História da Filosofia
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche introduz a história da filosofia propriamente dita através da Escola de Mileto. A abordagem refuta a visão positivista de Bertrand Russell, que classificava os primeiros filósofos como cientistas primitivos, e propõe uma leitura metafísica e teológica de seus pensamentos. O documento explora o conceito de 'filosofia de fronteira', explicando como a marginalidade geográfica das colônias jônicas permitiu a liberdade de pensamento necessária para o surgimento da filosofia. São analisados os conceitos de Arché e Physis em Tales (água/umidade), Anaximandro (Ápeiron) e Anaxímenes (Pneuma), conectando-os à busca pelo fundamento divino e vivo da realidade.
Pontos-Chave
Filosofia na Fronteira: A tese de que a filosofia nasce nas margens (colônias) devido ao enfraquecimento das pressões religiosas e políticas presentes na metrópole grega.
Problemática (Bachelard): Distinção entre 'problema' (pergunta) e 'problemática' (investigação sobre o sentido e os pressupostos da própria pergunta).
Crítica ao Cientificismo: Refutação da leitura de Bertrand Russell sobre os milésios. O professor argumenta que Tales não era um cientista, mas um metafísico investigando o fundamento divino (To Theion).
Princípio Úmido (Tales): A água não como H2O, mas como princípio líquido, informe e vivente que permeia toda a realidade.
O Ápeiron (Anaximandro): O ilimitado e indeterminado como Arché; um salto para a abstração racional pura, desvinculada da percepção sensorial imediata.
O Pneuma (Anaxímenes): O Ar como princípio invisível, divino e vital, comparado ao sopro de vida e à manifestação divina na tradição judaico-cristã.
Transcrição da Aula
O Propósito Existencial e a Natureza do Curso
O professor inicia a aula delimitando a metodologia do curso. Diferente de uma análise puramente ‘internalista’ — focada apenas na dissecação acadêmica de textos, conceitos e problemas históricos — o objetivo é utilizar a história da filosofia como uma oportunidade para refletir sobre as circunstâncias atuais e a vida concreta dos estudantes. Não se trata de uma preparação para exames (como o Enem) ou um curso acadêmico estrito, mas de um exercício de Paideia, conforme o conceito de Werner Jaeger: a formação integral do espírito humano. O termo ‘espírito’, neste contexto, é desprovido de conotação religiosa imediata, referindo-se ao conjunto das funções superiores do intelecto e da razão.
Geografia do Pensamento: A Filosofia como Fenômeno de Fronteira
A filosofia não surge no centro da Grécia, mas em suas margens. A Escola de Mileto situa-se na Jônia (atual Turquia), uma região de fronteira entre o mundo grego, o Oriente (Império Persa) e influências africanas (Egito). O professor explica que a Grécia não era um império unificado politicamente, mas uma civilização unida pela língua, etnia e, fundamentalmente, pela religião baseada em Homero e Hesíodo. Nas cidades centrais, como Atenas, a religião oficial impunha deveres cívicos rígidos; o ceticismo era perigoso, como demonstra a condenação de Sócrates por ‘ateísmo’ (não adesão aos ritos da polis). Nas colônias, contudo, essa pressão social era diluída. A liberdade de pensamento radical — aquele que vai à raiz — é apresentada como uma ‘dádiva da marginalidade’. É na desincumbência das obrigações rituais estritas que surge o espaço para investigar novas respostas sobre a origem do mundo.
A Problemática da Origem: Ciência ou Metafísica?
Introduz-se o conceito de ‘problemática’ como substantivo, derivado de Gaston Bachelard (1949), que se diferencia do simples ‘problema’. Enquanto o problema busca uma solução, a problemática investiga o sentido da própria pergunta. Ao aplicar isso à origem da filosofia, o professor critica a leitura de historiadores como Bertrand Russell, que, movido por uma visão cientificista, rotulou Tales de Mileto como o ‘primeiro cientista’. O professor argumenta que classificar os pré-socráticos como cientistas é um anacronismo redutor. A investigação deles não era ciência natural no sentido moderno (séculos XVIII-XIX), mas Metafísica. Eles buscavam o fundamento último da realidade. A filosofia, nesta visão, identifica-se com a metafísica e distingue-se tanto da ciência (focada nos fenômenos) quanto da ideologia (focada na transformação política imediata). A verdadeira transformação filosófica é interna e ontológica, sendo a mudança política apenas um efeito colateral secundário.
Tales de Mileto: A Água como Princípio Divino
Tales é considerado o primeiro filósofo por propor um princípio único (Arché) para toda a existência. Ele identifica esse princípio com o elemento úmido ou líquido. O professor adverte que não se trata da ‘água’ química (H2O), mas do líquido como conceito metafísico: aquilo que não tem forma definida, que preenche todos os espaços e que é o princípio do movimento e da vida. A observação de que ‘o ímã tem alma’ deriva dessa percepção de que a matéria possui um princípio movente interno. Mais importante ainda, Tales atribui a esse princípio o caráter de To Theion (O Divino). Portanto, longe do ateísmo ou do materialismo científico, Tales propõe uma visão onde a realidade é intrinsecamente divina, antecipando o panteísmo de Spinoza (Deus sive natura).
Anaximandro: A Abstração do Ápeiron
Provável aluno de Tales, Anaximandro dá um passo além na abstração. Ele escreve o primeiro livro de filosofia, ‘Peri Physeos’ (Sobre a Natureza), e cunha o termo Arché. Para ele, o princípio não poderia ser um elemento físico determinado (como a água), mas sim o Ápeiron: o ilimitado, o indeterminado, o infinito. O Ápeiron não tem bordas, não tem início (é não-engendrado) e, por isso, pode dar origem a tudo. Este conceito representa um salto para o puro Logos, pois trata-se de um objeto puramente intelectual, sem correspondente visual ou tátil direto. Assim como em Tales, Anaximandro identifica o Ápeiron com o Divino (Theos), sugerindo que a base de sustentação dos ‘infinitos mundos’ é sagrada.
Anaxímenes: O Pneuma e a Invisibilidade do Real
O terceiro filósofo, Anaxímenes, propõe o Ar (Pneuma) como princípio. Embora pareça um retrocesso ao material após a abstração de Anaximandro, o professor defende que Anaxímenes mantém a mesma ‘oitava’ metafísica. O ar possui qualidades que o tornam uma metáfora perfeita para o espírito: é invisível, mas seus efeitos são sensíveis (como o vento movendo árvores ou barcos); é circundante e essencial à vida (respiração). O cosmos inteiro é visto como um animal vivente que respira. O professor estabelece um paralelo com a tradição judaico-cristã, citando a passagem de 1 Reis 19, onde o profeta Elias encontra Deus não no terremoto ou no fogo, mas na ‘brisa suave’. O Pneuma de Anaxímenes é, portanto, uma força divina, invisível e vital que anima a totalidade do real.
Glossário
Referências Bibliográficas
Werner Jaeger. Paideia: A Formação do Homem Grego
Gaston Bachelard. O Racionalismo Aplicado(Le Rationalisme appliqué)
Bertrand Russell. História da Filosofia Ocidental
Anaximandro. Peri Physeos(Sobre a Natureza)
Mário Ferreira dos Santos. Filosofia e Cosmovisão(Obra sugerida pelo contexto)
Bíblia Sagrada. 1 Reis 19:10-15
Baruch Spinoza. Ética
Giovanni Reale & Dario Antiseri. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média