Sinopse

Primeira de duas aulas sobre Herbert Marcuse, conduzida em diálogo constante com a distopia Admirável Mundo Novo (Brave New World, 1932), de Aldous Huxley. Após situar a biografia de Marcuse — nascido em Berlim em 1898, testemunha das duas guerras, exilado nos Estados Unidos e influência intelectual dos movimentos estudantis de 1968 —, a aula apresenta suas fontes (Hegel, Marx, Freud) e sua inserção na Escola de Frankfurt, com a tese central da teoria crítica: a dominação contemporânea não se explica só pela exploração econômica, mas pela racionalidade instrumental, que reduz tudo a meios e fins. A partir de Eros e Civilização (1955), expõem-se os conceitos de repressão excedente (a repressão que excede o necessário à vida social e serve à dominação), de princípio de desempenho (a subordinação do prazer à produtividade) e a reinterpretação de Eros e Tânatos. De O Homem Unidimensional (1964) vêm o diagnóstico do indivíduo que perdeu a capacidade de imaginar alternativas ao sistema, a racionalidade tecnológica que converte problemas políticos em questões técnicas, a linguagem fechada que esvazia conceitos críticos, e a análise do caráter totalitário das democracias liberais (tolerância repressiva, manipulação das necessidades, cooptação das oposições). Em cada etapa, a sociedade de Huxley — com o soma, o sexo padronizado, a abolição da política e a neutralização do selvagem John — funciona como o protótipo perfeito do homem unidimensional, mostrando que o progresso tecnológico, por si só, não garante o progresso humano.

Pontos-Chave

  • As fontes e a ousadia da síntese: Marcuse combina a dialética de Hegel, a crítica do capitalismo de Marx, a psicanálise de Freud e a crítica cultural da Escola de Frankfurt para explicar por que sociedades de conforto material inédito produzem indivíduos infelizes e alienados.

  • A pergunta da teoria crítica: por que a classe trabalhadora se integrou ao capitalismo, em vez de fazer a revolução, e por vezes apoia o fascismo? A resposta: o problema não está só na exploração econômica, mas na própria estrutura da racionalidade moderna.

  • Racionalidade instrumental: o modo de pensar que reduz tudo a meios para atingir fins, transformando a natureza e os seres humanos em objetos a serem manipulados e utilizados com máxima eficiência.

  • A dominação que dispensa a violência: a sociedade capitalista avançada criou mecanismos de integração tão sofisticados que produz indivíduos que se creem livres enquanto reproduzem voluntariamente as estruturas de sua própria dominação.

  • Repressão excedente (Eros e Civilização, 1955): além da repressão básica necessária à vida social, há uma repressão excedente que só serve para manter estruturas de poder (o trabalho obsessivo, a cultura do burnout, a produtividade como identidade).

  • Princípio de desempenho: o princípio de realidade específico da sociedade capitalista, que subordina o prazer à produtividade e coloniza toda a vida (férias otimizadas, hobbies virando side hustles, relações virando networking).

  • Eros e Tânatos: a civilização reprime Eros (vida, conexão, criação, amor) e fortalece Tânatos (destruição); a violência cotidiana não é da natureza humana, mas resultado de uma civilização que reprime as capacidades eróticas e criativas.

  • A civilização não repressiva: o desenvolvimento tecnológico tornou possível, pela primeira vez, reduzir o trabalho alienado e liberar tempo para a criatividade e o prazer — não um retorno ao primitivo, mas um avanço para além da lógica da dominação.

  • O homem unidimensional (O Homem Unidimensional, 1964): o indivíduo satisfeito e mimado que perdeu a capacidade de imaginar alternativas; suas escolhas (de produtos, partidos, carreiras) são superficiais e não tocam as estruturas de poder — é a liberdade do consumidor, não a do cidadão.

  • O caráter totalitário das democracias liberais: racionalidade tecnológica (problemas políticos viram questões técnicas), linguagem fechada (conceitos críticos esvaziados em slogans), tolerância repressiva, manipulação das necessidades e cooptação das oposições — um "totalitarismo suave" prefigurado por Huxley.

Transcrição da Aula

Marcuse e o diálogo com Huxley

Esta é a primeira de duas aulas (151 e 152) sobre Herbert Marcuse, um dos filósofos mais interessantes, provocativos e talvez mais necessários do século XX, cujas ideias ajudam a entender a sociedade contemporânea e desafiam o que se chama de liberdade e de progresso. Para enriquecer a exposição, estabelece-se um diálogo constante entre Marcuse e Aldous Huxley, sobretudo a partir de sua visão distópica no Admirável Mundo Novo (Brave New World), livro publicado em 1932 — quase cem anos atrás, considerando que esta aula é gravada em 2025. O Brave New World antecipa de forma profética mecanismos de controle social que vivemos hoje e que Marcuse só analisaria na década de 1960, trinta anos depois.

Quanto à biografia: Marcuse nasceu em Berlim, em 1898, numa família judaica de classe média. Viveu as duas guerras mundiais ainda jovem — tinha dezesseis anos quando estourou a Primeira Guerra —, viu a ascensão e a queda do nazismo, emigrou para os Estados Unidos fugindo da perseguição aos judeus e tornou-se um dos intelectuais mais influentes dos movimentos estudantis de 1968. Morreu em 1979 e, nos seus oitenta e um anos de vida, testemunhou as principais transformações históricas do mundo, pensando a partir desse lugar. Começou seus estudos muito influenciado por Hegel e por Marx. De Hegel vem a dialética — a ideia de que a história avança por contradições, e que cada momento histórico carrega as sementes de sua própria superação; de Marx, a crítica radical do capitalismo e a compreensão de que as contradições das condições materiais de existência moldam a consciência humana. Mas Marcuse não ficou preso a essas influências: ao se juntar ao Instituto de Pesquisa Social — a famosa Escola de Frankfurt —, associou-se a pensadores como Adorno e Horkheimer e desenvolveu uma síntese original entre marxismo, hegelianismo, psicanálise freudiana e crítica cultural. A ousadia é evidente: tomar Marx, Hegel e Freud e tentar criar uma teoria capaz de explicar por que as sociedades modernas, mesmo oferecendo um conforto material inédito, produzem indivíduos tão infelizes e alienados.

Décadas antes, Huxley havia intuído literariamente a mesma questão. Na sociedade do Brave New World, os cidadãos vivem em conforto material absoluto e têm acesso a todos os prazeres imediatos — sexo livre, drogas, a felicidade fornecida pelo soma —, mas algo essencial foi perdido. O protagonista, Bernard Marx (e o sobrenome não é coincidência), sente uma inquietação inexplicável diante dessa felicidade fabricada. Huxley antecipa, assim, aquilo que Marcuse desenvolveria filosoficamente: a compreensão de que uma sociedade pode ser opressiva precisamente através da satisfação controlada dos desejos. Em 1934, dois anos após a publicação do livro, com a ascensão nazista, Marcuse emigrou para os Estados Unidos — e aqui começa uma história paradoxal: durante a Segunda Guerra, trabalhou para o governo americano, numa instituição que depois se tornaria a CIA, analisando os regimes totalitários. É irônico que o homem que viria a denunciar o caráter totalitário das próprias democracias liberais tenha passado anos estudando, a serviço do governo, o funcionamento das ditaduras explícitas — experiência que lhe deu uma perspectiva única sobre os mecanismos de controle social, tanto os explícitos das sociedades autoritárias quanto os sutis das democracias.

A teoria crítica e a racionalidade instrumental

Para situar Marcuse, é preciso compreender seu pensamento no contexto da teoria crítica da Escola de Frankfurt, cujos pensadores faziam uma pergunta aparentemente simples, mas devastadora: por que a classe trabalhadora, em vez de fazer a revolução prevista por Marx, acabou se integrando ao sistema capitalista no século XX — e por que, com frequência, apoia movimentos fascistas? A resposta que Marcuse deu, com Adorno e Horkheimer, foi extraordinária: o problema não está apenas na exploração econômica, mas na própria estrutura da racionalidade moderna. Os pensadores de Frankfurt identificaram a racionalidade instrumental, um modo de pensar que reduz tudo a meios para atingir fins, transformando tanto a natureza quanto os seres humanos em objetos a serem manipulados, controlados e utilizados da forma mais eficiente possível. Marcuse levou essa crítica longe: percebeu que a sociedade capitalista avançada — como a norte-americana e as europeias — desenvolveu mecanismos de integração tão sofisticados que já não precisa da repressão violenta para manter a ordem, pois conseguiu criar indivíduos tão controlados que realmente se creem livres, ao mesmo tempo em que reproduzem voluntariamente as estruturas de sua própria dominação.

Eros e Civilização: a repressão excedente e o princípio de desempenho

A primeira grande obra a tratar disso é Eros e Civilização, de 1955, uma das tentativas mais audaciosas da filosofia do século XX: combinar a crítica social marxista com a psicanálise freudiana para entender por que, em sociedades de tanta riqueza material, há tanto sofrimento psíquico. Marcuse parte de uma premissa freudiana básica: a civilização exige a repressão das pulsões. Freud, em O Mal-Estar na Civilização, argumentou que há um conflito insolúvel entre os desejos individuais e as exigências da vida em sociedade; para viver coletivamente, é preciso reprimir os instintos mais básicos, especialmente os sexuais e os agressivos. A repressão é o preço da civilização, mas também a fonte de uma infelicidade crônica inevitável. Vale aqui a primeira conexão com Huxley: na sociedade do Admirável Mundo Novo, essa tensão entre desejo e civilização parece resolvida, pois todos podem satisfazer seus impulsos sexuais sem restrição (vigora a fórmula “cada um pertence a todos os outros”); não há monogamia, frustração nem repressão das pulsões — mas, paradoxalmente, também não há amor verdadeiro, paixão autêntica nem a profundidade emocional da experiência erótica plena. Huxley intuiu que a aparente liberação dos instintos pode ser, na verdade, uma forma muito sutil de controlá-los.

O brilho de Marcuse está em aceitar o diagnóstico de Freud, mas questionar a sua universalidade: será que toda repressão é necessária, ou existe um excesso de repressão que serve apenas para manter estruturas de dominação? Daí o conceito fundamental de repressão excedente. Marcuse concorda que certo grau de repressão é necessário, mas identifica um excedente. Um exemplo concreto: todos precisamos trabalhar para reproduzir nossa existência material — repressão básica, necessária. Mas por que precisamos trabalhar quarenta, cinquenta, sessenta horas por semana em atividades muitas vezes sem sentido? Por que a cultura valoriza obsessivamente a produtividade e a eficiência, transformando até o tempo livre em ocasião para ser produtivo? Isso é a repressão excedente: a que vai além das necessidades reais da vida social e serve para manter um sistema específico de poder. No mundo de Huxley, vê-se uma versão extrema dessa repressão, mas disfarçada de liberação: os cidadãos quase não trabalham (a tecnologia resolveu a produção), mas sua vida é inteiramente estruturada em atividades que os mantêm ocupados e satisfeitos — esportes elaborados com equipamentos caros, drogas que modulam o humor, rituais sexuais padronizados —, sem que ninguém jamais questione o sistema; aparentemente livres, são mais controlados do que qualquer operário fabril do século XIX. Pense-se também na cultura contemporânea do burnout: as pessoas que se orgulham de trabalhar sem parar, sentem culpa ao descansar e definem a própria identidade pela produtividade. Isso não é necessidade natural da vida civilizada, mas repressão excedente — o mecanismo pelo qual internalizamos as exigências do sistema capitalista como se fossem nossos próprios desejos.

Marcuse usa os conceitos freudianos de princípio do prazer (a tendência natural a buscar satisfação e evitar sofrimento) e de princípio de realidade (que nos obriga a adiar ou modificar essa busca para nos adaptarmos à realidade externa). Até aqui, concorda com Freud. Mas argumenta que a nossa sociedade criou um princípio de realidade específico, o princípio de desempenho, que subordina completamente o prazer às exigências da produtividade capitalista. Já não se trata de equilibrar prazer e realidade, mas de eliminar quase totalmente o prazer em nome de uma eficiência obsessiva. Em Huxley, há uma versão perversa dessa subordinação: o prazer não é eliminado, mas industrializado — os cidadãos têm acesso livre ao soma, droga que produz felicidade instantânea “sem efeitos colaterais”, a filmes que estimulam todos os sentidos e ao sexo casual sem complicações; mas todos esses prazeres são padronizados, controlados e administrados pelo Estado, e o prazer genuíno (que surge da criatividade, da descoberta, do risco, do esforço, do amor profundo) foi eliminado em nome de uma satisfação garantida e previsível. Na nossa sociedade, isso se manifesta nas pessoas que perderam a capacidade de desfrutar do ócio, que se sentem obrigadas a documentar e otimizar as próprias férias, que transformam hobbies em side hustles e relacionamentos em networking: é o princípio do desempenho em ação, a colonização total da vida pelo imperativo da produtividade.

A isso se soma a reinterpretação freudiana da oposição entre Eros e Tânatos. Eros representa as forças da vida, da conexão, da criação e do amor; Tânatos, os impulsos destrutivos, de morte. Freud os via em conflito eterno, e Marcuse argumenta que a nossa civilização reprime Eros e fortalece Tânatos. No Admirável Mundo Novo, essa dinâmica aparece de forma cristalina: a sociedade eliminou aparentemente todas as manifestações de Tânatos (não há guerra, violência, doença nem morte prematura), mas eliminou também todas as manifestações autênticas de Eros (não há amor verdadeiro, arte genuína, criatividade espontânea nem busca de sentido). O resultado é uma sociedade de mortos-vivos, tecnicamente viva mas existencialmente morta — pois uma vida sem risco, sem sofrimento e sem a possibilidade real de perda é também uma vida sem a possibilidade real de amor, de criação e de transcendência. A violência cotidiana das nossas sociedades — a agressividade no trânsito, a crueldade nas redes, a competição destrutiva, as guerras constantes — não é, para Marcuse, consequência inevitável da natureza humana, mas resultado de uma civilização que reprime sistematicamente as capacidades eróticas, criativas, afetivas e contemplativas.

Aqui está a dimensão utópica e revolucionária de Marcuse: as condições materiais da sociedade industrial avançada tornaram possível, pela primeira vez na história, uma civilização não repressiva. O desenvolvimento tecnológico criou a possibilidade de reduzir drasticamente o trabalho necessário e de liberar tempo e energia para atividades genuinamente criativas e prazerosas. Imagine-se uma sociedade em que o trabalho alienado seja reduzido ao mínimo e em que a arte, o prazer, a contemplação da natureza e a criatividade verdadeira sejam as atividades centrais da vida — uma sociedade em que não seja preciso reprimir os impulsos para servir de engrenagem a uma máquina produtiva. Essa civilização não repressiva não seria um retorno ao mundo primitivo imaginado por Rousseau, mas um avanço para além da lógica da dominação. É curioso que Huxley, na literatura, tenha realizado tecnicamente essa possibilidade — eliminou o trabalho alienado, liberou tempo, criou abundância —, mas de um modo que perverteu o poder emancipatório da tecnologia: em vez de liberar as capacidades criativas, usou-a para controlá-las de modo ainda mais eficiente. Esta é a lição mais sombria do Brave New World: o progresso tecnológico, por si só, não garante o progresso humano.

O Homem Unidimensional: a dominação pela satisfação

Se Eros e Civilização apresenta a possibilidade utópica de uma sociedade livre, O Homem Unidimensional, publicado em 1964, oferece um diagnóstico devastador das razões pelas quais essa possibilidade não se realiza — um dos livros mais importantes do século XX, talvez ainda mais relevante hoje do que em 1964, com conexões cada vez mais explícitas com a visão de Huxley. Marcuse parte da percepção de que as sociedades capitalistas avançadas criaram um tipo de dominação mais eficaz do que qualquer totalitarismo histórico: diferentemente das ditaduras clássicas, que recorriam à violência explícita, as instituições econômicas e de poder das democracias liberais controlam os indivíduos através de sua própria satisfação, criando o homem unidimensional — um ser humano que perdeu a capacidade de imaginar alternativas ao sistema existente. A semelhança com o Admirável Mundo Novo é impressionante: os cidadãos da distopia são o protótipo perfeito do homem unidimensional, pois não são oprimidos no sentido tradicional, mas mimados, satisfeitos e protegidos de qualquer desconforto — e por isso perderam a capacidade de questionar a sua situação. Quando o selvagem John tenta explicar a Bernard conceitos como amor romântico, arte trágica e busca de sentido, Bernard e os outros não conseguem compreender: não é que discordem, é que essas ideias não fazem sentido dentro de um universo mental unidimensional.

O homem unidimensional não é infeliz; pode estar bastante satisfeito, pois tem acesso a uma variedade impressionante de bens de consumo. Pode escolher entre dezenas de canais de televisão, milhares de produtos no supermercado ou na Amazon, várias opções de carreira e de autorrealização, e sente-se livre porque pode fazer essas escolhas constantemente — entediado, vai ao shopping; entediado, liga a televisão e escolhe entre centenas de programas. Mas aqui está o insight genial de Marcuse: todas essas escolhas são superficiais e não tocam as estruturas fundamentais de poder e dominação. O homem unidimensional pode escolher entre Coca-Cola, Pepsi, bebida alcoólica ou água, mas não pode questionar por que vive numa sociedade em que sua identidade é definida pelo que consome; pode escolher entre Windows, Mac, iPhone ou Android, mas não percebe que essa escolha não foi feita por ele, e sim por alguém que vai determinar quem ele é; pode escolher entre diversos partidos, mas todos operam segundo a mesma lógica econômica fundamental; pode escolher entre diferentes carreiras, mas todas submetem o ser humano à mesma racionalidade instrumental. No Brave New World, essa ilusão de escolha é levada ao extremo: os cidadãos escolhem entre uma variedade enorme de atividades de lazer, parceiros sexuais e formas de entretenimento, mas todas foram previamente estruturadas pelo sistema para mantê-los satisfeitos e passivos — é uma liberdade de consumidor, não de cidadão; e eles sequer sentem falta de uma liberdade mais profunda, porque foram condicionados desde o nascimento a não desejá-la.

Marcuse identifica a racionalidade tecnológica como princípio organizador dessa sociedade — não o mero uso de tecnologias, mas um modo de pensar que reduz todos os problemas a questões técnicas, eliminando a dimensão política e crítica da experiência humana. No Brave New World, essa racionalidade alcançou sua forma mais pura: a escassez foi eliminada pela produção automatizada, os conflitos pelo condicionamento psicológico, a infelicidade pelo soma; já não há política no sentido tradicional, porque não há conflitos a resolver politicamente — tudo virou administração técnica, e os políticos não passam de tecnocratas. Isso lembra os caminhos da democracia de 2025, em que os problemas sociais complexos são constantemente reduzidos a questões de eficiência e otimização: a desigualdade vira questão de educação e qualificação, a crise ecológica vira questão de inovação tecnológica, a solidão e a alienação viram questão de saúde mental individual. Sempre que um problema social é reduzido a uma questão técnica ou imputado ao indivíduo, elimina-se a possibilidade de questionar as estruturas sociais que o causam.

Marcuse analisa ainda a linguagem fechada, um modo de usar a linguagem que impede o pensamento crítico: as palavras perdem a capacidade de expressar contradições e alternativas, e conceitos como liberdade, democracia e progresso são esvaziados de conteúdo crítico, transformados em chavões e slogans que só justificam o status quo — de modo que lutar “pela liberdade” e “pela democracia” passa a significar lutar pelo que já está estabelecido, e quem luta contra o estabelecido é tido como inimigo da liberdade. Huxley antecipou isso de forma genial: na sua sociedade, conceitos como mãe, pai, família, monogamia, arte e religião tornaram-se literalmente impronunciáveis, palavrões que provocam nojo ou incompreensão — não por censura (ninguém é proibido de falar disso), mas porque perderam qualquer significado dentro do sistema. No nosso tempo, termos como “criar empregos”, “crescimento econômico”, “modernização” e “competitividade” funcionam como mantras que interrompem o pensamento em vez de estimulá-lo: ninguém questiona se os empregos criados são dignos, se o crescimento beneficia a população ou se a expansão industrial está destruindo o mundo.

O caráter totalitário das democracias liberais

O resultado é uma sociedade unidimensional, capaz de integrar até as próprias oposições: os movimentos de contestação são rapidamente absorvidos e neutralizados, e a própria crítica vira mercadoria — há produtos com a “marca da rebeldia” e entretenimento com a “marca da arte”. Isso lembra de novo o Brave New World, onde não há sequer necessidade de absorver oposições, porque as oposições reais não existem: o condicionamento é tão eficaz que produz indivíduos incapazes de conceber alternativas. O único momento de tensão na narrativa surge quando o selvagem John, criado fora do sistema, tenta introduzir ideias subversivas — mas mesmo ele é neutralizado, não por repressão (ninguém o machuca ou prende), e sim pela própria dinâmica da sociedade, que transforma sua rebeldia em espetáculo, fazendo dele um “selvagem de circo” numa reserva controlada. Hoje, do mesmo modo, movimentos sociais genuínos são cooptados por estratégias de marketing: causas ambientais viram greenwashing, lutas por justiça social viram campanhas publicitárias, e o sistema demonstra uma capacidade impressionante de absorver qualquer crítica e transformá-la em mais um produto de consumo.

Chega-se assim a um dos aspectos mais provocativos e atuais de Marcuse: a análise do caráter totalitário das democracias liberais. Não se trata da crítica de um outsider que despreza a democracia, mas de uma crítica interna, feita por quem leva a sério os ideais democráticos. Marcuse argumenta que as democracias liberais avançadas desenvolveram formas de totalitarismo mais eficazes que as ditaduras clássicas, porque não precisam oprimir a oposição nem proibir a contestação: simplesmente tornam tudo isso irrelevante e cooptam a oposição. Não precisam censurar a informação — basta sobrecarregar os meios de comunicação com ruído e irrelevância, tornando-os um oceano de nulidades em que o importante fica oculto. Temos, assim, uma sociedade em que os súditos se apaixonam pela própria servidão e a defendem como se fosse liberdade: não somos controlados pela força, mas pelo prazer; não tememos o Estado, mas o amamos e o adoramos, em sentido quase teológico; e não nos rebelamos, porque somos incapazes de conceber por que alguém desejaria fazê-lo. Podemos criticar o governo nas redes sociais, mas só até o limite em que a crítica não ameace as estruturas fundamentais de poder; podemos protestar, desde que isso não interrompa a economia; podemos votar, mas só em candidatos que aceitem as regras básicas do sistema; podemos nos informar, mas a informação vem de uma mídia controlada por grandes corporações que dependem da publicidade do governo e dessas mesmas corporações. O resultado é uma democracia formal que oculta uma autocracia: os cidadãos têm direitos políticos limitados e pouco poder real sobre as decisões importantes, e os candidatos que desejam romper com essa estrutura são sumariamente eliminados — por morte, por assassinato de reputação ou por impedimentos de concorrer.

No Brave New World, essa contradição entre a liberdade política limitada e o ideal de uma sociedade livre é resolvida pela eliminação completa da política: não há governantes no sentido tradicional, só tecnocratas; não há eleições, porque não há decisões políticas a tomar — tudo foi resolvido cientificamente —, nem debate público, porque não há questões controversas. Trata-se de um totalitarismo agradável, suave, para o qual estamos nos dirigindo, e que Marcuse compreendia. Ele aponta alguns de seus mecanismos. Primeiro, a tolerância repressiva: um sistema que tolera igualmente todas as opiniões, mas, ao colocá-las todas no mesmo nível, neutraliza o seu potencial crítico — quando todas as perspectivas são tidas por igualmente válidas, nenhuma consegue questionar efetivamente o status quo. Segundo, a manipulação das necessidades: o sistema não só satisfaz necessidades existentes, mas cria continuamente novas necessidades que só podem ser satisfeitas pelo consumo, de modo que os indivíduos passam a desejar genuinamente aquilo de que não precisam, mas que o sistema precisa que desejem. Podemos expressar dúvidas e insatisfações na internet — somos até elogiados por isso —, desde que não levem a nenhuma ação efetiva: a expressão deve permanecer expressão, virando mais uma forma de entretenimento, e não pode se transformar em ação. Terceiro, a integração das oposições: os movimentos críticos são absorvidos, a contracultura vira indústria cultural, a crítica social vira entretenimento e a rebeldia vira estratégia de marketing. Basta pensar no que aconteceu à contracultura dos anos 1960 e 1970, tão influenciada por Marcuse: ideias que pareciam radicalmente subversivas — a liberação sexual, a crítica ao consumismo, a valorização da natureza, o questionamento da autoridade — foram absorvidas pelo capitalismo e transformadas em novos mercados (a indústria do turismo sexual, do marketing “autêntico”, dos produtos naturais, a ideia de “liderança horizontal”).

Percebe-se, assim, que Huxley antecipa o modo de funcionamento para o qual tende o desenvolvimento sociopolítico do nosso tempo, e que Marcuse descreve com nitidez os métodos e processos pelos quais a nossa sociedade se aproxima cada vez mais da distopia do Brave New World. A aula encerra-se aqui; na parte 2 (Aula 152), retoma-se a partir deste ponto, para pensar como Marcuse ajuda a compreender as questões fundamentais do nosso tempo.

Glossário

Referências Bibliográficas

  • Herbert Marcuse. Eros e Civilização e Eros and Civilization(Eros and Civilization, 1955)

  • Herbert Marcuse. O Homem Unidimensional e One-Dimensional Man(One-Dimensional Man, 1964)

  • Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo e Brave New World e soma(Brave New World, 1932; o soma, Bernard Marx, o selvagem John)

  • Sigmund Freud. O Mal-Estar na Civilização(princípio do prazer e de realidade, Eros e Tânatos)

  • G. (a dialética histórica)

  • Herbert Marcuse. A Tolerância Repressiva(ensaio)

  • Theodor Adorno e Max Horkheimer. Dialética do Esclarecimento

  • Aldous Huxley. Regresso ao Admirável Mundo Novo

  • Byung-Chul Han. Sociedade do Cansaço