Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Henry David Thoreau (1817–1862), filósofo, pensador e naturalista norte-americano do século XIX, conhecido sobretudo por Walden, ou A Vida nos Bosques e pela defesa pioneira da desobediência civil. A partir da trajetória biográfica — a formação em Harvard, a recusa do magistério com castigos físicos, a amizade decisiva com Ralph Waldo Emerson e a experiência de dois anos numa cabana à beira do lago Walden —, o professor reconstrói o núcleo do pensamento de Thoreau: a defesa de uma vida simples e frugal de inspiração epicurista; a crítica ao consumismo; o individualismo diante do Estado conjugado ao engajamento contra a escravidão e a guerra; a doutrina da desobediência civil ("o melhor governo é o que menos governa"); o ceticismo quanto à lei e ao poder estatal; e a tese da dupla natureza humana, que concilia o impulso de elevação espiritual e o impulso bruto. A exposição culmina na leitura de Thoreau como ponto de encontro de três linhas subterrâneas — o romantismo, a moral epicurista e o liberalismo clássico de Locke —, traço que o torna irredutível às categorias políticas correntes. Inclui ainda uma digressão substantiva do professor sobre a impropriedade dos termos "índio" e "indígena".

Pontos-Chave

  • Vida simples e frugal: Thoreau defende uma existência despojada, de comida e bebida simples (apenas água), avessa à moda e ao supérfluo — uma ética da frugalidade de raiz epicurista.

  • Fundo epicurista: retoma a divisão de Epicuro entre prazeres não naturais (poder, dinheiro, fama, luxo — a evitar), naturais necessários (alimento simples, água, descanso) e naturais não necessários (boa mesa, conforto, sexo — a buscar com parcimônia); o bem é fácil de obter (tetrafármacos).

  • Crítica ao consumismo: denuncia a compra de objetos pelo valor de status, e não de uso; a maioria dos confortos e luxos é dispensável e se torna obstáculo à elevação do homem.

  • Individualismo engajado: afirma o indivíduo diante do Estado sem negar a vida social; é ativista contra a escravidão e contra a guerra territorial dos Estados Unidos ao México.

  • Desobediência civil: o cidadão deve manter-se fiel a seus princípios e recusar-se a financiar, com impostos, um governo escravocrata e belicista; texto de fins da década de 1840, publicado em 1849.

  • O melhor governo é o que menos governa: Thoreau não é anarquista, mas defensor de um governo mínimo, que interfira pouco e não pratique violência; o legislativo deve ser avaliado pelo que limita o Estado, não pelo que propõe.

  • Ceticismo quanto à lei e ao Estado: as leis não tornam ninguém melhor; uma lei injusta deve ser imediatamente transgredida; o Estado é fisicalista, ocupa-se apenas dos corpos, e ao tentar resolver um mal frequentemente cria um maior.

  • A dupla natureza: o ser humano concilia o impulso de purificação e elevação com o impulso bruto e animal; daí a posição dialética de defender o vegetarianismo e, ao mesmo tempo, a caça.

  • Três linhas subterrâneas: o pensamento de Thoreau entrelaça o romantismo (retorno à natureza, via Schelling), a moral epicurista da frugalidade e o liberalismo clássico de Locke (Estado mínimo).

Transcrição da Aula

Trajetória de Thoreau: de Concord a Walden

Henry David Thoreau nasceu em 1817 e morreu jovem, aos 44 anos, em 1862. Há controvérsia quanto à pronúncia de seu sobrenome, mas, ao que tudo indica, é mesmo “Thoreau”. Era filho de um pequeno industrial — a fábrica do pai produzia lápis, de modo que não se tratava de uma família abastada, e sim de classe média. Viveu em Concord, no estado de Massachusetts, e frequentou a High School em Harvard, onde recebeu uma excelente formação, voltada especialmente à retórica, à cultura clássica, à filosofia, à matemática e às ciências.

Ao final dos estudos, defrontou-se com o leque restrito de carreiras então disponíveis — essencialmente o direito, a medicina e algum cargo eclesiástico — e por nenhuma delas se interessou. Tornou-se professor na escola pública de Concord, mas demitiu-se poucas semanas depois: havia ainda castigos físicos como recurso pedagógico, e Thoreau não desejava ser obrigado a punir fisicamente qualquer estudante. Tentou, com o irmão, abrir por algum tempo uma outra escola, que formasse os alunos de modo mais humano, mas a iniciativa durou pouco.

Foi então que conheceu Ralph Waldo Emerson, o grande poeta e escritor que o acolheu — Thoreau era catorze anos mais novo — como tutor de seus filhos. Passou a morar na casa de Emerson, e a amizade entre os dois durou a vida inteira. Ali Thoreau foi profundamente influenciado e abraçou, até certo ponto, a filosofia que circulava entre alguns intelectuais norte-americanos daquele momento: o transcendentalismo. Emerson era um transcendentalista, e Thoreau tornou-se um também.

Aos 27 anos, servindo a Emerson como tutor, jardineiro e editor — em suma, um factótum —, Thoreau passava por dificuldades financeiras: não tinha emprego fixo e tinha despesas. Não chegou a se casar. Houve um momento em que se interessou por uma jovem que era também objeto do interesse de seu irmão; ambos lhe propuseram casamento, e ela rejeitou os dois, vindo a casar-se mais tarde com um pastor e a tornar-se uma das mais importantes geólogas e especialistas em rochas dos Estados Unidos do século XIX. Depois disso, não há registro de qualquer novo envolvimento: Thoreau levou uma vida celibatária até o fim.

Após retornar por um tempo à fábrica do pai, decidiu construir, num terreno de propriedade do próprio Emerson — que o autorizou sem reservas, por amizade —, uma pequena casa em meio aos bosques, à beira do lago Walden. Plantou ali algumas coisas, pescava e viveu de modo simples e frugal por dois anos, dois meses e dois dias. Foi nesse período que teve a experiência de prisão: como devia seis anos de impostos, o cobrador foi buscá-lo; Thoreau recusou-se a pagar e passou uma noite preso. O irmão pagou a quantia no dia seguinte, contra a vontade dele, e Thoreau foi libertado. O episódio, relatado em Walden, marcou-o profundamente. Pelo resto de sua curta vida, viajou bastante — chegou a ir ao Canadá, de onde retornou decepcionado — e tornou-se uma espécie de cuidador da floresta, arrumando o que estava fora de ordem, zelando pelos animais e até pelas cercas dos vizinhos, sem nunca cobrar pagamento do município e sem que ninguém percebesse o equilíbrio que mantinha entre a natureza e a sociedade. Era exatamente na fronteira entre as duas que ele queria viver, pois, vivendo nos bosques, aprendeu a respeitar mais os construtores da cidade e as facilidades da vida urbana, buscando um ponto de equilíbrio entre os bens da vida urbana e os da vida rural e selvagem.

A defesa da vida simples: o fundo epicurista

O primeiro princípio de Thoreau é a defesa explícita de uma vida simples e frugal, de comida simples. Ele dizia não beber nada além de água, a única bebida adequada, a seu ver, a um homem adulto e sensato: nada de vinho, de cerveja ou de qualquer outra bebida, porque a água é simples, barata, mata a sede e não causa problema algum. Não queria estar embriagado, pois afirmava que nenhuma embriaguez se compara à de encher os pulmões de ar puro. Em várias páginas de Walden, critica a moda e a ideia de que se deve comprar roupa nova assim que a antiga começa a se gastar. Para ele, uma roupa deve ser usada até não servir mais, remendada e reconstruída quantas vezes for preciso; compram-se roupas e calçados da fábrica, sem dúvida, mas para usá-los enquanto durarem, sem a necessidade de acompanhar a moda. Conta, a propósito, que, ao encomendar uma roupa, ouviu da costureira que aquilo já saíra de moda e ninguém mais usava assim — ao que respondeu, para evitar discussões, que a moda havia voltado, e pediu que fizesse do modo solicitado.

Aqui se pode traçar uma linha direta que vai do epicurismo a Thoreau. Embora não o afirme em nenhuma obra conhecida, Thoreau é, de certo modo, um epicurista: valoriza os pequenos prazeres da vida sem ser hedonista — assim como o epicurismo jamais foi um hedonismo. Convém recordar que Epicuro distinguia dois tipos essenciais de prazer, os naturais e os não naturais, subdividindo os naturais em necessários e não necessários, de modo que se obtêm três grandes categorias. Os prazeres não naturais são os do poder, do dinheiro, da fama e do luxo — prazeres ligados àquilo que não é essencial ao ser humano e que correspondem às convenções sociais; estes, diz Epicuro, devem ser afastados a todo custo. Os prazeres naturais necessários são aqueles cuja ausência leva à morte: a alimentação simples, a água e o descanso. Os prazeres naturais não necessários são aqueles cuja falta apenas entristece a vida, sem matar: a boa mesa, as comidas elaboradas, a boa bebida, o conforto no repouso e, muito especialmente, o prazer do sexo; estes podem ser buscados, mas com moderação e parcimônia, pois em excesso causam mal. A razão de se buscarem em primeiro lugar os prazeres necessários é que um dos elementos do tetrafármacos de Epicuro afirma justamente que o bem é fácil de obter: comida simples, água para beber e um lugar limpo e aquecido para dormir não são coisas caras nem difíceis. Thoreau pensa do mesmo modo e propõe uma vida simples, em harmonia com a natureza — no fundo, a mesma proposta de Epicuro.

Individualismo, escravidão e a recusa dos impostos

A par da defesa da frugalidade, Thoreau sustenta uma espécie de individualismo diante do Estado. Trata-se, porém, de um individualismo que não nega a necessidade da relação social nem mesmo de uma atuação social: ele funciona especificamente na relação do homem com o Estado, e não no sentido de um isolamento. Thoreau sabia ser necessário cuidar de quem precisa de cuidado na sociedade e foi, muito especialmente, um ativista contra a escravidão, que considerava um absurdo e um crime praticado contra os escravos.

Eram duas, aliás, as razões pelas quais se recusava a pagar impostos. A primeira: o governo que os cobrava era um governo escravocrata, que sustentava a escravidão. A segunda: o governo norte-americano travava uma guerra territorial contra o México, uma guerra cujo único propósito era adquirir território — o Texas e o sul dos Estados Unidos foram adquiridos por uma guerra por terra. A perspectiva de Thoreau era, portanto, ao mesmo tempo individualista e de engajamento e luta social: contra a escravidão, contra a guerra e contra a opressão dos povos originários da América.

A questão dos povos originários

A esse propósito, o professor abre uma reflexão própria sobre a linguagem. A palavra “índio” é problemática, pois remete a um povo e a uma região — a Índia — que nada têm a ver com a América. Foi empregada pelos europeus que chegaram entre o fim do século XV e o século XVI para nomear a população encontrada, mas deriva do rio Indo, que fica na Índia, e não aqui. A rigor, nunca houve “índios” na América. Substituir o termo por “indígena” não resolve o problema, pois “indígena” também vem de “índio”, e portanto carrega o mesmo equívoco histórico e geográfico. A sugestão é chamar esses povos pelos seus próprios nomes — nos Estados Unidos, os Comanches, os Apaches; no Brasil, os Tupis, os Tapajós, os Timbiras, os Aimorés — ou, se for preciso um termo geral, falar em “povos originários”, ainda que estes, como se sabe, tenham entrado na América pelo Estreito de Bering há milhares de anos, de modo que tampouco se “originaram” rigorosamente aqui; “povos americanos” ou “pré-colombianos” parecem, ainda assim, designações menos problemáticas do que “indígenas”.

O professor questiona ainda certa estatística corrente, segundo a qual havia cinco milhões de “índios” quando os europeus chegaram ao Brasil e hoje haveria menos de duzentos mil. O dado lhe parece equivocado, porque o povo brasileiro, sobretudo o urbano, é constituído também por esses povos. O próprio professor relata ter, em sua árvore genealógica, raízes Tupiniquim, da região de São Paulo, sendo um descendente longínquo do cacique Tibiriçá, de Bartira e de João Ramalho — assim como o são dezenas e centenas de milhões de brasileiros descendentes dos povos originários. Nesse sentido, não há apenas duzentos mil descendentes desses povos no Brasil, mas quase duzentos milhões. É um erro, prossegue, pensar o indígena apenas como aquele que permanece em seu território e ligado à cultura ancestral, pois há muitos que hoje se integram, cursam medicina, direito, tornam-se empresários — e essa integração é boa. Obrigar um povo a permanecer numa situação de falta de hospitais, medicamentos, tecnologia e educação é uma desumanidade; é preciso dar a esses povos o acesso à integração na sociedade do nosso tempo. Aqueles que permanecem nas reservas não constituem a totalidade dos descendentes dos cerca de cinco milhões que aqui viviam em 1500: a rigor, mais de 90% dos brasileiros descendem deles. Eis, conclui, outra luta de Thoreau — a do direito e do respeito aos povos originários americanos.

Crítica ao consumismo e a elevação do homem

Outra tese central de Thoreau é a denúncia daquilo que hoje se chama consumismo: a compra de objetos inúteis pela beleza, pela moda, pelo valor não de uso, mas de status social. Trata-se, para ele, de uma atitude frívola e vazia. As pessoas conscientes — e Thoreau pensa especialmente nos filósofos de todos os tempos e nações, que deveriam servir de modelo — devem viver de modo simples, a ponto de poderem partir e ir embora sem olhar para trás caso sejam obrigadas a isso, por exemplo, pelo cerco de um inimigo à cidade. Devem viver de modo a poderem vestir a própria roupa, levar numa bolsa o essencial e seguir, sem ficarem presas a âncoras, a objetos e a coisas que, no fim, são supérfluas e excessivas. Logo nas primeiras páginas de Walden, Thoreau afirma que a maioria dos confortos e luxos da vida urbana não é indispensável; mais que isso, esses bens constituem obstáculos à elevação do homem. A maioria dos bens que possuímos torna-se, assim, obstáculo ao nosso próprio desenvolvimento como seres humanos.

Walden como obra literária e moral

Walden é um livro que merece ser lido por todos. Embora Thoreau tenha passado dois anos, dois meses e dois dias na cabana, descreve esse tempo como se fosse um único ano, por um recurso estilístico: começa no verão, segue para o outono, depois o inverno, e encerra com a primavera, com o renascimento da vida, fazendo das estações símbolos do progresso individual e do desenvolvimento espiritual do homem. O texto foi escrito e aperfeiçoado ao longo de muitos anos, e isso transparece: é uma obra muito bem resolvida, de altíssimo valor literário — um dos grandes textos da literatura norte-americana — e, ao mesmo tempo, um texto de filosofia moral, e não apenas o relato de uma vida nos bosques. A cabana, aliás, não ficava tão longe da cidade: estava a pouco mais de um quilômetro do povoado, distância que então, sem os meios de hoje, exigia caminhar vinte minutos ou meia hora, mantendo-o afastado das facilidades urbanas. Por isso Thoreau precisava ocupar-se diariamente do combustível — a lenha, para aquecer-se e cozinhar — e da comida, buscando frutas, peixe e legumes.

A dupla natureza: vegetarianismo e defesa da caça

Thoreau afirma de modo claro que não apreciava a ideia de comer carne e considerava a vida vegetariana mais correta do ponto de vista moral, ainda que não fosse um vegetariano estrito. Achava mais digno e mais limpo comer uma batata cozida do que submeter-se a todo o processo sujo de limpeza da carne ou do peixe — processo que, em quem vive sozinho numa cabana e tudo faz por conta própria, ganha também o peso da praticidade. Ao mesmo tempo, é a favor da caça: vendeu a própria espingarda antes de ir para Walden, mas defende que todas as crianças, entre os dez e os catorze anos, aprendam a atirar, tenham a sua espingarda e cacem. Observa, com notável atualidade, que os caçadores são os primeiros interessados em manter a vida selvagem de uma região, pois, sem ela, não haveria mais o que caçar.

Essa posição dialética — recomendar a vida vegetariana e, ao mesmo tempo, defender a caça — articula-se à ideia, presente em Walden, de que o homem tem uma dupla natureza. De um lado, uma natureza que visa à purificação individual, à elevação e ao desenvolvimento rumo a uma vida moralmente correta; de outro, o assalto constante de um impulso bruto, animal, de desejo, de vontade de sangue e de violência — chega a relatar, andando pelo bosque, o ímpeto de capturar uma doninha e comê-la viva. Essas duas tendências, diz ele, devem ser conciliadas: não se deve esconder o lado mais animal e bruto, mas encontrar lugar para ambas as pulsões, a de elevação e a de retorno à matéria. O professor recorda, a propósito, O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse: antes das iluminações que tem no teatro mágico, o protagonista Harry Haller compreende a si mesmo como dotado de dois lados, um homem e um lobo, e esse lobo vinha visitá-lo — imagem que reproduz exatamente as passagens de Thoreau sobre a necessidade de conviver com essas duas naturezas.

A desobediência civil e o melhor governo

Do ponto de vista político, Thoreau sustenta que o ser humano deve manter-se fiel a seus princípios, independentemente do que o governo lhe mande fazer. Se o governo não o representa, se faz uma guerra de conquista contra o México, se pratica violência contra os povos originários e sustenta a escravidão, então o cidadão tem a obrigação de dizer “não”, de afirmar que não é representado por esse governo e que não quer que seus impostos financiem a guerra, a escravidão, a opressão e o extermínio. Daí o princípio fundamental da desobediência civil: não pagar os impostos. O texto homônimo nasceu de discursos proferidos no fim da década de 1840 e foi publicado em 1849.

De onde vem esse princípio — seria Thoreau um anarquista? Não. Thoreau não se enquadra entre os anarquistas clássicos, pois não se opõe a todo tipo de governo: reconhece a necessidade do governo e admite que talvez, num futuro de grande desenvolvimento, ele se torne desnecessário, mas não por enquanto. Quer um governo, mas um governo que governe pouco, que interfira pouco na vida dos cidadãos e que, sobretudo, não pratique violência contra ninguém. É por isso que, para ele, o melhor governo é o que menos governa.

Essa posição, explícita na Desobediência Civil, contraria a tendência brasileira de pensar o oposto. No Rio de Janeiro, o jornal O Dia costuma elaborar, periodicamente, um ranking dos melhores deputados estaduais e federais, com base na frequência ao plenário, sobretudo nos dias de votação, e na quantidade de projetos de lei apresentados. Thoreau discordaria radicalmente desses critérios: diria que os parlamentares que propõem mais projetos de lei e mais frequentam o Congresso são justamente os piores. O governo, a seu ver, deveria reunir-se o menos possível, e quanto mais decide e legisla, pior é. É um contrassenso — para O Dia, ao menos, e para quem acredita naquele ranking, como o próprio professor por muitos anos acreditou —, mas um contrassenso que faz sentido: o deputado que propõe menos projetos de lei não está atrapalhando ainda mais a nossa vida. Por trás disso está uma concepção, oriunda da tradição liberal, segundo a qual a função própria do poder legislativo é estabelecer limites ao próprio Estado — leis que impeçam o executivo, seus funcionários e mesmo o judiciário de fazerem o que bem quiserem. O legislativo deve, então, ser avaliado não pelo que propõe, mas pelo que limita; e limita o poder estatal diante do indivíduo.

O ceticismo diante do Estado e da lei

Thoreau é, além disso, muito cético quanto ao poder do governo. Afirma que, em toda a história, nenhum governo jamais fez nada, jamais criou nada nem levou a cabo qualquer empreendimento: quem faz as grandes obras e financia os grandes empreendimentos, com esforço, trabalho e dinheiro, é o povo; o governo apenas recebe o mérito, o crédito e as honras. É cético também quanto à própria lei, pois as leis não tornam ninguém melhor — quem age coagido pela lei não está sendo melhor por isso. Por isso, muito mais sensato do que investir em novas leis é investir na educação e na formação moral das pessoas, para que não queiram fazer o mal ao outro. Diante de uma lei injusta, é necessário transgredi-la; e uma lei injusta deve ser imediatamente transgredida, pois isso é uma exigência da própria moralidade natural. Todos sabem o que é certo e o que é errado, sem precisar do governo para dizê-lo; a lei, na verdade, nada diz sobre o certo e o errado — é um código moral artificial que não corresponde à moralidade natural presente em cada ser humano. O escândalo moral está tanto na atitude do funcionário estatal, que tende a obedecer à lei injusta, quanto na do político, que se esforça por mudá-la a longo prazo.

Os funcionários do Estado, obrigados a cumprir leis mesmo injustas, não são em si menos do que homens, mas são considerados pelo Estado como menos do que homens: o Estado os trata como não humanos, como máquinas, como corpos à disposição, cuja força deve ser empregada em benefício da instituição. Eis um ponto importante: o governo só se preocupa com os corpos — com seu alimento, sua saúde, sua força de trabalho e até com sua prisão, pois é o corpo que se prende, não a alma, não o espírito, não o pensamento, não a palavra. O pensamento e o espírito do homem permanecem livres. O governo é, assim, essencialmente fisicalista, materialista, e, tendo essa natureza, não pode compreender metas e propósitos que ultrapassem a simples materialidade ou a dimensão da produção econômica. Por isso deve restringir-se à sua dimensão básica e fundamental — manter a ordem, as contas públicas, eventualmente uma pequena força capaz de defender a cidade ou o país, e talvez a educação e a saúde —, sem ir além. Quando o governo procura solucionar um mal ou resolver um problema, muito frequentemente cria um problema ainda maior, tornando-se um mal maior do que aquele que pretendia combater. Thoreau não quer, portanto, o fim do governo, mas um governo pequeno, que não crie guerras, não oprima ninguém, não cometa violência e não restrinja o direito de ninguém de pensar, escrever e viver como quiser.

As três linhas subterrâneas: romantismo, epicurismo e liberalismo

Mais do que um anarquista, Thoreau pode ser considerado representante, no sentido político, de uma tradição liberal que tem início em Locke. No pensamento de Thoreau encontram-se três tendências subterrâneas, três linhas de condução das ideias. A primeira é a do romantismo: o retorno à natureza, às origens, aos bosques, o reencontro e a harmonia com a natureza — romantismo obtido por via do idealismo alemão, muito especialmente da filosofia da natureza de Schelling, na qual a natureza é uma manifestação ou uma forma do espírito, de modo que o reencontro com ela é também um reencontro com a própria natureza humana. Convém notar, a propósito, que o transcendentalismo de Emerson e Thoreau é uma leitura superficial de algumas ideias do idealismo alemão e do romantismo — a ideia de que a natureza é manifestação do espírito, a recusa das ciências naturais e dos métodos lógicos da filosofia, a valorização da intuição subjetiva e do sentimento, somadas a uma postura antirreligiosa e anti-institucional. Nada tem a ver, portanto, com o idealismo transcendental de Kant: os transcendentalistas não se preocupavam com os fundamentos a priori do conhecimento, com as formas a priori da intuição ou com as categorias a priori do entendimento; tratava-se de uma leitura simplificada, sem Kant e com uma compreensão muito superficial de Schelling, associada ao romantismo alemão e francês — o romantismo, por exemplo, de Goethe, dos Sofrimentos do Jovem Werther.

A segunda linha é a de uma moral epicurista, uma filosofia moral helênica que prega o retorno a uma vida mais simples e frugal e a busca da felicidade nessa frugalidade, isenta dos pesos e dos excessos impostos pela vida social e pelo consumo. A terceira é a da filosofia política liberal clássica de Locke, com diferenças notáveis: Locke entende todos os direitos como propriedades — a propriedade da vida, da liberdade, da propriedade privada —, e Thoreau está muito longe disso. O que lhe interessa é a ideia de um Estado que governe pouco e se mantenha fiel à sua natureza mais fundamental, a do contrato que permite a vida em sociedade e a existência das instituições básicas, sem ir além: um Estado mínimo, diríamos hoje. Thoreau filia-se, assim, à tradição liberal clássica que se manifestará com clareza no século XX, mas ligando essa defesa do Estado mínimo a uma perspectiva de vida na natureza. É curiosa essa síntese entre uma moral epicurista, a figura de um militante ambientalista e viajante das florestas e um liberal clássico no plano político — um liberal que sustenta, inclusive, a legitimidade de um levante, a princípio pacífico, contra a autoridade. Pois Thoreau não é um defensor da não violência: é um defensor da resistência civil, que deve em primeiro lugar ser pacífica, mas não necessariamente sempre. Ele reserva, em alguns casos, a legitimidade do uso da força e das armas contra um governo tirânico, que atente contra a liberdade e os interesses dos cidadãos, sustentando o direito ao levante armado até mesmo contra o próprio governo.

É isso que faz de Thoreau um filósofo tão interessante: ele não se deixa descrever de modo simples pelas categorias do nosso tempo, sendo mais profundo, mais denso e mais dialético. Trata-se de um filósofo a ser lido hoje — tanto Walden e a Desobediência Civil quanto os muitos relatos de viagem, em sua maioria ainda não traduzidos para o português, escritos numa prosa muito bela, elegante e poética, a prosa de um naturalista. Por sorte, Walden e a Desobediência Civil são fáceis de encontrar, em livrarias virtuais e mesmo em PDF.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Henry David Thoreau. Walden, ou A Vida nos Bosques(1854)

  • Henry David Thoreau. A Desobediência Civil(1849)

  • Epicuro — doutrina dos três tipos de prazer e do *tetrafármacos* (sem obra nomeada em aula). (sem obra nomeada em aula)

  • F. (Naturphilosophie)

  • Johann Wolfgang von Goethe. Os Sofrimentos do Jovem Werther

  • Hermann Hesse. O Lobo da Estepe

  • John Locke — a tradição liberal clássica (sem obra nomeada em aula). (sem obra nomeada em aula)

  • Ralph Waldo Emerson. Nature e Self-Reliance(1836)

  • Epicuro. Carta a Meneceu

  • Verbete "Henry David Thoreau". Stanford Encyclopedia of Philosophy

  • Sobre a recepção da *Desobediência Civil* em Gandhi e Martin Luther King Jr. (não tratada em aula)