Hans Vaihinger
Sinopse
Nesta aula, o professor Gustavo Bertoche apresenta Hans Vaihinger (1852–1933), filósofo neokantiano alemão hoje pouco conhecido, autor de A Filosofia do "Como Se" (Die Philosophie des Als Ob, 1911) e propositor do ficcionalismo. A exposição parte de uma extensa reconstrução biográfica — a origem religiosa, os estudos de teologia e filosofia, as dificuldades financeiras, a cegueira, a acusação antissemita de judaísmo, as perdas na Revolução Russa de 1917 e as tragédias familiares, até a morte em 1933, em meio à ascensão do nazismo, que apagou sua influência. Em seguida, o professor desenvolve o núcleo do pensamento de Vaihinger: a radicalização da distinção kantiana entre fenômeno e coisa em si, segundo a qual todo o nosso conhecimento se constitui não de representações do mundo, mas de ficções úteis. A aula ilustra essa tese com numerosos exemplos (o átomo, os números imaginários, a massa pontual, as superfícies sem atrito, o agente econômico racional, o Estado e o próprio país), aproxima o ficcionalismo do positivismo, do pragmatismo de James, da crítica de Nietzsche, dos paradigmas de Kuhn e do anarquismo epistemológico de Feyerabend, e mostra sua antecipação na República de Platão. A aula culmina numa crítica metafísica do próprio ficcionalismo, que incorre no paradoxo do mentiroso ao pressupor um absoluto — o logos — que se recusa a reconhecer.
Pontos-Chave
Hans Vaihinger (1852–1933): filósofo neokantiano alemão, autor de A Filosofia do "Como Se" (1911), obra concebida e gestada por mais de trinta anos; recebeu atenção extraordinária e foi depois apagado pelos nazistas em razão do antissemitismo.
Radicalização de Kant: Vaihinger leva às últimas consequências a distinção kantiana entre fenômeno e coisa em si (númeno); como não podemos conhecer a realidade tal como ela é, o conhecimento não é referência ao mundo, mas construção.
Ficcionalismo: todo conhecimento se constitui de ficções úteis — estruturas que permitem agir e manipular o mundo sem pretender revelar verdades sobre o real.
Ficção não é ilusão nem mentira: ficções não se opõem a uma verdade alternativa, pois a própria ideia de verdade é uma ficção; são instrumentos, não representações nem símbolos.
Positivismo idealista: Vaihinger chamava sua posição de positivismo crítico, idealista ou lógico, por recusar a metafísica e ater-se aos fenômenos, sem pretensão de conhecer a coisa em si.
Proximidade com o pragmatismo: como William James, julga o valor das ficções (e das crenças) pelos resultados, pela utilidade vital, e não pela verdade.
Exemplos de ficções úteis: o átomo, os números imaginários, a massa pontual, as superfícies sem atrito, o agente econômico racional, o Estado e o próprio país — ficções sem existência denotativa, mas que produzem efeitos concretos.
Ciência como rede de ficções: Vaihinger antecipa os paradigmas de Kuhn (A Estrutura das Revoluções Científicas) e o anarquismo epistemológico de Feyerabend, segundo o qual a narrativa de uma ciência objetiva, com valores mertonianos, é ela mesma uma ficção.
Antecipação em Platão: a concepção ficcionalista da ética e da educação já aparece na República, nos mitos educacionais (homens de ouro, bronze e barro) e no controle estatal das ficções permitidas.
Crítica metafísica final: o ficcionalismo incorre no paradoxo do mentiroso (ou do relativista), pois se posiciona no lugar da verdade e pressupõe um absoluto — o logos — que se recusa a reconhecer.
Transcrição da Aula
Hans Vaihinger e a gestação de A Filosofia do “Como Se”
Hans Vaihinger foi um filósofo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX. Nasceu em 1852 e morreu em 1933, aos 81 anos. Sua grande contribuição para a história da filosofia foi dada em 1911, quando já tinha 59 anos, com o livro A Filosofia do “Como Se” (Die Philosophie des Als Ob). Embora publicada quando o autor tinha 59 anos, a obra fora escrita, concebida e gestada ao longo de mais de trinta anos, desde a juventude. Trata-se de um livro com ideias extraordinárias, que se inscrevem numa determinada tradição da história da filosofia.
Vaihinger era filho de um pastor e chegou a estudar teologia em Tübingen, no célebre Tübinger Stift, onde ingressou aos 18 anos, em 1870. Logo abandonou esse caminho, porém, por não ser muito devoto, e foi estudar filosofia e ciências — sobretudo a filosofia alemã, em especial o idealismo alemão de Kant, Fichte, Schelling e Hegel. Estudou também, com muito interesse, Schopenhauer, bem como a ciência do século XIX, muito especialmente Darwin, a física e o eletromagnetismo. Interessou-se por esse caminho, abandonando completamente os estudos teológicos. Foi para Leipzig, onde ficou um breve período, e depois para Berlim, onde foi aluno de filósofos importantes, como Eduard Zeller, um dos grandes historiadores da filosofia antiga. Ali, em 1877, aos 25 anos, começa a conceber os princípios do ficcionalismo e a escrever A Filosofia do “Como Se”.
Demorou muito tempo, contudo, para conseguir publicar a obra, porque não dispunha de recursos financeiros suficientes para despender anos em suas pesquisas. Sem dinheiro, precisou encontrar trabalho, e esse trabalho consumia o seu tempo: foi professor e prestou também concursos públicos para o magistério, mas teve sempre muita dificuldade de se manter.
Uma vida marcada pela adversidade
A dificuldade financeira não se resolveu; ao contrário, complicou-se ainda mais quando, aos 37 anos, em 1889, Vaihinger se casa com a filha de um livreiro. O livreiro era um pequeno proprietário, sem grandes posses — uma pessoa dedicada à cultura, e uma livraria dificilmente proporciona riqueza especial. Vaihinger participou da administração do estabelecimento, com a esposa e os filhos, ainda crianças e depois adolescentes, mas nunca conseguiu superar as dificuldades financeiras, que apenas pioraram.
A partir dos anos 1900, Vaihinger sofreu vários reveses importantes. Começa a ficar cego em 1906 e, depois de alguns anos, fica completamente cego. Teve também o problema de ser acusado de judaísmo pelos antissemitas, em 1913, o que começou a dificultar muito a sua vida — o antissemitismo já grassava na Alemanha desde o final do século XIX com muita força, força que depois seria concentrada e capitalizada pelos nacional-socialistas, por Hitler. Além disso, o pouco dinheiro que conseguira reunir e, principalmente, os parcos ganhos da família com a livraria estavam investidos na Rússia; quando acontece a Revolução de Outubro de 1917, a família perde todo o dinheiro investido e fica com dívidas. Por isso, em 1918, vê-se obrigada a vender a livraria, ficando sem condições de sustento — e tudo isso na circunstância da Primeira Guerra Mundial. Era um desastre familiar e existencial que correspondia ao reflexo do desastre nacional na Alemanha.
Depois da venda da livraria, a filha de Vaihinger comete suicídio; o filho, que estava na guerra, retorna com sequelas psíquicas muito sérias, incapacitado. Essa incapacitação progride, e ele se torna cada vez mais dependente e doente, até ser declarado completamente incapaz em 1928. Nesse momento, a Alemanha passava por uma dificuldade econômica e política imensa. A família era perseguida em função da acusação de judaísmo e não tinha mais condições de subsistência; Vaihinger estava cego, e o país, numa crise tremenda. Em 1933, quando Vaihinger tinha 81 anos, com o nazismo em franca ascensão, ele morre.
O mais interessante é que, em 1911, ao publicar A Filosofia do “Como Se”, Vaihinger recebera uma atenção extraordinária dos filósofos alemães e estrangeiros, pois se tratava evidentemente de uma grande peça de filosofia, com ideias impactantes e revolucionárias. Os nazistas, porém, justamente por seu antissemitismo, apagaram completamente a influência que Vaihinger havia exercido por alguns anos: proibiram seus livros, muito especialmente A Filosofia do “Como Se”, e, a partir do início dos anos 1930, o filósofo, cancelado pelos nazistas, deixou de ser estudado e lido. Depois de um momento fulgurante, em que, já com certa idade, surgira no cenário filosófico europeu como uma grande potência intelectual, sua fama e influência foram subitamente suprimidas em função da ascensão do nazismo. Por isso Vaihinger é hoje um filósofo pouco conhecido — o que é curioso, pois sua filosofia é muito interessante e importante, e aponta para as consequências de uma certa maneira de filosofar.
A radicalização de Kant: do fenômeno à ficção
Com Vaihinger temos a radicalização de um certo aspecto da filosofia de Kant, e é por Kant que se deve começar. Uma das teses centrais de Kant na Crítica da Razão Pura é a da ruptura — do abismo intransponível — que existe entre o mundo dos fenômenos e o mundo da coisa em si, do númeno. Fenômeno é o que percebemos por meio da nossa intuição sensível, da nossa sensibilidade, e por meio da nossa razão, da nossa cognição. Percebemos tudo pelos sentidos e pela racionalidade, e tudo o que percebemos é condicionado pelas formas a priori da intuição sensível, que são o espaço e o tempo. Para Kant, espaço e tempo estão em nós, não no mundo em si, na coisa em si, no númeno: são formas a priori da intuição, da sensibilidade. E aquilo que se constitui no espaço e no tempo, já dentro de nós, é compreendido pela nossa capacidade de entendimento, pelas categorias a priori do entendimento.
Não temos, todavia, acesso ao mundo tal como ele é: só temos acesso ao mundo tal como a nossa sensibilidade e o nosso entendimento podem apreendê-lo. O mundo que vemos é um mundo constituído dentro do nosso modo de ser, do modo de ser propriamente humano. Existe fora de nós algo que provoca essa maneira já mediada de termos contato com a realidade, mas a esse algo não temos acesso nem podemos saber o que é: é a coisa em si, é o númeno. Não podemos conhecer a realidade tal como ela é; só conhecemos a realidade tal como ela se apresenta no nosso modo próprio de ser enquanto humanos. Essa é a concepção de Kant.
Vaihinger vai entender o fenômeno de forma ainda mais radical do que Kant: segue o caminho do mestre e o leva às últimas consequências. Afirma que o nosso conhecimento nunca diz respeito ao mundo; a rigor, ele se constitui de um conjunto de ficções. Já que não podemos conhecer o mundo — e a ideia de que podemos conhecê-lo é uma ideia metafísica —, não faz sentido buscar esse conhecimento. Devemos entender todo conhecimento não como uma referência mais ou menos aproximada ao mundo das coisas em si, mas como ficções úteis, ficções que servem para manipularmos as coisas. O mundo percebido pelo ser humano é, para Vaihinger, uma construção ficcional.
Ficção não é ilusão nem erro
Essas ficções não podem ser compreendidas em termos de ilusões ou de erros, porque, quando falamos de ilusão ou de erro, fazemos referência a algo que é alternativo à verdade. A percepção natural e realista que temos do mundo é a de que o mundo é o critério da verdade — a correspondência entre aquilo que dizemos ou fazemos e o mundo seria o critério da verdade. Mas para Vaihinger não existem verdades: o que há são ficções, construções ficcionais. E são essas ficções que nos permitem agir e manipular num mundo que é essencialmente desconhecido, sobre o qual não podemos saber absolutamente nada. As ficções são, assim, estruturas de conhecimento que ajudam a alcançar certos resultados práticos sem pretender revelar verdades sobre o real.
Positivismo idealista e proximidade com o pragmatismo
Percebe-se aqui que Vaihinger radicaliza Kant e se aproxima do positivismo. De fato, ele chamava a sua posição ficcionalista de positivismo crítico — ou positivismo idealista, ou positivismo lógico, “lógico” no sentido de dizer respeito à construção da realidade no pensamento como ficção. A realidade é, em última instância, uma ficção para Vaihinger. E é um positivismo porque ele recusa qualquer metafísica: recusa-se a dizer como é a realidade. O positivismo, justamente, sustenta que não devemos buscar conhecer a realidade última das coisas, mas ater-nos aos fenômenos, pois só a eles temos acesso. Qualquer tentativa de ultrapassar os fenômenos e de encontrar a própria realidade em si — a coisa em si, o númeno — é metafísica. O positivismo é uma filosofia pretensamente antimetafísica, pois no fundo é também metafísica, como aponta Bachelard, que será visto mais adiante no curso. É nesse sentido que Vaihinger se afirma positivista: recusa a possibilidade de alcançarmos uma verdade, e só podemos permanecer no plano das ficções úteis, das ficções que fazem sentido.
Por isso, Vaihinger se aproxima também de uma tradição não somente kantiana e positivista, mas igualmente pragmática — o pragmatismo de William James, por exemplo. O que afirma o pragmatismo? Que devemos julgar o valor de uma crença em função das consequências, dos resultados. É exatamente o que Vaihinger sustenta: deve-se julgar o valor das ficções em função dos resultados que produzem, da capacidade que oferecem de lidar com as coisas, de controlá-las e produzi-las. O conhecimento, para Vaihinger, não é uma reprodução da realidade, mas uma construção adaptativa que fazemos e podemos refazer à vontade. As ficções são ferramentas que nos permitem funcionar e trabalhar dentro das limitações da nossa cognição.
As ficções úteis da ciência: do átomo às superfícies sem atrito
Vaihinger oferece inúmeros exemplos em sua obra. As moléculas e os átomos, naquele momento, eram ficções — ficções muito úteis, mas ninguém havia efetivamente visto um átomo em si. Poder-se-ia objetar que hoje já o vemos, ao colocá-lo sob um microscópio eletrônico, e que essa ficção constitui também instrumentos. Mas do fato de observarmos um átomo por meio de uma máquina que transforma algo em imagens — imagens que podem ser obtidas pelo nosso aparelho de sensibilidade e de entendimento, de acordo com as formas a priori da sensibilidade e com as categorias a priori do entendimento — não se sustenta que os átomos efetivamente existam. Estamos diante de uma máquina, de um microscópio eletrônico, que se constitui dentro de um campo ficcional e que produz algo que diz respeito a algo.
Pode-se falar ainda da ficção na matemática, dos números imaginários, que dizem respeito à raiz quadrada de números negativos e que são úteis em algumas formulações. No caso da física, há a massa pontual — um ponto dotado de massa —, que é uma ficção. E há as ficções com as quais aprendemos a física no ensino médio, na mecânica, por exemplo: superfícies sem atrito, movimentos de objetos, movimentos ideais, sem que se leve em conta o atrito ou a resistência do ar. No caso da economia, há o agente perfeitamente racional de uma escolha econômica. Tudo isso é ficção: não existe na Terra superfície sem atrito, não existe movimento que não deva levar em consideração a resistência aerodinâmica — exceto, claro, na situação de vácuo, no espaço. E não existe nenhum agente econômico puramente racional, porque todos os agentes são também movidos por afetos e interesses que não são exatamente racionais.
O Estado e o país como ficções com efeitos concretos
A partir dessas ideias de Vaihinger, pode-se falar de muitas outras ficções, como a ficção do Estado e a ficção fundamental do país, dos poderes constituídos. São ficções úteis, que nos ajudam a resolver problemas. Todavia, num mundo em si, não existe objetivamente nenhum Estado; a rigor, se as pessoas deixarem de acreditar no Estado, ele desaparece. Se as pessoas deixarem de acreditar num país, ele desaparece. Onde está, denotativamente, o Estado? Ele não existe denotativa nem concretamente: existe como uma abstração que produz efeitos. As pessoas acreditam no Estado, nas leis, na autoridade policial, na autoridade dos juízes — mas isso é função da crença; no momento em que as pessoas deixarem de acreditar, ou no momento em que um povo for substituído por outro, o Estado deixa de existir, porque existe como objeto da crença.
O mesmo vale para o país. Alguém poderia apontar para o solo e dizer “estou pisando aqui no Brasil; o Brasil é isto aqui”. Mas isso não faz sentido, porque o Brasil não é o solo. Diz-se “estamos no Brasil”, mas o que é o Brasil? Ninguém pode apontar positivamente o que ele é, pois o Brasil é uma abstração, uma crença, um produto da crença, um objeto imaginário — é também uma ficção, uma ficção na qual acreditamos. Com um pouco de capacidade crítica, percebe-se o caráter ficcional do país, e ainda assim se continua deliberadamente a acreditar nele, porque é melhor para a vida, porque facilita as coisas e permite uma adaptação a este lugar, a este meio. A terra existe, evidentemente — pisa-se sobre o solo —, mas esse solo não tem nenhuma relação necessária com o Estado, com o país ou com o município. O limite dos municípios existe, sim, mas é um limite imaginário.
Tudo o que é do mundo político é, em primeiro lugar, ficcional — o que não significa que não produza efeitos concretos. Produz, inclusive, a prisão, a morte, a fome ou a abundância: esses são efeitos concretos produzidos por entidades imaginárias, por entidades ficcionais, cuja natureza, com um pouco de pensamento crítico, podemos perceber. O que Vaihinger quer dizer é que a ficção não é uma representação: não tem de lidar necessariamente com objetos que existem de modo mais ou menos aproximado. As ficções são instrumentos; não tentam revelar a essência de nada, não são símbolos — são instrumentos para que possamos manejar as coisas do mundo.
Convenções úteis: a proximidade e a distância em relação a Nietzsche
Nesse sentido, talvez Vaihinger se aproxime de Nietzsche. Quando Nietzsche denuncia que a verdade, a moral, o bem e o mal são criações humanas, Vaihinger concordaria plenamente: tudo isso é criação humana, convenção útil. Verdade é convenção útil, liberdade é convenção útil, bem e mal são convenções úteis, o Estado é convenção útil. Há, porém, uma diferença no modo como cada um lida com isso. Para Nietzsche, do fato de que todo esse mundo de valores e de crenças é ficcional decorre que aí encontramos as limitações que restringem o nosso pensamento e a nossa vida; devemos, portanto, ter sempre em mente que isso é uma ficção e que não devemos levá-la a sério — a moral é uma ficção, não posso me guiar por ela; a verdade é uma ficção, não posso me guiar por ela. Nietzsche julga com valor negativo essa constatação das ficções, das construções humanas dos valores e das narrativas.
Vaihinger não tem essa perspectiva negativa nietzscheana: pensa que essas ficções são não apenas necessárias, mas também adaptações vitais para o ser humano. Elas são construídas em função de uma necessidade, de uma utilidade — são úteis. Vaihinger diferencia de modo bastante claro a verdade e a utilidade: o que lhe interessa não é a verdade, que é também uma ficção, mas a utilidade, a utilidade vital para o ser humano. Por isso, para ele, a ciência não deve buscar a verdade: a ciência é, no fundo, um campo construído sobre uma rede de ficções produtivas que funcionam.
A ciência como rede de ficções: dos paradigmas de Kuhn ao anarquismo de Feyerabend
Pode-se dizer que Vaihinger antecipa a ideia dos paradigmas de Thomas Kuhn, exposta em A Estrutura das Revoluções Científicas. De certo modo, o paradigma é um conjunto de ficções — num dos sentidos, entre as dezenas que o próprio Kuhn atribui à palavra “paradigma”, que ele pôs novamente em circulação. A palavra já existia, mas era um pouco obscura e pouco utilizada; Kuhn a recolocou em circulação, reconhecendo, contudo, que se trata de um termo impreciso, meio líquido, com dezenas de significados. Um desses significados é justamente o da constituição de uma rede ou região de ficções que nos permitem nomear, identificar e conceitualizar objetos na ciência. Com Vaihinger, antecipa-se assim a tese de Kuhn, ao menos no aspecto dos paradigmas.
Trata-se de uma ideia que depois Feyerabend retomaria, de modo um pouco mais nietzscheano — e que será vista mais adiante no curso de filosofia. A ideia de Vaihinger antecipa, de certo modo, algumas concepções antimetodológicas de um anarquismo metodológico, que é também um anarquismo epistemológico e talvez um anarquismo ontológico, de Paul Feyerabend, o qual afirma com todas as letras que a narrativa de uma ciência objetiva — com métodos rigorosos, com valores bem estabelecidos, os valores mertonianos de verdade, de desinteresse e de transparência — é tudo uma fantasia, uma ficção, que pode até ser uma ficção útil, mas é ficção.
O ficcionalismo de Vaihinger mostra, portanto, que podemos entender o nosso mundo — o mundo prático, o científico, o político, o filosófico, o do dia a dia — como regiões de ficção.
A ética como ficção e a antecipação na República de Platão
Quando se fala do mundo político e do mundo prático cotidiano, pode-se trazer a questão da ética, dos valores. Para o ficcionalismo, como se pode antecipar, a ética constitui-se de leis morais que são ficções úteis para promover a ordem, a coesão das pessoas e um significado unificado para a vida. É interessante perceber que essa concepção já é antecipada por Platão na República. Quando descreve dois sistemas educacionais — um voltado para os guerreiros, protetores e futuros governantes, e outro para os produtores; um para os governantes e outro para os governados —, Platão estabelece, em ambos, mitos e ficções que devem ser ensinados às pessoas: no primeiro caso, o mito de que há homens de ouro, homens de bronze e homens de barro; no segundo, as ficções necessárias ao convívio e à produção. Mais ainda: o Estado tem a função de controlar essas ficções, permitindo certas manifestações artísticas — certa música, certa poesia, e, diríamos hoje, certo cinema, certas mídias — e proibindo outras. Alguns países fazem isso hoje, seguindo a orientação de Platão: permitem certas manifestações culturais e proíbem aquelas que não interessam ao governo, isto é, permitem algumas ficções e proíbem outras. Vê-se, assim, a concepção ficcionalista de Vaihinger antecipada em Platão, no sistema educacional que deve ter a função de produzir ficções, mitos úteis para a sociedade. É como Whitehead uma vez escreveu: a história da filosofia constitui-se de notas de rodapé a Platão — em Platão e Aristóteles está tudo antecipado.
O ficcionalismo como antirrealismo
O ficcionalismo de Vaihinger é uma espécie de antirrealismo — um antirrealismo científico, político e ético. Para Vaihinger, não há uma realidade a ser conhecida, porque a realidade está no plano da coisa em si, é metafísica e inacessível a nós. Devemos, então, ficar felizes com o fato de que temos ficções, sem problema algum em reconhecer o caráter ficcional do nosso conhecimento. Para Vaihinger, o fato de que o nosso conhecimento, a política e a moral se constituem de ficções não invalida a ficção nem lhe retira o valor: ela tem valor porque é um instrumento — um instrumento necessário, inevitável e incontornável para lidarmos com o mundo, para agirmos nele e manipularmos. Tampouco se deve pensar que as ficções sejam mentiras, justamente porque Vaihinger ultrapassa a divisão entre mentira e verdade. A ideia de uma verdade já é uma ficção; não há, portanto, oposição entre o verdadeiro e o falso, mas, quando muito, uma oposição em termos do que é mais útil ou menos útil — bem à moda do utilitarismo.
A crítica metafísica: o paradoxo do relativista e a necessidade do logos
Cabe, por fim, passar a um último nível, que faz a crítica metafísica das próprias posições de Vaihinger. É interessante que ele se posicione como alguém que apresenta o caráter ficcional das nossas crenças, do nosso mundo, dos nossos valores, de tudo o que há — e que, ao fazê-lo, se posicione no lugar da verdade. Poderia ele dizer: “não, eu também estou fazendo uma ficção, mas a minha ficção é verdadeira; devemos entender as coisas como ficções”. E quem diz isso? A voz da verdade. Qualquer afirmação relativista, utilitarista ou ficcionalista pressupõe um absoluto, e o problema de todo positivismo — como o de Vaihinger — está na falta de reconhecimento de que é inevitável partirmos de uma posição absoluta. Quando estamos no plano da consciência do homem, é inevitável que partamos, no mínimo, de uma posição na qual a linguagem é concebida necessariamente como um campo de trocas simbólicas que parte de um absoluto, que é o próprio logos — o fundamento a partir do qual as palavras, em sequência, fazem sentido.
A filosofia de Vaihinger é interessantíssima, válida e útil para compreendermos certos fenômenos isolados, como a política, os valores cotidianos e a construção de certas culturas. Ela, porém, não se sustenta sozinha, porque não pode conceber a si mesma como, ao mesmo tempo, verdadeira e ficcional. Trata-se do famoso paradoxo do mentiroso, ou paradoxo do relativista. O paradoxo do mentiroso tem a formulação clássica: “eu sempre minto”; se eu sempre minto, então estou falando a verdade, logo nem sempre minto. Assim, quem afirma que sempre mente, que tudo é ficção, afirma também que aquilo que ele diz não é ficção. É o paradoxo do relativista: tudo o que se pode dizer é relativo, inclusive isso; ora, se tudo é relativo, isso também é relativo, e então nem tudo é relativo. O relativismo de um positivismo não se sustenta, porque pressupõe uma metafísica que não reconhece — a metafísica que garante a validade absoluta daquilo que está sendo dito. No mundo da consciência humana, o absoluto é um fundamento necessário; sem ele, não podemos sequer começar a pensar, não podemos dar o primeiro passo na filosofia, pois todo primeiro passo na filosofia já é dado a partir de uma posição do absoluto.
Glossário
Referências Bibliográficas
Hans Vaihinger. A Filosofia do "Como Se" e Die Philosophie des Als Ob(Die Philosophie des Als Ob, 1911)
Immanuel Kant. Crítica da Razão Pura e a priori
Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas
Platão. República
Mencionados: Fichte. (pragmatismo)
Hans Vaihinger. The Philosophy of "As If"(trad. C. K. Ogden, 1924)
Verbete "Hans Vaihinger". Stanford Encyclopedia of Philosophy
Friedrich Nietzsche. Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extramoral
William James. Pragmatism(1907)
Paul Feyerabend. Contra o Método
Arthur Fine. (em discussões de filosofia da ciência)