Escola Eleata
Sinopse
Nesta aula, o professor explora as fundações da Escola Eleata, abordando as contribuições de Xenófanes, Parmênides e Zenão. A discussão inicia-se com questões metodológicas sobre a historiografia da filosofia, contrastando a visão aristotélica com a perspectiva heideggeriana dos 'filósofos originários'. O núcleo da aula examina a ruptura com o antropomorfismo religioso, a distinção conceitual entre Cosmos e Universo, e o estabelecimento do monismo ontológico — a tese de que a realidade é Una, Imóvel e Eterna. Por fim, analisam-se os paradoxos de Zenão e a noção de paralaxe como ferramentas para compreender a realidade sob a ótica do Logos, transcendendo a experiência sensorial imediata.
Pontos-Chave
Crítica ao Antropomorfismo: Xenófanes rejeita a atribuição de formas e comportamentos humanos aos deuses, propondo uma divindade única e imóvel.
Distinção Cosmos vs. Universo: Diferenciação entre Cosmos (ordem hierárquica de múltiplos níveis) e Universo (realidade unívoca e monista), antecipando a ciência moderna.
O Ser Necessário: Concepção de Parmênides de que o Ser é pleno, incriado e indestrutível, enquanto o Não-Ser é impensável e impossível.
Paralaxe Ontológica: A mudança de perspectiva do olhar humano (contingente e sensorial) para a visão do Logos (absoluta e eterna).
Paradoxos de Zenão: Argumentos lógicos contra a realidade do movimento e da pluralidade, demonstrando a incoerência do espaço-tempo divisível.
Transcrição da Aula
Metodologia Historiográfica: Dos Fisiólogos aos Originários
A investigação da filosofia antiga exige, preliminarmente, uma reflexão sobre o método historiográfico. Tradicionalmente, Aristóteles classifica os primeiros pensadores como ‘fisiólogos’, ou seja, estudiosos da physis (natureza). Contudo, o professor adverte que Aristóteles não realiza uma historiografia neutra, mas uma leitura ‘interessada’, projetando suas próprias categorias filosóficas sobre seus antecessores para demonstrar a evolução do pensamento até seu próprio sistema. Alternativamente, propõe-se a abordagem de Martin Heidegger, seguida pelo filósofo brasileiro Emmanuel Carneiro Leão, que classifica Anaximandro, Heráclito e Parmênides não como pré-socráticos, mas como ‘filósofos originários’. Estes pensadores buscariam a compreensão da origem através de um salto retrospectivo ao núcleo do pensamento, diferindo da visão linear e progressista da história que, influenciada pelo positivismo de Comte, enxerga uma mera superação do mito pelo logos.
Xenófanes de Colofão: A Teologia Racional e o Anti-Antropomorfismo
A Escola Eleata inicia-se, conceitualmente, com Xenófanes de Colofão e suas duas teses fundamentais. A primeira é uma crítica radical ao antropomorfismo religioso presente em Homero e Hesíodo, que atribuíam aos deuses vícios humanos. Xenófanes argumenta através de uma analogia pedagógica: se cavalos ou leões pudessem criar obras de arte, desenhariam deuses com a forma de cavalos e leões; da mesma forma, etíopes concebem deuses negros e trácios, deuses ruivos. Contrapondo-se a isso, ele postula um Deus único, onisciente e, crucialmente, imóvel. Este Deus ‘move tudo sem se mover’, inaugurando uma visão teológica onde a divindade é absoluta e não sujeita às paixões ou contingências humanas. Essa concepção carrega uma dimensão trágica, pois um Deus absoluto e não-humano não oferece a salvação no sentido reconfortante e pessoal, distanciando-se da experiência afetiva humana.
Do Cosmos ao Universo: A Gênese do Monismo
A segunda tese de Xenófanes introduz uma distinção terminológica vital entre ‘Cosmos’ e ‘Universo’, frequentemente confundidos na linguagem coloquial, mas distintos filosoficamente. O Cosmos refere-se a uma ordem hierárquica com diferentes níveis de realidade (como na visão medieval), enquanto o Universo implica uma ordem com um único nível de realidade, onde tudo é Um. O professor cita Alexandre Koyré e sua obra ‘Do Mundo Fechado ao Universo Infinito’ para ilustrar essa transição no Renascimento, mas aponta que a raiz dessa ideia reside nos eleatas. Ao propor que a realidade é um bloco único onde ‘tudo é tudo’ (ressonando com as homeomerias), Xenófanes lança as bases do monismo ontológico, que influenciará profundamente a metafísica ocidental, inclusive o dualismo cartesiano que, paradoxalmente, carrega princípios monistas em sua busca por substância.
A Ontologia de Parmênides: As Vias de Investigação
Parmênides aprofunda o monismo através de seu poema, narrado pela deusa Aletheia (Verdade). A tese central é que ‘o Ser é e o Não-Ser não é’. O Ser é caracterizado como incriado, imperecível e pleno, comparável à massividade de uma esfera perfeita. O professor discute a interpretação de Miguel Reale, que sugere a existência de três caminhos no poema: o da Verdade absoluta, o da Opinião (doxa) ilusória, e uma terceira via do ‘plausível’ ou verossímil (o caminho da ciência dos fenômenos). Embora interessante por tornar Parmênides menos obscuro, a leitura tradicional enfatiza a radicalidade da dicotomia: a realidade verdadeira é o Ser imóvel e eterno, enquanto o mundo do movimento e da mudança pertence ao domínio da aparência enganosa.
Paralaxe e os Paradoxos de Zenão
A negação do movimento pelos eleatas parece, à primeira vista, uma afronta ao senso comum. Para elucidar essa questão, o professor introduz o conceito de ‘paralaxe’: a alteração da percepção de um objeto dependendo da posição do observador. Utiliza-se o exemplo prático do ‘bandeirinha’ no futebol, que, sem o auxílio do VAR, pode julgar incorretamente um impedimento dependendo de seu ângulo de visão. O que Parmênides e seu discípulo Zenão propõem é uma mudança radical de paralaxe: abandonar a perspectiva humana (sensorial, temporal) para adotar a perspectiva do Logos (divina, eterna). Sob a ótica do absoluto, o movimento é impossível, pois implicaria a passagem do Ser para o Não-Ser. Zenão ilustra isso com o paradoxo de Aquiles e a tartaruga, demonstrando que a divisibilidade infinita do espaço e do tempo torna o movimento logicamente inviável. Não se trata de negar a experiência empírica de andar, mas de afirmar que, no nível da realidade última, o movimento é uma ilusão.
A Participação Humana no Nous
A proposta eleata configura-se como um anti-humanismo ou anti-antropocentrismo, exigindo que o homem pense para além de sua condição animal. Isso é possível, argumenta-se, porque o ser humano participa do Nous (Intelecto/Espírito). De forma análoga à tradição judaico-cristã que vê o homem como imagem e semelhança de Deus, a filosofia grega sugere que a inteligência humana é uma fração da inteligência universal. Portanto, somos capazes de ascender ao pensamento transcendental. Ao adotar a visão do Logos, as contradições e aporias do mundo sensível se dissolvem, revelando a unidade imóvel da realidade subjacente.
Glossário
Referências Bibliográficas
Xenófanes de Colofão. Fragmentos
Parmênides de Eleia. Sobre a Natureza(Poema)
Martin Heidegger. Conceitos Fundamentais da Metafísica(implícito no conceito de filósofos originários)
Emmanuel Carneiro Leão. Aprendendo a Pensar(contexto geral da obra do autor)
Alexandre Koyré. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito
Miguel Reale. História da Filosofia Antiga
Platão. Parmênides
Werner Jaeger. Paideia: A Formação do Homem Grego
Giovanni Reale. História da Filosofia Grega e Romana