Sinopse

Nesta aula, gravada no fim de semana de carnaval de 2025, o professor Gustavo Bertoche resgata Léon Brunschvicg (1869–1944), um dos maiores representantes do idealismo francês da primeira metade do século XX, hoje injustamente esquecido. Após situar Brunschvicg no "período de ouro" da educação francesa pós-guerra franco-prussiana (a "república dos bolsistas") e reconstruir sua trajetória — professor da Sorbonne por três décadas, mestre de uma geração (Cavaillès, Raymond Aron, Simone de Beauvoir, Bachelard), feminista e defensor dos direitos humanos, atacado pelo comunista Paul Nizan como "cão de guarda" da burguesia —, a exposição abre uma longa digressão sobre a distinção entre conceito e valor aplicada aos termos "direita" e "esquerda", mostrando como deixaram de ser conceitos científicos para se tornarem valores afetivos e propaganda. O núcleo filosófico é o idealismo crítico de Brunschvicg: a razão não é uma faculdade passiva que descobre verdades prontas, mas uma atividade dinâmica que constrói progressivamente a realidade do conhecimento. Daí a tese central — a história do conhecimento é a história do progresso da consciência, indissociável nos campos da filosofia, da matemática e da ciência. Brunschvicg supera Kant ao mostrar que as próprias formas a priori da intuição e do entendimento não são imutáveis, mas se transformam historicamente com a ciência (das geometrias não euclidianas à física quântica), abolindo a "coisa em si" e a separação rígida entre sujeito e objeto. A aula encerra com a dimensão ético-política implícita: o progresso da consciência não é garantido nem teleológico, mas depende de um esforço civilizacional — liberdade de pensamento, espírito crítico e educação libertadora.

Pontos-Chave

  • Brunschvicg, o filósofo esquecido: francês (1869–1944), um dos maiores representantes do idealismo francês do século XX; professor da Sorbonne por trinta anos, mestre de uma geração (Cavaillès, Raymond Aron, Simone de Beauvoir, Bachelard), com fama comparável à de Bergson.

  • A "república dos bolsistas": Brunschvicg é fruto do período de ouro da educação francesa pós-guerra franco-prussiana, em que bolsas para pobres e camponeses produziram uma geração letrada extraordinária (os soldados que escreviam cartas de valor literário).

  • Feminista e humanista: casou-se com Cécile Brunschvicg (feminista importante), foi membro da Liga dos Direitos Humanos e defensor do sufrágio feminino; atacado pelo comunista Paul Nizan, em Os Cães de Guarda, como "cão de guarda" da ideologia burguesa por não ser marxista.

  • Direita e esquerda: conceito × valor: os termos nasceram conceitos precisos na Assembleia da Revolução Francesa, mas tornaram-se valores afetivos e imprecisos; a "esquerda" universalista dos anos 1950 é hoje antípoda da "esquerda" identitária — sinal de que viraram propaganda, não ciência política.

  • Idealismo crítico: a razão não é faculdade passiva que descobre fatos prontos, mas atividade dinâmica que constrói progressivamente a realidade do conhecimento; Brunschvicg afasta-se tanto do idealismo dogmático quanto do empirismo positivista.

  • A unidade do saber: filosofia, matemática e ciência constituem um único campo indissociável; nisso Brunschvicg reaproxima-se dos antigos (a Academia de Platão, Newton e Galileu como "filósofos da natureza").

  • A história como progresso da consciência: a história da filosofia não é uma sucessão de sistemas, mas um processo vivo em que a consciência se eleva; o objeto do conhecimento não é um dado, mas é constituído no progresso da própria consciência (O Progresso da Consciência na Filosofia Ocidental).

  • A superação de Kant: Kant está certo ao descobrir as formas a priori da intuição (espaço e tempo) e as categorias do entendimento, mas erra ao tomá-las como imutáveis; para Brunschvicg, elas se transformam historicamente com a ciência e a matemática.

  • A matemática como paradigma: em As Etapas da Filosofia Matemática, Brunschvicg mostra que a matemática não é um conjunto de verdades atemporais (da geometria euclidiana às não euclidianas, da física mecanicista à quântica), mas a capacidade da razão de revisar e ampliar a própria estrutura.

  • A abolição da coisa em si e a dimensão política: pensamento e realidade são uma unidade indissociável que se transforma mutuamente, tornando desnecessária a distinção kantiana entre fenômeno e númeno. E o progresso da consciência não é garantido nem teleológico: depende de liberdade, espírito crítico e educação — um esforço civilizacional.

Transcrição da Aula

Brunschvicg e o período de ouro da educação francesa

A aula resgata Léon Brunschvicg, um dos maiores representantes do idealismo francês na primeira metade do século XX, mas pouco estudado no Brasil — um daqueles filósofos valiosos, de reflexões profundas, esquecidos pela tradição. Brunschvicg nasceu nas cercanias de Paris, em família judia, em 1869, e morreu em 1944. Estudou em grandes escolas, teve educação esmerada e foi colega de turma de grandes pensadores, inclusive Marcel Proust. Trata-se de um período de ouro da educação francesa: após a derrota na guerra franco-prussiana, a França reformulou sua base educacional, estabelecendo uma grande quantidade de bolsas para que camponeses e pobres frequentassem a escola e a universidade — a “república dos bolsistas”. O resultado foi uma república de letras: quando os alemães encontravam as cartas dos soldados franceses caídos na Primeira Guerra, surpreendiam-se com seu valor literário. (O professor menciona ter escrito um artigo sobre como essa transformação curricular produziu uma geração extraordinária de filósofos franceses.)

Aos 25 anos, Brunschvicg tornou-se professor no liceu de Rouen; aos 27, defendeu suas duas teses de doutorado: a primeira, em francês, A Modalidade do Juízo; a segunda, em latim, sobre o caráter metafísico do silogismo em Aristóteles. Casou-se aos 29 com Cécile Brunschvicg (nascida Cécile Kahn), feminista importante daquele tempo — e foi justamente o feminismo que os aproximou, pois o próprio Brunschvicg era feminista ativo, membro da Liga dos Direitos Humanos e da liga pelo sufrágio universal, defensor dos direitos das mulheres e dos direitos humanos, um homem imbuído dos ideais iluministas. Em 1909, tornou-se professor na Sorbonne, onde ficou trinta anos, até a Segunda Guerra, tornando-se um dos maiores professores de filosofia da França, com fama comparável à de Bergson — procurado pelos alunos por seu conhecimento da história da filosofia, da matemática e das ciências naturais, e por sua posição política. Orientou (como “diretor de tese”, à maneira francesa) toda uma geração: Jean Cavaillès, Raymond Aron, Simone de Beauvoir, Gaston Bachelard. No início da Segunda Guerra, para fugir da ocupação alemã, abandonou Paris e escondeu-se no interior com a esposa, onde morreu em 1944, sem que a imprensa noticiasse — já não era um homem de seu tempo, e havia questões mais urgentes na ordem do dia.

A polêmica com Paul Nizan e a digressão sobre direita e esquerda

Brunschvicg envolveu-se na polêmica de um livro de sucesso de 1932, Os Cães de Guarda, de Paul Nizan, intelectual comunista que denunciava os professores de filosofia franceses não comunistas como “cães de guarda” da ideologia burguesa — entre eles Bergson, Boutroux, Brunschvicg, André Lalande, Gabriel Marcel e Jacques Maritain. Para Nizan, só era aceitável que um filósofo fosse comunista ou marxista — o que não era, absolutamente, o caso de Brunschvicg. Ainda assim, se fosse possível posicioná-lo anacronicamente no espectro político, Brunschvicg estaria à esquerda: feminista, defensor do voto feminino e dos direitos humanos — mas não marxista.

Aqui o professor abre uma digressão sobre as denominações “direita” e “esquerda”. Elas surgem na Assembleia Nacional da Revolução Francesa — os partidários da Revolução sentavam-se à esquerda, os conservadores à direita —, e a nomenclatura “pegou”. Mas essa denominação só é científica e exata no contexto da Revolução Francesa; para todos os outros contextos, faz-se uma adaptação imprecisa, tanto mais imprecisa quanto mais se afasta de 1789. Hoje, em 2025 — quando o professor grava a aula, no fim de semana de carnaval, dia 2 de março de 2025 —, só se pode referir à direita e à esquerda de modo metonímico: há algo do contexto original que permanece, mas essas posições estão, em muitos sentidos, invertidas, e do ponto de vista de uma definição científica já não servem para nada. Direita e esquerda já não são conceitos: são valores, o que é muito diferente, e significam o que quer que se deseje, variando o significado conforme quem os diz, onde e quando.

A esquerda de 1950 aproximava-se de um universalismo da luta dos trabalhadores e dos oprimidos contra os opressores, contra o liberalismo e o imperialismo. Hoje, a esquerda posiciona-se com categorias inversas, evitando o universalismo e buscando os identitarismos — valorizando divisões internas baseadas nos desejos sexuais, na cor da pele, no modo como a pessoa se sente. É uma posição antípoda da de 60 ou 70 anos atrás. Nos anos 1950, a esquerda considerava as posições hoje chamadas identitárias como expressões do idealismo burguês: não importava a cor da pele nem a orientação sexual do sujeito; o que importava é que o trabalhador é oprimido, e nessa opressão todos são iguais — não se deviam produzir divisões internas na classe oprimida, pois só interessam ao opressor. Quem dissesse o contrário seria, para o esquerdista de 1950, um inimigo da Revolução, um fantoche da ideologia burguesa. Isso mostra que a nomenclatura esquerda-direita não tem nada de científica: diz respeito a valores, não a conceitos da ciência política, e funciona como centro afetivo que reúne um grupo em torno de gatilhos verbais, palavras de ordem e chavões — não ciência, mas propaganda que provoca a ausência do pensamento. É interessante, pois, que em 1932 um marxista (Nizan) acusasse um defensor dos direitos das mulheres e dos direitos humanos (Brunschvicg) de ser um “cão de guarda” da burguesia.

O idealismo crítico e a unidade do saber

A filosofia de Brunschvicg é um dos momentos mais sofisticados do idealismo crítico no século XX — o idealismo crítico que deriva de Kant. Brunschvicg realiza uma síntese entre a epistemologia kantiana, a tradição racionalista francesa de Descartes e os avanços da ciência moderna. É um filósofo de síntese, de uma filosofia da consciência em progresso: busca compreender o desenvolvimento do espírito humano como uma transformação contínua. Afasta-se tanto do idealismo dogmático quanto do empirismo positivista, pois entende que a razão não é uma faculdade passiva que descobre verdades previamente estabelecidas, apreende dados ou fatos. Pelo contrário, a razão é uma atividade dinâmica que constrói progressivamente a própria realidade do ponto de vista intelectual e científico.

O núcleo de seu pensamento: a história da filosofia não é uma sucessão de sistemas, mas um processo vivo em que a consciência se eleva a novos patamares de compreensão — o que se reflete também na matemática e na ciência. E aqui há algo notável: para Brunschvicg, filosofia, matemática e ciência constituem uma unidade indissociável, um único campo. Nisso ele se reaproxima dos antigos, que não distinguiam matemática, filosofia e ciência: no pórtico da Academia de Platão estava escrito que não entrasse quem não soubesse geometria, e a própria palavra “cientista” não existia até o fim do século XVIII — Newton e Galileu diziam-se matemáticos e filósofos da natureza.

A história como progresso da consciência

O ponto de partida de Brunschvicg é que a história do conhecimento é a história do progresso da consciência: o conhecimento matemático, científico e filosófico corresponde à ampliação da consciência humana. Isso fica claro em seu livro O Progresso da Consciência na Filosofia Ocidental, em que traça uma genealogia do pensamento filosófico da antiguidade ao seu tempo, mostrando que a consciência não reflete a realidade — antes, transforma-se e aperfeiçoa-se ao longo do tempo, por uma crescente emancipação do pensamento em relação às formas fixas e dogmáticas de apreensão do real. A consciência vai criando a própria realidade do conhecimento, pois transforma o modo de conhecer tudo: o objeto científico, matemático ou filosófico não é um dado, mas é constituído no progresso da consciência. Assim, a filosofia grega instaura o pensamento racional, reflexivo e crítico em substituição ao pensamento mitológico e dogmático — o primeiro grande salto da consciência. Mas é só com a revolução científica (Galileu, Kepler, Newton) e, sobretudo, com Descartes e Kant que a razão adquire autonomia real.

Brunschvicg vê em Descartes o momento em que a razão se reconhece como instância suprema da verdade: no cogito, a razão estabelece a si mesma como ponto de partida de todo conhecimento. Embora Descartes recorra à ideia de Deus para justificar a existência das coisas para além do solipsismo, essa ideia de Deus é garantida pela razão — no fundo, é a própria razão que se sustenta a si mesma. Em Kant, Brunschvicg enxerga a descoberta de que essa razão é condicionada por suas próprias formas a priori: as formas da intuição (o espaço e o tempo, que estão em nós, não no mundo) e as categorias a priori do entendimento, que estabelecem a possibilidade de compreender as coisas. Mas — e aqui está a tese decisiva — Kant não percebe que essas formas a priori não são imutáveis. Para Kant, eram imutáveis; para Brunschvicg, desenvolvem-se historicamente e acompanham a evolução da ciência e da matemática.

Daí a outra grande tese: a matemática é o paradigma da racionalidade e o exemplo mais claro do progresso da consciência. Em As Etapas da Filosofia Matemática, Brunschvicg faz a história da filosofia matemática desde Pitágoras e demonstra que a matemática não é um conjunto de verdades atemporais e a-históricas, mas um campo em constante transformação: a passagem da geometria euclidiana para as não euclidianas, da álgebra clássica para a abstrata, da física mecanicista para a relativista e a quântica — tudo isso mostra a capacidade da razão de revisitar e ampliar a própria estrutura, o que Kant não percebera. Brunschvicg é, portanto, um defensor da ideia de uma razão que se transforma — tese que o torna alvo da crítica de Julien Benda (em Sobre Algumas Constantes no Pensamento Humano, comentada na aula anterior). Brunschvicg, Bachelard e outros defendem que o espírito humano se transforma com o progresso da ciência e da matemática.

Brunschvicg opõe-se a qualquer concepção estática do conhecimento, seja o dogmatismo metafísico (que pretende estabelecer verdades eternas), seja o positivismo (que vê a ciência como mera acumulação de fatos empíricos). Para o positivismo de Comte, o propósito da ciência não é explicar, mas descrever — pois toda explicação é metafísica, e Comte via na metafísica o sinal de um pensamento atrasado, situando-a numa etapa anterior à do pensamento positivo. Para Brunschvicg, isso não faz sentido: na ciência e na física modernas existe metafísica, e física, matemática e filosofia (a metafísica como filosofia de fundo que sustenta as teses da física) são inseparáveis. A metafísica é incontornável — como Aristóteles já sabia, com sua provocação de que, até para negar a necessidade da filosofia, é preciso fazer filosofia. (O termo “metafísica”, aliás, não foi usado por Aristóteles, mas criado por Andrônico de Rodes, ao sistematizar seus livros e nomear “metafísica” o conjunto que vinha “além da física”.)

Idealismo, a abolição da coisa em si e a relação sujeito-objeto

Para Brunschvicg, o verdadeiro conhecimento corresponde à compreensão de que a própria verdade é um processo em aberto, no qual a razão se refaz continuamente, reformula suas premissas e amplia seu horizonte conceitual. O conhecimento não é uma meta, mas a própria caminhada que se reconstitui a cada passo. Isso permite classificá-lo como idealista — idealismo não no sentido de ter um ideal de sociedade, mas na concepção de que o mundo é, de certo modo, minha ideia. Kant é idealista (idealismo transcendental): toda a realidade que percebemos, o mundo humano, é constituída dentro do homem, a partir de suas formas a priori; não sabemos como é o mundo “lá fora”, sabemos que o nosso mundo é propriamente humano. Brunschvicg acompanha Kant plenamente nessa tese: o conhecimento é uma construção humana e não diz respeito ao “fato em si”, porque não existem fatos em si — todos os fatos já são construções humanas, dentro do contexto histórico e da estrutura cognitiva do ser humano.

Esse idealismo é uma recusa tanto do realismo ingênuo (segundo o qual o mundo é constituído de fatos prontos a que só nos resta ter acesso) quanto do subjetivismo absoluto (segundo o qual o mundo é completamente constituído pela minha cabeça — “se eu acho que sou um coelho de pelúcia, então sou, e as pessoas têm de aceitar”). Para Brunschvicg, ambas as posições são absurdas; seu racionalismo encontra-se no meio: o conhecimento não é cópia do real, mas tampouco construção arbitrária do sujeito — é uma criação progressiva da razão, que se dá pela interação entre a experiência humana e as formas intelectuais que a enquadram. Mas essas formas, diferentemente do que cria Kant, estão em constante transformação. A experiência empírica não é a realidade em si, pois já é mediada por nossas possibilidades cognitivas, e é conformada por uma razão que se transforma historicamente.

Brunschvicg segue Kant até certo ponto e se afasta do kantismo tradicional, que conserva um dualismo entre sujeito e objeto. Ele aproxima-se de uma concepção dinâmica em que sujeito e objeto se transformam mutuamente: pensamento e realidade não são dois polos afastados, mas constituem uma unidade indissociável — o pensamento transforma a realidade e a realidade transforma o pensamento, a ponto de não se poder, na perspectiva humana, separá-los rigorosamente. Nesse sentido, a distinção kantiana entre fenômeno e númeno (a coisa em si) torna-se desnecessária: o real não é algo dado independentemente do pensamento; não existe uma coisa em si. O real constitui-se à medida que a consciência progride em sua compreensão do mundo. Essa posição será depois acompanhada por Gaston Bachelard — o filósofo que o professor mais estudou (monografia, mestrado, doutorado, um livro e vários artigos) —, cujo ponto de partida é justamente a tese de que não há um mundo exterior fixo esperando para ser descoberto: o que existe é um mundo (um cosmos, no caso da poesia, ou um universo, no caso da ciência) cuja inteligibilidade se constrói e se refina pelo avanço da ciência, isto é, da própria consciência.

A dimensão ético-política: o progresso não é garantido

Essa imbricação indissociável entre pensamento e realidade tem consequências profundas para a compreensão da história e da cultura. A concepção de progresso da consciência implica que a humanidade não segue um caminho predeterminado nem teleológico. Há uma direção no pensamento humano, mas não um progresso no sentido moral ou tecnológico: é um refinamento da própria consciência em sua capacidade de compreender a realidade. As revoluções científicas e filosóficas e a sequência dos sistemas não são eventos isolados, mas etapas de um processo maior em que a razão se liberta progressivamente de suas limitações anteriores.

Essa visão, porém, não é um otimismo ingênuo: Brunschvicg reconhece que o avanço da razão não é linear nem garantido. E aqui está o ponto central, relevante para a nossa circunstância: o avanço da consciência depende da capacidade da humanidade de sustentar e ampliar o espírito crítico. Nisso Brunschvicg alinha-se a pensadores como Whitehead e Croce, que defendiam uma educação libertadora, de expansão dos horizontes da consciência. Sem isso, perdem-se os avanços e a consciência volta a se fechar — pois sua abertura não é garantida: requer uma circunstância social e política e um esforço educacional e cultural. A ampliação da consciência depende de um esforço deliberado, civilizacional.

A filosofia de Brunschvicg é, assim, um projeto de filosofia do conhecimento em movimento, cujo grande desafio é que esse progresso não seja interrompido por circunstâncias adversas. Por isso, embora seja uma filosofia da ciência, da matemática e da cultura, tem também um elemento político oculto e fundamental: é necessário constituir uma atmosfera política que favoreça esse progresso — uma atmosfera de liberdade e de livre pensamento, sem censura nem restrições ao que pode ou não ser pensado, que valorize a ciência, a matemática e a filosofia (pois está tudo ligado), para que a humanidade progrida, amplie o horizonte da consciência e veja mais longe. Brunschvicg é, nesse sentido, um dos filósofos esquecidos mais importantes do século XX — um filósofo pivotal, no meio de uma revolução política, científica e filosófica, de erudição impressionante, que precisa ser resgatado, relido e traduzido para o português.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Léon Brunschvicg. A Modalidade do Juízo e La Modalité du jugement(La Modalité du jugement, 1897)

  • Léon Brunschvicg. O Progresso da Consciência na Filosofia Ocidental e Le Progrès de la conscience dans la philosophie occidentale(Le Progrès de la conscience dans la philosophie occidentale, 1927)

  • Léon Brunschvicg. As Etapas da Filosofia Matemática e Les Étapes de la philosophie mathématique(Les Étapes de la philosophie mathématique, 1912)

  • Immanuel Kant (as formas *a priori* da intuição e do entendimento); René Descartes (o *cogito*); Auguste Comte (o positivismo. (as formas a priori da intuição e do entendimento)

  • Paul Nizan. Os Cães de Guarda e Les Chiens de garde(Les Chiens de garde, 1932)

  • Julien Benda. Sobre Algumas Constantes no Pensamento Humano(crítica a Brunschvicg; continuador da tese da razão em transformação)

  • Aristóteles e Andrônico de Rodes (a origem do termo "metafísica"). (a origem do termo "metafísica")

  • Gaston Bachelard. O Novo Espírito Científico

  • Léon Brunschvicg. A Experiência Humana e a Causalidade Física

  • Ernst Cassirer. O Problema do Conhecimento(a ser tratada adiante no curso)

  • Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas