Jean-Paul Sartre, parte 1
Sinopse
Primeira de duas aulas sobre Jean-Paul Sartre (1905–1980), um dos filósofos mais caros ao professor. Esta parte concentra-se na inseparabilidade entre a vida e a obra — em Sartre, viver era filosofar — e na gênese de sua filosofia da liberdade. A exposição reconstrói a biografia: a infância órfã de pai e a formação na cultura alemã pelo avô; o Lycée Henri-IV e a École Normale Supérieure, onde conheceu Simone de Beauvoir, Raymond Aron e Merleau-Ponty; a viagem decisiva a Berlim (1933-34), em que descobriu a fenomenologia de Husserl e a filosofia de Heidegger e a tese de que a existência precede a essência. O núcleo é a descoberta, num campo de prisioneiros nazista, de que a liberdade não é algo que se tem, mas algo que se é: mesmo despojado de tudo e sob ameaça de morte, o ser humano ainda escolhe — donde a responsabilidade absoluta do indivíduo, sem desculpas no determinismo social, no inconsciente ou na opressão estrutural. A aula ilustra essa tese com a peça As Moscas, o dilema moral do aluno (cuidar da mãe doente ou entrar na Resistência), a parceria intelectual e amorosa "necessária e contingente" com Simone de Beauvoir, e a relação dialética e crítica de Sartre com o comunismo (a aproximação e a ruptura com o PC francês após a invasão da Hungria; a visita a Cuba e o debate com Che Guevara sobre democracia). O professor mostra por que Sartre é incômodo tanto para a direita (a ordem social não é natural, é construída) quanto para a esquerda (o oprimido também escolhe, e é responsável), encerrando com o gancho para a parte 2 e a tese de que somos livres e, portanto, responsáveis pela própria vida, nas piores circunstâncias — uma filosofia dura, mas que oferece a dignidade de ser autor da própria existência.
Pontos-Chave
Vida e obra inseparáveis: em Sartre (1905–1980), não há separação entre o que escreveu e como viveu — viver era filosofar; filósofo, romancista, dramaturgo e ativista, recusou o Nobel de Literatura (1964) para não ser transformado numa instituição.
Uma filosofia incômoda para todos: Sartre coloca toda a responsabilidade existencial sobre o indivíduo — sem desculpas no determinismo social, no inconsciente freudiano ou na opressão estrutural —, o que incomoda tanto a direita quanto a esquerda.
A formação: órfão de pai, criado na cultura alemã pelo avô; o Lycée Henri-IV e a École Normale Supérieure, onde conheceu Beauvoir, Raymond Aron e Merleau-Ponty.
A descoberta em Berlim (1933-34): o contato com a fenomenologia de Husserl (a consciência é sempre consciência de algo) e com Heidegger (o ser-no-mundo), e a tese revolucionária de que a existência é anterior à essência.
A liberdade que se é: no campo de prisioneiros nazista, despojado de tudo e sob ameaça de morte, Sartre sentiu-se mais livre do que nunca — a liberdade não é algo que se tem, mas algo que se é; sempre se pode escolher como reagir.
A responsabilidade absoluta: o colaboracionista colabora porque escolhe (mesmo por medo); o resistente resiste por escolha, apesar do medo. Mesmo sob tortura ou sob o cano de uma arma, o indivíduo é responsável por suas escolhas — não há desculpas.
A angústia e o dilema do aluno: ao aluno dividido entre cuidar da mãe doente e entrar na Resistência, Sartre responde "você é livre, escolha" — ninguém pode escolher por você, e não se pode terceirizar a responsabilidade.
Beauvoir: amor necessário e contingente: a parceria intelectual horizontal e crítica com Simone de Beauvoir, em que cada um lia e debatia a obra do outro (O Ser e o Nada, O Segundo Sexo); o "pacto" do amor necessário com amores contingentes, não sem sofrimento.
A relação dialética com o comunismo: Sartre aproximou-se do PC francês (via no proletariado a transformação radical), mas não se filiou (recusava a disciplina partidária); rompeu após a invasão da Hungria (1956), denunciando o "socialismo de campo de concentração"; em Cuba, debateu com Che Guevara que a democracia não é luxo, mas necessidade.
Incômodo para a direita e para a esquerda: para a direita, a ordem social não é natural, mas construída e mutável; para a esquerda, o oprimido também escolhe e é responsável (sem culpa) — a questão não é o que o mundo fez de você, mas o que você fará com o que o mundo fez de você.
Transcrição da Aula
Vida e obra: viver era filosofar
Esta é a primeira de duas aulas sobre Jean-Paul Sartre, um dos filósofos mais caros ao professor — pelo que escreveu e por como viveu. E, no caso de Sartre, essa distinção entre a obra e a existência simplesmente não existe: para ele, viver era filosofar, e filosofar era viver. Quantos filósofos foram, ao mesmo tempo, romancistas premiados, dramaturgos de sucesso, ativistas políticos na linha de frente e críticos sociais temidos e admirados? Sartre foi tudo isso. Recusou inclusive o Prêmio Nobel de Literatura, em 1964, para não ser transformado numa instituição. Esteve na Resistência francesa contra os nazistas; esteve nas ruas de Paris, em maio de 1968, aos 63 anos, discursando para estudantes em cima de um barril; visitava fábricas ocupadas, escrevia em jornais clandestinos, debatia publicamente com líderes políticos no mundo todo. Sartre construiu uma filosofia talvez dura demais, inaceitavelmente difícil, tanto para a esquerda quanto para a direita — porque coloca toda a responsabilidade existencial sobre o indivíduo: não há desculpa, não há determinismo social, não há inconsciente freudiano nem opressão estrutural que tire de você a responsabilidade absoluta pela sua vida. Posição incômoda para todos: a direita não pode culpar a “natureza humana” ou a “ordem natural das coisas”; a esquerda não pode culpar as estruturas sociais — cada um é inteiramente responsável por si mesmo.
Sartre nasceu em 1905, em Paris, numa família de classe média. O pai morreu quando ele tinha dois anos, e ele foi criado pela mãe e pelo avô materno — primo de Albert Schweitzer, o famoso médico e filósofo —, professor de alemão, através de quem teve contato muito cedo com a cultura germânica, fundamental em sua formação. O pequeno Jean-Paul, criança estrábica, considerada feia para os padrões da época, refugiava-se nos livros da biblioteca do avô — e ele mesmo conta, em sua autobiografia As Palavras, como a literatura se tornou o seu mundo: aos sete anos já escrevia histórias, aos dez já lera boa parte dos clássicos franceses. Veio o Lycée Henri-IV, uma das escolas mais prestigiosas de Paris, e depois a École Normale Supérieure, o templo da intelectualidade francesa, onde conheceu Simone de Beauvoir, Raymond Aron e Maurice Merleau-Ponty — toda uma geração que definiria o pensamento francês do século XX. (É curioso que ele e Simone tenham feito a prova do mestrado no mesmo ano: ela passou, ele não; no ano seguinte, ele passou em primeiro lugar — embora os examinadores dissessem que ela, em segundo lugar, era a verdadeira filósofa.) Mas o momento decisivo de sua formação foi a ida a Berlim, em 1933-34, para estudar — pois sabia alemão desde pequeno. Ali teve contato direto com a fenomenologia de Husserl e com a filosofia de Heidegger: um jovem francês cultíssimo, formado na tradição cartesiana, descobrindo que a consciência é sempre consciência de alguma coisa (não existe consciência pura), que o ser humano é um ser-no-mundo e, mais, que a existência é anterior à essência. Foi uma revolução em seu pensamento.
A guerra e a descoberta da liberdade
Foi com esse pensamento já transformado, existencialista, que Sartre enfrentou a guerra — o “laboratório existencial” de sua filosofia. Em 1940, convocado como meteorologista, foi capturado pelos alemães e passou nove meses num campo de prisioneiros. E o que fez ali? Montou um grupo de teatro e escreveu e dirigiu uma peça de Natal sobre a resistência judaica contra Roma — num campo nazista, fazia teatro sobre a necessidade da resistência. Mas o mais importante dessa experiência foi outra coisa: Sartre conta que nunca se sentiu tão livre quanto na época em que esteve preso. Parece contraditório — preso pelos nazistas, sentindo-se absolutamente livre. Mas, ali, despojado de tudo (sem posses, sem status, sem o diploma de doutor, sem futuro garantido, podendo ser morto a qualquer momento), Sartre descobriu que, mesmo naquela situação extrema, ainda podia escolher — como reagir, como pensar, como se relacionar com os outros prisioneiros. A liberdade não era algo que se tem ou não se tem: a liberdade é algo que se é. Você é livre, ponto final.
Libertado em 1941, por motivos de saúde, voltou para a Paris ocupada e envolveu-se com a Resistência, fundando com Merleau-Ponty um grupo de resistência intelectual chamado “Socialismo e Liberdade” — não um grupo armado, mas que fazia panfletos, textos clandestinos e peças de teatro com mensagens cifradas. Em 1943, Sartre estreou a peça As Moscas: na superfície, uma releitura do mito grego de Orestes voltando a Argos para vingar o pai; mas a plateia entendia que Orestes era a França, Egisto era o regime de Vichy, e as moscas eram a culpa e o remorso que paralisavam os franceses. A peça passou pela censura nazista porque os censores não entenderam as metáforas — incapazes de entender porque não estavam passando por aquilo. O que a guerra ensinou a Sartre é que, mesmo nas condições mais extremas, a liberdade é inalienável: o colaboracionista não colabora porque é forçado, mas porque poderia escolher não colaborar (mesmo por medo, é uma escolha); o resistente não resiste por ser um herói nato, mas porque escolhe resistir apesar do medo. Não há desculpas: mesmo sob o cano de uma arma, mesmo sob tortura, você é responsável por suas escolhas e por sua história.
Sartre conta uma história que ilustra essa responsabilidade absoluta. Um aluno o procurou, sabendo que ele era da Resistência, para pedir conselho: queria muito entrar na Resistência, mas a mãe estava doente e dependia só dele — se ele não a ajudasse, ela morreria. O que fazer: ficar e cuidar da mãe, ou abandoná-la e entrar na Resistência? Sartre respondeu: “você é livre, escolha”. O rapaz insistiu: “mas o que o senhor faria?”. E Sartre: “não importa o que eu faria, porque a escolha é sua, a responsabilidade é só sua”. (Sartre comenta depois que já intuía o que o aluno provavelmente faria, pois ele pediu conselho a Sartre — e não a um padre ou a uma tia.) Não importa o que o aluno respondeu: importa o que cada um de nós faria. É duro — escolher entre defender o país e cuidar da mãe doente —, e não há solução correta ou errada; mas essa dureza é inevitável, porque ninguém pode escolher por você, e não se pode atribuir a ninguém a responsabilidade pelas próprias escolhas.
Simone de Beauvoir: amor necessário e contingente
Nessa época, Sartre já era companheiro de Simone de Beauvoir — uma das histórias mais interessantes das relações amorosas na filosofia moderna (ao lado de Abelardo e Heloísa, ou de Sócrates e Xantipa), uma espécie de “Caras da filosofia”, mas também genuinamente filosófica. A relação começou jovens (ela com 21, ele com 24, já estudando filosofia) e gerou o que chamavam de “pacto”: seriam o amor necessário um do outro, mas com liberdade para amores contingentes — brincando com as categorias do necessário e do contingente. Nunca moraram juntos, nunca se casaram, nunca tiveram filhos, mas conversavam todos os dias, liam os manuscritos um do outro e debatiam suas ideias. Cada capítulo de O Ser e o Nada (a obra-prima de Sartre, um “tijolão” de cerca de 800 páginas) passava primeiro pela leitura de Simone; e cada argumento de O Segundo Sexo (os dois tomos de Beauvoir) era debatido com Sartre. Não era uma relação de mestre e discípula, mas uma parceria horizontal: ela o criticava duramente quando necessário, e ele reconhecia quando ela tinha razão. Por exemplo, Sartre pensava inicialmente que a situação das mulheres era só mais um caso de opressão (como a dos operários), e foi Simone que mostrou haver algo específico na condição feminina, a ser analisado em seus próprios termos — posição que Sartre incorporou. Mas não se deve romantizar a relação: os amores contingentes causavam sofrimento mútuo, e as cartas publicadas postumamente revelam ciúmes, inseguranças e manipulações emocionais de parte a parte — mas revelam também dois filósofos comprometidos em viver de acordo com as próprias ideias, mesmo quando doloroso, inventando uma nova forma de relação amorosa sem modelo prévio.
A relação dialética com o comunismo
Igualmente complexa é a relação de Sartre com o comunismo — cheia de idas e vindas, verdadeiramente dialética. No pós-guerra, Sartre aproximou-se do Partido Comunista Francês, por ver no proletariado a possibilidade de uma transformação radical da sociedade; mas não se filiou, por não aceitar a disciplina partidária nem a submissão do intelectual à linha do partido. Em 1952, escreveu defendendo a política da União Soviética, chegando a dizer que “um anticomunista, no fundo, é um cachorro” — frase forte, motivada por ver o anticomunismo da época como desculpa para manter o status quo burguês. Mas, quatro anos depois, em 1956, quando os tanques soviéticos invadiram a Hungria para esmagar a revolução popular, Sartre rompeu publicamente com o PC francês e escreveu um texto duríssimo, O Fantasma de Stálin, denunciando o que chamou de “socialismo de campo de concentração”. Eis a tensão: Sartre queria a revolução e o fim do capitalismo industrial, mas não aceitava que isso viesse ao preço da liberdade. Quando o Partido dizia que a liberdade individual é um luxo burguês, Sartre respondia que sem liberdade individual não há socialismo verdadeiro. Isso criou uma situação curiosa: a direita o atacava chamando-o de comunista, e os comunistas o atacavam chamando-o de pequeno-burguês — revolucionário demais para uns, individualista demais para outros. Mas era exatamente nesse “ponto impossível” que ele queria estar, fiel à ideia de que é preciso estar sempre do lado dos que sofrem e nunca mentir sobre o que se vê em nome de uma propaganda política. (Quando, em 1968, os tanques soviéticos invadiram a Tchecoslováquia, Sartre foi dos primeiros a condenar; mas, no mesmo ano, em maio de 68, estava nas barricadas de Paris ao lado de estudantes que carregavam retratos de Mao e Che Guevara — talvez coerente com a ideia de que a revolução deve ampliar a liberdade, jamais reduzi-la.)
Em 1960, Sartre e Simone foram convidados a visitar Cuba, pouco após a revolução de 1959; Fidel Castro e Che Guevara os receberam pessoalmente. Sartre passou um mês na ilha, percorrendo-a e conversando com operários, camponeses e intelectuais, e saiu entusiasmado: viu ali uma revolução que parecia diferente — não importada da União Soviética, mas nascida das condições da América Latina, com líderes jovens e idealistas que falavam em criar um “homem novo”. Che Guevara, em particular, o impressionou: um médico argentino que abandonara tudo, vivia como os mais pobres e arriscava a vida. Sartre escreveu artigos elogiando a autenticidade e o caráter anti-imperialista da revolução cubana. Mas — e sempre há um “mas” com Sartre — também via os perigos. Em conversas privadas com Che, questionou a tendência da revolução de concentrar o poder, a repressão à dissidência e o culto nascente à personalidade de Fidel. Che respondeu que, numa situação de cerco (o bloqueio americano, a invasão da Baía dos Porcos), não havia espaço para “luxos democráticos”. Sartre retrucou que a democracia não é luxo, é necessidade: sem o espaço para o contraditório e a dissidência, a revolução apodrece por dentro. Com o tempo, suas previsões se confirmaram — Cuba tornou-se cada vez mais dependente da URSS e mais autoritária. Sartre nunca renegou publicamente o apoio à revolução cubana (para não dar argumentos ao imperialismo americano), mas, em privado, expressava a decepção: eles começaram querendo criar o homem novo e acabaram criando um novo aparelho burocrático.
Por que Sartre incomoda a todos
Fica claro, então, por que Sartre é incômodo para todos. Para a direita, é óbvio: ele critica o capitalismo, o liberalismo industrial, a burguesia, o colonialismo e o imperialismo, e denuncia a má-fé dos que dizem que “sempre foi assim e sempre será” — Sartre mostra que a ordem social não é natural, mas construída, inventada e, portanto, mutável. Mas, para a esquerda — sobretudo a de hoje —, Sartre também é problemático, porque não aceita que o indivíduo seja simplesmente produto da circunstância. Para o marxismo ortodoxo, o operário explorado é alienado, sua consciência determinada pela posição de classe; para Sartre, o operário escolhe, a cada instante, aceitar ou resistir — se aceita, é por escolha (talvez condicionada pelo medo, pelo cansaço, pela desesperança, mas ainda uma escolha, pois poderia optar pela resistência, com suas consequências). E isso é duro de engolir, porque significa que o oprimido tem responsabilidade pelo seu estado — não culpa, mas responsabilidade. (É preciso distinguir: não há aqui culpa, mas responsabilidade ontológica — o que não apaga, de modo algum, o crime do opressor.) O escravo que não se rebela escolhe não correr o risco da morte; entre a morte e a escravidão, escolhe a escravidão — e isso é uma escolha. Quem está num emprego humilhante e mal pago é, para o marxista, vítima do sistema; Sartre diz: sim, o sistema é opressor, mas você escolhe todo dia continuar, porque valoriza mais a segurança numa situação terrível do que a sua dignidade. Isso é incômodo porque não permite que ninguém se esconda atrás de desculpas: o rico não pode dizer “é assim que o mundo funciona”, e o pobre não pode dizer “eu não tenho escolha” — todos têm escolhas, sempre, ainda que terríveis.
Por isso, hoje, a “esquerda identitária” teria horror a Sartre. Quando alguém diz “eu ajo assim por causa do meu trauma, da opressão que sofri, da minha história”, Sartre responde: você escolhe deixar que isso determine suas ações, e poderia escolher diferente. Não que ele negue o trauma, a opressão, a história ou as circunstâncias — tudo isso existe e é real; mas nada disso elimina a liberdade fundamental de escolher como responder a eles. Como diz Sartre, a questão não é o que o mundo fez de você, mas o que você vai fazer com o que o mundo fez de você.
Quem foi Sartre? Um homem que viveu a própria filosofia, mesmo sofrendo. Não escreveu sobre a liberdade e a responsabilidade do conforto de uma cátedra (embora estivesse também na universidade), mas viveu tudo isso — na guerra, na Resistência, nas escolhas políticas difíceis que o colocaram como adversário de todos, na relação não convencional com Simone, nas rupturas com partidos e países que admirava sempre que os via traindo os princípios de liberdade. Com sua vida, Sartre mostra que a liberdade não é abstrata, mas concreta, exercida historicamente em situações específicas: o prisioneiro no campo nazista é um homem livre; o operário explorado e humilhado é um homem livre; o burguês entediado assistindo à Netflix da vida é um homem livre — todos são livres e, portanto, responsáveis pela tragédia ou pela obra que constroem na própria vida. É uma filosofia dura, que não oferece consolo nem desculpas, mas oferece algo mais importante: a dignidade — a dignidade de ser autor da própria vida, mesmo nas piores circunstâncias, e de não ser vítima ainda quando alguém comete uma violência contra você.
Na parte 2, ver-se-á como essas ideias se articulam filosoficamente em O Ser e o Nada: como Sartre parte de Hegel (a dialética do senhor e do escravo) e de Heidegger (o ser-no-mundo) para construir uma ontologia fenomenológica, e como atualiza Aristóteles — que dizia que o homem nasce senhor ou escravo por natureza —, sustentando que não nascemos livres ou escravos por natureza, mas nos tornamos livres ou escravos por nossas escolhas. E entender-se-ão com rigor os conceitos aqui antecipados: a má-fé, o olhar do outro, o ser-para-si e o ser-em-si, e como a consciência é um “nada”, um buraco no ser — e como é exatamente esse nada que nos torna livres.
Glossário
Referências Bibliográficas
Jean-Paul Sartre. As Palavras e Les Mots(Les Mots, autobiografia)
Jean-Paul Sartre. O Ser e o Nada e L'Être et le Néant(L'Être et le Néant, 1943; a ser tratado na parte 2)
Jean-Paul Sartre. As Moscas e Les Mouches e O Fantasma de Stálin(Les Mouches, 1943)
Edmund Husserl (a fenomenologia) e Martin Heidegger (o ser-no-mundo); G. (a fenomenologia)
Simone de Beauvoir. O Segundo Sexo(a visita a Cuba)
Jean-Paul Sartre. O Existencialismo é um Humanismo
Simone de Beauvoir. A Cerimônia do Adeus
Jean-Paul Sartre. Reflexões sobre a Questão Judaica e Crítica da Razão Dialética
Annie Cohen-Solal. Sartre