Sinopse

Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Edith Stein (1891–1942), uma das figuras mais extraordinárias do século XX: judia que se tornou filósofa fenomenóloga brilhante, converteu-se ao catolicismo, fez-se carmelita (irmã Teresa Benedita da Cruz) e morreu mártir em Auschwitz, sendo depois canonizada. Após reconstruir a trajetória — da infância judaica e do ateísmo adolescente ao encontro com a fenomenologia de Husserl, do doutorado sobre a empatia (a primeira mulher assistente de filosofia na Alemanha, com a habilitação negada por sexismo e antissemitismo) à conversão (marcada pela paz da viúva de Reinach e pela leitura da autobiografia de Santa Teresa d'Ávila), até a entrada no Carmelo e o martírio —, a exposição apresenta sua filosofia. Primeiro, a fenomenologia da empatia: a apreensão direta, mas não originária, da experiência do outro (nem projeção nem analogia), que revela o ser humano como constitutivamente aberto ao outro, contra o sujeito fechado de Descartes. Segundo, a antropologia da unidade corpo-psique-espírito e o conceito de "núcleo da pessoa" — o ser recebido ao mesmo tempo como dom e como tarefa. Terceiro, a filosofia da mulher: a igual dignidade ontológica na diferença, sem hierarquia, contra o machismo e contra um certo feminismo. Por fim, a síntese entre fenomenologia e mística — as descrições de Santa Teresa e São João da Cruz como fenomenologias rigorosas de realidades superiores — e sua última obra, A Ciência da Cruz: o conhecimento transformador adquirido pela purificação no sofrimento aceito por amor (a noite dos sentidos e a noite do espírito). A aula conclui com a atualidade de Stein: a unidade entre razão e fé, a urgência da empatia, a dignidade irredutível da pessoa e a sabedoria sobre o sofrimento.

Pontos-Chave

  • Uma vida de sínteses: Edith Stein (1891–1942), judia, filósofa fenomenóloga, convertida ao catolicismo, carmelita e mártir em Auschwitz, canonizada como Santa Teresa Benedita da Cruz — reunindo identidades aparentemente contraditórias numa síntese vivida.

  • Do ateísmo à fenomenologia: criança brilhante que abandonou a fé aos 13 anos por decisão consciente; descobriu a filosofia ao ler as Investigações Lógicas de Husserl e foi estudar fenomenologia em Göttingen, no círculo de Reinach e Scheler.

  • A tese sobre a empatia: doutorou-se em 1916 com uma tese inovadora — a empatia não é projeção nem analogia (contra Descartes e a psicologia da época), mas a apreensão direta, embora não originária, da experiência do outro como experiência dele.

  • A barreira na universidade: primeira mulher assistente de filosofia na Alemanha (de Husserl, em Freiburg), teve a habilitação para lecionar negada por sexismo e antissemitismo.

  • A conversão: preparada por anos de busca, foi precipitada pela paz sobrenatural da viúva de Adolf Reinach diante da morte (o primeiro encontro com a "força da cruz") e pela leitura, numa única noite, da autobiografia de Santa Teresa d'Ávila — "esta é a verdade".

  • A empatia e a intersubjetividade: o ser humano é ontologicamente aberto ao outro; a intersubjetividade está inscrita na estrutura da consciência, que sai de si sem deixar de ser si. Quanto mais autoconhecimento, mais capacidade de compreender o outro.

  • A antropologia da unidade: o ser humano é unidade de corpo, psique e espírito — não três partes, mas três dimensões; o corpo não é prisão (Platão) nem máquina (Descartes), mas corpo vivo e animado, campo de expressão do espírito encarnado.

  • O núcleo da pessoa: cada pessoa tem um núcleo individual e irrepetível — não só características diferentes, mas um modo único de vivê-las —, recebido como dom e, ao mesmo tempo, como tarefa a desenvolver.

  • A filosofia da mulher: igual dignidade ontológica na diferença, sem hierarquia; homem e mulher têm centros de gravidade distintos (a abstração e o domínio; a totalidade e o cuidado do ser vivo), mas são tendências, não absolutos — contra o machismo e contra o feminismo que nega as diferenças.

  • A ciência da cruz: síntese de fenomenologia e mística (as descrições de Santa Teresa e São João da Cruz como fenomenologias de realidades superiores); o conhecimento transformador pela purificação no sofrimento aceito por amor — a noite dos sentidos e a noite do espírito.

Transcrição da Aula

Uma vida extraordinária

A aula trata de uma das figuras mais extraordinárias do século XX: Edith Stein — mulher que nasceu judia, tornou-se filósofa brilhante, converteu-se ao catolicismo, viveu num Carmelo como carmelita e morreu mártir em Auschwitz, sendo canonizada pela Igreja Católica com o nome que escolhera ao entrar no Carmelo, Santa Teresa Benedita da Cruz. Como uma pessoa pode reunir tantas identidades aparentemente contraditórias — mulher, judia, filósofa, católica, santa, mártir —, sendo ao mesmo tempo uma fenomenóloga e uma mística contemplativa? É sobre esse mistério que a aula se debruça.

Edith Stein nasceu em 12 de outubro de 1891, em Breslau (então na Alemanha, hoje na Polônia), no dia do Yom Kippur, o Dia da Expiação judaica — sinal que sua mãe sempre considerou especial. Caçula de uma família judia praticante de onze filhos, perdeu o pai aos dois anos, ficando a mãe encarregada de criar sozinha a família numerosa e de administrar a empresa de madeiras. Desde cedo Edith mostrou inteligência extraordinária; criança questionadora, decidiu de forma consciente e deliberada, aos 13 anos, que não acreditava na existência de Deus — quem se tornaria uma das grandes místicas do século começou ateia. É preciso entender o contexto: era a época da grande assimilação dos judeus alemães, em que muitos intelectuais abraçavam o racionalismo iluminista ou alguma forma de cristianismo como caminho de sobrevivência e emancipação. A jovem Edith, brilhante, aproximou-se naturalmente do racionalismo — não por rebeldia adolescente superficial, mas por decisão intelectual consciente.

Em 1911, com cerca de 20 anos, ingressou na Universidade de Breslau, onde estudou germanística, psicologia e história; mas foi a filosofia que deu novo rumo à sua vida. Em 1913, leu pela primeira vez as Investigações Lógicas de Edmund Husserl e ficou tão impressionada que decidiu mudar-se para Göttingen, a fim de estudar fenomenologia com o próprio Husserl, então professor ali. Husserl desenvolvia naquele momento a fenomenologia — método que propunha “voltar às coisas mesmas”, descrevendo rigorosamente os fenômenos tais como se apresentam à consciência, em vez de construir sistemas abstratos. Para uma jovem inquieta em busca da verdade, isso era revolucionário. Em Göttingen, Edith encontrou não só o mestre, mas toda uma comunidade de jovens filósofos com uma nova abordagem do conhecimento, convivendo com Max Scheler e Adolf Reinach. Tornou-se uma das alunas mais destacadas de Husserl e defendeu, em 1916, sua tese de doutorado sobre o problema da empatia, aprovada com mérito e nota máxima. A tese era inovadora: enquanto a psicologia da época, seguindo Descartes, tentava explicar como conhecemos as outras mentes por analogia ou projeção, Edith mostrou que a empatia é um tipo especial e único de experiência da intencionalidade — quando vejo alguém sofrer, não projeto meu sofrimento, mas apreendo diretamente, de modo direto embora não originário, a experiência do outro como experiência dele. Trata-se de uma forma peculiar de conhecimento que nos abre para a alteridade, ultrapassando a concepção do sujeito atômico cartesiano.

Depois do doutorado, Edith Stein tornou-se assistente de Husserl em Freiburg — a primeira mulher a ocupar a posição de professora assistente de filosofia em toda a Alemanha. Mas logo descobriu as limitações impostas às mulheres: apesar da tese brilhante e do trabalho dedicado (ajudou a organizar os manuscritos de Husserl), teve negada a habilitação que lhe permitiria lecionar como professora, por duas razões — o sexismo e o antissemitismo da época.

A conversão

A conversão de Stein ao catolicismo é um dos eventos mais dramáticos de sua biografia. Aparentemente súbita, foi preparada por anos de busca interior, filosófica e mística. O primeiro abalo de seu ateísmo veio com a morte de seu amigo Adolf Reinach, na Primeira Guerra Mundial. Edith foi ajudar a viúva a organizar os manuscritos filosóficos dele, esperando encontrar uma mulher destruída pela dor — mas encontrou Anna Reinach transfigurada pela fé cristã, irradiando uma paz que vinha de sua união com Cristo. Stein escreveu, na autobiografia, que foi seu primeiro encontro com a cruz e com a força divina que ela confere a quem a carrega — a primeira vez que viu a Igreja, nascida da paixão redentora de Cristo, triunfar sobre a própria morte; o momento em que seu ateísmo ruiu e Cristo resplandeceu no mistério da cruz. Depois veio um momento decisivo: hospedada na casa de amigos, pegou por acaso a autobiografia de Santa Teresa d’Ávila, leu-a a noite inteira sem conseguir parar e, ao fechá-la pela manhã, disse a si mesma: “esta é a verdade”. Santa Teresa descrevia suas experiências místicas com a mesma precisão fenomenológica que Edith aprendera com Husserl, mas eram experiências de um encontro direto com Deus — e, para Edith, não eram fantasia nem autoilusão, mas, à luz da escola fenomenológica, descrições rigorosas de fenômenos reais, de uma ordem de realidade superior. Em 1º de janeiro de 1922, foi batizada na Igreja Católica, escolhendo o nome Teresa. A família judia ficou devastada — para a mãe, era como se Edith tivesse morrido —, e a ruptura foi definitiva e dolorosa; mas ela não podia negar a verdade que descobrira.

Em 1933, mesmo ano em que Hitler chegou ao poder, Edith finalmente entrou para o Carmelo, tornando-se a irmã Teresa Benedita da Cruz, no convento das Carmelitas em Colônia. Reconhecendo seu gênio filosófico, as superioras pediram que continuasse os trabalhos intelectuais, e ela escreveu no convento algumas de suas obras mais importantes. Com o aumento da perseguição aos judeus — mesmo os convertidos —, foi transferida para um convento na Holanda em 1938. Quando os bispos holandeses protestaram publicamente contra a deportação dos judeus, os nazistas retaliaram prendendo todos os católicos de origem judaica. Em 2 de agosto de 1942, a Gestapo chegou ao convento; Edith teve dez minutos para fazer a mala e, ao sair, disse à irmã Rosa (também judia convertida): “vem, vamos voltar para o nosso povo”. Testemunhas que sobreviveram relataram que, no campo de trânsito de Westerbork, enquanto as outras mães, com crianças pequenas, estavam paralisadas pelo terror, Edith cuidava das crianças — dava-lhes banho, penteava-lhes os cabelos, contava histórias —, mantendo uma calma sobrenatural. Em 9 de agosto de 1942, foi levada à câmara de gás de Auschwitz-Birkenau, onde morreu: como judia (pois, para os nazistas, a conversão não apagava a origem racial), como católica (presa em retaliação aos protestos dos bispos), como filósofa e como mística — transformando o sofrimento em oferta. Antes de partir, oferecera a vida pela conversão dos pecadores, pela salvação do povo judeu e pela paz no mundo. Em Edith Stein, a cruz de um Cristo judeu encontrou-se com a cruz cristã; depois, foi canonizada como santa.

A fenomenologia da empatia

A filosofia de Edith Stein começa pela fenomenologia da empatia, da tese de doutorado. A pergunta central é: como posso conhecer a experiência de outra pessoa, se não posso literalmente sentir a dor nem pensar os pensamentos do outro, mas de algum modo compreendo quando alguém sofre, se alegra ou está pensativo? Stein rejeita as teorias tradicionais: não se trata de analogia (“quando faço esta cara estou triste, logo quem faz esta cara deve estar triste”) nem de projeção do meu sentimento no outro. Ela afirma que sentimos algo mais direto e imediato: quando vejo alguém chorar de dor, apreendo a dor como dor dele, não como minha. É uma forma peculiar de intencionalidade, em que o objeto do meu foco de consciência é precisamente a experiência alheia enquanto experiência do outro. Isso tem implicações sérias: o ser humano é ontológica e constitutivamente aberto ao outro — não somos mônadas fechadas que precisam construir pontes artificiais pela razão, como em Descartes; a intersubjetividade está inscrita na própria estrutura da consciência, capaz de sair de si mantendo-se em si. Stein distingue ainda graus de empatia — da apreensão superficial do estado emocional à penetração mais profunda no mundo interior do outro — e estabelece um princípio fundamental: quanto mais profundamente conheço a mim mesmo e a minha natureza, mais capaz sou de compreender o outro; a verdadeira empatia requer, em primeiro lugar, autoconhecimento.

A antropologia da unidade e o núcleo da pessoa

A partir daí, Stein desenvolveu uma das mais ricas antropologias filosóficas do século XX. Para ela, o ser humano é uma unidade de corpo, psique e espírito — não três partes separadas, mas três dimensões de um único ser. O corpo não é uma prisão da alma (como pensava Platão) nem uma máquina (como pensavam Descartes e os materialistas): é um corpo vivo e animado, pelo qual estou no mundo, encontro os outros e me expresso — um campo de expressão do espírito. A psique é o âmbito da vida sensível, das emoções, dos impulsos e afetos; mas, no ser humano, essa vida do sentimento já está sempre permeada pelo espírito, pela razão — não temos instintos puros como os animais, e até os impulsos mais básicos já estão configurados espiritualmente. O espírito é a dimensão da liberdade, da abertura ao sentido, dos valores e da verdade: é pelo espírito que transcendemos a mera experiência, que podemos dizer “não” às pulsões e buscar o que deve ser, e não apenas o que é. Mas o espírito humano é um espírito encarnado: não pairamos sobre o mundo como anjos, estamos nele através do corpo, que é psicofísico.

O que faz de cada ser humano uma pessoa única e irrepetível é o que Stein chama de “núcleo da pessoa”: cada um tem um núcleo absolutamente individual, um modo único de ser. Não é apenas que tenhamos características diferentes, mas que o próprio modo como vivemos essas características é único — duas pessoas podem ser igualmente generosas ou inteligentes, mas o modo como cada uma vive e expressa essa generosidade ou inteligência é inconfundível. Esse núcleo pessoal não é construído, mas dado; e, no entanto, temos a tarefa de desenvolvê-lo, de nos tornarmos cada vez mais quem somos. A vida humana é esse paradoxo: recebemos o nosso ser como dom e, ao mesmo tempo, como tarefa a realizar — concepção que se vê com clareza em como cada criança nasce com um núcleo pessoal próprio, totalmente diferente das outras, cabendo aos pais ajudá-la a desenvolvê-lo para que se torne verdadeiramente quem já é.

A filosofia da mulher

Outra contribuição importante foi a filosofia da mulher. Num tempo em que sofreu preconceito por ser mulher e em que o feminismo lutava por uma igualdade abstrata de condições, Stein propôs um feminismo diferente, que não pressupõe uma igualdade natural, mas uma igual dignidade na diferença: homem e mulher têm a mesma dignidade ontológica, pois ambos são imagem de Deus e pessoas completas, mas têm modos distintos de ser pessoa. A mulher tem uma orientação mais natural para o pessoal, para a relação humana, para o concreto, para a totalidade do ser vivo em todo o seu cuidado; o homem tem uma inclinação para a abstração, a especialização e o domínio de aspectos particulares da realidade. É preciso cuidado: Stein não diz que as mulheres não podem fazer filosofia ou pensar abstratamente, nem que os homens não podem ser cuidadores — fala de tendências, de centros de gravidade, que não são absolutos, pois cada indivíduo concreto combina, no núcleo de sua pessoa, características masculinas e femininas em proporções únicas. Tanto o machismo tradicional, que reduz a mulher a funções biológicas, quanto o feminismo que nega as diferenças significativas são, para ela, equivocados. A especificidade feminina é um dom que enriquece a humanidade, tanto quanto a masculina; a maternidade (física ou espiritual, como foi a dela) não é uma limitação, mas uma forma especial de criatividade. As mulheres devem ter acesso a todas as profissões, mas levando consigo seu modo específico de ser: uma mulher médica, professora ou filósofa não deve imitar o modo masculino, mas enriquecer essas profissões com sua perspectiva única — pois o mundo precisa do gênio feminino tanto quanto do masculino, numa relação de complementaridade, e não de disputa.

A síntese entre fenomenologia e mística

Como Stein conseguiu unir o rigor fenomenológico à experiência mística? Para muitos, essa conciliação é impossível — a filosofia buscaria a clareza conceitual, a mística mergulharia na noite do mistério; a filosofia argumentaria, a mística contemplaria. Para Stein, não há contradição, pois ambos os caminhos visam à verdade, com a mesma meta. A fenomenologia ensinou-a a descrever rigorosamente os fenômenos tais como aparecem; e, ao ler Santa Teresa d’Ávila, encontrou descrições rigorosas dos fenômenos místicos — Santa Teresa não filosofava sobre Deus, descrevia seus encontros com Ele. Stein descobriu, assim, um tipo de conhecimento que transcende o conceitual sem ser irracional: um conhecimento por conaturalidade, por união. Quando amamos realmente alguém, conhecemo-lo de um modo que nenhuma descrição esgota; o conhecimento místico de Deus é isso, elevado ao infinito — um conhecimento em que o conhecemos ao mesmo tempo em que somos transformados por Ele. Esse conhecimento místico não anula o filosófico: ao contrário, purifica-o e aprofunda-o, pois a experiência mística ilumina o objeto último da filosofia, e a filosofia ajuda a discernir e comunicar a experiência mística. Filosofia e mística são como as duas asas com que o espírito humano se eleva à verdade — imagem proposta por São João Paulo II. Se em Husserl Stein conheceu um mestre na filosofia, em Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz conheceu mestres místicos: o Castelo Interior de Santa Teresa é, ao mesmo tempo, uma fenomenologia da vida espiritual e um guia místico, e as noites de São João da Cruz descrevem com precisão cirúrgica o processo de purificação do espírito que conduz à união com Deus.

A Ciência da Cruz e as noites escuras

A última grande obra de Stein, A Ciência da Cruz, foi escrita no convento carmelita de Echt, na Holanda, entre 1941 e 1942 — obra inacabada, pois a Gestapo a prendeu antes que pudesse completá-la, mas, mesmo incompleta, uma síntese magistral de filosofia, teologia e mística. O título já é revelador: como pode haver uma ciência da cruz, uma ciência do sofrimento? Para Stein, seguindo São João da Cruz, existe um conhecimento que só se adquire por uma experiência purificadora do sofrimento aceito por amor — não masoquismo nem busca mórbida da dor, mas o reconhecimento realista de que, num mundo ferido pelo pecado, o amor verdadeiro necessariamente sofre. Stein analisa fenomenologicamente a experiência da “noite escura” descrita por São João da Cruz: a noite não é só ausência de luz, mas uma presença peculiar e, como tal, uma forma de conhecimento — na escuridão, os olhos se adaptam e percebem o que a luz excessiva ofuscava. Assim na vida espiritual: quando Deus retira as consolações sensíveis e se entra na aridez do deserto, não se trata de abandono, mas de uma pedagogia divina.

A noite tem fases. Primeiro, a noite dos sentidos, em que são purificados os apegos desordenados aos prazeres sensíveis — não por desprezo do corpo e dos sentidos, mas por seu ordenamento, pois os sentidos devem servir ao espírito, e não dominá-lo. Essa purificação é dolorosa, porque contraria as inclinações naturais corrompidas pelo pecado. Depois vem a noite do espírito, infinitamente mais profunda e dolorosa, em que são purificados os apegos espirituais desordenados — o orgulho intelectual, a vaidade espiritual, o desejo de controlar até a relação com o divino —, e em que se encontra a experiência do nada, do vazio, da ausência de Deus. Mas, num paradoxo, é justamente quando Deus está mais ausente como fenômeno que Ele se faz mais presente, operando nas profundezas da alma uma transformação que nenhum esforço humano poderia realizar. Essa doutrina ilumina o próprio mistério da cruz de Cristo, que na cruz experimenta o abandono supremo (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”) — momento da máxima escuridão do espírito em que se realiza a redenção, pois a onipotência divina se manifesta na impotência: a vida surge da morte e a luz nasce das trevas.

Stein introduz uma reflexão original: há uma ciência da cruz como conhecimento transformador. Quando abraçamos a nossa cruz — as limitações, os sofrimentos e os fracassos inevitáveis da condição humana — em união com Cristo, participamos de seu mistério redentor, não só para a própria salvação, mas para a salvação do mundo. Isso tem implicações práticas profundas: nenhum sofrimento precisa ser inútil. Uma mãe que vela o filho doente, um trabalhador que suporta a destruição do corpo nos anos de labor, um idoso que carrega o peso dos anos — todos podem transformar o sofrimento em oferenda; não numa resignação passiva, mas numa transfiguração ativa. Daí o conceito de “maternidade espiritual da dor”: assim como a mãe sofre as dores do parto para dar a vida, há um sofrimento fecundo, que gera vida espiritual. No convento, Stein oferecia suas orações e sacrifícios pela conversão dos pecadores, pela paz e pela salvação de seu povo judeu, vendo seu sofrimento como participação no sofrimento redentor de Cristo. Na obra, ela distingue o “eu superficial” — preso às preocupações cotidianas, aos boletos a pagar, às relações de trabalho — do “eu profundo”, o núcleo mais íntimo da alma, onde Deus habita; e a cruz é o caminho que conduz do exterior ao interior, da dispersão superficial à unificação, da multiplicidade à simplicidade. Por fim, em A Ciência da Cruz, Stein antecipa e interpreta o próprio destino: sabendo-se em perigo mortal como judia convertida e tendo tido oportunidades de fugir, escolheu permanecer, vendo nisso a vontade de Deus, e escreveu que aceitava com alegria a morte que Deus lhe destinara, oferecendo a vida e a morte pela honra de Deus, pela santificação da ordem das carmelitas, pela expiação do povo judeu e da Alemanha e pela vinda do Reino de Deus. Ao escrever essas palavras, praticava a ciência da cruz — transformando antecipadamente o futuro sofrimento numa oferenda redentora, não como fuga da realidade, mas como o enfrentamento mais radical dela: num mundo onde o mal parecia triunfar e milhões eram assassinados, só o amor crucificado poderia ter a última palavra.

A atualidade de Edith Stein

Por que uma filósofa mística morta há mais de oitenta anos ainda nos interpela, em 2025? Primeiro, porque Stein mostra que é possível unir o rigor intelectual e a profundidade espiritual num mundo que tende a separar razão e fé, ciência e mística: não precisamos escolher entre ser inteligentes ou espirituais, pois a verdadeira inteligência se abre ao mistério e a verdadeira espiritualidade não teme o questionamento. Segundo, sua fenomenologia da empatia é urgentemente necessária num tempo de polarizações e bolhas ideológicas, de dificuldade de compreender o outro: compreender o outro não é concordar com ele, mas fazer o esforço de ver o mundo a partir de sua perspectiva. Terceiro, Stein ensina que cada ser humano é único e insubstituível — numa época de massificação, de algoritmos que nos reduzem a dados e de totalitarismos vendidos como liberdade, afirmar a dignidade irredutível da pessoa, com seu núcleo inviolável que nenhum poder humano pode tocar, é revolucionário. Quarto, sua reflexão sobre o homem e a mulher continua relevante: nem o machismo tradicional nem certo feminismo contemporâneo fazem justiça à riqueza do feminino, e Stein convida a valorizar a diferença sem hierarquizá-la, buscando uma complementaridade que enriqueça a todos. Quinto, sua ciência da cruz oferece uma sabedoria sobre o sofrimento — não o sofrimento buscado morbidamente, mas o inevitável: como transformá-lo, impedir que nos destrua, fazer dele um caminho de crescimento? Stein não dá respostas fáceis, mas indica que o sofrimento aceito por amor tem poder redentor; numa época que foge obsessivamente de toda dor e busca anestesiar toda angústia, ela lembra que há dores que são dores de parto, que geram vida nova. E, finalmente, o exemplo de sua coragem intelectual e existencial nos desafia: ela ousou pensar por si mesma, mesmo rompendo com a família e a tradição, seguir a verdade aonde ela a levasse e viver o que pensava, mesmo ao custo da própria vida. Judia que se tornou católica sem deixar de amar seu povo, filósofa que se tornou mística sem abandonar a filosofia, carmelita contemplativa que morreu em solidariedade com os perseguidos — em Edith Stein, as divisões que nos dilaceram encontram uma síntese vivida. Ela nos deixa como herança a certeza de que a busca honesta da verdade, ainda que dolorosa, sempre nos transforma e nos conduz à transcendência sem nos alienar da realidade; e que essa busca, motivada pelo amor, pode levar-nos a pagar até o preço supremo para, ao fim de toda a noite escura, encontrar a luz, a fonte de toda verdade e o sentido transcendente para todos os paradoxos e dores da existência.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Edith Stein. Sobre o Problema da Empatia e Zum Problem der Einfühlung(Zum Problem der Einfühlung, tese de 1916)

  • Edith Stein. A Ciência da Cruz e Kreuzeswissenschaft(Kreuzeswissenschaft, 1941–1942, inacabada)

  • Edmund Husserl. Investigações Lógicas(a obra que levou Stein à fenomenologia)

  • Santa Teresa d'Ávila. Livro da Vida e Castelo Interior(autobiografia; as noites escuras do sentido e do espírito)

  • São João Paulo II (a imagem da fé e da razão como "as duas asas"); Adolf Reinach e Max Scheler (o círculo fenomenológico de Göttingen). (a imagem da fé e da razão como "as duas asas")

  • Edith Stein. Ser Finito e Ser Eterno e Endliches und ewiges Sein(Endliches und ewiges Sein)

  • Edith Stein. A Estrutura da Pessoa Humana

  • Edith Stein. A Mulher e Die Frau(Die Frau)

  • Edmund Husserl. Meditações Cartesianas(a 5ª, sobre a intersubjetividade)