Benedetto Croce
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta o filósofo italiano Benedetto Croce (1866–1952), de quem extrai uma concepção metafísica e uma concepção política particularmente fecundas para o presente. Após reconstruir a biografia — a tragédia familiar que aos 16 anos o tornou herdeiro único e livre para se dedicar à filosofia e à política (foi senador e ministro) —, a exposição apresenta o idealismo absoluto de Croce: tudo é Espírito, e o Espírito é a própria realidade em desenvolvimento histórico dinâmico. Daí a tese historicista central — "toda história é história contemporânea" —, segundo a qual a história não trata do passado em si, mas é sempre feita a partir da perspectiva e das questões do presente (ilustrada com a leitura da ficção científica como espelho do próprio tempo). O professor detalha os quatro momentos do Espírito: o estético (a intuição pura e a arte como expressão, não representação — Croce como precursor do expressionismo), o lógico (a dialética entre universal e particular, da qual emerge a filosofia), o econômico (a vida prática e a política como vontade coletiva) e o ético (a moralidade como transcendência dos interesses particulares, tendo a liberdade por princípio). A segunda metade da aula desenvolve a filosofia política de Croce — a defesa liberal da liberdade de expressão como verdadeiro teste da liberdade, e a distinção entre liberalismo (político) e liberismo (econômico) — para uma crítica contundente do presente: a censura praticada em nome da democracia, a imprensa nunca neutra, e a cultura (incluindo o cinema premiado, como o filme baseado no caso Rubens Paiva) como instrumento de reconstrução da história pelas novas tiranias, que se apresentam como democracia e liberdade.
Pontos-Chave
Croce, filósofo e político: italiano (1866–1952), herdeiro de grande fortuna após a tragédia familiar que sobreviveu aos 16 anos; dedicou-se à filosofia e à política (senador e ministro da educação). Leitor de Marx e influenciado pelo liberalismo, tornou-se anticomunista.
Idealismo absoluto: Croce é um monista — tudo é Espírito, tudo é ideia; não há dualismo entre matéria e pensamento. O Espírito não é uma entidade metafísica distante, mas a própria realidade em seu desenvolvimento histórico dinâmico.
A liberdade como Espírito: numa leitura hegeliana, a história do mundo é a história do Espírito; a liberdade não é um ponto de partida (como em Locke), mas uma conquista construída na história — o Espírito é o Espírito da liberdade.
Toda história é história contemporânea: a história não trata de fatos passados em si, mas é sempre feita a partir da perspectiva e das questões do presente; o passado é interpretado e, nesse sentido, criado por quem o interpreta agora.
Momento estético: a forma primordial de conhecimento, a intuição pura (no sentido kantiano: apreensão direta dos fenômenos sem mediação conceitual); a arte é expressão, não representação — Croce é um dos inauguradores do expressionismo.
Momento lógico: o pensamento conceitual organiza as intuições na dialética entre universal e particular; a filosofia emerge desse fluxo e não pode reduzir-se a um sistema fechado de doutrinas (por isso, para Croce, quem deveria escrever a história são os filósofos).
Momento econômico: a vida prática, regida pela categoria da utilidade; a política é uma de suas manifestações — expressão de uma vontade coletiva, sempre histórica (a "democracia" ateniense e a moderna designam realidades diferentes).
Momento ético: a moralidade como esfera superior, em que o indivíduo transcende seus interesses particulares por princípios universais; seu princípio fundamental é a liberdade, pois só há escolha moral onde há liberdade.
Liberalismo × liberismo: distinção crucial — Croce é liberal no sentido político (liberdade de expressão e pensamento), mas não liberista no sentido econômico (admite intervenções pontuais do Estado na economia).
A crítica ao presente: o verdadeiro teste da liberdade é tolerar a expressão do que nos é inaceitável; o professor, com Croce, denuncia a censura praticada em nome da democracia, a imprensa nunca neutra e a indústria cultural como instrumento das novas tiranias, que se apresentam como liberdade — a "democracia" tornada valor, e não mais conceito.
Transcrição da Aula
Vida e formação de Croce
A aula parte das ideias de Benedetto Croce, filósofo italiano importantíssimo, nascido em 1866 e falecido em 1952. Viveu 86 anos. Nascido numa família muito rica, teve educação esmerada; aos 16 anos, num terremoto que fez ruir a casa em que estava com os pais e a irmã, perdeu toda a família e sobreviveu, soterrado por bastante tempo. Tornou-se, assim, herdeiro único de uma grande fortuna, que lhe permitiu uma vida livre de preocupações, dedicada a tornar-se filósofo e, depois, político — teve uma vida política rica, foi senador e ministro da educação, passando boa parte da vida no Senado até a morte. Interessam, em sua obra imensa, sobretudo a concepção metafísica e a concepção política.
Croce viveu na passagem do século XIX para o XX, quando a filosofia era dominada pelos frutos do iluminismo, especialmente o positivismo e o cientificismo, segundo os quais só fazia sentido tratar de questões elaboráveis na forma objetiva da matemática e das definições precisas, deixando de fora o campo da metafísica e da experiência subjetiva. No fim do século XIX, porém, surgiram escolas que buscavam romper com esse projeto mecanicista e materialista — a começar por Nietzsche, e também a fenomenologia e as filosofias vitalistas e espiritualistas. Croce embarcou nessa onda, primeiro a partir das leituras de Marx, que o influenciou profundamente sem que ele se tornasse marxista — tornou-se, ao contrário, anticomunista. Foi também influenciado por pensadores liberais, mas não pelo liberalismo clássico britânico: discordava de Locke, considerando o contrato social e o estado de natureza ficções inaceitáveis, e rejeitava a ideia de que a liberdade seria um ponto de partida do ser humano. Para Croce, a liberdade é construída, conquistada e criada no campo político — não um ponto de partida, mas de chegada. Ainda assim, defendia nitidamente a liberdade como a própria expressão do Espírito: a liberdade que se constitui na história é o próprio Espírito desenvolvendo-se; o Espírito é o Espírito da liberdade.
O idealismo absoluto e a herança cristã
Croce faz, nesse sentido, uma leitura hegeliana da história, embora se afaste de Hegel em vários pontos. Parte da ideia de que a história do mundo é a história do próprio Espírito, que nela realiza a sua fenomenologia. Mas, para Croce, o Espírito — o Espírito absoluto, pois sua filosofia é um idealismo absoluto declarado — não é uma entidade metafísica distante: é a própria realidade em seu desenvolvimento dinâmico. Vindo de família rigorosamente católica, Croce abandonou o catolicismo aos 16 anos, entendendo-o como uma instituição situada num ponto específico da história, da qual a história não depende; o Espírito (e, com ele, a ideia de Deus) é muito mais amplo e universal que o próprio cristianismo. Ainda assim, afirmou depois que é impossível, para um europeu, ignorar que todo o panorama cultural, os valores e os pontos de partida da Europa — a democracia liberal, o direito, o Estado — subsistem numa concepção cristã: por mais que não se adote o cristianismo formalmente, a Europa é um continente cristão.
Essa é uma posição que reaparecerá, no fim do século XX, em Gianni Vattimo — outro filósofo católico interessantíssimo, formulador do pensiero debole, o “pensamento fraco”, com atuação política como Croce, e que, situando-se entre radicais e conservadores, não recusa a herança cristã. No caso de Vattimo, homossexual assumido, a afirmação da inevitabilidade e da necessidade de os europeus abraçarem a cultura cristã é ainda mais significativa. Croce, então, partindo de certa perspectiva hegeliana, é um monista: tudo é Espírito, tudo é pensamento, tudo é ideia. Não há dualismo entre pensamento e matéria, e a história é a expressão dinâmica desse Espírito. Por isso, o pensamento filosófico — as ideias que organizam o mundo e a existência — não pode ser pensado fora do contexto histórico: as ideias não flutuam no nada, fazem parte do Espírito, e o Espírito se desenvolve como história.
Toda história é história contemporânea
A história, para Croce, não é o que os positivistas concebiam — uma narrativa do passado a partir de fatos ocorridos e documentos a interpretar. Para Croce, isso é uma besteira: a história é sempre a história do nosso tempo, feita por quem está naquele momento, naquela circunstância, interpretando a própria história a partir de uma certa paralaxe. Assim como as ficções científicas, na literatura e no cinema, são sempre relativas ao próprio tempo, por mais que se passem em futuros distantes. Quando, em Star Trek (Jornada nas Estrelas), o capitão Kirk e Spock exploram o universo na nave Enterprise sob a diretriz de não interferir nas culturas que visitam, posicionam-se sempre num lugar culturalmente mais elevado: é uma visão antropológica eurocêntrica e paternalista, que toma as outras culturas como infantis e a Federação como representação dos Estados Unidos e de seus valores. Os Klingons, guerreiros implacáveis de alta tecnologia, são uma representação dos orientais, mas também o duplo inconsciente dos próprios americanos, que guerreiam e destroem países com tecnologia avançada. A ficção científica de Star Trek não diz respeito ao futuro, mas ao presente em que foi filmada — os anos 1960 e 1970, a Guerra do Vietnã. Do mesmo modo, a história, como aponta Croce, diz respeito ao nosso tempo.
Isso significa que, do ponto de vista histórico, não há um conhecimento definitivo e absoluto no sentido tradicional, pois a verdade emerge da própria atividade histórica do Espírito. Ao analisar o pensamento político renascentista — em Maquiavel, na Utopia de Thomas More —, vê-se que ele só pode ser compreendido em relação às condições de sua época; mas esse contexto já é interpretado por nós, é, de certo modo, o nosso contexto interpretando um contexto de séculos atrás. A história é sempre a história do tempo presente; não diz respeito ao passado, mas ao Espírito absoluto que se desenvolve continuamente, inclusive na política.
Os quatro momentos do Espírito
Croce identifica quatro momentos fundamentais do Espírito absoluto, que são também as dimensões da existência humana: o estético, o lógico, o econômico e o ético.
O momento estético é a forma primordial de conhecimento e se manifesta na intuição pura — intuição no sentido kantiano: a percepção direta da realidade sem mediação conceitual (não no sentido vulgar de “pressentimento”). Ao contemplar uma pintura de Caravaggio, não a compreendemos por raciocínios lógicos, mas por apreensão imediata de sua expressividade. A arte, portanto, não é representação da realidade, mas expressão autêntica — e com isso Croce é um dos filósofos que inauguram o expressionismo. A própria linguagem é exemplo dessa capacidade criativa do Espírito: toda comunicação implica expressão criativa, e essa expressão estrutura nossa compreensão do mundo. Aqui o professor introduz uma distinção: o mundo não é idêntico à realidade; o mundo é a realidade vista por nós, e a realidade em si, não vista, não podemos saber o que é. O mundo humano é, por definição, o já visto e compreendido — e é estruturado pela linguagem.
O momento lógico é aquele em que o pensamento conceitual elabora e organiza, de forma reflexiva, as intuições recebidas no momento estético. É essencial aqui a dialética entre o universal e o particular: todo conhecimento busca o equilíbrio entre a singularidade dos fenômenos (únicos e irrepetíveis) e sua inserção num sistema de racionalidade. Ao interpretar a Revolução Francesa, é preciso buscar tanto os detalhes específicos (a liderança de Robespierre, os debates na Assembleia) quanto sua relação com princípios gerais (os ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade) — numa contínua ida e vinda entre o singular e o universal. A filosofia emerge desse processo de reflexão; por isso Croce dizia que a história deveria ser escrita pelos filósofos, e não pelos historiadores, que muitas vezes ficam presos a uma visão ingênua, sem a dimensão metafísica que estrutura o fluxo dialético. E por isso a filosofia jamais pode reduzir-se a um sistema fechado de doutrinas: é um movimento incessante de compreensão.
O momento econômico refere-se à vida prática do homem e tem por categoria fundamental a utilidade — não apenas no sentido material, mas como a forma pela qual a ação humana é motivada pelo interesse e pela busca da satisfação, em todas as dimensões. A política é uma de suas manifestações: os governos e as instituições existem para atender às necessidades práticas das pessoas. A política, para Croce, é a expressão de uma vontade coletiva e não pode ser separada das dinâmicas históricas, pois também é histórica. Damos o nome de “democracia” tanto ao sistema de Atenas (descrito na Constituição de Atenas sistematizada por Aristóteles), baseado na participação direta de parte da população (apenas cerca de 20% eram cidadãos), quanto ao sistema representativo moderno, de participação universal — mas designam realidades diferentes, refletindo necessidades sociais distintas.
O momento ético é a esfera superior da vida espiritual, em que os indivíduos transcendem seus interesses particulares em favor de princípios universais, escolhendo o que beneficia a todos. Seu princípio fundamental é a liberdade: só em contextos de liberdade a moralidade pode desenvolver-se plenamente, pois a escolha moral pressupõe a decisão livre — se somos obrigados a agir de certo modo, não há liberdade nem moralidade. E a história mostra que a relação entre ética e liberdade é sempre dramática: os movimentos de luta pelas liberdades exigem sacrifícios, porque é difícil aceitar a liberdade — sobretudo a liberdade do outro de pensar e dizer aquilo que nos é inaceitável. É fácil defender a liberdade de dizer o que nos agrada; difícil é aceitar a liberdade de dizer o que nos é ruim. E esse é o verdadeiro teste da liberdade: ela só existe quando quem diz o inaceitável pode continuar a dizê-lo — caso contrário, há apenas uma simulação de liberdade. (Cabe aqui a nota etimológica: ética vem de ethos, costume, em grego; moral, de mores, costumes, em latim — termos que podem ser usados como sinônimos, salvo distinção explícita.)
A crítica ao presente: censura, imprensa e liberdade
Esse é, para o professor, um problema gravíssimo do nosso tempo. Como dizia Croce, a história é sempre contemporânea — e, no tempo contemporâneo, o problema da liberdade é sério. Há uma tendência, das últimas duas ou três décadas, de estabelecer limites rígidos ao que pode ou não ser dito no campo da expressão política popular, sobretudo desde o início da internet, com tentativas constantes de regulamentar a liberdade de expressão em nome da própria democracia, sob o pretexto de impedir a disseminação de fake news. O problema é que não é simples definir o que são informações falsas. A rigor, historicamente, o maior disseminador de informações falsas é a imprensa — os jornais, a televisão, as revistas. E não há imprensa realmente livre: toda imprensa está ligada a um grupo político, pois precisa de dinheiro, e deve agradar a seus financiadores, quaisquer que sejam. Esses grupos têm agendas, defendidas nos veículos, muitas vezes mediante certa torção da realidade — escondendo o que não convém, exagerando o que convém, dizendo meias verdades, não propriamente mentindo, mas não dizendo a verdade por inteiro, por ignorância ou por ocultação deliberada.
E, no entanto, ninguém pensa em censurar a imprensa, justamente porque ela serve aos grupos políticos: os grupos que compreendem isso não buscam calá-la, mas dar mais dinheiro aos veículos que lhes fazem oposição — compra-se a imprensa, não é preciso fechá-la. O que não se consegue comprar são as pessoas comuns no YouTube, no Facebook, no Instagram, no TikTok — e então se busca calá-las. Ao poder tirânico interessa a existência de uma imprensa pretensamente livre e, ao mesmo tempo, a censura a indivíduos particulares, sempre mais frágeis. O professor afirma ver esse fenômeno no Brasil, com o poder judiciário estabelecendo censura de opinião política sem previsão legal — uma nova espécie de autoritarismo, em que se pode dizer apenas o autorizado pelos “novos tiranos”, que detêm um poder vitalício, como novos monarcas, e em que os censurados perdem o direito de falar em público, a fonte de renda e às vezes a liberdade. É mais um exemplo da tensão dialética entre o princípio conceitual da liberdade e sua manifestação no indivíduo singular que deseja ser livre, mas enfrenta o poder de uma tirania.
A história reconstruída pela cultura: o caso do filme
Para Croce, a história é inseparável da ação humana: somos nós que a fazemos, e a criamos ao interpretá-la — ao interpretar a história, criamos os fatos históricos e moldamos o futuro. Por isso a historiografia não pode ser um mero empreendimento acadêmico: ela influencia diretamente as decisões culturais e políticas de um povo, que pensa o futuro a partir de um passado que é, ele mesmo, criado. E os regimes tirânicos frequentemente moldam a história por meio da cultura e da indústria cultural — os jornais, as revistas, a televisão, o cinema —, transformando o passado para transformar o futuro e justificar sua permanência.
O professor vê isso no presente, no filme premiado e candidato ao Oscar Ainda Estou Aqui — uma obra bem feita, bonita e emocionante, mas também política. O filme reconstrói a narrativa de um grupo que, no momento histórico retratado, era perseguido pela ditadura militar: trata-se do caso do deputado Rubens Paiva, preso e assassinado pelos militares, sem que a família — de classe alta — fosse informada. (O filme baseia-se no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado.) Para o professor, toda essa narrativa é construída de modo a justificar a permanência, no poder atual do Brasil, do grupo que veio a constituir o Partido dos Trabalhadores — uma reconstrução da história, exatamente o que Croce aponta: a história reconstruída pelas tiranias e pela cultura.
O professor faz questão de deixar claro que não defende a ditadura militar — considera-a um período em que as coisas pioraram, inclusive na educação, com os acordos do MEC com a USAID e a reforma curricular de 1971, no ministério de Jarbas Passarinho, que tornou catastrófica a já ruim educação brasileira. Trata-se, porém, de um filme que é ao mesmo tempo obra de arte e obra política, ideológica, propaganda. Croce, talvez ingenuamente, defendia uma arte desconectada da política; mas talvez seja impossível desconectar a criação artística de uma perspectiva de mundo, que inclui inevitavelmente uma dimensão ideológica — assim como é impossível uma história ou um jornalismo neutros. (Observe-se, nesse ponto, uma crítica do professor a Marcuse, com quem afirma concordar: também a democracia ocidental seria um tipo de tirania, ainda que diferente.)
Educação, liberalismo e a tirania que não diz seu nome
Qual o caminho para uma vida menos suscetível à manipulação pelas tiranias? Croce apostava na educação — como o professor também aposta. Croce era contrário à censura e a todo cerceamento das opiniões: as posições políticas mais inaceitáveis deveriam ser toleradas enquanto permanecessem no campo da opinião, e dever-se-ia confiar no poder do povo para julgá-las. “Mas o povo pode escolher o que me é inaceitável” — pois é o povo que escolhe; ninguém é dono da verdade, e no processo da história o povo cometerá erros e acertos, sendo que muitas vezes o que se julga erro é acerto, e vice-versa. O professor declara concordar integralmente com essa posição liberal de Croce.
É preciso notar, porém, a distinção nítida que Croce fazia entre o liberalismo — posição política de liberdade de expressão e de pensamento — e o liberismo — o liberalismo econômico, com o qual ele não concordava plenamente, por achar que o Estado precisava fazer intervenções pontuais na economia. Croce era liberal no sentido político, mas não liberista no econômico.
Por fim, Croce antecipa temas das distopias da metade do século em diante (como também a Escola de Frankfurt): as novas formas de dominação política não serão explícitas. As novas tiranias não impõem o poder pela força explícita, como nos séculos anteriores, mas pelo prazer, pelo “pão e circo”, pelo consumismo e pela manipulação da informação — pela imprensa, pela televisão, pelo cinema, pela arte, pela música. A nova tirania é recebida pelos cidadãos-súditos como liberdade e como democracia. E isso preocupava Croce, como deve nos preocupar: até que ponto não vivemos sob uma tirania, sob as categorias linguísticas da verdade? Pois a “democracia” já não é mais um conceito científico, descritivo de um fenômeno: tornou-se, no século XX, um valor — e, como todo valor, é relativo, usado por cada um como quiser. Um governo pode afirmar-se democrático sendo autoritário, e ninguém pode confrontá-lo racionalmente, pois, sendo a democracia um valor subjetivo, quem se diz democrata está a salvo de todo julgamento crítico. É por isso que, curiosamente, os defensores da censura a defendem em nome da democracia e da liberdade — defendem o fim da liberdade total de expressão em nome da defesa da própria democracia.
São essas as ideias trazidas a partir de Benedetto Croce — um dos filósofos italianos favoritos do professor —, sobretudo em sua perspectiva política liberal (mas não liberista) e em sua crítica a um novo tipo de tirania que não ousa dizer o nome e se apresenta como o regime da democracia e da liberdade. Talvez, conclui o professor, vivamos numa tirania desse tipo.
Glossário
Referências Bibliográficas
Benedetto Croce. (a tese "toda história é história contemporânea" e a doutrina dos quatro momentos do Espírito)
G. W. F. Hegel. Fenomenologia do Espírito(a história como desenvolvimento do Espírito)
Karl Marx (lido e superado por Croce); John Locke (contrato social e estado de natureza. (lido e superado por Croce)
Gianni Vattimo (o *pensiero debole*); Herbert Marcuse e a Escola de Frankfurt (a indústria cultural e as novas formas de dominação). (o pensiero debole)
Aristóteles. Constituição de Atenas e Utopia(Utopia; exemplo de intuição estética)
O filme *Ainda Estou Aqui* (baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva; o caso do deputado Rubens Paiva). (baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva; o caso do deputado Rubens Paiva)
Benedetto Croce. Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral
Benedetto Croce. A História como Pensamento e como Ação
Benedetto Croce. História da Europa no Século XIX
Theodor Adorno e Max Horkheimer. Dialética do Esclarecimento