Sinopse

A propósito de mais uma edição do festival Rock in Rio, o professor Gustavo Bertoche propõe uma reflexão filosófica sobre a cultura de massa, tomando por base a teoria crítica de Adorno e Horkheimer. A partir da tese central da Dialética do Esclarecimento — a de que o desenvolvimento tecnocientífico, que visava libertar o homem, acaba por aprisioná-lo —, a aula reconstrói o processo de institucionalização integral da vida a serviço da economia, processo no qual até o tempo livre é capturado pela ordem produtiva. O professor distingue o ócio aristotélico (o tempo dedicado ao que realmente importa, marca do homem livre) do entretenimento contemporâneo, e mobiliza Pascal para explicar a fuga de si que alimenta a busca incessante de divertimento. Aplicado ao Rock in Rio, o argumento mostra como o mega evento musical converte a arte em mercadoria (commodity), oferece uma experiência passiva sob a máscara de liberdade de escolha, dissolve a individualidade em "tribos" massificadas e promove a distração e a pacificação social. A conclusão é que o maior tesouro humano, o tempo, é vendido de volta à indústria: o Rock in Rio é "pão e circo industrializados", e a sociedade permanece escravocrata, ainda que aos escravos se dê o nome de pessoas livres.

Pontos-Chave

  • A reflexão como vigília do espírito: pensar mais profundamente os fenômenos sociais à nossa volta é o que nos mantém vivos e alertas; deixar de fazê-lo é adormecer o pensamento.

  • A técnica que aprisiona: segundo Adorno e Horkheimer, o desenvolvimento tecnocientífico, que visava libertar o homem, passa a sujeitá-lo, tornando-o servo da própria tecnologia que sustenta a ordem econômica.

  • Institucionalização da vida: o "esclarecimento", iniciado já entre os gregos e levado ao paroxismo a partir do século XVIII, submete toda a existência à economia; a improdutividade torna-se o maior pecado.

  • Captura do tempo livre: mesmo o lúdico e o ócio são integrados a um esquema produtivo, de modo que o tempo livre passa a significar "gastar dinheiro para fazer algo".

  • Ócio × entretenimento: para Aristóteles, o ócio é o tempo do que realmente importa e define o homem livre; não se confunde com o entretenimento, e mesmo a tragédia tem função espiritual séria (a catarse), não de divertimento.

  • Pascal e a fuga de si: inventamos inúmeros divertimentos porque não suportamos o silêncio e a própria presença diante de nós mesmos.

  • Arte × indústria cultural: o que se oferece num festival como o Rock in Rio não é arte, mas produto massificado (commodity); vende-se uma experiência estética passiva, ainda que com aparência de atividade.

  • A falsa liberdade: a escolha entre palcos e estilos, como a escolha entre marcas de um mesmo produto, é uma liberdade de parâmetros pré-definidos, que mascara um consumo absolutamente passivo.

  • Tribos e individualidade ilusória: o jovem que se julga único reproduz exatamente os mesmos trejeitos, roupas e gostos de sua tribo, segundo um modelo de origem industrial.

  • Distração, pacificação e o tempo como tesouro: o entretenimento distrai dos problemas existenciais e sociais e pacifica a estrutura social; entregar o tempo — o maior tesouro, irrecuperável — à ordem econômica é vender a própria vida.

Transcrição da Aula

A reflexão filosófica diante de um mega evento

A ocasião de mais uma edição do Rock in Rio, no Rio de Janeiro, serve de ponto de partida para uma reflexão mais profunda. Tudo o que acontece nos mundos político, econômico e cultural pode ser investigado por meio de uma reflexão que não se encontra na mídia nem nos jornais, mas que é necessária. Pois, se não somos capazes de pensar de modo mais aprofundado a natureza dos fenômenos sociais que ocorrem à nossa volta, já estamos numa situação de adormecimento do pensamento e do espírito. O que nos mantém vivos e alertas é justamente a necessidade de pensar sobre o que acontece em nosso mundo — e também sobre o que acontece conosco, sobre o modo como os fenômenos sociais interferem em nossa própria subjetividade, constituindo-nos e transformando nossas percepções e afetos.

A base desta reflexão é a filosofia crítica de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, dois filósofos que escreveram, durante a Segunda Guerra Mundial, um livro extraordinário: a Dialética do Esclarecimento. A obra circulou pela primeira vez em 1944, ainda durante a guerra — sua publicação formal viria a ocorrer em 1947 —, e nela os autores apontam caminhos para o pensamento dos fenômenos da cultura de massa, da cultura industrializada do século XX, considerações que valem igualmente para o século XXI.

A Dialética do Esclarecimento: a técnica que aprisiona

Uma das teses mais importantes dessa obra é a de que o desenvolvimento tecnocientífico, que inicialmente visava à libertação do homem, acaba por aprisioná-lo numa nova esfera de obrigações. O homem já não é libertado pela ciência: torna-se servo da ciência e da tecnologia. Todo o aparato tecnológico é constituído com a finalidade de submeter a existência, o mais integralmente possível, à ordem econômica. Criamos a ciência, a técnica e a tecnologia para ter uma vida mais segura diante dos perigos da natureza e das incertezas do mundo, e, de repente, vemo-nos numa situação em que a vida está completamente submetida às necessidades de manutenção da própria técnica. Vivemos hoje em função da tecnologia, para manter o aparato técnico que sustenta toda a economia da sociedade ocidental — a sociedade dita civilizada e democrática. Pesa sobre nós uma obrigação que vem da própria técnica: a de sustentar e consumir cada vez mais tecnologia para que possamos encontrar um lugar na ordem da produção econômica.

Isso se vê o tempo todo, inclusive na educação. No Brasil de 2024, quase todas as redes de ensino estaduais estão baseadas em ferramentas digitais, de modo que o professor da rede pública já não tem autonomia para, a partir de sua própria formação, de sua individualidade e de sua compreensão do processo educacional, estabelecer suas práticas em sala. O professor de uma rede estadual já não dispõe dessa liberdade, pois precisa submeter-se a uma ordem de produção constituída por ferramentas digitais de uso obrigatório, sob pena de ser desligado do serviço público caso pretenda exercer a docência como uma prática artesanal. E o ensino é, de fato, uma espécie de artesanato da inteligência. A diferença é a que separa a produção artesanal da produção industrial: numa fábrica, imaginamos uma multidão de produtos saindo idênticos, segundo o mesmo molde; a escola não pode ser isso, porque as pessoas são diferentes. A matéria-prima com que trabalha o professor é diversa, e em cada turma há uma pluralidade irredutível: cada pessoa é a matéria-prima de seu próprio processo de educação. Por isso a única abordagem que faz sentido na educação é a artesanal, em que se lida com cada peça singular conforme sua especificidade — duas obras artesanais, ainda que tenham o mesmo propósito e o mesmo modelo, sempre diferem. Esse modelo já não encontra lugar nas escolas do nosso tempo: professor e alunos estão submetidos à tecnologia, e essa submissão é já uma preparação para uma vida cada vez mais marcada pela onipresença da tecnologia.

A institucionalização da vida e o pecado da improdutividade

Submetido a uma ordem técnica inscrita num plano econômico, o ser humano torna-se sobretudo um produtor e um consumidor, e sua natureza passa a ser meramente econômica. Segundo Adorno e Horkheimer, esse processo — que eles chamam de esclarecimento, ou iluminismo — surge desde a Grécia, com Sócrates e Platão, e não apenas no século XVIII; encontra, porém, seu paroxismo a partir do século XVIII, com a Revolução Científica e a Revolução Industrial na Europa. É então que a vida de todas as pessoas passa a ser cada vez mais completamente institucionalizada e posta a serviço da economia. As pessoas que, por qualquer razão, não conseguem ou não permitem que sua vida seja institucionalizada em benefício da economia — isto é, da indústria e do Estado — passam a ser consideradas improdutivas, e a improdutividade torna-se o maior pecado da nossa civilização. É preciso que todos sejam produtivos, mas produtivos no sentido da produção econômica e técnica, pois quem é improdutivo não tem valor. Trata-se de uma nova concepção do valor da vida, que começa a surgir entre os gregos e floresce a partir do século XVIII, e que exige que todos os aspectos da existência se integrem a um esquema produtivo — inclusive o lúdico e os momentos livres de que se dispõe.

Ócio aristotélico e entretenimento

Assim, o momento livre passa a ter valor segundo critérios igualmente produtivos, integrados a um esquema econômico. Por isso, nas grandes cidades, surgem os clubes, as casas noturnas, os salões de jogos, os espetáculos de boxe e atléticos, os esportes de massa, os parques, os shows e os eventos — quase sempre exigindo investimento financeiro para sua fruição. Para o cidadão dos séculos XIX, XX e XXI, ter tempo livre corresponde a gastar dinheiro para fazer algo; é raro que se entenda a fruição de um tempo livre gratuito, sem despesa — por exemplo, pela reflexão, pela contemplação da natureza, pelo aprendizado de um poema ou pela leitura de um livro.

Os livros, aliás, constituem em nosso tempo uma espécie de contracultura: os livros que não são de entretenimento, os de literatura, estão disponíveis gratuitamente nas bibliotecas, hoje pouco frequentadas. As bibliotecas talvez sejam um dos poucos lugares em que se pode usufruir livremente, sem despesa nem contrapartida, de bens de alto valor — os livros —, sem propaganda. São instituições representativas de um tempo em que o conhecimento era avaliado como um valor em si, tempo que já passou: hoje o conhecimento é avaliado em termos de seu valor para a economia. As bibliotecas são, por isso, uma espécie de último bastião de um ideal de conhecimento livre, aberto e independente, que merece ser valorizado.

Não há relação necessária entre ter tempo livre e ter entretenimento ou lazer: são coisas diferentes. O ócio, para Aristóteles, era o que caracterizava o homem livre. O ócio é o tempo de que se dispõe para fazer aquilo que realmente importa — fazer política, fazer arte, ler literatura, conversar com os amigos, passar o tempo em família, escrever, estudar —, o tempo que nos torna humanos e que pertence ao indivíduo. Para Aristóteles, não há nenhum sentido de entretenimento no ócio. Mesmo quando o tempo do ócio conduz ao teatro, ao assistir a uma tragédia, não se trata de entretenimento: o teatro e a literatura têm uma função espiritual muito séria. A tragédia tem a finalidade de provocar nas pessoas um reequilíbrio por meio de um exercício de piedade e da catarse: o indivíduo coloca-se naquele sofrimento, naquela dor, e transcende a tragédia. Isso não é entretenimento, mas uma atividade espiritual séria. No nosso tempo, porém, o ócio confunde-se com o entretenimento.

Pascal e a fuga de si

Evitamos ao máximo os momentos em que não estamos fazendo nada, os momentos de solilóquio, de conversa solitária conosco, de reflexão e introspecção, porque isso nos é doloroso. Talvez Pascal esteja certo ao dizer que é por causa de nossa dificuldade de enxergar quem realmente somos e de ficar a sós com a nossa própria presença que inventamos inúmeros divertimentos e não conseguimos ficar parados. Pascal aponta, justamente, que buscamos todo tipo de divertimento porque não suportamos o silêncio e a nossa própria presença diante de nós mesmos. É assim que entramos nos séculos XX e XXI: o tempo livre confunde-se com entretenimento e divertimento, quase sempre associados a uma inserção na ordem econômica, que exige despesas e nos entrega prazer e estruturas pré-formadas segundo as quais sentimos, criamos afetos e nos emocionamos.

Arte e indústria cultural: o show como mercadoria

É aqui que entra o fenômeno dos grandes shows de música — e, evidentemente, do Rock in Rio, mas não só dele: qualquer mega evento musical, de qualquer estilo, seja rock, seja sertanejo universitário, configura o mesmo fenômeno. No caso dos eventos musicais, trata-se de música, geralmente entendida como arte. O problema é que há uma diferença entre a arte e o entretenimento — especialmente o entretenimento produzido para satisfazer uma massa. Há, portanto, uma diferença entre a arte e a indústria cultural de massa que produz esse entretenimento. A música que se ouve no Rock in Rio nada mais tem a ver com a arte: há técnica, há um fundamento que se aprende na escola de música, mas é uma técnica voltada a uma finalidade industrial. Não se trata mais de obras de arte, e sim de produtos, de commodities, com o propósito de serem vendidos e consumidos. Diante de um show composto de vários shows, são apresentados produtos culturais que já não constituem arte, porque são massificados, produzidos industrialmente. As pessoas vão ali para ter experiências estéticas: o que se vende não é mais a arte, nem mesmo a música, mas a experiência — a experiência do tempo livre.

A experiência passiva e a máscara de liberdade

Trata-se, a rigor, de um entretenimento que custa muito caro. E essa experiência, num festival como o Rock in Rio, é de certo modo passiva. É claro que há a necessidade de deslocar-se até lá e de enfrentar os perrengues para chegar; mas, no momento em que se está no festival, tudo é passivo: a pessoa está ali recebendo experiências, emocionando-se, cantando, gritando, vibrando como uma massa, numa espécie de cerimônia religiosa em que as divindades são representadas pelos ídolos. As pessoas sabem cantar as músicas, gritam e têm em conjunto aquela experiência, o que é psicológica e emocionalmente muito poderoso. Mas esse consumo da experiência, embora pareça ativo, é completamente passivo, porque a pessoa apenas recebe e não devolve nada: tudo está pronto para que as pessoas cheguem e recebam, em troca de dinheiro, essa experiência. Ela é desengajada e não provoca reflexão. Por mais que um artista ou ídolo traga alguma mensagem de inconformidade ou revolucionária, essa mensagem já está incorporada pela ordem econômica. Não há ali reflexão nem descontentamento; ao contrário, um festival como o Rock in Rio é um festival do conformismo, da manutenção do status quo, voltado inclusive para as classes altas, celebrando uma atitude às vezes roqueira, às vezes nem isso, construída industrialmente — pois o rock é uma música construída industrialmente.

As pessoas têm ali uma experiência passiva que, no entanto, emula uma experiência de liberdade e de atividade, porque podem escolher o palco e a música, havendo vários palcos simultâneos. Essa experiência de poder escolher parece uma experiência de individualidade, na qual se pode optar por um entre diferentes gêneros musicais ao mesmo tempo; mas ela se dá dentro de um quadro altamente controlado e comercializado. Não é, de fato, uma liberdade — assim como a escolha entre comprar um quilo de feijão de uma marca ou de outra não é exatamente uma liberdade, por ser uma liberdade cujos parâmetros já estão predefinidos e independem do consumidor. Do mesmo modo no Rock in Rio: há uma máscara de liberdade que esconde um consumo absolutamente passivo do entretenimento, de produtos da indústria cultural que provocam experiências. E esses produtos são apresentados como únicos, embora sigam padrões massificados.

As tribos e a ilusão da individualidade

É muito interessante observar como há várias tribos — dos roqueiros, dos índios, dos metaleiros, dos clubbers, da música eletrônica — e como cada pessoa, dentro dessas tribos, considera-se muito individualizada, definindo-se inclusive pela oposição aos outros: ela é única. O problema é que, sendo “única”, reproduz exatamente os mesmos trejeitos, os mesmos cacoetes, as mesmas roupas, o mesmo linguajar e os mesmos gostos de todo o grupo. Trata-se do conhecido fenômeno das tribos adolescentes, em que os indivíduos se julgam únicos — “eu sou gótico, eu sou dark, eu sou emo” —, mas reproduzem exatamente o mesmo padrão de milhões de outros jovens no mundo todo, a partir de um modelo provavelmente criado com finalidade econômica e industrial.

Distração, pacificação social e o tempo como tesouro

Quando participamos de uma dessas grandes celebrações, tendo experiências cuidadosamente estruturadas de modo industrial para provocar afetos e emoções — ou mesmo quando comentamos nas redes sociais o que acontece no Rock in Rio —, participamos também de uma atividade de distração: distração dos problemas pessoais, existenciais e sérios, que queremos evitar, e distração social e política, pois uma notícia sobre uma celebridade ou um ídolo substitui, no jornal, uma notícia sobre algo que realmente afeta a coletividade. Pode-se objetar que basta percorrer o feed do noticiário para ver as outras notícias; mas quais são as que aparecem em primeiro lugar? Sempre as dos festivais — de música ou esportivos, jogos de futebol, olimpíadas. Trata-se sempre do mesmo processo.

E esse processo tem outra consequência: a proliferação cuidadosa e industrial da experiência de estar diante dos ídolos, musicais ou esportivos, produz nos indivíduos uma pacificação interior e, consequentemente, a pacificação da própria estrutura social. E assim continuamos sem perceber o fato fundamental — o problema fundamental da nossa civilização, da nossa educação e da nossa existência singular: o de que tudo na sociedade se organiza para que não percebamos que entregamos a outrem aquilo que há de mais importante em nossa vida. E o que temos de mais importante, qual é o nosso maior tesouro? O tempo, porque o tempo não pode ser restituído depois de perdido. Em certo sentido, qualquer jovem brasileiro da periferia é muito mais rico do que um Bill Gates ou um Elon Musk, no sentido de que possui tempo à sua disposição — embora não saiba disso. Pergunte-se a qualquer bilionário se não daria toda a sua fortuna por mais tempo: claro que daria. O tempo vale muito mais do que o dinheiro e do que qualquer riqueza material, porque constitui o próprio tecido da nossa existência: a nossa existência é tempo de existência. Quando tomamos o tempo livre que temos e o retroalimentamos numa ordem econômica, estamos pura e simplesmente vendendo a nossa vida. Por isso, talvez toda a instituição escolar esteja equivocada, pois a escola tornou-se uma instituição destruidora de tempo, que rouba tempo dos estudantes com obrigações que não fazem sentido — e esse tempo não volta mais; cada hora perdida é um tesouro irrecuperável.

Pão e circo industrializados

O que define uma vida livre? Aristóteles estava certo: é a vida do ócio, o tempo do ócio do indivíduo. O indivíduo que tem tempo para si é livre; o que não o tem é um escravo. É isso que divide o livre e o escravo. A vida daquele que trabalha para sobreviver e sobrevive para continuar trabalhando é uma vida em situação de escravidão, ainda que receba um salário, more numa bela casa e esse tipo de vida seja hoje chamado de liberdade — mas o nome que se dá a essa vida não lhe altera a natureza. O sujeito que não tem tempo livre para fazer o que realmente importa para si é um escravo. E muitas pessoas que dispõem do tempo do ócio o destroem, transformando-o em divertimento pago e entregando-o a instituições que, em troca, lhes oferecem experiências a um custo altíssimo.

Concluindo a reflexão sobre o Rock in Rio — que vale para todos os tipos de grandes festas e atividades da indústria cultural —, observa-se que, em nosso tempo, mesmo as pessoas livres, que dispõem de tempo de ócio, abrem mão dessa liberdade e retroalimentam, com seu tempo livre, a própria indústria e a economia. São conduzidas a uma vida econômica em 100% das horas do dia, sem sequer perceber que assim se desumanizam, entrando no ciclo de consumir para viver, viver para trabalhar e trabalhar para consumir — uma forma mais elaborada da mesma escravidão que os mais pobres ainda vivem, ainda que sob o nome de liberdade. A sociedade industrial é também a sociedade da extrapolação do pão e do circo: o Rock in Rio é pão e circo industrializados. A nossa sociedade ainda é escravocrata, mas os escravos de hoje recebem o nome de pessoas livres; e mesmo os que são livres fazem de tudo, investindo o tempo — aquilo que têm de mais importante — para se tornarem também semelhantes a escravos.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Dialética do Esclarecimento e Dialektik der Aufklärung(Dialektik der Aufklärung, 1944/1947)

  • Aristóteles — a noção de ócio e a função catártica da tragédia (sem obra nomeada em aula; cf. Política(sem obra nomeada em aula; cf. Política e Poética)

  • Blaise Pascal — a tese do divertimento (sem obra nomeada em aula). (sem obra nomeada em aula)

  • Aristóteles. Política e Poética(livros VII–VIII, sobre o ócio; sobre a catarse)

  • Blaise Pascal. Pensamentos e divertissement

  • Guy Debord. A Sociedade do Espetáculo(1967)