ‘data points’. Em aplicativos de relacionamento como Tinder, Bumble e Happn, a lógica do mercado e da eficiência (‘swipe left/right’) substitui a construção lenta da intimidade. O professor narra a anedota de uma família em um restaurante, fisicamente juntos mas isolados em suas telas, como exemplo do desenraizamento: estamos conectados com o distante, mas ausentes do próximo. A IA generativa, capaz de criar livros sobre figuras inexistentes (como o exemplo hipotético de um Papa ‘Leão XIV’) ou compor músicas, coloca em xeque a própria noção de criatividade e autoria humana.

Caminhos de Superação: Gelassenheit e a Arte

Heidegger, citando Hölderlin (‘Onde cresce o perigo, cresce também a salvação’), não propõe um ludismo ou rejeição das máquinas, mas uma nova relação com elas. A proposta é a Gelassenheit (serenidade ou deixar-ser): a capacidade de usar a técnica sem ser dominado por ela. O professor sugere práticas de resistência cotidiana, como o ‘detox digital’ e o cultivo de momentos de improdutividade e contemplação. A educação deve preservar o ‘lugar do inútil’, isto é, daquilo que não tem fim prático imediato. A linguagem, ‘morada do ser’, e a arte desempenham papéis cruciais. Diferente da arte-mercadoria (NFTs), a arte genuína (como os sapatos de camponês de Van Gogh ou a pedra de Drummond) desvela a verdade do mundo, quebrando o automatismo perceptivo. A aula conclui reafirmando que estudar filosofia é um ato de resistência para manter viva a pergunta pelo sentido em um mundo voltado à eficiência.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Martin Heidegger. Ser e Tempo(Sein und Zeit)

  • Martin Heidegger. O Que Significa Pensar?(Was heißt Denken?)

  • Martin Heidegger. A Questão da Técnica(Die Frage nach der Technik)

  • Martin Heidegger. A Origem da Obra de Arte

  • Gustavo Bertoche. Utopias e Distopias: Os Fundamentos Ocultos da Política Moderna

  • Friedrich Hölderlin. Hino 'Patmos'

  • Carlos Drummond de Andrade. No Meio do Caminho

  • Andrew Niccol (Diretor). Gattaca(Filme)

  • Hannah Arendt. Eichmann em Jerusalém