Crítica ao livro 'Que Bobagem!' de Pasternak e Orsi
Sinopse
Nesta aula, o professor realiza uma análise crítica da obra 'Que Bobagem!', de Natalia Pasternak e Carlos Orsi. O argumento central é que, embora o livro se proponha a defender a ciência contra pseudociências, ele se baseia em concepções obsoletas de filosofia da ciência, especificamente o positivismo do século XIX e o falsificacionismo popperiano inicial. A aula percorre a evolução do pensamento epistemológico — passando por Gaston Bachelard, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend — para demonstrar como a ideia de um 'método científico universal' é um mito. O professor discute ainda o caráter religioso do cientificismo contemporâneo e a má compreensão dos autores sobre a metafísica e a filosofia platônica.
Pontos-Chave
Positivismo Contiano: Filosofia de Augusto Comte que influencia tacitamente a visão de ciência dos autores analisados, refletindo uma crença na ordem e no progresso científico como pilares sociais.
Falsificacionismo: Teoria de Karl Popper onde a ciência não avança por comprovação indutiva, mas pela tentativa de refutar (falsear) hipóteses dedutivas.
Incomensurabilidade de Paradigmas: Conceito de Thomas Kuhn indicando que diferentes modelos científicos (ou epistemes) operam com lógicas internas distintas, tornando impossível uma comparação qualitativa direta entre eles.
Anarquismo Epistemológico: Visão de Paul Feyerabend de que não existe um método científico único e rígido; a ciência é uma atividade humana permeada por política, retórica e interesses diversos.
Transcrição da Aula
O Espectro do Positivismo na Divulgação Científica
O professor inicia a análise da obra ‘Que Bobagem!’, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, descrevendo-a como um livro de leitura fluida, mas que agrupa categorias díspares — da psicanálise aos discos voadores — sob o rótulo de pseudociência. A tese central da aula é que a obra carece de profundidade em história e filosofia da ciência, baseando-se tacitamente em conceitos do século XIX e início do século XX. A principal referência não declarada é o positivismo de Augusto Comte. O professor ilustra a influência contiana no Brasil através da bandeira nacional, cujo lema ‘Ordem e Progresso’ é uma redução da máxima positivista ‘O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim’. Argumenta-se que os autores, assim como a tradição acadêmica brasileira herdada da influência francesa, operam sob um paradigma positivista que vê a ciência como a única fonte legítima de verdade, desconsiderando outras formas de conhecimento.
Popper e o Problema da Demarcação
A segunda grande influência identificada na obra é Karl Popper e seu critério de demarcação. O professor explica que, em ‘A Lógica da Pesquisa Científica’, Popper critica o método indutivo, propondo que a ciência opera por dedução e falseamento. Sob essa ótica, uma teoria só é científica se for refutável; o cientista deve buscar destruir sua própria hipótese, não comprová-la. A corroboração ocorre quando uma teoria sobrevive aos testes, mas isso não equivale a uma verdade definitiva. O professor aponta que Pasternak e Orsi utilizam esse critério de forma anacrônica para classificar a psicanálise como pseudociência, ignorando décadas de debates subsequentes que tornaram o critério de demarcação popperiano obsoleto ou insuficiente para dar conta da complexidade das diversas áreas científicas.
Kuhn, Paradigmas e a Chuva na Amazônia
Contrapondo-se à visão estática de método, o professor introduz Thomas Kuhn e a obra ‘A Estrutura das Revoluções Científicas’. Kuhn propõe que a ciência avança através de mudanças de paradigma que tornam os modelos anteriores incomensuráveis. Para ilustrar a colisão de racionalidades distintas, o professor narra um episódio ocorrido durante o governo FHC: diante de incêndios incontroláveis na Amazônia, o governo convocou pajés para realizarem a dança da chuva. Contra as previsões meteorológicas e para o escândalo da imprensa e da oposição, choveu torrencialmente após o ritual. O ponto crucial não é a defesa da magia, mas a interpretação do fenômeno: para os cientistas, foi um acaso estatístico; para os pajés, uma relação causal direta. O professor questiona se autores como Pasternak e Orsi não estariam cometendo o erro de julgar racionalidades alheias (como a medicina chinesa ou a psicanálise) exclusivamente pela lente de seu próprio paradigma, ignorando a validade funcional interna dessas outras epistemes.
Feyerabend e a Ciência como Religião
Avançando na crítica, aborda-se Paul Feyerabend e a obra ‘Contra o Método’. O professor explica que a ideia de um ‘método científico’ único e universal é um mito pedagógico. Na prática real dos laboratórios, a ciência mistura-se com política, economia, retórica e interesses privados. Ao defenderem um método purista que não existe na realidade, Pasternak e Orsi promovem uma visão idealizada e, paradoxalmente, religiosa da ciência. O professor critica severamente a associação feita pelos autores entre filosofia, metafísica e ‘pensamento mágico’, apontando uma incompreensão básica de Platão e da própria física teórica contemporânea (como a teoria das cordas ou o multiverso), que são essencialmente metafísicas. Conclui-se que o livro atua como uma obra de proselitismo de uma ‘religião cientificista’, onde o cientista ocupa o lugar do sacerdote e a dúvida filosófica é eliminada em favor de dogmas positivistas.
Glossário
Referências Bibliográficas
Natalia Pasternak e Carlos Orsi. Que Bobagem! Pseudociências e Outros Absurdos que Não Merecem Ser Levados a Sério
Karl Popper. A Lógica da Pesquisa Científica
Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas
Paul Feyerabend. Contra o Método
Alan Sokal e Jean Bricmont. Imposturas Intelectuais
Carl Sagan. Cosmos
Augusto Comte. Curso de Filosofia Positiva
Rubem Alves. Filosofia da Ciência: Introdução ao Jogo e suas Regras