Sinopse

Nesta segunda aula sobre Herbert Marcuse, o professor Gustavo Bertoche retoma o diagnóstico do filósofo da Escola de Frankfurt sobre a sociedade contemporânea, cruzando-o com o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. A exposição mostra como a análise de Marcuse — o homem unidimensional, a racionalidade tecnológica, a integração totalitária — se confirmou profeticamente nos algoritmos das redes sociais (o "Soma digital"), na economia de plataformas (a uberização), no empreendedorismo como autoexploração (a internalização da repressão excedente), na gamificação da vida (os "feelies" de Huxley) e na substituição das relações familiares por relações mediadas pelo mercado. A seguir, o professor aponta as limitações de Marcuse (a análise excessivamente totalizante, a escassez de alternativas concretas, as previsões não confirmadas sobre os grupos marginalizados), contrastando a "esperança dialética" de Marcuse (a mesma tecnologia que oprime tem potencial emancipatório) com o pessimismo radical de Huxley. O núcleo da aula é a tese de que o sistema não elimina as contradições, mas as absorve e monetiza: a inquietação de Bernard Marx é promovida, as "reservas de selvagens" e John funcionam como válvula de escape, e hoje o ativismo, a ansiedade e a espiritualidade viram nichos de consumo. A aula desenvolve ainda a crítica à "educação afirmativa" (que forma conformistas sob a ilusão de pensamento crítico), à neutralização da arte e à destruição da própria sensibilidade estética, e ao controle pela sexualidade (a repressão excedente em Marcuse versus a liberação esvaziada em Huxley). Conclui com a "Grande Recusa" como resistência — a recuperação do tempo, da contemplação e do pensamento livre —, mas com uma "ponta de amargura": não há garantia de que a recusa não seja, ela mesma, absorvida pelo sistema.

Pontos-Chave

  • O diagnóstico profético: as análises de Marcuse (anos 1950-60) sobre o homem unidimensional e a sociedade de controle parecem escritas hoje; a racionalidade tecnológica tornou-se dominante, e a integração totalitária, ainda mais sofisticada do que ele e Huxley imaginavam.

  • O "Soma digital" e a economia de plataformas: os algoritmos das redes sociais reduzem a experiência a dados e manipulam emoções para maximizar o engajamento (o Soma de Huxley); a uberização funde trabalho e lazer; o empreendedorismo é a internalização da repressão excedente (autoexploração).

  • A gamificação e os feelies: a saúde, a produtividade e os relacionamentos viram jogos em aplicativos; a vida torna-se performance constante, sem espaço para a experiência genuína — versão dos feelies de Huxley (entretenimento que estimula os sentidos sem engajar a mente).

  • As limitações de Marcuse: a análise é por vezes excessivamente totalizante, oferece poucas alternativas concretas, e suas previsões sobre os grupos marginalizados como agentes da transformação não se confirmaram (foram integrados ou marginalizados).

  • Esperança dialética × pessimismo radical: Marcuse acredita que as forças que criam a dominação também criam as condições de superação (a tecnologia tem potencial emancipatório); Huxley vê a abundância material usada para criar formas ainda mais sutis de escravidão.

  • O sistema absorve as contradições: não as elimina, mas as incorpora e monetiza — a inquietação de Bernard Marx é promovida; as "reservas de selvagens" e John funcionam como válvula de escape; hoje o ativismo, a ansiedade e a espiritualidade viram nichos de consumo.

  • A educação afirmativa: o sistema educacional aparenta desenvolver o pensamento crítico, mas o canaliza para fins que beneficiam o próprio sistema, formando conformistas convencidos de serem pensadores livres.

  • A neutralização da arte: a arte radical é integrada à indústria cultural e transformada em entretenimento; pior, destrói-se a própria sensibilidade estética da população (como os cidadãos de Huxley, incapazes de entender Shakespeare), e chama-se entretenimento de arte.

  • O controle pela sexualidade: Marcuse vê a repressão excedente (a energia erótica sublimada em trabalho e consumo); Huxley vê a liberação esvaziada e padronizada — duas faces do mesmo controle, hoje visíveis na hipersexualização que coexiste com a solidão afetiva.

  • A Grande Recusa (e seu risco): a resistência exige recuperar o tempo, a contemplação e o pensamento livre, recusando a "grande mentira" de que "não há alternativa"; mas, com Huxley, persiste a "ponta de amargura" de que a própria recusa pode ser absorvida pelo sistema como mais uma curiosidade de consumo.

Transcrição da Aula

O diagnóstico profético de Marcuse e Huxley

A aula retoma o diagnóstico de Herbert Marcuse sobre a sociedade contemporânea, conectando-o às intuições de Aldous Huxley no Admirável Mundo Novo (Brave New World, 1932). Marcuse desenvolveu suas teorias centrais nos anos 1950 e 1960 — muito antes da internet, das redes sociais, da economia de plataformas, da uberização e da vigilância digital —, mas suas descrições do homem unidimensional e da sociedade de controle parecem escritas ontem. A racionalidade tecnológica que ambos criticaram tornou-se dominante, e a integração totalitária dos indivíduos no sistema, ainda mais sofisticada do que imaginavam. A manipulação das necessidades — de consumo e afetivas — tornou-se mais precisa, e isso se vê claramente nos algoritmos das redes sociais, expressão perfeita tanto da racionalidade tecnológica marcusiana quanto dos mecanismos de controle de Huxley: reduzem a complexidade da experiência humana a dados quantificáveis, manipulam as emoções para maximizar o engajamento e o tempo de tela (pois é a nossa atenção que está sendo comercializada) e criam bolhas de informação que impedem o pensamento crítico — tudo isso apresentando-se como ferramentas neutras de conexão. São uma versão digital do Soma de Huxley: ocupam o lugar das substâncias que mantêm as pessoas felizes, ocupadas e passivas.

O mesmo vale para a economia de plataformas, que realiza a integração totalitária: trabalho e lazer se fundem. O motorista de aplicativo trabalha “quando quiser”, mas o algoritmo manipula sua vontade por incentivos psicológicos e financeiros; compartilha-se a vida no Instagram “livremente”, mas os dados são commodities vendidas a anunciantes; consome-se entretenimento na Netflix “por escolha”, mas o algoritmo programa os desejos. A economia do empreendedorismo representa a internalização da repressão excedente: os empreendedores já não são explorados por patrões externos — autoexploram-se, trabalhando 80 horas por semana “seguindo sua paixão”, numa exploração econômica disfarçada de realização pessoal, como se os cidadãos de Huxley tivessem aprendido a autoadministrar o Soma. E a gamificação da vida cotidiana transforma o exercício, a produtividade e os relacionamentos em jogos de aplicativo, fazendo da própria vida uma performance constante que elimina o espaço para a experiência genuína e a contemplação — a versão contemporânea dos feelies de Huxley, o entretenimento que estimula todos os sentidos mas impede a reflexão. Até a previsão de Huxley sobre a eliminação da família já se realiza parcialmente, não por decreto, mas pela dinâmica do capitalismo avançado: as relações familiares são substituídas por relações mediadas pelo mercado — o cuidado infantil terceirizado, a educação privatizada, o cuidado dos idosos institucionalizado, o relacionamento romântico mediado por aplicativos de compatibilidade.

As limitações de Marcuse e o contraste com Huxley

Como toda grande teoria crítica, o pensamento de Marcuse tem limitações. Primeiro, sua análise é por vezes excessivamente totalizante, generalizando rápido demais e vendo dominação onde também há espaços de liberdade e resistência; sua crítica à tecnologia às vezes ignora as potencialidades emancipatórias e criativas dela. (Huxley também pode ser criticado: sua distopia é tão completa e hermética que quase não deixa espaço para a esperança — o selvagem John, único personagem que questiona o sistema, acaba se suicidando, e a mensagem implícita é que a resistência ao totalitarismo suave, uma vez estabelecido, pode ser impossível.) Segundo, Marcuse oferece poucas alternativas concretas: sua crítica é devastadora e verdadeira, mas as propostas de superação são vagas — como construir uma civilização não repressiva, como superar o homem unidimensional? Aqui cabe um contraste: Huxley faz literatura, com função puramente diagnóstica (alertar para os perigos), enquanto Marcuse é um filósofo comprometido com a transformação social, que tenta apontar caminhos de superação — mas esses caminhos permanecem abstratos demais. Terceiro, algumas previsões de Marcuse não se confirmaram: ele esperava que os grupos marginalizados (estudantes, minorias raciais, o lumpenproletariado) se tornassem os agentes principais da transformação, mas, na prática, foram integrados ao sistema ou ainda mais marginalizados.

Essas limitações não invalidam a contribuição fundamental de Marcuse, que revela as dimensões psicológicas e culturais da dominação moderna — a dominação suave, a tirania benéfica, o “totalitarismo soft” em que vivemos. Marcuse mostra que o problema não é só econômico ou político, mas antropológico — e, mais ainda, metafísico: não adianta ganhar uma eleição nem aumentar o PIB, porque o capitalismo avançado cria um tipo específico de ser humano que não consegue imaginar alternativas à própria dominação, porque nem percebe que está sendo dominado. Marcuse, porém, não era fatalista: acreditava que a própria dominação cria, dialeticamente, novas possibilidades de libertação. Os instrumentos de dominação que desenvolvemos servem também para libertar — a internet e as redes sociais, bem utilizadas, são libertadoras. A sociedade tecnológica avançada criou, pela primeira vez na história, as condições materiais para uma vida genuinamente livre, pois a produtividade alcançada torna possível reduzir drasticamente o trabalho necessário e liberar tempo e energia para atividades criativas — embora não seja isso que esteja acontecendo. E aqui o professor aproxima-se de Huxley, que também reconheceu essa possibilidade: no Admirável Mundo Novo acabaram a escassez, a fome e a miséria, e o trabalho foi reduzido ao mínimo (pode-se imaginar uma espécie de renda mínima universal); mas a visão de Huxley é pessimista — essas condições materiais de liberdade são usadas para criar formas ainda mais sutis de escravidão, tornando o ser humano mais dependente, passivo e escravizado. Eis a diferença: Marcuse tem a esperança dialética de que as forças que criam a dominação também criam as condições para a superação (importa o modo como se usa a tecnologia); Huxley crê que o mais provável é que a tecnologia que pode nos libertar venha a nos escravizar ainda mais.

O sistema que absorve as próprias contradições

Uma questão fundamental na distopia de Huxley: o sistema não elimina as contradições, mas as incorpora e neutraliza. A presença de John, o selvagem nascido naturalmente, não representa uma falha do sistema, mas a sua sofisticação máxima — o sistema é capaz de integrar até a sua própria negação. A genialidade diabólica dessa estrutura aparece em Bernard Marx, personagem que sente inquietação e angústia: em vez de ser uma ameaça, isso se torna parte do funcionamento do sistema; sua originalidade e pensamento crítico são reconhecidos e até valorizados, e ele é promovido em função das próprias dúvidas. O sistema demonstra sua superioridade permitindo vozes dissonantes, desde que permaneçam dentro de limites controlados. As “reservas de selvagens” não são acidentes, mas parte integral do funcionamento: fornecem o contraste para que os cidadãos civilizados apreciem a própria condição e oferecem uma válvula de escape para os inquietos — quem não se adapta pode visitar ou mesmo viver nas reservas, sempre dentro de espaços delimitados, vistos com curiosidade e incompreensão, que no fim das contas só beneficiam a estrutura geral. É uma forma de totalitarismo mais sofisticada do que a que Marcuse imaginou: não se trata apenas de integrar a oposição transformando-a em entretenimento, mas de um sistema tão flexível que incorpora qualquer forma de resistência, oferecendo espaços “livres” e “seguros” para os dissidentes se manifestarem sem afetar o funcionamento geral. John representa as forças negativas que Marcuse via como irredutíveis — a arte genuína, a paixão autêntica, a busca de sentido transcendente —, mas o sistema de Huxley lida com elas sem eliminá-las: basta isolá-las, transformá-las em curiosidades antropológicas que se visitam pagando um ticket, oferecê-las como opção de consumo cultural para os que se sentem intelectuais ou “inteligentinhos” (na expressão de um filósofo brasileiro contemporâneo).

Como isso se manifesta hoje? Por que há uma epidemia de ansiedade e depressão justamente nas sociedades materialmente mais prósperas? Por que jovens criados na abundância do capitalismo tardio desenvolvem uma consciência crítica crescente sobre sustentabilidade, desigualdade e sentido (lembre-se da ativista Greta Thunberg)? A resposta de Huxley seria: isso existe porque o sistema permite e até cultiva essas inquietações, desde que canalizadas para formas inofensivas de expressão. A ansiedade vira mercado (terapia, medicamentos); a consciência ecológica vira mercado (produtos sustentáveis, carros elétricos); a busca de sentido vira mercado (espiritualidade de consumo). A sociedade convive bem com a insatisfação porque consegue monetizá-la — assim, essas não são contradições que conduzem à transformação. Huxley está certo: um sistema suficientemente sofisticado incorpora as próprias contradições, transforma a resistência em produto, e quem não quer consumir também vira produto. As reservas de selvagens equivalem aos espaços alternativos que o sistema oferece — comunidades hippies, ecovilas, movimentos slow food, festivais de música independente, espaços de busca espiritual —, que não ameaçam o sistema, mas o confirmam, pois oferecem a ilusão de que há alternativas, mantendo-as isoladas, comercializadas e vistas com curiosidade. Vivemos num sistema que não precisa eliminar a diferença, apenas administrá-la; que não precisa reprimir a resistência, porque a oferece como opção de consumo; que mantém as forças negativas em “zoológicos humanos” que servem de entretenimento e válvula de escape.

Educação afirmativa e a neutralização da arte

Quanto à educação: no Admirável Mundo Novo, Huxley imagina um sistema que elimina a possibilidade de pensamento crítico por um condicionamento desde o nascimento (repetição hipnótica durante o sono, estímulos pavlovianos, segregação social desde a concepção) — não há espaço para questionamento, pois as próprias categorias mentais necessárias foram eliminadas; a educação existe para programar comportamentos, numa pedagogia behaviorista. Marcuse, analisando os sistemas educacionais das democracias liberais, identifica mecanismos análogos e muito eficazes: a educação formal mantém a aparência de transmissão de conhecimento (às vezes até crítico), mas produz indivíduos adaptados às necessidades do sistema. Hoje, os estudantes aprendem a “pensar criticamente” sobre literatura, história e ciências, mas dentro de parâmetros que não permitem questionar as estruturas fundamentais da sociedade; aprendem a resolver problemas técnicos cada vez mais complexos, mas perdem a capacidade de perguntar por que esses problemas existem; são encorajados a ser criativos e inovadores, mas dentro de limites que não ameaçam a lógica do mercado. O resultado é o que Marcuse chama de “educação afirmativa”: um processo que aparenta desenvolver a capacidade crítica, mas a canaliza para fins que beneficiam o sistema — os estudantes saem da universidade convencidos de ser pensadores livres, quando estão programados para reproduzir as estruturas de dominação em que foram formados. A pergunta é por que manter a ilusão de liberdade: se é possível condicionar escravos a serem felizes na condição de escravos e a jurar que são livres, por que não fazê-lo?

Quanto à arte: para Marcuse, a arte genuína sempre teve uma dimensão radical e subversiva, que mantém viva a memória de possibilidades reprimidas e cultiva a capacidade de imaginar alternativas. Na sociedade unidimensional, a arte é neutralizada por sua integração na indústria cultural: obras potencialmente subversivas são transformadas em entretenimento e vendidas como mercadorias, despojadas do conteúdo crítico — a arte perde a capacidade de questionar a realidade porque se torna parte dela. No Admirável Mundo Novo, eliminou-se a arte no sentido tradicional (a que expressa a complexidade da experiência humana), restando música, literatura e artes visuais como entretenimentos tecnológicos que estimulam os sentidos sem engajar a mente — e é isso que vivemos hoje: não há mais arte, há entretenimento, e o entretenimento é vendido como arte (“veja este filme, é uma obra de arte”), embora se trate de conteúdo e forma populares, criados para baixo nível intelectual, que não conduzem à reflexão radical nem à transcendência. Quando o selvagem John tenta compartilhar Shakespeare com os cidadãos civilizados, eles não compreendem nada — a linguagem poética lhes parece arcaica, e as emoções da tragédia, patológicas. Tiveram a capacidade de apreciar a arte eliminada e chamam o entretenimento de arte. Esse é o pesadelo último para Marcuse: uma sociedade em que não só a arte crítica é neutralizada, mas a própria capacidade humana de responder à arte é destruída. Não se podem destruir todas as obras, mas pode-se destruir a sensibilidade estética de toda uma população — e, sem ela, a verdadeira arte já não faz efeito. É o que se vê hoje na redução crescente da capacidade de atenção, na preferência por entretenimento de gratificação imediata e na raridade da capacidade de se engajar com obras que exigem contemplação: a erosão, em primeira mão, da própria capacidade cognitiva e emocional necessária à experiência estética profunda.

O controle pela sexualidade

Tanto Marcuse quanto Huxley dedicaram atenção ao papel da sexualidade como mecanismo de controle social, chegando a conclusões aparentemente opostas, mas complementares. Marcuse diz que a sociedade capitalista avançada funciona por meio da repressão excedente da sexualidade: os impulsos eróticos são canalizados para a produtividade econômica, criando indivíduos neuróticos que sublimam a energia sexual em trabalho compulsivo e consumo compensatório — a energia que não se realiza como sexualidade realiza-se como hiperconsumo. Huxley imagina uma sociedade diferente, que libera completamente a sexualidade: o Admirável Mundo Novo não tem tabus, monogamia nem vínculos emocionais profundos, e os cidadãos têm acesso irrestrito ao prazer sexual — mas um prazer padronizado, superficial e desprovido de dimensão romântica ou transcendente. À primeira vista opostas, ambas as visões revelam a mesma dinâmica: o uso da sexualidade como instrumento de controle. Marcuse mostra como a repressão sexual cria indivíduos dóceis, dispostos a trabalhar e consumir cada vez mais; Huxley, como a liberação sexual controlada tem o mesmo efeito, criando indivíduos dóceis e incapazes de refletir sobre sua situação existencial. A genialidade de Huxley está em perceber que uma sociedade de controle sofisticada não precisa reprimir a sexualidade, basta domesticá-la — padronizar o prazer, esvaziá-lo de conteúdo emocional, transformá-lo em bem de consumo. Isso se manifesta na hipersexualização da cultura popular, que coexiste com a incapacidade crescente de formar vínculos eróticos profundos: temos acesso sem precedentes a estímulos sexuais, mas vivemos com níveis crescentes de solidão afetiva, e a pornografia coexiste com a epidemia de ansiedade. Tanto a repressão quanto a pseudoliberação sexual servem como mecanismos de controle numa sociedade totalitária que oferece um discurso de liberdade superficial — eliminando, em ambos os casos, o potencial subversivo da sexualidade, que está na capacidade de criar vínculos profundos, questionar convenções e abrir espaços de transcendência.

A natureza humana, a tecnologia e a Grande Recusa

Quanto à natureza humana: Huxley tende a vê-la como infinitamente plástica e moldável — na sua distopia, a natureza humana foi alterada por engenharia genética, condicionamento psicológico e manipulação química, e os cidadãos são produtos industriais, “manufaturados” segundo especificações sociais. Huxley é, assim, um pessimista radical sobre a resistência: se a natureza humana pode ser completamente reformulada, não há impulso fundamental que resista à dominação total, e a liberdade se torna impossível — não porque seja reprimida, mas porque o próprio desejo de liberdade pode ser eliminado, surgindo em seu lugar uma “linguagem da liberdade” que é a mais completa escravidão. Marcuse, influenciado pela dialética, mantém uma visão mais esperançosa: existem impulsos humanos fundamentais — os impulsos eróticos de criação, conexão e transcendência — que resistem a qualquer tentativa de controle total; a natureza humana não é fixa, mas tampouco infinitamente moldável. Essa diferença reflete-se na análise da tecnologia: para Huxley, a tecnologia é ambígua (pode libertar ou escravizar), mas, uma vez suficientemente sofisticada, torna a resistência impossível; para Marcuse, nenhuma tecnologia é neutra, mas também nenhuma é unidimensionalmente opressiva — a mesma racionalidade tecnológica que cria dominação cria as condições para superá-la, e a questão não é eliminar a tecnologia, mas reorganizar as relações sociais em que ela opera. Marcuse é, assim, mais otimista: para ele, há uma saída.

O que extrair disso para a nossa situação? Primeiro, é preciso criar uma consciência crítica dos mecanismos sutis de dominação, pois as formas mais eficazes de controle são as que se disfarçam de liberdade — o totalitarismo que usa o discurso da democracia e da liberdade. Precisamos reconhecer como a nossa própria subjetividade é moldada por essas estruturas, a ponto de acreditarmos que a defesa do sistema é a defesa da liberdade. Numa sociedade em que os próprios conceitos de liberdade, resistência e democracia se invertem, é mais do que nunca urgente interromper o fluxo do pensamento comum e encontrar um espaço de pensamento livre, com tempo suficiente para que esse pensamento aconteça. Daí a importância de recuperar dimensões reprimidas da existência: numa sociedade dominada pela racionalidade instrumental, em que tudo é produto, é preciso parar e cultivar a contemplação, a criatividade, o amor e o prazer de forma genuína — não como escape, mas como resistência à colonização total da existência. Mesmo essas dimensões, porém, são cooptadas: o prazer é industrializado, a criatividade canalizada para fins econômicos, o amor reduzido à compatibilidade algorítmica; é preciso mantê-las conectadas à vida concreta por uma crítica social radical, sob pena de interpretarmos a submissão como liberdade. Precisamos perceber que a ideia de que “não há alternativa” é a grande mentira do nosso tempo — sempre há alternativas; a maior dificuldade é a coragem de imaginá-las e de lutar por elas. E há um risco: que a própria capacidade de imaginar alternativas já esteja destruída, pois não basta ter ideias críticas — é preciso, antes, cultivar e proteger as condições sociais e psicológicas para que essas ideias brotem, o que é difícil numa sociedade em que as mesmas condições libertadoras (que poderiam eliminar a escassez e reduzir o trabalho alienado) são usadas para criar formas de dominação ainda mais sofisticadas.

Talvez o grande risco do nosso tempo seja acabarmos defendendo a escravidão sob o nome de liberdade, sustentando que essa nova escravidão é a maior expressão da vida livre — ou defendendo a opressão sob o nome de democracia, sustentando que vivemos numa democracia e que qualquer tentativa de subverter a ordem tirânica deve ser punida com rigor máximo, como expressão antidemocrática. Marcuse ensina que a verdadeira filosofia é sempre um ato de resistência — resistência à redução da existência humana à condição de mero instrumento, recurso, consumidor ou performance julgada pelo sucesso econômico. Vivemos no fio da navalha entre a possibilidade de uma emancipação sem precedentes e o perigo de uma dominação total: as mesmas forças que podem libertar podem escravizar definitivamente. Vivemos em sociedades que operam formas sofisticadas de totalitarismo sob um discurso de liberdade e democracia, concentrando o poder real em estruturas não democráticas e prometendo felicidade, mas produzindo alienação. Essa situação é inevitável? Para Marcuse, não: as condições materiais para uma sociedade genuinamente livre existem. Diante das crises ecológicas, das guerras que eclodem no mundo e dos riscos psicológicos sem precedentes, o pensamento de Marcuse ajuda a entender que essas crises não são acidentes, mas produtos necessários de um sistema social específico — e que só poderemos transformar a realidade se tivermos a coragem de recusar o que nos é oferecido.

É aqui, porém, que o professor traz, com uma ponta de amargura, a maior riqueza do Admirável Mundo Novo: não há nenhuma garantia de que a recusa radical — a oposição a esse totalitarismo suave e benévolo, o estabelecimento de um espaço e de um tempo de pensamento livre — funcione. Pois, seguindo as sugestões de Huxley, podemos acabar sendo tratados como mais uma curiosidade, apoiada e mantida pelo próprio sistema como espaço de escape, que ao fim será também transformado em espaço de produção econômica e de consumo. A “Grande Recusa” permanece, assim, como a única resistência possível à racionalidade instrumental — mas uma resistência cuja vitória não está, de modo algum, garantida.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Herbert Marcuse. O Homem Unidimensional(a racionalidade tecnológica e a sociedade de controle)

  • Herbert Marcuse. Eros e Civilização(a repressão excedente e a dessublimação repressiva)

  • Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo e Brave New World e feelies(Brave New World, 1932)

  • William Shakespeare (a tragédia incompreensível para os cidadãos do *Admirável Mundo Novo*). (a tragédia incompreensível para os cidadãos do Admirável Mundo Novo)

  • Herbert Marcuse. A Grande Recusa Hoje e Cultura e Sociedade

  • Theodor Adorno e Max Horkheimer. Dialética do Esclarecimento(a indústria cultural)

  • Byung-Chul Han. Sociedade do Cansaço e Psicopolítica

  • George Orwell. 1984(o totalitarismo pela repressão, e não pelo prazer)