Émile Boutroux
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Émile Boutroux (1845–1921), filósofo francês pouco conhecido no Brasil, porém de alcance extraordinário e mestre de uma geração decisiva — Bergson, Maurice Blondel, Léon Brunschvicg, Abel Rey e Durkheim foram seus alunos. A exposição reconstrói a trajetória de Boutroux e o caráter paradoxal de seu pensamento: um filósofo formado na universidade iluminista que rompe com o iluminismo e abre caminho para a filosofia do século XX. O núcleo da aula é a crítica de Boutroux ao cientificismo e ao determinismo: a ciência observa regularidades, mas seus princípios (a uniformidade da natureza, a necessidade das leis) são pressupostos metafísicos não demonstráveis empiricamente. Contra a fantasia do "demônio de Laplace" e a busca de uma "teoria do tudo", Boutroux sustenta a tese revolucionária da contingência das leis da natureza — as leis podem evoluir, variar e admitir exceções. A partir daí, o professor desenvolve a oposição entre cosmos (ordem com níveis irredutíveis de realidade) e universo (realidade única sob um só conjunto de leis), o pluralismo ontológico dos três grandes níveis do real (físico, biológico e espiritual), a refutação do reducionismo de Comte e a distinção entre descrever e explicar (Anaxágoras, Sócrates e as neurociências). A aula culmina na recusa de todo "progresso garantido" e na crítica à tecnocracia, com a lição de que, na existência humana, o absoluto é uma quimera.
Pontos-Chave
Boutroux, mestre dos mestres: filósofo do século XIX e início do XX (1845–1921), professor de Bergson, Maurice Blondel, Léon Brunschvicg, Abel Rey e Durkheim; formado na universidade iluminista, rompe com o iluminismo e abre caminho para a filosofia do século XX.
Antidogmatismo: o dogmatismo é um "fechamento do espírito"; a filosofia exige abertura ao desconhecido, ao incerto e ao novo. Boutroux combate o dogmatismo em todas as suas vertentes modernas, em especial o cientificismo.
Crítica ao cientificismo: o cientificismo confunde a observação de regularidades empíricas com a determinação dos princípios que as fundamentam; recusa a metafísica, mas é ele próprio uma posição metafísica que não se reconhece como tal.
Os a priori metafísicos da ciência: a uniformidade da natureza, a constância das leis e a existência de um só nível de realidade não são demonstráveis empiricamente; são pressupostos metafísicos sem os quais a ciência moderna não se sustenta.
Contingência das leis da natureza: tese central de Boutroux — as leis naturais podem ser contingentes, não necessárias; podem evoluir, variar no espaço e admitir exceções (milagres são possíveis). Crítica ao "demônio de Laplace" e à "teoria do tudo".
*Cosmos × universo: o cosmos é uma ordem com níveis irredutíveis de realidade (várias ontologias); o universo é uma realidade única sob um único conjunto de leis. São duas metafísicas incompatíveis; Boutroux defende o cosmos*.
Pluralismo ontológico: há três grandes níveis de realidade — físico (leis mecânicas), biológico (teleológico, auto-organização) e espiritual/moral (liberdade, consciência, criatividade) —, irredutíveis uns aos outros.
Refutação do reducionismo: contra a pirâmide de Comte (social→psíquico→biológico→químico→físico), cada nível tem autonomia e princípios próprios; reduzir o pensamento à física é petição de princípio.
Descrever × explicar: ecoando o Fédon (Anaxágoras descreve, mas não explica por que Sócrates não fugiu com Críton), Boutroux mostra que a ciência descreve como, mas o porquê — o campo das causas — é metafísico (Émile Meyerson).
Contra o progresso garantido e a tecnocracia: o progresso nunca é necessário nem pré-estabelecido; depende de escolhas humanas livres e contingentes. A ciência não é bom guia para a política, a moral ou a vida; o absoluto é uma quimera.
Transcrição da Aula
Boutroux, o mestre dos mestres
A aula parte de um filósofo pouco conhecido no Brasil, mas muito profundo e de alcance extraordinário: Émile Boutroux, mestre de muitos mestres, professor de alguns dos mais importantes filósofos franceses do século XX. Foram seus alunos Henri Bergson, Maurice Blondel, Léon Brunschvicg, Abel Rey e Émile Durkheim. Boutroux é um filósofo do século XIX e do início do século XX: nasceu em 1845 e morreu em 1921, aos 76 anos.
Estudou na Escola Normal Superior francesa, onde foi aluno de Jules Lachelier, e em seguida fez sua agregação em filosofia, tornando-se professor aos 23 anos e indo lecionar em liceus. Mais tarde concluiu o mestrado e o doutorado, terminando-o aos 29 anos, na Faculdade de Paris, com duas teses. A primeira, em francês, é sua obra-prima — uma tese revolucionária sobre a contingência das leis da natureza, cujas ideias centrais ocupam o coração desta aula. A segunda, mais tradicional, é uma tese em latim sobre as ideias eternas no pensamento de Descartes. Depois de se doutorar, Boutroux foi lecionar em universidades: primeiro em Montpellier, depois em Nancy, na Escola Normal Superior, até terminar na Sorbonne, já aos 40 anos. Nesse meio-tempo, casou-se com a irmã de Henri Poincaré, Aline Poincaré — sendo o próprio Poincaré outro pensador muito interessante da França do fim do século XIX e início do XX, de que se tratará em breve.
Boutroux é conhecido sobretudo pelas ideias fundamentais que desenvolveu já em seu doutorado, ideias particularmente fecundas para os dias de hoje. Tais ideias aparecem também numa outra obra, De l’idée de loi naturelle dans la science et la philosophie contemporaines (A ideia de lei natural na ciência e na filosofia contemporâneas), atualmente em processo de tradução. A edição utilizada nessa tradução é uma segunda edição, de 1925; a obra resulta de um curso ministrado na Sorbonne em 1892–1893, a partir das ideias fundamentais já desenvolvidas na tese.
Um moderno que rompe com a modernidade
O traço mais interessante de Boutroux é o seu caráter paradoxal: é um filósofo moderno que rompe com a filosofia moderna; formado na universidade iluminista, rompe com o iluminismo. Com isso, abre caminho para a filosofia do século XX em vários sentidos — na filosofia da ciência (inclusive influenciando filósofos da ciência norte-americanos), na metafísica e na filosofia moral. Suas ideias influenciam ainda o existencialismo francês e uma certa retomada e revalorização da metafísica.
Boutroux parte de uma rejeição radical de todo dogmatismo, que considera, literalmente, uma espécie de fechamento ou enclausuramento do espírito — esta é a expressão que ele emprega. É necessário ter uma certa abertura espiritual para o desconhecido, para o incerto, para o novo; é preciso estar aberto para o que não se conhece, e o dogmatismo impede essa abertura. Boutroux luta contra o dogmatismo em todas as suas vertentes modernas, como o próprio cientificismo — que era, por assim dizer, um ponto de partida quase necessário entre os filósofos franceses do século XIX, dada a influência enorme de Auguste Comte.
A crítica ao cientificismo
Boutroux afirmava que o cientificismo é o produto de uma confusão conceitual entre, de um lado, a observação das regularidades empíricas que a ciência faz e, de outro, a determinação dos princípios metafísicos que fundamentam essas regularidades. O cientificismo considera que tudo isso é evidente nas próprias observações, e que, por meio das observações empíricas, é possível ter acesso aos princípios que as regem. Boutroux responde que não é assim: o que se pode observar são apenas regularidades na natureza, mas não se observam os princípios a partir dos quais essas regularidades se produzem. Tais princípios são metafísicos — e o cientificismo evita a todo custo a aparência da metafísica, lutando contra ela. O cientificismo é a recusa explícita da filosofia, e portanto da metafísica, no campo da ciência. Mesmo tratando-se de uma posição filosófica, é uma posição filosófica que recusa a filosofia; uma posição metafísica que recusa a metafísica. O exemplo mais evidente é o próprio positivismo de Auguste Comte, que afirmava que o progresso do homem e da sociedade se encaminhava teleológica, necessária e deterministicamente na direção de uma perspectiva científica, devendo a perspectiva metafísica ser superada em benefício de uma ciência positiva.
O que Boutroux denuncia, com toda razão, é que toda ciência pressupõe certos pontos de partida — certos a priori — que não são científicos, mas metafísicos. A própria concepção de que existe uma uniformidade da natureza, de que as leis são sempre as mesmas em todos os lugares e em todos os tempos, de que o universo é uniforme e de que existe somente um nível de realidade: tudo isso é metafísica, pois nada disso pode ser provado empiricamente. Todavia, sem esses pressupostos a ciência moderna não se sustenta — e muito menos o cientificismo.
O cientificismo como reducionismo
Para Boutroux, o cientificismo é uma espécie de reducionismo, porque supõe que a ciência — que tem o seu valor — possa apresentar os caminhos e as respostas para todos os problemas da vida humana: não apenas os problemas científicos, mas também os morais, existenciais e políticos. A ciência seria, assim, a grande chave da libertação do homem, numa concepção que beira a tecnocracia, segundo a qual a ciência pode resolver, por meio da tecnologia, todos os nossos problemas.
Boutroux aponta que essa concepção é reducionista, porque há muitas dimensões da existência humana que não podem ser abordadas pela ciência — e porque há, inclusive, aspectos da própria ideologia científica que não são científicos, mas metafísicos. Certos âmbitos da vida humana escapam a toda possibilidade de positivação científica. A ciência não pode dar conta da liberdade do homem, nem da moralidade, nem da espiritualidade, nem da estética; não pode dar conta de um enorme e multivariado campo, na verdade de múltiplos campos enormes da nossa vida. Por isso, se dizemos que levamos em consideração a ciência em primeiro lugar para tomar nossas decisões existenciais, afetivas, morais e políticas, incorremos numa falha de pensamento — o reducionismo —, reduzindo toda a pluralidade da realidade a uma única dimensão. E a realidade, para Boutroux, é multidimensional.
É preciso, portanto, encontrar uma conciliação e um equilíbrio entre a ciência, a metafísica, a filosofia, a estética, a política, a moral e a religião: tudo isso tem o seu domínio na existência humana. Reduzir todos os domínios a um só — seja a religião, seja a ciência, seja a própria filosofia — é reduzir uma pluralidade constituída de campos irredutíveis entre si a uma unidade artificial; e, mais ainda, uma unidade que não funciona. A ciência não tem as respostas para todos os problemas: tem respostas provisórias e mutáveis. Há problemas especificamente científicos, mas ela não pode oferecer um guia político, uma orientação sobre o que fazer diante de uma guerra, de uma catástrofe natural ou de uma epidemia. Pode apresentar algumas linhas possíveis de atuação, mas dar à ciência a última palavra pode conduzir a uma catástrofe, porque a ciência não percebe as outras dimensões da existência — nem tem como percebê-las, pois não são seu objeto.
A crítica ao determinismo e o “demônio de Laplace”
Aqui entra um dos núcleos do pensamento de Boutroux: uma crítica severa e profunda à ideia, muito comum no século XIX, do determinismo científico. Estamos no século seguinte ao das Luzes, em que o determinismo da mecânica de Newton e o determinismo de Laplace propunham que a ciência poderia descobrir a cadeia completa de causas e efeitos necessários do universo. Esse determinismo era compreendido como o modelo de raciocínio e de explicação mais adequado, completo e perfeito para toda a existência humana e para todo o universo: a ideia de que seria possível encontrar uma explicação total, de modo que, se conseguíssemos explicar integralmente um determinado ponto do desenvolvimento do universo, poderíamos tanto remontar às suas causas primeiras quanto extrapolar e descobrir o futuro de todas as coisas.
Essa fantasia tem um nome — o “demônio de Laplace” — e era tida como uma possibilidade real. A visão mecanicista de mundo a toma como possível: o único problema seria descrever o estado atual das coisas de modo completo; conseguindo-o, poderíamos tanto remontar ao início quanto extrapolar até o fim de tudo o que existe. Essa ideia é destroçada por Boutroux, que aponta, com toda evidência, que há aspectos da realidade que não são deterministas e não seguem essa estrutura metafísica mecanicista — por exemplo, a liberdade humana, a liberdade do espírito, a criatividade e o próprio desenvolvimento da história. E aqui entra uma das teses de Boutroux: a possibilidade de uma evolução não linear das próprias leis da natureza.
A contingência das leis da natureza
Boutroux questiona até mesmo o princípio de uniformidade da natureza e o de progresso linear das leis naturais. Não temos como saber que as leis são imutáveis: elas podem ser contingentes, e não necessárias. Aqui ele enfrenta todo o programa racionalista da filosofia, que compreende as leis da natureza como as manifestações, no mundo, da própria racionalidade absoluta, que ordena e determina tudo o que existe. Boutroux afirma que não há nada seguro que nos leve à crença de que as leis naturais são imutáveis: elas podem mudar — quem disse que não podem? Podem, além disso, não ser necessárias, mas contingentes: talvez pudessem ser outras; talvez, em outro momento, tenham sido e venham a ser outras leis da natureza; e talvez haja exceções.
Boutroux posiciona-se, assim, de modo muito claro contra a concepção clássica e científica de que as leis são eternas, imutáveis, existentes desde o surgimento do universo e necessárias — de que não poderiam ser diferentes —, concepção segundo a qual essas leis exprimem o próprio ser da realidade, o próprio ser do universo, e constituem uma espécie de estrutura legal que rege toda a existência. Boutroux contesta: as leis podem evoluir, porque nada impede que evoluam; podem transformar-se, porque nada impede que se transformem; podem ser diferentes em lugares diferentes, porque nada impede isso; e podem dar lugar a exceções — pode acontecer algo que escapa às próprias leis da natureza. Os milagres, nesse sentido, são possíveis para Boutroux.
Cosmos contra universo
A posição de Boutroux questiona o núcleo metafísico da própria filosofia e da própria ciência na modernidade. Onde está esse núcleo? Na suposição metafísica de que vivemos num universo, e não num cosmos. Não se trata da mesma coisa; cosmos e universo não são sinônimos, mas dois conceitos muitíssimo diferentes e incompatíveis. O que é um cosmos? Um cosmos é uma ordem — em grego, cosmos significa ordem. Ao pensar num cosmos, pensa-se numa estrutura ordenada que tem diversos campos e níveis. O modelo de mundo de Aristóteles era um modelo cosmológico, em que, em diferentes lugares e níveis, havia diferentes ontologias: as coisas tinham um tipo de existência diferente em cada nível. É isso o que define o cosmos — uma pluralidade ontológica, em que, em lugares cosmológicos diferentes (no sentido sobretudo metafórico), há coisas com tipos de existência diferentes.
Assim, no sistema de Aristóteles, a existência de uma estrela é diferente da existência de uma pedra que se segura na mão: as leis que regem o funcionamento da estrela, a ontologia da estrela, são diferentes da ontologia da pedra — e ambas são diferentes do tipo de existência próprio do espírito humano, com suas ideias e sua imaginação, com seus unicórnios e seus deuses, que, todavia, existem, de certo modo.
Pode-se ampliar essa concepção. Considere-se, por exemplo, a existência de um Estado, o Brasil. A existência do Brasil é de natureza diferente daquela das estrelas e também de natureza diferente daquela da pedra. Brasil, estrela, pedra e unicórnio são regidos por leis que estabelecem tipos de existência muito distintos. Alguém poderia objetar: “mas o Brasil é uma coisa que eu vejo”. Ora, onde está o Brasil? Aponte-se o Brasil. Não será possível apontá-lo, porque o Brasil tem um tipo de existência que é o de uma instituição jurídica e, ao mesmo tempo, simbólica — do tipo daquelas que, se as pessoas deixam de acreditar, deixam de existir. Como todos os objetos jurídicos, se as pessoas deixam de acreditar que ele existe, ele deixa de existir imediatamente. Não se pode apontar para o Brasil; pode-se apontar uma montanha, o solo, uma terra e dizer “esta terra é o Brasil”, mas isso é terra, é um lugar, e não é sinônimo de Brasil. Por meio de uma aproximação simbólica, entende-se o que o outro diz ao afirmar “isto aqui é o Brasil”, mas trata-se de um raciocínio simbólico, mais do que tudo. É justamente uma ideia de cosmos — de uma organização da realidade em níveis de existência, com tipos de existência diferentes — que Boutroux defende.
Nesse sentido, Boutroux faz a crítica da concepção moderna de universo. Qual a diferença entre cosmos e universo? O cosmos é uma ordem com níveis de realidade; o universo é uma realidade única na qual tudo está sujeito a um único conjunto de leis. No universo não há níveis de realidade: há um único nível. Portanto, o universo não é um cosmos, e o cosmos não é um universo — são duas metafísicas muito diferentes: no cosmos há vários tipos de ontologia; no universo, somente um.
A “teoria do tudo” como mito
Essa concepção moderna da realidade — a do universo a partir de Galileu e Newton — é justamente o alvo dos ataques mais poderosos e sofisticados de Boutroux, que, na avaliação do professor, consegue de fato demonstrar o caráter simplório, a falta de sofisticação da ideia moderna de universo, e o engano do mito do princípio de uniformidade da natureza — o mito segundo o qual tudo está sujeito a um único conjunto de leis e a nós cabe apenas tentar descobri-lo. A ideia de uma “teoria do tudo” só faz sentido dentro da concepção de universo, e é na verdade um dos mitos fundantes da ciência moderna: a busca de uma fórmula matemática, ou de um conjunto de fórmulas matemáticas unificadas por uma teoria, que daria conta de tudo o que existe. Trata-se de uma fantasia — pueril e infantil, porém muito poderosa — que dá sustentação à visão cientificista do nosso tempo.
Mais ainda: trata-se de uma concepção metafísica no sentido forte, que todavia não se reconhece como metafísica e que se julga realista. É, porém, um realismo ingênuo, porque não percebe que ele próprio é metafísico — um realismo antimetafísico que, no fundo, é uma metafísica oculta, e uma metafísica simplória. É por isso também que Boutroux sustenta a necessidade de reabilitar a metafísica. Parafraseando Aristóteles, que afirmava que a filosofia é necessária porque, mesmo para negá-la, é preciso filosofar, pode-se dizer que a metafísica é necessária porque, mesmo para negá-la, é preciso fazer metafísica.
A relação dialética entre ciência e metafísica
Boutroux aponta, com muita precisão, que a ciência e a metafísica mantêm uma relação dialética e complementar. A ciência precisa da metafísica não só porque os seus princípios e fundamentos são metafísicos — e não podem ser verificados ou testados cientificamente —, mas também porque a ciência, no fundo, descreve como as coisas acontecem, mas é incapaz de descrever por que as coisas acontecem. O campo do porquê é o campo das causas, que remetem às causas primeiras ou últimas. Como demonstra Émile Meyerson — outro filósofo que será examinado em breve —, o campo do porquê é o campo da metafísica: o campo das explicações é metafísico, ao passo que o campo da descrição pode ser científico. A descrição pode ser ciência; a explicação, não — é metafísica.
Boutroux demonstra que a metafísica do universo, a metafísica reducionista da ciência, que é uma metafísica materialista, é de fato uma metafísica — e uma metafísica insuficiente. A metafísica materialista não dá conta de uma diversidade de coisas que conhecemos bem e que não são materiais. A matéria, para Boutroux, é um dos aspectos do real, mas não a totalidade da realidade, porque há níveis de realidade que transcendem a matéria. Eis uma de suas teses mais interessantes: existem níveis de realidade, e podemos acessá-los.
A refutação do reducionismo de Comte
A ideia de que existem níveis de realidade é um ataque direto à concepção de que existem leis naturais simples e universais — um ataque ao próprio universo, em defesa de um cosmos. Auguste Comte, em seu Curso de Filosofia Positiva, dizia que os fenômenos sociais podem ser reduzidos aos fenômenos psíquicos, que por sua vez podem ser reduzidos aos biológicos, estes aos químicos, e estes aos físicos. A física estaria, assim, na base de tudo: a física explicaria a química, a química explicaria a biologia, a biologia explicaria a psique e esta explicaria a sociedade.
O problema, como aponta Boutroux, é que cada nível de realidade tem o seu próprio grau de autonomia em relação aos outros e a sua própria ontologia. Os níveis físico, químico, biológico, psíquico e social são, no fim das contas, irredutíveis uns aos outros. Na biologia, por exemplo, os seres vivos não podem ser reduzidos meramente à sua composição química: a biologia não pode ser reduzida à química, porque há na vida certos princípios que não estão presentes nos compostos químicos — o princípio de auto-organização, o princípio de finalidade, a organização teleológica das coisas que visam a um fim. Nada disso está presente na química. Do mesmo modo, os fenômenos mentais — a criatividade, a liberdade, a moralidade, a cultura — não podem ser reduzidos a fenômenos biológicos ou neurológicos, porque os ultrapassam e têm princípios ausentes do nível ontológico meramente neurobiológico.
Cada nível de realidade precisa ser estudado em função de seus próprios princípios e a partir de seus próprios fundamentos ontológicos. Não se pode compreender um ser vivo simplesmente a partir da química, nem se pode compreender o que se faz numa aula — pensar, refletir — a partir simplesmente da biologia. Vale notar, aliás, que é por meio do espírito, da reflexão, que se chega à comprovação da existência, seja do universo, seja de um cosmos. Logo, a ideia de que se pode reduzir, em última instância, o pensamento e a reflexão a causas que remetem à própria física acaba sendo uma petição de princípio: é ilógico, não se pode fazer isso.
Os três grandes níveis de realidade
Para Boutroux, há, preliminarmente, três grandes níveis de realidade. Em primeiro lugar, o nível do mundo físico, das leis mecânicas e da causalidade. Em segundo lugar, o nível do mundo biológico, que tem a sua organização interna e a sua disposição estrutural em função de uma finalidade: é um mundo teleológico, que não se reduz ao mundo físico — há mais coisas nele. Em terceiro lugar, há o mundo moral, espiritual e da cultura, o mundo da liberdade, onde emergem a liberdade, a consciência, a criatividade, a arte, a filosofia e a própria ciência. Esses mundos têm normas, leis e princípios diferentes, e são irredutíveis uns aos outros: não se pode compreender um por meio dos princípios do outro. O mundo do materialismo é o mundo físico, mas não o biológico, e muito menos o espiritual. Portanto, a concepção materialista é reducionista e simplória.
Descrever e explicar: o Fédon, Anaxágoras e as neurociências
Isso é algo que o próprio Platão já põe na boca de Sócrates, no diálogo Fédon. Aguardando a morte na prisão, à espera da execução, Sócrates relata haver lido um livro de Anaxágoras, que era materialista e prometia explicar todas as coisas. Sócrates leu-o com muita atenção e empolgação — o que, aliás, significa que Sócrates não era analfabeto, ao contrário do absurdo que por vezes se ouve de certos professores. Ao final da leitura, porém, Sócrates entendeu que Anaxágoras não explicava nada: descrevia. Com sua descrição materialista, Anaxágoras conseguia realmente descrever os músculos de Sócrates, sua posição, a organização das coisas naquele quarto, naquela cela em que ele esperava a morte chegar. Mas Anaxágoras não conseguia explicar por que Sócrates não havia aceitado, no dia anterior, a oferta de Críton, que sugerira sua fuga. Críton, como se sabe, suborna os guardas da prisão para que permitissem a fuga de Sócrates — e Sócrates não foge, recusa-se a sair. Anaxágoras, portanto, não explica uma decisão moral; não explica a liberdade.
Trazendo a discussão para o nosso tempo: se fôssemos apenas animais darwinistas, que visam à própria sobrevivência e reprodução, todos nós seríamos, por assim dizer, psicopatas — estaríamos interessados somente no princípio do prazer, não mediríamos esforços para alcançá-lo e jamais nos sacrificaríamos por nada, porque o princípio maior seria a vida, a sobrevivência e a reprodução. Mas não é assim. Muitas vezes abrimos mão da vida, da reprodução, da sobrevivência e da permanência no mundo em nome de outras ideias, que não nos conduzem a mais vida, a mais sobrevivência ou a mais reprodução — pelo contrário. Há, portanto, uma dimensão do espírito que não pode absolutamente ser explicada nem por uma lei natural do mundo físico, nem por uma lei natural do mundo biológico, como o evolucionismo darwinista; uma dimensão que ultrapassa tudo isso. O homem não pode ser explicado por sua constituição material nem por sua constituição biológica — algo que já se demonstrava com Platão.
O mais interessante é que as pessoas que hoje supõem que as neurociências conseguem explicar o comportamento humano estão enganadas. As neurociências conseguem descrever o que acontece no cérebro — aí sim —, mas não explicar por que tomamos uma decisão e não outra, por que pensamos em algo e temos um acesso de criatividade, ou por que temos liberdade. Elas descrevem os mecanismos e os fenômenos que ocorrem quando tomamos uma decisão livre, mas não explicam por que somos livres nem por que tomamos aquela decisão. Há, enfim, muito mais coisas na existência humana do que podem alcançar a física, a biologia e, por extensão, as neurociências.
Antidogmatismo, anti-tecnocracia e a recusa do progresso garantido
A filosofia de Émile Boutroux é, em primeiro lugar, um antidogmatismo e um antirreducionismo: uma filosofia da abertura e da liberdade, que parte de uma metafísica do cosmos, isto é, de um pluralismo ontológico. Por ser contrária ao dogmatismo, ao reducionismo e ao determinismo, ela recusa peremptoriamente a ideia de um progresso determinado, pré-estabelecido e necessário — em qualquer âmbito, seja científico, tecnológico, político ou religioso. Boutroux afirma que o progresso nunca é garantido, que a evolução nunca é garantida: tudo depende das escolhas humanas, que são sempre livres e contingentes. Por isso, a tecnologia e a ciência não podem, por si mesmas, conduzir a uma melhoria da condição de vida do ser humano. A ideia de que, por meio da tecnologia, necessariamente melhoraremos de vida é também uma fantasia que não se sustenta, porque tudo depende do modo como nós — e principalmente as pessoas com mais poder na sociedade — utilizaremos essa tecnologia e guiaremos o seu desenvolvimento. Não há um desenvolvimento pré-estabelecido, não há um caminho único para a ciência, a tecnologia, a política, a sociedade, a economia ou o espírito.
Por isso, a filosofia de Boutroux é também uma filosofia anti-tecnocracia. O que é a tecnocracia? É a concepção de que a visão científica e tecnológica deve guiar a política. Boutroux é contra a tecnocracia pelas razões já vistas — porque é uma visão cientificista, e todo cientificismo é um reducionismo —, mas também porque nada garante que uma sociedade científica venha a melhorar as condições de vida do ser humano; pode muito bem piorá-las. A inovação tecnológica não soluciona por si os problemas políticos, sociais, ambientais ou econômicos. O progresso, a rigor, depende das nossas escolhas, e estas, mesmo com a melhor das intenções, podem conduzir a uma melhoria de vida, mas também a novas formas de alienação, de opressão, de dependência e de escravidão — pela nossa própria escolha bem-intencionada. Não há garantia de progresso nem de evolução; e aquilo que parece progresso e evolução pode ser o contrário, pode ser um retrocesso.
A lição fundamental: o absoluto é uma quimera
Essa é, segundo o professor, a lição fundamental de Boutroux. Não apenas toda a discussão filosófica em que ele se insere — discussão ampla e antiga, da oposição entre contingência e necessidade, entre cosmos e universo, entre liberdade e determinismo, e da pergunta sobre se as leis naturais são necessárias; toda a sua oposição ao racionalismo que, desde Descartes e Leibniz, afirma que as leis naturais são necessárias porque derivam da própria estrutura do universo. Mais do que isso, Boutroux nos conduz à sua recusa radical do dogmatismo e à sua defesa, igualmente radical, da abertura da inteligência e de uma pluralidade de regiões ontológicas na existência — e, portanto, à concepção de que não há nada pré-determinado nem pré-estabelecido, de que não há nenhum caminho que seja a priori o melhor, e de que todas as nossas escolhas podem nos conduzir a um lugar bastante diferente daquele que sonhávamos alcançar.
Essa concepção adverte contra a confiança injustificada em todo discurso tecnocrático e ensina que a ciência, mesmo com seu papel importante e sua necessária valorização, não dá a resposta para tudo: não é um bom guia para a política, para a moral nem para a vida. A ciência deve ser ouvida, valorizada, financiada e praticada — mas com consciência —, como a busca de um conhecimento que jamais poderá ser plenamente realizado, a busca de teorias cada vez melhores, porém sempre aproximações provisórias e contingentes, para que se possa entender um pouco melhor a natureza. Essas teorias provisórias não devem, todavia, ser compreendidas como propostas de realização universal do destino humano — porque o destino humano não existe. Não há destino, não há caminho pronto: nós fazemos o caminho, tanto individual quanto coletivamente, na nossa cidade, no nosso país e na humanidade, por meio de decisões livres, sempre limitadas à sua circunstância e a partir de uma visão que nunca é total nem absoluta. Pois, para Boutroux, na existência humana, o absoluto é uma quimera.
Glossário
Referências Bibliográficas
Émile Boutroux. De la contingence des lois de la nature(1874; tese de doutorado em francês)
Émile Boutroux. De Veritatibus aeternis apud Cartesium(1874)
Émile Boutroux. De l'idée de loi naturelle dans la science et la philosophie contemporaines(2ª ed., 1925; curso da Sorbonne de 1892–1893)
Auguste Comte. Curso de Filosofia Positiva(social→psíquico→biológico→químico→físico)
Platão. Fédon e Críton(recusa da fuga)
Mencionados: Jules Lachelier.
Émile Boutroux. De l'idée de loi naturelle dans la science et la philosophie contemporaines e Natural Law in Science and Philosophy(1895; trad. ingl. Natural Law in Science and Philosophy)
Émile Meyerson. Identité et réalité(1908)
Henri Bergson. L'Évolution créatrice(1907)
Verbete "Émile Boutroux". Stanford Encyclopedia of Philosophy e Dictionnaire des philosophes