Nicolau de Cusa
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Nicolau de Cusa (1401–1464) como uma das figuras pivotais do Renascimento, seguindo a tese de Ernst Cassirer. Polímata e alto membro da hierarquia eclesiástica, Cusa destaca-se tanto por seu pioneirismo no diálogo inter-religioso quanto por sua obra-prima metafísica, A Douta Ignorância. A exposição reconstrói o núcleo do seu pensamento: a ignorância esclarecida como ponto de partida seguro do conhecimento (antecipando Descartes), a ontologia neoplatônica do Uno absoluto, a doutrina da coincidência dos opostos e o uso da matemática como símbolo do divino. A aula culmina em uma tese de filosofia da ciência de grande alcance: a de que a ciência natural moderna, ao buscar a "teoria de tudo", permanece sendo uma investigação metafísica do Uno — uma espécie de teologia que apenas omite o nome de Deus.
Pontos-Chave
Douta Ignorância: Retomada da ignorância socrática como reconhecimento dos limites do próprio conhecimento; ponto de partida seguro e lógico para todo saber, antecipando a busca cartesiana por um fundamento indubitável.
Ontologia do Uno: Deus é o Uno absoluto de Plotino — o próprio ser, que está em todas as coisas e é tudo, mas do qual as criaturas apenas participam, sem com ele se identificar.
Coincidência dos Opostos: Em Deus, o máximo é idêntico ao mínimo; aquilo que é tudo é, ao mesmo tempo, nada, pois o ser puro não tem qualidade alguma e está mais próximo do nada do que de qualquer coisa.
Matemática como Símbolo: Em chave pitagórica, o universo é imagem de Deus e sua proporção oculta só pode ser acessada por meio de símbolos matemáticos e geométricos.
Ciência como Teologia Laica: A ciência natural moderna mantém o projeto metafísico de investigar o Uno fundamental; ao substituir "Deus" por "universo", continua fazendo teologia sem nomeá-la.
Diálogo Inter-religioso: Antecipando-se ao seu tempo, Cusa sustentou que todas as religiões convergem para um único núcleo de verdade, imaginando um "parlamento das religiões".
Transcrição da Aula
Um Gênio do Renascimento: Biografia e Trajetória
Nicolau de Cusa nasceu em 1401 e morreu em 1464, configurando-se como um autêntico gênio do Renascimento, simultaneamente teórico e prático. Embora alemão, foi um dos principais nomes do humanismo nascente na Itália. Sua condição de polímata abrangia os papéis de matemático, inventor, jurista, astrônomo, filósofo, teólogo e enviado especial do Papa. Após doutorar-se em Direito Canônico em Pádua, retornou à Alemanha, lecionou brevemente na Universidade de Colônia e dirigiu-se a Paris para estudar a obra de Raimundo Lúlio, tornando-se especialista em manuscritos medievais, dos quais recuperou e descobriu dezenas de exemplares importantíssimos.
Sua aproximação da cúria romana levou-o a integrar uma delegação enviada a Constantinopla com o propósito de reunificar a Igreja Oriental ortodoxa ao catolicismo romano — união que se concretizou por um breve período. Foi no trajeto de regresso a Itália, em uma embarcação, que Cusa relata ter tido uma iluminação mística, cujo fruto se encontra descrito em sua obra-prima, A Douta Ignorância (De docta ignorantia). Feito bispo e cardeal, chegou a ser preso por questões políticas por um príncipe alemão; libertado pouco depois, morreu enquanto acompanhava os preparativos de uma nova cruzada.
O Pioneirismo do Diálogo Inter-religioso
Um dos aspectos mais notáveis da atuação de Cusa no Renascimento diz respeito às relações inter-religiosas. Tendo escrito inclusive um livro sobre o islamismo e conhecendo as religiões judaica e islâmica, ele defendia que todas as religiões se reúnem em torno de um núcleo único de verdade, de modo que nenhuma delas estaria completamente equivocada. Chegou a imaginar que no céu poderia haver uma espécie de parlamento das religiões. Embora considerasse que a religião católica romana detinha a maior porção da verdade — posição esperada de um cardeal amigo do Papa —, concedia às demais religiões parcelas legítimas de verdade, abrindo espaço para o diálogo e a convivência. Tratava-se de uma posição extraordinária para a metade do século XV, antes mesmo do descobrimento do Brasil, sustentada de dentro da alta hierarquia da Igreja de Roma.
A Centralidade de Cusa segundo Cassirer
A importância de Cusa para a compreensão da época foi sublinhada pelo filósofo da cultura Ernst Cassirer, em seu livro Indivíduo e Cosmos na Filosofia do Renascimento, publicado no Brasil pela Martins Fontes. Nessa obra, Cassirer defende que Nicolau de Cusa é o pensador central e pivotal do Renascimento italiano, tese da qual outros filósofos discordam parcialmente, mas que deve ser mantida em mente, tanto no plano da filosofia quanto no das relações entre as religiões.
Um Fenômeno Sociológico: O Filósofo Fora da Universidade
A trajetória de Cusa, feita inteiramente dentro da Igreja e não da carreira acadêmica, ilustra um fenômeno sociológico que se tornaria cada vez mais frequente a partir do Renascimento: o de grandes filósofos atuando fora da cátedra universitária. Durante a Baixa Idade Média e o período da Escolástica, a vinculação à universidade era quase uma regra universal; raros eram os filósofos não ligados a uma cátedra. No Renascimento, ao contrário, multiplicam-se os pensadores independentes — bastando lembrar Descartes, Leibniz, Hobbes, Spinoza e John Locke, além de figuras como Maquiavel, e muitos outros que escreviam e se posicionavam dentro da tradição filosófica sem qualquer vínculo institucional.
O professor aproveita o ponto para uma crítica ao seu próprio tempo: hoje tende-se a identificar o filósofo com o professor de filosofia ligado a uma universidade, a tal ponto que publicar um artigo em um periódico especializado torna-se muito difícil para quem não está institucionalmente vinculado — seja como docente, pesquisador ou pós-graduando —, por maior que seja a qualidade do trabalho. Essa concepção contemporânea reaproxima-se, paradoxalmente, da imagem medieval do filósofo, ignorando que houve e há filósofos legítimos fora da universidade, ainda que constituam minoria.
O Método: Para Além da Escolástica
Tendo tido um período docente muito curto em Colônia e estando mais ligado à Igreja do que à universidade, Cusa não segue as práticas nem os métodos da Escolástica. Seus livros abandonam a metodologia da questão — com a apresentação de respostas possíveis, sua comparação e a escolha da melhor —, método que o professor reconhece como valiosíssimo para a filosofia. Em seu lugar, Cusa escreve ora sob a forma de diálogos, naturalmente influenciado por Platão, ora de modo mais livre e quase ensaístico. Trata-se de um pensador que, de algum modo, antecipou os grandes sistemas metafísicos da modernidade, embora não se deva lê-lo a partir da régua moderna, pois as questões ali colocadas são de outra ordem. A Douta Ignorância divide-se em três livros, dedicados respectivamente a Deus, ao universo e a Jesus. A obra chegou a ser informalmente acusada de panteísmo — e, portanto, de heresia —, mas Cusa, membro do alto clero, nunca foi oficialmente acusado nem teve sua obra incluída no Index.
A Douta Ignorância como Ponto de Partida Seguro
O conceito que dá nome à obra retoma um tema que remonta a Sócrates: a douta ignorância é a ignorância esclarecida, aquela que reconhece os limites do próprio conhecimento. O ignorante, aqui, não é quem nada sabe, mas quem tem consciência de saber algumas coisas e de ignorar muitas outras. É justamente o desejo de saber, que Cusa atribui expressamente ao homem, que conduz a essa ignorância esclarecida, a qual estabelece os limites dentro dos quais é possível ter certezas. Não se deve acreditar em tudo, nem mesmo nas autoridades filosóficas ou teológicas: é necessário partir de um conhecimento seguro e lógico. Nesse ponto, observa o professor, há uma clara antecipação de Descartes, que cerca de 150 anos depois buscaria igualmente um ponto de partida lógico e seguro como garantia da verdade. Para Cusa, o intelecto não atinge a verdade com precisão: não sabemos a verdade, sabemos apenas que ela é, em última instância, incompreensível.
A Matemática como Símbolo do Divino
A partir dessa constatação, e de modo aparentemente paradoxal, Cusa estabelece — pela lógica, pela matemática e pela geometria, usadas como símbolo — uma série de verdades acerca de Deus e do universo. As coisas visíveis são imagens do criador, de modo que Deus pode ser conhecido por meio de espelhos e enigmas: tudo o que pertence ao mundo divino pode ser investigado simbolicamente a partir das coisas do mundo da criatura. Todas as coisas possuem uma proporção que, embora oculta e de certo modo incompreensível, é acessível pelo símbolo — e o símbolo, para Cusa, é primeiramente o matemático e o geométrico. Nisso ele é absolutamente pitagórico, inscrevendo-se explicitamente na tradição de Pitágoras, dos platônicos, de Santo Agostinho e de Boécio, e afirmando que somente se pode chegar às coisas divinas por meio da matemática. Por essa via demonstra que Deus está para além da afirmação e da negação de todas as coisas, acima da mente e de toda inteligência, pois é a própria condição da existência.
A Ontologia do Uno
Deus é, para Cusa, o Uno absoluto — o mesmo Uno de Plotino, aqui resgatado. Ele é tudo e tudo está nele, mas as coisas não são esse Uno absoluto: elas apenas participam dele, pois é o Uno que lhes confere o ser. Esse Uno é o próprio ser, aquilo que dá a possibilidade de todas as coisas existirem. Daí a fórmula segundo a qual o Uno é ontológico, enquanto todas as coisas são ônticas. Surge, porém, um tema decisivo: um ser puro não é nada. Para descobrir esse Deus, Cusa propõe um caminho de subtração: se retirarmos de todos os seres a participação no ser — se tomarmos as criaturas e delas isolarmos o aspecto ôntico —, resta o ser puro, simplíssimo, e esse ser é Deus. Não se pode pensá-lo sob nenhuma forma, pois ele é a forma que dá forma a todas as formas, sendo, por isso, forma nenhuma.
A Coincidência dos Opostos e o Problema do Mal
É nesse contexto que se afirma a coincidência dos opostos, talvez a mais célebre das fórmulas de Cusa: o máximo é idêntico ao mínimo, porque aquilo que é tudo, ao mesmo tempo, nada é. Como dizia Boécio, retomado por Cusa, a intelecção de Deus está mais próxima do nada do que de alguma coisa. Esse Deus neoplatônico não tem qualidades: quando os teólogos afirmam que Deus é bom ou justo, Cusa, ao se excluir do grupo dos teólogos, deixa um forte indício de que para ele o puro ser não é bom nem justo nem coisa alguma, pois é super-substancial — não uma substância, mas a condição da existência de todas as substâncias, síntese de todas as coisas e até dos contrários.
Dessa metafísica decorre uma solução para o problema do mal, que Leibniz mais tarde tentaria resolver com a Teodiceia. Tudo o que existe e tudo o que acontece — façamos algo, façamos o contrário ou nada façamos — está implícito na providência divina e sustentado pelo ser. Onde o homem vê imperfeição — nos desastres naturais, na maldade humana, nas doenças, na morte de crianças —, não há realmente imperfeição, pois tal aparência é sustentada por uma perfeição infinita. O problema reside em nossa ignorância: como criaturas finitas no tempo, no espaço e na sabedoria, não conseguimos perceber a perfeição do todo. Assim, a intuição de Cusa dissolve o argumento clássico que pretende demonstrar a inexistência de Deus a partir do mal do mundo — o dilema segundo o qual, diante da criança que morre de câncer, Deus seria ou não onipotente ou não infinitamente bom. Para Cusa, trata-se de uma falsa questão, pois parte do pressuposto equivocado de que conheceríamos o bem e o mal de modo absoluto. Quem somos nós, criaturas limitadas, para julgar a perfeição ou a imperfeição do mundo? Existimos em Deus por participação, vivemos nele, mas não somos esse Deus, pois, se o fôssemos, estaríamos muito próximos do nada.
Finito e Infinito: O Universo como Imagem de Deus
Uma das primeiras ideias da obra é a impossibilidade de qualquer correlação entre o finito e o infinito: o finito jamais poderá compreender o infinito. Há aí uma ignorância de base, inescapável e necessária, na relação do finito diante do infinito. O que nos cabe é compreender a perfeição necessária do infinito e, a partir dessa douta ignorância, julgar as coisas tão proximamente quanto pudermos dessa concepção. Deus é a forma infinita participada por todas as criaturas, mas não se mistura com a criatura: a criatura participa de Deus, mas Deus não participa da criatura; é o limitado que participa do ilimitado, o finito que participa do infinito, sem que o infinito participe do finito. O conjunto de todas as coisas — o universo — é, portanto, imagem de Deus, mas não idêntico a ele: dela podemos compreender algo de Deus, jamais sua totalidade.
Anaxágoras, as Homeomerias e o Fédon
Para sustentar a ideia de que tudo está em tudo, Cusa retoma uma tese presente no Fédon de Platão. No diálogo, Sócrates, preso à espera da embarcação ritual que precederia sua execução, conta estar escrevendo poemas e lendo um livro de Anaxágoras — pois Sócrates não era analfabeto, apenas não escreveu livros. É de Anaxágoras a doutrina das homeomerias, segundo a qual tudo está em tudo, o imenso está no mínimo e o mínimo dá no imenso, havendo uma identidade essencial de todas as coisas em todas as coisas. Cusa retoma essa ideia para afirmar que esse Deus — não o Deus cristão, mas o Deus uno dos neoplatônicos, mais nada do que algo — está em todas as coisas, e todas as coisas participam dele, porque ele é o próprio ser de tudo.
A Ciência Moderna como Teologia Laica
A aula culmina em uma tese de grande alcance para a filosofia da ciência. A concepção do universo como imagem do absoluto, somada à retomada do pitagorismo, conduziu o homem renascentista a uma determinada visão da ciência: a de uma investigação que visa entender a estrutura da realidade — constituída por Deus — por meio de símbolos matemáticos e geométricos. Galileu, em O Ensaiador (Il Saggiatore), afirma justamente que o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos e geométricos, e que, para lê-lo, é preciso recorrer a tais símbolos. Nessa época, a filosofia inclui a ciência e diz respeito também ao conhecimento metafísico das causas primeiras, sendo impossível dissociá-la da investigação do Uno no qual todas as coisas participam, fonte de todo ser e de toda existência.
O argumento decisivo é que a ciência moderna mantém esse mesmo projeto até hoje, embora não utilize mais as palavras do contexto religioso e teológico. Ela não emprega a palavra “Deus”, mas continua usando a palavra “universo”. E o que é o universo senão aquilo que é constituído pelo ser e que dele participa, reduzido a uma única dimensão da realidade, comum a todos os seus elementos? Permanece, assim, a dicotomia entre o criador e a criatura, sendo o universo a criatura criada. Raros são os cientistas que percebem que, sob a concepção de um universo regido por um único conjunto geral de leis e forças, opera uma concepção metafísica de ordem fundada em uma unidade essencial, em um Uno primordial.
O professor ilustra a tese com Stephen Hawking, ateu declarado, que ao final de Uma Breve História do Tempo expressa a esperança de que os cientistas venham a descobrir a teoria de tudo, a equação fundamental do universo, afirmando que então finalmente conheceríamos “a mente de Deus”. É precisamente essa a metafísica que sustenta toda a concepção de universo. Dito claramente: do ponto de vista da história das ideias, a ciência contemporânea — em especial as ciências naturais, como a física, a cosmologia e a química — é uma espécie de teologia que não utiliza o nome de Deus, mas que, ainda assim, é teologia. A intuição fundamental de Cusa permanece válida, pois toda investigação científica é, no fundo, uma investigação realizada a partir de uma douta ignorância acerca desse Uno absoluto, causa última e objeto último de toda a ciência natural — mas não o Deus cristão.
Como já sabiam Tomás de Aquino e todos os filósofos que se depararam com a questão, há uma incompatibilidade entre o Deus metafísico necessário — a causa última, o Deus das cinco vias de Tomás de Aquino — e o Deus cristão. Segundo o próprio Aquino, só se pode saltar de um ao outro por meio da fé, pois não são a mesma coisa.
Glossário
Referências Bibliográficas
Nicolau de Cusa. A Douta Ignorância e De docta ignorantia(De docta ignorantia)
Ernst Cassirer. Indivíduo e Cosmos na Filosofia do Renascimento(Martins Fontes)
Platão. Fédon
Galileu Galilei. O Ensaiador e Il Saggiatore(Il Saggiatore)
Gottfried Wilhelm Leibniz. Teodiceia
Stephen Hawking. Uma Breve História do Tempo
Tomás de Aquino. Suma Teológica(as cinco vias)
Plotino. Enéadas(a doutrina do Uno)
Pseudo-Dionísio Areopagita. Teologia Mística(a via negativa)
Maurice de Gandillac. La philosophie de Nicolas de Cues
Karl Jaspers. Nicolau de Cusa